Diário emotivo-reflexivo de campo #1

felicidades banais

             Logo no início da faculdade cheguei a conclusão de que não adiantava escrever o que os professores falavam ou botavam nos quadros. Durante os últimos anos de colégio já pensava que anotar era uma perda de tempo, pois eu nunca utilizava essas notas e ainda por cima não prestava atenção nas palavras do professor. Na faculdade, principalmente após a disciplina de Sociologia, vi que as coisas importantes ficavam na cabeça, mesmo se eu não quisesse. Assim, passei a deixar de me preocupar com um caderno sistematizado, escrevia nomes, datas e lançava rabiscos apenas para ocupar o tempo-espaço. Com a felicidade é a mesma coisa. Não precisa tomar nota. Essa alegria besta que aparece não pede preparo e atenção nem nada. Apenas acontece e a gente sabe. É  besta mesmo. Vem sem rodeio, subterfúrgio ou aviso prévio. As coisas importantes, belas e fortes é que marcam a gente e não o contrário.

                O grande amigo, o Patrão, vem realizando ao longo dos últimos anos festas memoráveis num belo casarão de sua família localizado à rua Rio Grande do Norte, em Belo Horizonte. Numa dessas festas, há coisa de uns 3 anos, me dispus a ajudá-lo a organizar. Compramos cerveja, carnes, refrigerante e carvão. Ao chegar na casa organizamos o espaço para a festa. Os amigos  e amigas foram chegando e trazendo mais bebidas (homens levam uma caixa de latinhas e as mulheres meia, invariavelmente). Ainda era cedo, pouca gente tinha chegado e coloquei meu velho e estimado Tocador de Mp3 para tocar. Provavelmente queria mostar alguma coisa para o Patrão, mas eu não havia preparado nada para a ocasião. Havia apenas música brasileira. Muito samba, uns jorges bens, erasmos, algum tipo toni tornado, joão nogueira, robertão, talvez um choro e pode ser até mesmo um depressivo eduardo gudin. Fui tomado de alegria ao perceber que as pessoas iam chegando e todo mundo gostava do som que rodou madrugada a dentro. Ah, se ele tivesse me pedido para preparar uma playlist, provavelmente nada teria dado certo e eu teria me frustrado, de novo. Nessa mesma noite, ainda sob o contentamento de ouvir “as minhas canções” nas vozes alheias, saboreando e discordando dos comentários sobre este ou aquele compositor fui brindado pelo supremo elogio de uma moça, uma que o Rubem Braga diria que é dessas que a gente comenta que há mais feias.  Ela virou para mim, já tarde da madrugada, eu bêbado e feliz e ela me disse: “Sabe o que você é…? Você é um boêmio!!” Ah, a glória, a glória… Salve salve o reconhecimento.

                Agora ando a fazer meu trabalho de pesquisa de campo para minha tese de doutorado, em Conceição do Mato Dentro, região belíssima das Minas Gerais. Ao voltar para a casa onde estou morando, depois do almoço, avisto a rua da foto abaixo.

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Published in: on 03/05/2012 at 15:07  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Prós, faz um mês eu estava saindo com uma francesinha aqui e lhe comentei sobre um amigo boêmio clássico que tinha. Estava comentando sobre amigos, saudades e boemia clássica e seu nome veio à baia.

    Pena que você perdeu a última festa, também esteve memorável. Uma vez escutei um comentário de um sujeito e entendi o porquê do sucesso das nossas festas: são como feijoada. Além do essencial (mulher bonita) a boa festa tem que ser como uma feijoada completa, reunir de tudo, intelectual, playboy, boêmio, viado, bandida, artista, fanático pelo atlético, maconheiro, etc.

    Pensando assim, a boa boemia segue o mesmo princípio: além do essencial (uma mesa e algumas garrafas), o que deve haver é gente interessante e variada. O interessante é mais óbvio, mas é a diversidade que faz o espírito da mesa.

    Enfim, com doze anos descobri que cadernos mereciam coisa melhor que notas taquigráficas. Assim como a toponímia merece coisa melhor que nome de presidente e governador.

    Um abraço saudoso desde a calle Dulce Olívia,

    B.

  2. Opa meu caro, é esse o espírito. Sempre.Tem uma tirinha do Laerte que é linda. Deus está colocando um intrincado DNA no corpo de barro de um homem. Aí chega um anjo e pergunta: “Por que que o DNA é tão complexo assim”? Deus diz: “É só pra despistar, o segredo mesmo é o barro”.
    É isso, a festa quem faz são as pessoas e os seus convidados representam sempre a nata da alegria e da vadiagem.
    Fico triste de ter perdido a festa, guardo com muito carinho as conversas la na casa de sua família.

    No mais seguimos na luta. Você agora com tem a sua Doce Olívia, e eu na companhia do Zé, o fiii do seu Dito.


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