Diário de Campo e cidade #5 – Feliz, jovem e despreocupado

Como já escrevi por aqui, o livro “O campo e a cidade”, do inglês Raymond Williams, tem sido não um objeto inerte ao qual recorro eventualmente, e sim um parceiro real, um amigo que me socorre nas aflições solitárias da vida em pesquisa. Nas horas que penso sobre o que venho pensando, não só em minha pesquisa, mas também sobre tudo o que vivo, sobre as possibilidades e os impedimentos da compreensão, no momento em que me boto a ver, conversar, e tomar cafezinho com pessoas que não conheço e que, aos meus olhos, vivem uma experiência aguda de transformações das relações totais de um espaço-tempo, é o Campo e a Cidade que me ajuda no desassossego.

Nesse percurso, a relação e a tensão entre o urbano e o rural aparece a toda hora com suas quinas e dobras. No entanto, esse fantasma não aparece apenas na análise dos dados, não… bem antes, na própria identificação do que penso que são dados, está além. A minha versão de Campo e Cidade está na minha constituição cognitiva, social, emotiva, determinada pela minha terra natal, a metrópole, de onde EU nunca saí.

[Com a crescente urbanização, os campos verdejantes se transformam, e com isso…]

“Para qualquer homem em particular, há também a perda de uma paisagem especificamente humana e histórica, que gera sentimentos não por ser ‘natural’, e sim por ser ‘natal’:

Terra natal que cada vez mais amo! (…) 

E tudo aquilo que pertence a ela –

Um velho mourão, ou pedra singela,

Verdes de limo – me faz desejar

Que tudo fique sempre onde está;

E dói-me ver que as coisas mais queridas

De seu lugar já foram removidas

(John Clare, the village ministrel)

Assim, a perda mais lamentada – a das ‘coisas mais queridas’ – é a perda da infância causada pela destruição da paisagem imediata:

Tudo isto não é mais, e, como o meu,

O teu orgulho de viver morreu.

É perfeitamente compreensível que isso tenha sido escrito por um garoto de dezesseis anos. Uma maneira de ver foi associada a uma fase da vida, e a associação entre felicidade e infância deu origem a toda uma convenção, na qual não apenas inocência e segurança, mas também paz e abundância, foram incorporadas de modo indelével, primeiro à paisagem, e depois, numa extrapolação poderosa, a um período específico do passado do campo, agora ligado a uma identidade perdida, a relações e certeza perdidas, na lembrança do que é denominado, em contraposição a uma consciência presente, Natureza. O sentimento primevo é tão intenso que inevitavelmente se associa a muitas outras experiências:

Cenas de infância! Ó mais doce dos sons! 

Pois não há coração, por mais sofrido,

Que não sinta brotarem emoções 

Ao pensar no torrão natal querido:

Mesmo o que pode a sebe, maltrapido, 

Mal pousa a luva num ramo orvalhado

E vem-lhe a mente, do mais fundo olvido,

A lembrança dorida de um passado

Em que ele era feliz, jovem, despreocupado.

(Raymond Williams, O campo e a cidade, Companhia das Letras, 2011. Versão de bolso, P.235-6)

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