India #2 / Notas doutorais #8 – Alienação, ideologia, falsa consciência: Quem disse?

DSCN0221

Amita Baviskar é uma pensadora vigorosa, jovem, muito sensível e forte, dessas pessoas que o que falam, precisam dizer apenas uma vez. Uma figura que me impressionou quando a conheci em Nova Déli, no início desse ano. Suas palavras e os caminhos do pensamento que essas palavras nos guiam, mostram um mundo interessante e complexo. Além do que já vinha absorvendo pelo se texto senti algo também em sua presença, no curto tempo em que estivemos juntos. É difícil explicar, mas tem a ver com a maneira simples como ela, enquanto conversávamos no jardim da Delhi University, pediu licença para mim e parabenizou o jardineiro pelas belas flores. Essa delicadeza sob a qual vislumbramos a mulher da luta. Muito elegante, em momento nenhum de nossa hora de conversa levantou a voz ou o tom, ainda que pudesse tê-lo feito, menos por uma descortesia minha e mais pelo conteúdo do diálogo. É hoje uma das vozes mais respeitadas no debate socioambiental indiano. Em torno dela articulam-se pesquisadores e pensadores que tem produzido muita coisa interessante e que tem feito o que devem sempre fazer os “pensadores”, pensar. Não repetir fórmulas, não agradar agências de fomento, não fugir das contradições da vida, do sistema, por atalhos duvidosos. Atravessar sim os vales de  crítica sem medo do que se vai encontrar, sem pensar na saída, numa resposta. Acho que a academia, e as ciências humanas e sociais em geral, devem se posicionar politicamente sim, responder afirmativamente contra a injustiça a dominação e a violência. E os movimentos sociais devem bater e criticar as políticas da universidade, em todos os campos. Não defendo, em hipótese alguma, uma ciência que acha que vive no reino encantado e brumoso da abstração, sem restar presa ao mundo real com suas contradições e problemas.  Mas dito isso, não acho que ajudamos muito ao dar a resposta que os movimentos querem escutar, dar a resposta que parece politicamente  interessante. Devemos entender o caminho que trilhamos, as implicações políticas e nossa responsabilidade. Aceitar as consequências que decorrem de nossas escolhas. Escreve Amita Baviskar: “A busca continuada por uma narrativa singular para explicar as lutas por recursos naturais é inexplicável. Tal quadro analítico, eu diria, toma como valor a simplificação da representação política que os movimentos sociais deveriam expressar  a fim de ter coerência. No entanto, esta reprodução acrítica de uma demanda política, geralmente vista como um gesto de solidariedade, ignora o difícil, criativo trabalho de construção de identidades políticas, forjamento de alianças e superação das diferenças” (Amita Baviskar , introdução – Contestested Grounds, 2008, p.5).

Em abril de 2012 fui para o meu trabalho de campo. Cheguei em Conceição do Mato Dentro, armado por um lado de uma teoria ecológica baseada na justiça ambiental e por outro numa literatura crítica de identidade política e movimentos sociais. Fui lá para entender como os moradores da região, e especialmente os jovens, vivenciam os efeitos da instalação de um grande projeto minerário por lá. Pensava em termos de movimento social, resistência, solidariedade. E vi de tudo. Vi senhores e senhoras na zona rural esperando angustiados o funcionário da Anglo American que apareceu ano passado dizendo que voltava “na semana que vem” pra resolver o problema da terra, e nunca mais voltou. Vi mulheres com medo de andar por caminhos por onde sempre andaram porque agora, nas pequenas vias, transitam centenas de homens, funcionários de dezenas de empresas. Vi gente na cidade com medo de tudo, conversei com o comandante da PM que mostrava os dados do aumento da violência. Vi pessoas acreditando em promessas da empresa e criando expectativas douradas em relação ao futuro. Conversei com vários moços que sonham tornar-se motoristas de caminhão para serem contratados por “essas firma”. Vi famílias brigando por causa de terra e dinheiro, vi gente mudando no meio da madrugada, para não dizer por quanto vendeu sua terra para o primo/vizinho com quem conviveu por mais de 20 anos. Vi também a escola noturna da cidade cheia, cheia de adultos, mulheres e homens que voltaram a estudar por conta das oportunidades de emprego. Vi um povo com mais dinheiro, meninos e meninas de roupinha e confiança novas. E vi muita gente falando que tudo na vida, como na mineração, tem um lado bom e um lado ruim.

Eu não poderia, por uma incapacidade ética e existencial, partir dos meus princípios políticos para selecionar o que vi e o deixei de ver. Não poderia desconsiderar as coisas positivas, poucas, que vi e ouvi. Desconsiderar a diretora de escola dizendo que antes dos empregos chegarem, as crianças vinham com fome para aula e agora isso não acontece mais. Como fingir que isso não foi dito, também? Como também não posso deixar de me angustiar com uma senhora querendo saber se a comunidade, o distrito na qual ela sempre viveu, vai acabar ou não? Pessoas que moram looonge da mina, em terras que não são de nenhum interesse da empresa, mas que acham que a empresa vai comprar sua terras por uma bagatela. Gente que não sabe, porque não é informada sobre seus destinos. Nesse caso, pior do que uma resposta afirmativa é esse não saber. E quantos são os que acreditam na promessa difundida por estado e empresa de que o desenvolvimento tá aí, batendo na porta, e só não abre a porta quem não quer.

Enfim, voltei a pensar nessas coisas todas quando vi esse vídeo aqui debaixo com uma entrevista da Amita Baviskar, quando ela fala sobre sua pesquisa de doutorado. Neste trabalho Amita discute a resistência de moradores de uma região indígena na India contra a construção de uma grande barragem no rio Narmada. Acho importante a parte final, na qual ela questiona a política de representação deste debate, colocando uma special spicy no olho das Ongs e de certos movimentos sociais que sustentam toda a luta contra o “desenvolvimentismo” nas costas da imagem dourada do povo feliz e alegre que vive em “harmonia” com a natureza. É um alento para pararmos de protelar e enfrentar as contradições na luta política e do debate acadêmico.

http://elearning.lse.ac.uk/dart/interviews/interview.php?flvfile=baviskar_07_768Kbps.flv

Transcrevo a passagem logo no final do vídeo acima (05:05):

“So there I became interested in this question of the politics of representation. Why some movements makes claims about tribal groups, about indigenous people as embodying some ecologically noble savages? Why there is this great discrepancy between those peoples actual lifes and how those lifes are represented? And I came to believe that politics of representation has more to do with the need of these support groups and metropolitan audiences then what tribal people themselves thaugth it was important”

[Então eu me interessei pela questão da política da representação. Por que alguns movimentos afirmam que os grupos tribais, os indígenas, incorporam algum tipo de nobre selvagem do ambientalismo? Por que há uma grande discrepância entre as vidas reais dessas pessoas e a maneira como essas vidas são representadas? E eu vim a acreditar que a política da representação tem mais a ver com a necessidade dos grupos de apoio, das audiências metropolitanas, do que com o que os indígenas realmente pensam que é importante].

Anúncios
Published in: on 24/05/2013 at 17:18  Deixe um comentário  

The URI to TrackBack this entry is: https://obarseular.wordpress.com/2013/05/24/india-2-notas-doutorais-8-alienacao-ideologia-falsa-consciencia-quem-disse/trackback/

RSS feed for comments on this post.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: