CIDADE SUBMERSA

Saí caminhando pela cidade que cresci, que aprendi a gostar sem saber o que fazia, cidade de ruas e esquinas que marcaram minha vida, meus sonhos e frustrações. Esquinas nada abstratas nem metafóricas que cruzei, rapazinho, depois nem tanto, bêbado de madrugada culpado, ao sol, pensando em não suar, atrasado, sempre atrasado, se pensando sempre atrasado.

Mexo, e remexo

E me perco

E adormeço

Nas ruínas

Da cidade submersa.

Fui votar em prefeito e vereador de Belo Horizonte, cidade que já não é a minha há mais de 4 anos. Belo Horizonte e eu mudamos tanto nesses anos. A cidade deixou de ser a vida besta, passou a ser nostalgia e passado, depois voltou a ter presente e projeta futuro. Fui caminhando, no dia da votação, parti do Santo Antônio, passei pelo São Pedro para chegar no Sion. No trajeto nostálgico, saí das Bakanas/Dragon Palace, passei pelo entre-folhas, por aquele restaurante que ficava ali na Grão Mogol com avenida Uruguai (Mãezinha?), e cheguei ao colégio Santa Dorotéia.

Antes de sair da casa achei, perdido entre papeis, o comprovante de votação de 2002, 1º turno da eleição vitoriosa de Lula, dia 6 de outubro, momento dos mais importantes da história do país. Saí feliz com esse achado. Andei uns 100 metros e logo ao dobrar a segunda esquina vi, dentro de um carro, a Adélia, minha professora no curso de Psicologia na UFMG. Quando a vi não me lembrei das provas fáceis e sem graça que ela mandava a gente fazer. Depois que terminávamos a prova, ela pedia o papel de volta para usar no próximo ano, o que já acontecia há bastante tempo. Podia-se dar a sorte de pegar uma prova com parte das respostas. Mas não foi isso que me veio à mente quando vi a Adélia. Lembrei, isso sim, da 1ª aula, na manhã seguinte à vitória de Lula, há 10 anos. Nunca havia visto uma pessoa tão emocionada por causa de eleição e política, como a vi naquele dia. Na sua voz, nos olhos, mais do que pelas palavras, ela transmitia a mensagem de que a aurora tão esperada e sofrida, por vezes impossível, havia chegado. Foi bonito, muito bonito. Eu que naquele momento não tinha a identificação que passei a ter com o PT, com os ideais democráticos e socialistas que constituíram historicamente o partido, fiquei mexido ao ver a professora “gastar” toda a aula para dizer de sua emoção. Eu nunca tinha visto e vivido a política naquela paixão-afirmação como vi naquele momento, na fala daquela senhora que tentava deixar claro para nós, jovens, que vivíamos um momento histórico.

Depois que a Adélia passou, eu segui adiante, em direção à minha zona eleitoral, no colégio no qual estudei minha vida toda. Colégio este que guardo com todo amor no espaço largo de meu coração reservado à contradição e ambiguidade. Próximo ao colégio passei por uma camionete da empresa Nova Luz, uma das firmas contratadas pela multinacional Anglo American para desenvolver o projeto minerário na região de Conceição do Mato Dentro, contexto no qual faço minha tese de doutorado. Na pesquisa, estudo os impactos psicossociais deste “empreendimento” sobre os jovens da região, sobre a relação entre desenvolvimento e vida cotidiana, sobre as expectativas de futuro, os desejos e medos desses jovens.  E na esquina da Buenos Aires com a Grão Mogol, expectativas e angústias quanto ao futuro não só da minha cidade, mas também do país emergiram condensados na ojeriza que senti de uma camionete, de um adesivo amarelo, um NLZ 17. Angústia quanto ao futuro, não da democracia, mas do socialismo, palavrinha cada mais deixada de lado até mesmo pela “esquerda” (?!), problema, cujo significado me eximo, covardemente, de explorar.

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Published in: on 09/10/2012 at 15:56  Comments (5)  

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5 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Rafa, também me lembro dessa aula da Adélia, quando ela disse que o Lula surpreendeu o mundo inteiro, colocando o problema da fome como primeira prioridade, em seu discurso de posse. Eu fiquei arrepiada nessa aula. (Ah, e o restaurante era Mãezinha, mesmo). 😉

  2. Elisa, que bom que é Mãezinha mesmo, fiquei na dúvida. Temos muitas coisas em comum.. Fico feliz!! bejo grande!

  3. A meu velho. A cidade que vai virando retrato na parede. Daqui eu vou remontando a saudade com as suas memórias. Bonito demais, como sempre. Grande abraço

  4. valeu fred. pois é. E o pior é que isso é bom. Pelo menos eu acho.

  5. nossa pros, nunca imaginaria que de tantos professores da psicologia seria a Adelia a primeira lhe comover com um discurso social, achei bonito. fiquei emocionada com o texto, viu?!
    ah, infelizmente também partilho desta sua angústia, especialmente depois dessa eleição. acho que tá na hora de repensar muitas coisas…
    bjocas


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