Diário estratégico-digestivo-ideológico de campo #6

Um dos textos que mais me impressionou nos anos de faculdade de psicologia foi o texto “Estratégias discursivas ideológicas”, de autoria da psicóloga social Maritza Montero. O texto não é absolutamente genial, mas é foda. A autora analisa os discursos de candidatos políticos demonstrando como uma frase simples está repleta de conteúdo ideológico. O bom marxismo de botequim. Por exemplo, aquele candidato de oposição que profere uma sentença simples como: “agora, vamos trabalhar!”, na verdade está dizendo ispsis literis que o candidato da situação não fez absolutamente nada fez em seu mandato. A autora lista formas ideológicas do discurso e seus recursos estratégicos. O que gosto do texto é exatamente seu caráter simples, sintético, a determinação positiva do elemento ideológico de uma sentença. O texto inclusive é lindo para ser lido em época eleitoral. Foi o caráter sintético do texto o que mais me chamou atenção quando comecei a namorar a srta.psicologia social, que a tudo “problematizava”, sem no entanto me dar nenhuma certezazinha para emendar os rasgos que fazia na minha maneira de ver a vida.

Esse texto me veio a mente há uns 2 meses aqui em Conceição do Mato Dentro. Na semana do meio ambiente, foi realizada uma série de  oficinas, debates e teatrinhos sobre o tema. Pelo que entendi muitos desses eventos foram patrocinados pela Anglo American, empresa responsável pela mineração aqui na região da Serra da Ferrugem, e por suas sub-contratadas.A programação da semana não foi divulgada com antecedência e com isso não consegui saber dos conteúdos e proponentes do debate. Só fiquei sabendo no dia que tinha uma viagem marcada. Sendo assim dei um jeito de ir ao local para ver o que acontecia. Queria ver como estava organizada a semana e quem promovia os debates. Cheguei na hora que começaria uma apresentação sobre biodiversidade. Um punhado de crianças barulhentas de 8, 9 e 10 anos preenchiam o espaço. Na frente das crianças, uma mulher carioca com uniforme da Anglo começaria dali a pouco a apresentar alguns slides mal ajambrados, falando sobre a natureza e a ecologia. Fotos do planeta, da vegetação do cerrado e da mata atlântica, dos animais, das flores e até mesmo uma famigerada composição na qual ela dizia que existem pessoas que trabalham pela preservação da biodiversidade, ilustrando tal passagem com a foto de um funcionário da Anglo American. Fiquei ali reparando nos meninos. Eles não prestavam atenção. A apresentação era cuidadosamente mal feita, produzida às pressas, certamente feita para um público mais velho e adaptada praqueles meninos. Num momento de balbúrdia mais intensa a moça usou um artifício belíssimo. Ela disse que depois da apresentação “teria teatrinho e depois lanche, refrigerante e pipoca, (senão me engano), mas só haveria lanche para aqueles que ficassem quietinhos”.

Nessa hora embarquei direto para a minha 6ª série no colégio Santa Dorotéia, em Belo Horizonte. Naquele ano fomos com o professor de Geografia conhecer o processo de extração do minério de ferro. Fomos para a antiga MBR ali em Nova Lima (hoje Vale). Fiquei bastante espantado com o tamanho das rodas de alguns caminhões, mas o que mais me lembro desse dia foi que no refeitório havia uma máquina de refrigerante. E o mais importante: a gente podia pegar o tanto de refrigerante que quisesse!

Eis aí a estratégica ideológica digestiva.

Essa promessa de abundância, de infinito, onde mais a veria? Em que outro lugar do mundo poderia tomar quanto refrigerante quisesse?

Interessante a aposta das grandes corporações em ganhar crianças na base de balas, doce, teatro, mentira e refrigerante.E aí me pergunto, por que dão tanta importância para esse público?

É preciso enfrentar essas estratégias digestivas. Não sei como. Há coisas tristes e importantes acontecendo, coisas que não se come e que NÃO deveriam poder repetir.

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