Futebol e Política

“O político pode absorver sua energia dos mais variados campos humanos, do religioso, econômico, moral e de outras antíteses. Ele não descreve a sua própria substância, mas apenas a intensidade de uma associação ou dissociação dos seres humanos, cujos motivos podem ser religiosos, nacionais, econômicos ou de qualquer outro tipo e pode afetar em diferentes tempos, diferentes coalizações e separações”         

(Carl Schmitt)

“Minha política é o Flamengo!”

(Rubem Braga)

O torcedor do Galo chama o torcedor do Cruzeiro de “Maria”. O cruzeirense, por sua vez, refere-se, carinhosamente, ao atleticano como “cachorrada”. No Rio, o Flamengo é o time do povo, dos pobres e analfabetos, assim como o Corinthians, em São Paulo. Já os tricolores paulista e carioca representam a elite, a aristocracia branca.

O futebol se alimenta e retroalimenta preconceitos sociais. Atributos pessoais deste ou daquele jogador se espalham e passam a representar toda uma torcida. Os conflitos no futebol, dificilmente tratam de futebol, há sempre algo externo ao campo.

Há pouco mais de dois meses, no Egito, as torcidas presentes numa partida de futebol partiram para a luta corporal, após o fim do jogo. Muito se falou, neste caso, sobre a influência do clima político do país, o impacto das revoltas contra o governo e da “instabilidade política” sobre o comportamento dos torcedores. 73 pessoas morreram nos gramados.

Amo o futebol. Acho transcendente. O homem/mulher, a bola voando, a espera, o momento mágico de um drible, o gol. A possibilidade de criar diferença, de inventar. É clichê, mas o futebol é uma grande metáfora da vida. Amo muito mais o jogo em si, do que tenho prazer em torcer e ver o meu time ganhar. Futebol é o Zidane caminhando em campo, levando a bola. É isso o que me emociona. Mas sei que sou minoria, minha apreensão do jogo, ainda que movida pelo amor, é quase fria, um tanto distante, pois pouco me interesso pelo resultado, ainda que possa estar mentindo um pouco.

A maioria torce e sofre e comemora, só quer ver seu time ganhar e não importa como. Vão aos estádios, falam disso a semana inteira, entoam hinos a favor do seu time, xingam os adversários e provocam. Independente de time, classe, gênero, ou raça. Quantos já não perderam o emprego nas segundas feiras, nas quintas depois de desvarios futebolísticos. A famosa invasão corintiana em 76 ou mesmo a notícia de que 10 mil torcedores do Internacional foram para o Japão em 2010 para torcer no mundial interclubes, nos lembram do poderoso verso gremista:

“Até a pé nós iremos / para o que der e vier / mas o certo é que nós estaremos com o Grêmio onde o Grêmio estiver”

Para Carl Schmitt, jurista e pensador alemão, o caráter político de uma relação se dá pela instauração de uma relação do tipo amigo-inimigo. O político não tem a ver, a priori, com o estado ou o governo. A dimensão estética envolve o belo e o feio; a moral, o bem e o mal. Seria a intensidade do antagonismo numa relação coletiva o que qualificaria o político. Ele se dá pelo fortalecimento do caráter conflitivo numa relação tipo nós contra eles.

A rivalidade é marca tradicional do futebol. Os grandes clássicos e o clima épico que criam, sublinhados pela violência recorrente, que o digam. Podemos dizer, então, que a disputa entre Flamengo e Vasco é um fenômeno político? E para quê isso tudo? Talvez eu esteja exagerando, vai… O torcedor vai ao estádio entoar as canções de amor e louvor ao seu time querido, e muitos nunca chamam ninguém de “cachorro” ou de “maria”. Torcer é pura festa e magia, exaltação do sublime amor e não de ódio. O Marshall Sahlins me atacaria por outro lado e me diria, como um psicanalista de botequim, que é essa minha obssessão Nietzsche-foucaut-gramsciana que me faz ver política em tudo, lançando disparates por todo o lado. Não discordo dos argumentos. Não quero reduzir o futebol aos conflitos políticos/sociais, ainda me sinta tentado à tal empreitada. Mas não posso, como a maioria faz, deixar de pensar na tensão social implicada no futebol,  como se isso fosse algo natural, ou o resultado da sociopatia de uns poucos trogloditas que acabam com a festa da maioria que só quer “paz” nos estádios, sem entender as entranhas desse bagulho.

Considerar o futebol e a relação entre as torcidas a partir da noção de amigo-inimigo de Schmitt, ou seja, enquanto questão política coloca algumas questões. Penso em dois caminhos. Por um lado, acho essa postulação perigosa, por reduzir o fenômeno amplo do jogo e do amor ao time à essa dimensão antagônica/política. E aí, vejo que o Sahlins está certo. Por outro lado, essa consideração traz o futebol e sua relação de amor para a vida social de nosso país. Pois não se trata “simplesmente” de um jogo. Esse segundo ponto pode nos ajudar a entender a dinâmica de amor e paixão que envolve o brasileiro, considerando a centralidade constitutiva da peleja para nosotros. Dessa forma, importa menos o conflito esportivo em si, as brigas, a pancadaria e as mortes, e muito mais entender como essa paixão se explicita no ato de torcer, no falar disso, nos  discursos e significações. Ou seja, como torcer se articula com questões sociais, quaisquer que sejam, como o racismo ou a homofobia.

Tudo isso traria a discussão do amor, da paixão, do ódio dos torcedores, para fora das estapafúrdias mesas-redondas com seus jornalistas esportivos, quase sempre obtusos, para outros espaços de debate e formação de opinião.

Talvez paixão, luta e ódio andam sempre juntas. Talvez o filósofo aqui esteja querendo dominar as paixões no futebol, por não fazer parte disso. Talvez o romântico aqui queira que a potência da paixão futebolística alimente também nossos desejos socialistas. Que alimente nossa vontade de eliminar a desigualdade e a opressão, essa vontade cada vez mais acomodada no liberalismo tranquilo e feliz. Que a igualdade radical, que a liberdade fora das oscilações e determinações excludentes do senhor mercado também nos faça entoar hinos e canções de exaltação. Fora dos estádios.

Talvez.

Anúncios
Published in: on 08/04/2012 at 20:24  Deixe um comentário  

The URI to TrackBack this entry is: https://obarseular.wordpress.com/2012/04/08/futebol-e-o-politico/trackback/

RSS feed for comments on this post.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: