Diário de Campo e Cidade #8 – Atacado pelo mal da hipótese

Ao morar no interior de Minas Gerais em razão do trabalho de campo de minha tese de doutorado, uma mudança em relação ao tempo foi algo que mexeu comigo. Talez não a mudança e sim um desejo. Eu queria que minha permanência no interior se traduzisse em outra articulação entre meus pensamentos, intenções e ações. Ao viver ali sem internet, barulho e distração, sob a coerção dessas condições externas, pensava que naturalmente minha subjetividade não perderia tempo em suas elocubrações neuróticas, adequando-se às necessidades objetivas de meu trabalho intelectual. Esperava ler muito, escrever e ver florescer uma tese primaveril, assentada na tranquilidade do campo, longe da fragmentação do cotidiano metropolitano.  Para minha ingênua supresa, não foi isso o que aconteceu. Ainda que o tempo lá fora fosse tranquilo e calmo, aqui dentro as máquinas trabalhavam, faziam barulho e me dividiam. A experiência possível que posso ter com a experiência do tempo ao longo de minha vida foi sim moldada, e não sou, nem poderia ser, tábula rasa. A ansiedade e o ritmo frenético me acompanham e a calma e tranquilidade não podem ser nada mais nada menos do que emulações de calma e tranquilidade.

A passagem abaixo citada por Raymond Williams traduz essa impossibilidade.

‘O lazer desapareceu – desapareceu onde não há rodas de fiar, nem burros de carga, nem carroças lerdas, nem mascates vendendo pechinchas às portas em tardes ensolaradas. Talvez haja filósofos engenhosos que afirmem que o grande feito da máquina de vapor seja o de criar lazer para a humanidade. Não acreditem neles: ela cria apenas um vácuo rapidamente preenchido por pensamentos ansiosos. Até mesmo o lazer é ansioso agora –ansioso por entretenimento: propenso a passeios de trem, museus de arte. Periódicos e romances empolgantes; propensos até mesmo a teorizações científicas e olhadelas rápidas no microscópio. O velho Lazer era um personagem bem diverso: lia apenas um jornal, virgem de editoriais, e desconhecia aquela periodicidade de sensações que denominamos ‘hora do correio’. Era um cavalheiro meditabundo, um tanto corpulento, cuja digestão era excelente – cuja percepção tranquila não padecia do mal da hipótese: feliz em sua incapacidade de conhecer as causas das coisas, preferindo a ela as coisas em si’.” (Adam Bede, Georg Eliot).

O Campo e a Cidade. Raymond Williams, p.296-7

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Published in: on 02/12/2012 at 15:36  Comments (1)  

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  1. E o que seria da “paz no campo”, não fosse a urbe caótica a constitui-la como contraponto ideal.


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