ANTÍTESES, EMBARAÇOS, DÚVIDAS, ANTAGONISMOS, PREGUIÇAS E DESVARIOS DO DEBATE SOCIOAMBIENTAL: REFLEXÕES PÓS-CÚ-PULA DOS POVOS

angli

Ao me interessar analiticamente e politicamente pelo movimento ambiental, passei a ser perseguido incansavelmente pelos termos do título acima. A questão ambiental, ou socioambiental, ou ecológica (dependendo tanto do foco, do caráter ou da posição ideológica de quem escreve) é um campo marcado pela exuberante diversidade de confusão. Não pretendo esgotar tais confusões (ó terrível pretensão), apenas queria tentar escaramuçá-las a partir dos debates que presenciei na recém-findada cúpula dos povos, evento “oficial paralelo” ao encontro oficial da ONU para discutir a questão do meio ambiente, a RIO + 20. Baseio-me também em conversas com amigos antenados, ou não, neste debate. Meu problema é menos com o tema em si, e mais em relação à maneira como as pessoas se inserem neste debate, como se todas as escolhas fossem possíveis e intercambiáveis, ao gosto do freguês, numa esquizofrenia hibridizada. Tipo assim: “Eu quero….         é      …        calma aí. Ah, já sei, me vê vida moderna urbaninha confortável – neon – mais IPADS – menos hidrelétricas  e carvão (que nojo!) – sem energia nuclear – energia de vento, sol, essas coisas – mais direitos socais – mais mantra ligações de harmonia e paz entre todos – menos pobreza – sem violência – menos cidades interioranas e mais metrópoles – mais tecnologia, luzes, trecos e tal – menos fundamentalismo religioso e menos trabalho também, quem gosta, né?

O sujeito quer sim um mundo diferente, pero no mucho. Ele acredita mesmo, e nisso em geral há mais romantismo do que cinismo, que a expansão das qualidades advindas com a com a modernidade, a expansão do ideal burguês de vida, sofá, televisão, ar condicionado, liberdades individiduais, séries americanas, pode ser desconectadas de seus malefícios, da competição, ganância, da poluição, dos genocídios sociais. A idéia é que  futuro é igual ao presente subtraído os elementos negativos. Assim, vivo num susto atrás do outro. Ontem (já faz uns meses) vi um comentarista do jornal da noite do SBT justificar que a fragilidade dos acordos estabelecidos na Rio + 20 estaria no fato de que atualmente estamos vivendo uma terrível crise econômica. Arremata ele, como se dissesse algo digno de ser falado, que a preocupação com a economia impera e, por isso, os países não tem tempo para a questão do meio ambiente, ou coisa que o valha… Ora bolas, é o fim do mundo. Foi só por afirmações como esta que me interessei pelo debate ambiental. Aí está em estado bruto a imagem fetiche bibelô do meio ambiente como uma preocupação estética da classe média bacana. O marxistão Istvan Meszáros em uma citação genial diz que as instituições de proteção ambiental deveriam ser chamadas de “ministérios de proteção das amenidades da classe média”. A questão ambiental diz dos fluxos de energia, dos ciclos de transformação da matéria, as cadeias de interação entre a atividade humana e o ambiente, seus efeitos, danos, consequências.

Certamente quem pensa que em tempos de crise econômica não dá para se preocupar com meio ambiente, deveria parar de beber água, defecar e recarregar a bateria do seu Ipad. Na rede Globo, no jornal da noite, ao falar do fim da cúpula dos povos o jornalista entrevistava um gari que disse que ao limpar o aterro do flamengo, onde deveria haver apenas pessoas “conscientes” e mi mi mis, foram encontradas muitas guimbas de cigarro jogadas no chão, guimbas que demoram alguns 2000 anos para se decompor. O jornalista, William Waack, o iluminado, poderia ter completado seu raciocínio deveras radiante da seguinte maneira: “Esses maconheiros bicho-grilo vem para cá, com dinheiro do governo, sujam tudo, ficam falando bla bla bla para pegar mulherzinha, mas continuam poluindo com as pessoas “normais”, então para quê vieram?”.

