Diário histórico-político-reflexivo de campo #4

O livro “O Campo e a Cidade” do inglês Raymond Williams tem sido uma fonte de diálogo constante entre e o meu campo de pesquisa e mim mesmo. No livro, venho encontrando avisos sobre armadilhas conceituais, uma crítica do problema do fetiche que embasa nossa visão acerca do que é o “campo”e “a cidade”. Como atribuimos valor e significado a estes espaços sociais de individualismo ou coletivismo, da intensidade produtiva ou da subsistência, do passado e do futuro. Dessa forma, o livro funciona como um alarme que me avisa para não ir por ali, para não seguir tal ou qual caminho.No entanto, o longo trecho que transcrevo abaixo tem uma função diferente.

A função é menos anti-fetichista, destrutiva de idéias pré-concebidas e mais performativa, romântica, criadora. Associei tal passagem a coisas que tenho visto e ouvido nas conversas com os moradores das áreas rurais do entorno do projeto Minas-Rio. Alguns desses moradores que vivem em áreas diretamente atingidas pelo projeto minerário, que terão que sair de suas terras e que aguardam muito tempo por uma solução final. Acordos são firmados e vem sendo descumpridos, postergados, pela empresa mineradora. Senhores e senhoras que param de plantar e de cuidar do gado, pois assim devem proceder segundo a empresa. A desonestidade escancarada, o engodo. Alguns resistem e tentam levar uma vida normal. Outros acreditam que são impedidos de fazer qualquer roça e vão vivendo na base da espera. Além de muitos outros problemas, há a qualificação de moradores como “emergenciais”, aqueles que devem ter suas negociações e reassentamento priorizados. Mas a estúpida gramática nos engana. A emergência não se refere aos problemas reais que vivem pessoas e comunidades no meio de áreas degradadas, pessoas que viviam cercadas de rios corpulentos e agora vivem no meio de veios de lama. A emergência se dá pelo risco de atraso para a obra, pelo risco de diminuição do lucro, do faturamento dos investidores.

“Porém o imperialismo político sempre foi apenas uma etapa. Foi precedido por controles econômicos e comerciais, quando necessário, apoiados pela força. Foi sucedido por controles econômicos, monetários e comerciais que mais uma vez, sempre que encontram resistências, são imediatamente apoiados pela intervenção política, cultural e militar. Nesse sentido, as relações dominantes continuam sendo do tipo cidade-campo, e a exploração é levada ao ponto máximo.

O que se propõe enquanto ideia para ocultar essa exploração é uma versão moderna da velha ideia de ‘melhoramento’: uma hierarquização das sociedades humanas culminando, teoricamente, com uma industrialização universal. Todo o ‘campo’ haverá de se transformar em ‘cidade’: eis aí a lógica desse desenvolvimento: uma simples escala linear, ao longo da qual podem-se assinalar graus de ‘desenvolvimento’ e ‘subdesenvolvimento’. Mas a realidade é bem diversa. Muitas das sociedades ‘subdesenvolvidas’ foram desenvolvidas justamente a fim de satisfazer as necessidades dos países ‘metropolitanos’. Povos que praticavam a agricultura de subsistência foram transformados, através da força econômica e política, em economias centradas em grandes fazendas, na mineração, ou na monocultura. (…) O investimento concentrado nesse tipo de oferta, e na infraestrutura político-econômica que ela pede, traz a essas áreas ‘rurais’ especializadas um fluxo constante de riquezas, que por sua vez tem o efeito de acentuar ainda mais as inter-relações de dominação. A situação é essencialmente a mesma, seja o produto em questão café ou cobre, borracha ou estanho, cacau, algodão ou petróleo. E a chamada ‘ajuda’ concedida aos países pobres é, com raras exceções, uma acentuação desse processo: o desenvolvimento de suas economias de modo a se adaptarem às necessidade da metrópole; a preservação de mercados e esferas de influência; ou a perpetuação do controle político indireto, mantendo no poder um regime dócil; opondo, pela intervenção militar se necessário, todo e qualquer processo que vise proporcionar a essas sociedades um desenvolvimento independente, basicamente voltado para os interesses locais (…) A esse conflito sobrepõe-se uma camada ideológica: o conceito abstrato de ‘desenvolvimento’, segundo o qual o país pobre está caminhando no sentido de tornar-se um país rico, do mesmo modo como, na Inglaterra industrial do século XIX, o homem pobre era encarado como alguém que, se tivesse a mentalidade correta e se esforçasse, poderia caminhar no sentido de tornar-se um homem rico, mas no momento ainda estava numa etapa inicial de seu desenvolvimento. O fato, porém, é que o abismo entre nações ricas e nações pobres está aumentando, com consequências tão importantes que estão determinando o futuro do mundo”.

(Raymond Williams, O campo e a cidade, Companhia das Letras, 2011. Versão de bolso, P.463-4)

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