Mulher

Não é segredo que eu gosto de mulher. Ainda que adore a patifaria da frase anterior ela expressa de modo muito simples a intensidade de uma afeição. Há um texto que li certa vez, numa “revista masculina”, que trazia uma imagem grosseira, chula, porém pertinente sobre o universo masculino. No texto a moça dizia que homens não gostam de mulher, gostam isso sim de buraco. No que, convivendo com homens mais do que gostaria, tenho que confessar a parcela de verdade. A companhia de homens, nessa vida, só me fez falta em duas situações. Por um lado, na faculdade de psicologia, naqueles dias posteriores a partidas do campeonato brasileiro quando não sabia o resultado deste ou daquele jogo. Aí me dava conta, olhando para o lado, vendo apenas moças dos 80, a falta que um engenheiro faz. A outra situação se devia e se dá, na dificuldade que sempre tive de contar aspectos mais realistas de minha autobiografia amorosa-afetivo-sexual para as amigas, em contar as coisas sem me sentir um perfeito calhorda. Há ainda uma distância propositadamente mantida em relação a esses assuntos. Há mais de 10 anos a maioria das amizades que faço é com mulheres, ainda que nesses anos tenha feito alguns grandes amigos, desses cinco que nos acompanham por toda a vida. Não vou cair na armadilha de ficar dando atributo pra esse ou praquela. A preferência pela companhia feminina foi algo que só me dei conta depois. Hoje não seria insensato dizer que abandonei uma faculdade exatamente por isso. No curso de física havia mais Rafael do que mulheres na sala.

Mas o que veio, nesta monótona sexta-feira a me lembrar dessas coisas todas, das mulheres enquanto tais, não foram minhas amigas e companheiras de época, mas sim as senhoras que eu acompanhei, auxiliei a andar, conversei e alimentei durante o meu estágio numa casa de convivência para idosas em Belo Horizonte, no improvável ano de 2003. Hoje relembro também que foi dos meus períodos mais solitários. As velhinhas foram, então, minhas mulheres, aquelas senhoras, a Tiná e a Beta, por exemplo, as duas: Albertinas. Beta queria sempre escapar para algum lugar. Ela oscilava entre a angústia e a incompreensão, e não oscilamos todos? Tiná era das favoritas. Certo dia enquanto caminhava de braço dado a ela e a outra senhora, ela me pediu para parar, se abaixou, pegou uma flor e adornou seus cabelos (aprendam meninas). Dona Afrodite, a Didita, dona Dídima, Argentina, Clades, Cilene, Laurinha, dona Yêda, esta que havia morado em Ipanema e conservava um carioquês bastante elegante. Tiná e Didita tinham um lugar cativo no meu coração, talvez pelo leve desprezo que dispensavam a mim. Eu sabia que o desprezo era apenas de superfície. Certamente elas não eram das que eu mais conversava ou das que mais me davam atenção. Mas na palavra, no gesto, às vezes num único movimento em todo o dia, havia muita atenção e carinho. Quando eu faltava elas davam notícia, perguntavam.

Quando Tiná colocou as flores no cabelo e perguntou se estava bonita, requisitando minha opinião, não acho que ela queria uma opinião de um funcionário da casa de convivência, mas a minha.

Atenção e carinho, meninas, atenção e carinho, meninos.

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Published in: on 24/11/2012 at 02:12  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Adorei, rafa!
    mas é claro que a presença feminina também te aborrecia bastante, vale lembrar: te xingando por ir pra aula de regata, por pedir coxinha com café na cantina, ou pelos atrasos no horário da carona que chegava SEMPRE muito adiantada.
    beijo, querido!

  2. hahahahahah…. essa da coxinha com café eu não me lembrava, mas que hoje só se pensar nessa combinação eu sinto azia, isso sim…


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