“DEBORAH VIVE”

Algumas coisas vão e passam. Outras ficam. Outras a gente pensa que fica, mas uma hora  também acaba indo, indo… Paulinho da Viola, que canta para mim a toda hora, fica e espero que nunca vá embora. Imagens, cenas, músicas, nomes. Será que há algum segredo atrás da  porta daquele sorriso? Será que aos meus 16 sabia que a linda mulher possuída pelo Banderas naquele filme sobre a ditadura chilena era a menina que dança e roda, e olha para o rapaz assustado escondido no banheiro? Ela envelheceu linda e mal. Envelheceu ocupando espaço da fruição estética e prazer, deixando seu reinado no infinito. Quem não amou aquela mocinha vestida de bailarina no fundo do restaurante? Quem não a bisbilhotou, outras e outras vezes e como o rapaz, também teve vergonha. Raiva, ódio, já não sei nem por onde. Lembro que lembrava, mas agora não faço idéia. A moça, a de verdade, depois de uns anos, só a via uma vez por ano. Festa junina no clube burguesinho, estúpido. Rodava a noite toda só (será que
foi aí que isso começou, essa vontade de ficar só e andar e andar, mentalizando alguma coisa fundamental?). Andava para achá-la, para saber se ela teria vindo à festa naquele ano. Depois andava para despistar, depois andava para vê-la só mais esta vez e depois despistar, e depois… Achava impossível que ela se lembrasse de mim. Quando moleque tinha uma sensação inflacionada da completa indiferença que produzia em todas as pessoas, sobretudo nas meninas. Por aí corria minha soberba. Ao iniciar qualquer conversa vinha um grilo chato, sentado no meu ombro, a dizer: “Seu retardado, é claro que você não tem chance, você não merece nem estar no campo de visão de uma mocinha assim, tão bela…”. Despistar. Aprendi cedo. Achava que essa moça tão, mas tão bela, tão parecida com a menina que dança no fundo do restaurante, ficaria para sempre na minha mente. Pensava que eu me lembraria de todos os esbarrões, olhares e as poucas palavras que trocamos. Ou melhor, todas as palavras que lhe dei (Será que daí veio o meu gosto pela atenção e a procura de uma memória perfeita para os assuntos do coração?). A vergonha infinita quando vi que ela e outras meninas haviam descoberto meu segredo, aqueles corações desenhados no caderno. Vergonha do fato e do clichê. Corri para o banheiro e lá fiquei 10 anos.

Quando fomos reencontrar a turma da escola, coisa de alguns anos atrás, fiquei nervoso com a pergunta que me espreitava: “E se ninguém se lembrar de mim? E se o grilo estiver certo?” O Bergman conta que sempre pensou que sua própria mãe nunca havia gostado dele. Sempre conviveu com essa impressão. No leito de morte, sua mãe o chamou e lhe disse uma coisa. Ela disse a seu filho que nunca gostou dele. Eu também descobri que pior que a angústia do que não sabemos, é ter certeza de que aquilo que se teme é mesmo verdade. No fundo, mesmo com todos os indícios a gente sempre descrê, quando quer.

Ainda encontrei a moça tal dentro do ônibus. Tola e ainda com alguma beleza, que com otempo foi rareando. Muito banal e burguesinha…. Preocupada talvez com o cabelo, com a loja tal, com o fim de semana, com passar em…. Uns moleques de rua jogaram uma manga na janela do ônibus, próximo a nós, que conversávamos. Eu não estava ali, estava tentando saber porquê diabos fôra tão apaixonado por aquela mulher, que engodo, que farsa… “Já fui acusado de amar mulheres tristes”, seu Rubem… Mais de uma vez… A moça ficou bastante nervosa com a manga que os moleques jogaram, eu não me assustaria se fosse uma banana de dinamite. Ainda me assusto mais como “o tudo vai bem, tudo legal…” A violência que me assusta é aquela invisível que faz tudo continuar indo bem, tudo legal. Se um dia morrer por causa de um canivete, um caco de vidro ou uma bala de revólver, não façam alarde demais sobre a violência das ruas, a criminalidade galopante do blablabla-sil. Tenham mais vergonha da opulência e da ambição, dessa sua majestade a prata que não desce do seu trono, nem para ver as milhões de almas aflitas. Ambição infinita para o amor, o desejo, a vida, o samba, a amizade, e pronto. A moça casou com um amigo de um amigo. Vê-la me lembrou de como fui um tolo óbvio quando me achei grandioso. Já não entendo da paixão secreta dos cadernos pichados, dos espelhos grafados com nossos nomes no vapor do banho. A dificuldade em lidar com esse tempo de tanto amor encalhado no peito, de aprisionamento e medo do mundo nele chegar, nada disso importa. Eu sou essa desimportância toda. O sentido mesmo da adolescência é que nunca houve drama, é tudo apenas um engano que a gente demora a perceber. Maior ingenuidade é achar que é esperto Elas sempre foram melhores na minha fantasia. Foi essa a dor que chegou depois. Não sabia fazer-me presente em suas fantasias. A gente aprende. Melhor: a gente tenta.

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Published in: on 22/08/2012 at 20:49  Deixe um comentário  

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