O inimigo

                Minha convocação começou naqueles anos de FAFICH, naqueles primeiros períodos na faculdade de psicologia. Aos vinte e dois anos já via que minha existência, meu interesse profissional, teórico e político, eram todos eles o mesmo. Compreender como as redes de injustiça e opressão circulam em nossa sociedade, mais ainda, como se enraízam na vida, nos pensamentos, no suor das pessoas. Como identificar, na lágrima, raiva, solidariedade, igualdade, liberdade, preconceito, misoginia, amor. Infelizmente sou mais daqueles que contemplam do que daqueles que agem… infelizmente. Agnes Heller, como o Chico, o Vinícius e também seu Rubem, é uma apaixonada pelo cotidiano e muito me ajudou a dar citação e nota de rodapé para as coisas banais que acontecem na vida de todo mundo, que tem a maior importância, apesar de ninguém notar.

                Foi no impacto do encontro, de descobrir outro mundo dentro desse, de me ver em outro lugar, um lugar no qual eu podia alguma coisa, que aconteceu essa história. Foi numa roda de violão, coisa que gosto muito, há uns 8 anos que isso aconteceu. Era numa casa de uma família amiga. A casa estava repleta de senhores e senhoras. A nata da burguesia mineira. Os senhores com calça jeans e camisa Polo, as mulheres, de botox. E eu que crescera naquele meio, que me fiz no meio daquelas comidinhas e daqueles sorrisos, me vi de repente, como um inimigo não declarado, um espião. Colocado ali para observar, anotar, entender. Encontrara meu campo de trabalho, meu projeto, meu canto na vida. O descompasso que sentia nesse momento entre o que vivia e fazia, e o que gostaria de fazer não produzia em mim nenhum ressentimento. Na verdade eu gostava dessas rodas de violão, daquelas pessoas, gostava dessa burguesia leve. Nesse dia, havia um sujeito, de quem não lembro o nome, que me chamou atenção. Nunca havia o visto, mas sempre o encontrei. Era “o” próprio burguês, sem nome. Falava nada, mas dizia alto, como se alguém se interessasse. A sua esposa, claramente infeliz, restava do seu lado. Ela carregava alguma tristeza insondável aos olhos dele, que se acostumou desde cedo a olhar apenas para si.  “A majestade, o indivíduo”. Olhava para ele com desdém e asco. “É esse merdinha aí, o meu inimigo?”. No alto dos meus vinte e dois anos, jovem-jovem, acreditava que era mole mudar as coisas. As conexões lógicas se faziam sozinhas em minha cabeça e preenchiam os espaços vazios.

                Em determinado momento fui pegar uma cerveja, enquanto próximo a mim o burguês enchia um copinho de cachaça. Travamos uma conversa banal. Ele se dirigiu para o fogão, tirou a tampa de uma panela grande de pedra, pegou uma colher e tirou lá de dentro um naco grande de carne assada, bem cheirosa. Eu que nada dizia, mas observava a cena e pensava com grande interesse e atenção: “Como ele comeria a carne e a cachaça? Qual viria primeiro? Iriam juntas…Mas o pedaço de carne com molho era grande, como?…”. Ele viu que eu observava e que fazia minhas conjecturas, mesmo sem verbalizar. Então antes de dar prosseguimento à ação, ele me pediu uma ajuda, já com a carne numa mão e a cachaça na outra. Pediu que eu segurasse a tampa da panela de pedra. Fui, benevolente, pegar a tampa da panela com uma mão, no entanto vi que ela era muito pesada. Fui então com as duas mãos levantar aquela tampa… Levantei a tampo e me voltei para o burguês. E não é que já não havia nem cachaça e nem carne. Havia um sorriso maroto, de quem marcou um belo gol irregular. A tampa da panela era a distração que ele precisava. E depois ainda, esse filhadaputa me disse alguma coisa assim: “A gente sempre tem alguma coisa a ensinar aos mais jovens”. Não sei se ele escutava meus pensamentos. Não sei se ele sentia meu olhar de desdém e asco. Não sei. Acho que não. Sei que ele me deu uma rasteira e ainda riu no final. Eu nunca soube como ele tinha feito aquilo. Ele sabia que eu precisaria das duas mãos para levantar aquele objeto.

                Aprendi ali a não desprezar o inimigo por mais tolo que ele possa parecer.

                Lendo e estudando coisas do meu campo de pesquisa, lembrei dessa história.

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Published in: on 22/03/2012 at 20:09  Comments (1)  

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  1. Pô, e além de tudo isso, espero que você tenha guardado uma outra lição muito importante: a cachaça não é para ser bebida com o inimigo.


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