Fui a algumas palestras e andei muito pelo aterro do flamengo nesses dias de encontro. Impressiona a diversidade de posturas, de modos de ver as coisas e de se posicionar neste debate. Enquanto vemos o Sebrae com 16 barulhentos geradores movidos a combustível para manter o ar refrigerado no seu interior, temos tribos indígenas vendendo autênticas pinturas de seus povos por 3 R$. Não me incomodo nenhum pouco com o fato dos indígenas venderem pinturinhas de corpo, o que me tirou do sério foi o fato do alojamento das tribos indígenas ter sido no sambódromo, em péssimas condições de instalação e higiene. Mas o que mais me incomodou no evento é a incapacidade e a fraqueza de se colocar em discussão as questões chaves, de trazer as situações concretas para o debate. Se o meio ambiente NÃO é um problema fetiche, mas sim uma questão central na manutenção da vida, posto que não há vida sem água, ar, terra, então toda forma social de vida está intrinsecamente ligada a este debate. Então se você aí, “da poltrona” acha lindo viver em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Londres, Nova York, Belo Horizonte, Conceição do Mato Dentro, e ainda mais, acha que todos devemos viver assim, deveria pensar muito bem no quê isso significa. Porque se há “crise” ambiental, há causalidade na ação humana, ação que se dá num contexto cultural  e político. Se a pessoa vem para um debate, se ela abre a boca pra falar “meio ambiente”, é porque considera que há causação humana. Havendo essa relação causal, fico pensando que construção narrativa se passa na cabecinha de cada um desses ambientalistas moderninhos que ficam falando de Seattles e Chiapas. Não tenho dúvida que imaginam Hippies vivendo em “Blade Runner”. É como se sociedade e pessoa fossem coisas desconectadas. Muita solidariedade entre os povos, uma gotinha de “Avatar” aqui, vai, muitas máquinas, pouca dominação, etc… O mito de que o homem vai dominar todos os efeitos, vai controlar tudo e continuar sendo um cara legal está aí, deitado na cama, morto, pronto para ser exumado. Acho esse tipo de mentalidade fascinante. Fascinante sim. A dissociação completa e total de sujeito e história, de pessoa e sociedade. A realização completa do homem do iluminismo sob o manto abençoado do primitivismo solidário. O sujeito crê que a sua identificação imaginária com a causa rompe todos os grilhões da opressão social e ambiental real que permitem a ele ter água, comida, ar, um MAC, um Iphone. Não vê que ele é parte do problema. Não vê problema. Não companheiro, não precisa se charafundar na lama da culpa burguesa. Mas por favor, menos cinismo, menos certeza. Ao menos ajude a encaminhar as coisas de outo jeito, pensa rapaz, se aprume!  Acho que aqueles que só conseguem imaginar uma vida do modo como temos nas grandes cidades deveriam pensar um pouco mais, só um pouco.

Não que a “culpa” da poluição seja exclusivamente da manutenção das metrópoles ou algo do gênero. Pego esse exemplo, por algumas razões. Muitos dos grupos ambientalistas e dos ativistas moram e vivem nesses grandes centros. O local de moradia de uma pessoa, de uma cultura, de um povo é fato indissociável de sua relação com os recursos naturais, seja uma tribo do Xingu, uma população ribeirinha do interior do país, ou um grupo de jovens amigos libertários de uma megalópole.

Se a crise ambiental decorre do padrão de produção e de consumo de bens de uso como então mudar tais padrões? Quais são as condições determinantes da vida moderna, quais são as ligações essenciais entre modernização e injustiça social, ambiental? É possível ter crescimento econômico nos moldes que temos vista com uma maior igualdade entre povos, considerando que cada cultura e povo entra nessa dança de um jeito?

Nesses dias de Rio + 20, entre cervejas no fim da noite, um grande amigo, o Patrão me contou uma coisa. Ele disse que em suas palestras joga para o público um gráfico no qual apresenta vários países a partir de dois eixos. No primeiro temos índices sociais relativos à saúde, educação, trabalho, e no outro, o nível de destruição e degradação do meio ambiente. Ele então me disse que apenas um país apresenta elevado índice tanto de indicadores sociais como de baixíssima degradação ambiental.

Em tom de charada que é impossível descobrir, ele me perguntou qual era este país. Claro que eu errei.

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Published in: on 19/12/2012 at 18:09  Comments (1)  

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  1. Porra, qual era o país?


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