Aristocracia – Notas existenciais

Ao longo dos últimos anos passei a ver com outros olhos o sentido da palavra “aristocracia”. Nesse tempo convivi com pessoas extremamente aristocráticas no sentido que entendo tal termo e hoje vejo uma beleza nisso que não seria possível antes, para um sujeito que se considera “de esquerda”. Quando era pequeno acreditava que existiriam pessoas no mundo, em algum lugar, que sabiam tudo, que viam e entendiam coisas que ninguém mais entendia, , enfim, espécie de super homens. Depois de um tempo veio a visão empobrecida do homem, ser banal, engrenagem, incapaz de se fazer destino. Tudo igual, tudo ruim igual. Mas depois voltei a ver pessoas muito especiais que pensam, fazem, mudam. Não sei. Nunca acreditei ser bom em nada. Minha formação humana foi burguesa no sentido mais pobre do termo, de um esvaziamento de qualquer sentido transcendental do ser e de redução das possibilidades humanas à de base de manutenção das funções circulares e superficiais do capital. O bom era passar pela vida despercebido, pagando todas as contas, recebendo mais do que gastando. Nada de ser especial.

Mais novo gostava de pensar uma coisa besta, mas que faz muito sentido. Nem sempre fui bom em futebol. Aos 10 anos eu era horrível. A coisa mudou entre os 11 e 14 anos quando, senão passei a ser um craque, de fato melhorei bastante e cheguei a ser um dos melhores da minha idade no colégio. O fato de ter me tornado bom, quando achava que isso nunca seria possível, possibilitou e ainda hoje me permite pensar em novos horizontes. Depois passei a conviver com pessoas que ao contrário de mim sempre se acreditaram especiais e comecei a ver grande valor nisso. Essa fé na capacidade e na possibilidade de fazer o melhor, sem barganha. Aristocracia hoje para mim, tem pouco ou quase nada a ver com nobreza ou com riqueza. Tem a ver com ser e buscar não o mais útil ou mais prático e vantajoso, simplesmente o que é melhor. É trazer para esse mundinho besta a transcendência não de um Deus católico, de uma divindade externa a nós, mas a transcendência que há no infinito da ação humana. De se saber capaz de fazer um tudo que é sempre +1 do que aquilo que existe. Essa inspiração de buscar lonjuras e não se contentar com o que o sistema me dava foi surgindo, foi aparecendo. Primeiro foi o Cântico Negro com a sua impetuosidade virulenta tão distante de quase tudo o que vi-viaMuito novo senti uma verdade nisso…

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.

Eu tenho a minha Loucura!

Depois, ou antes, não importa, veio o Ouro de Tolo, que lançou o avisou de que “Há algo de muito errado no mundo”. E eu que não tinha emprego, não sabia do que se tratava ser cidadão e sabia que o Corcel 73 era um carro, entendi tudo o que Raul falava, quando cantava:

Eu devia estar contente 
Porque eu tenho um emprego 
Sou um dito cidadão respeitável 
E ganho quatro mil cruzeiros 
Por mês 
Eu devia agradecer ao Senhor 
Por ter tido sucesso na vida como artista 
Eu devia estar feliz 

Porque consegui comprar um Corcel 73

O dano estava instalado. Nietzsche e Matrix acabaram de polir esse mundo errado no qual fui, certamente contra minha vontade, inserido. Era precisava então lutar por outra coisa, não ir por ali. É aí que toda essa crítica me jogava num mundo de loucura, de irrealidade. Encontrar ao final da juventude uma sadia aristocracia,  voltar a um mundo pré-burguês e pré-funcional soou um grande achado. Encontrar o ponto de Arquimedes numa vida bela, forte, verdadeira. Ora, é no desfiladeiro da loucura e da morte que rondamos, sempre. E o que fazer? Poderia, partindo dos dados da experiência empobrecida da burguesia funcionalista, da compulsão ao consumo, juntar-me a alguma seita fatalista, engrossar o caldo das religiões neopentecostais, buscar disco voador, ou, pior ainda me reunir com aqueles que buscam refundar os valores da família, da pátria, da propriedade. Esse é o risco das críticas demasiadas à fraqueza do mundo burguês. Houve algo contra o qual a burguesia lutou e que vale a pena lutar. Alguma coisa de liberdade e igualdade.

Por isso o amor a Agnes Heller que cunhou a expressão Aristocracia de Esquerda. A defesa incondicional a esses valores, a defesa sem barganha. Na longa entrevista reunida no livro com o título auto-ajudístico de “Para mudar vida” há uma passagem no qual a pensadora discute porque, apesar de nossa vida ser dominada por rituais burocráticos, judicializados, nós, ocidentais, gostamos tanto dos filmes de faroeste no qual a justiça é feita à bala. Ela propõe o seguinte:

“…nossa vida cotidiana é realmente cinzenta, mesquinha, e então inventamos um mito que fala de uma vida que não é mesquinha, que é grandiosa e que, talvez, não tenha nunca existido. Inventamos o faroeste, mas talvez um faroeste que jamais existiu. Inventamos contos medievais que nada tem a ver com o que a idade média realmente foi, como se os servos da gleba que aravam a terra da manhã à noite tivessem vivido uma vida mais justa, mas heróica, mais completa do que a nossa.

Esse romantismo é invenção nossa. Só pode haver para ele um tipo de remédio: tornar mais ‘grandiosa’ a própria vida tal como é, desenvolver as formas de grandeza humana nas circunstâncias existentes, transformar a vida prosaica em poesia. Só assim não teremos mais necessidade de mitos” (P.194-5).”

 Não sei se algum dia deixaremos de ter necessidade de mitos. Sei que a grandiosidade, ainda que ilusória, deve nos acompanhar dando sentido à pobreza da vida. E isso pode ser bom. É essa procura por mitos que nos coloquem em marcha desfazendo os nós da dominação e da injustiça.

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Published in: on 18/11/2012 at 20:48  Deixe um comentário  

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