Cena de Cinema #3 ou Analíticas #1 – O homem que não estava lá

 

Nenhuma cena em momento algum, nunca. Nenhum outro filme mexeu tanto comigo, nenhum outro filme me colocou tanto na mira, machucou tanto meu pobre coração como a cena acima. Nada absolutamente nada. Saí do cinema com a certeza de que o perverso do François Ozon pôs a cena na tela para maltratar meu pobre coração, meus sentimentos. Até hoje, 6 ou 7 anos depois, revendo essa cena meu peito aperta, o coração bate acelerado, e em pensamento desejo um novo final para aquilo que vi na tela. Mas não. É preciso ser forte e ver e rever, sentir e (tentar) entender. Por alguns anos a cena rodeou, espreitou, deu medo. Numa noite qualquer ela voltava, sem aviso. Depois partia e restava longe por meses, às vezes anos. Mas a lembrança sempre estava por aí. Hoje me sinto mais forte para lidar com isso.

O filme francês 5X2 é lindo e forte. Um murro no ideal romântico de um amor tranquilo… Não companheiro a vida não é tranquila. Porém acho impossível falar e pensar qualquer coisa desse filme, com seus vários momentos delicados, sem me prender na cena acima. E não acho isso bom, muito pelo contrário, essa cena de quase 10 minutos é uma prisão para mim. Uma prisão completamente imaginária, na qual, percebo agora, nunca consegui mesmo escapar. Por isso, se você ainda não viu a cena volte lá e a veja, por favor, esse texto não faz sentido algum para quem não viu a cena.

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A história do filme é simples, acompanhamos cinco cenas da vida amorosa de um casal. Momentos importantes, divórcio, brigas, casamento, filho. O homem se mostra um fraco, um babaca, um homem. A mulher é forte e bela. Valente menina diria o Braga. A história está de trás para frente, começamos pelo fim do amor para chegar ao seu princípio.  Até “A” cena do casamento via o filme com gosto, um filme sensível e inteligente. Porém, enfim, sem nenhum tipo de aviso a cena quebrou tudo. Ela quebrou certa relação satisfatória, ou confortável, que mantinha comigo mesmo. Essa cena criou um medo que nunca havia tido, um sentimento mesquinho, grosseiro e vil. É ela que representa todos os meus ciúmes, minhas angústias amorosas. Revendo-a, somente agora, percebo que há ali ainda mais do quê gostaria de ver, de saber.

Vamos à cena. Vemos o casamento, o casal serelepe e feliz bailando, pois a vida é bela e tudo é perfeito. Love is in the air. Logo, o casal se dirige ao quarto para a noite de núpcias. Ele claramente bêbado, trocando as pernas. Ela desejando-o. Eles vão se beijando. Ela vai tirar o vestido de noiva e se “preparar” para o marido. Ele, tonto, dorme nesse tempo. Ela ainda chega e tenta algo, mas ele dorme. A moça está feliz, olha-o com olhos ternos, mas se frustra. Coloca um jeans e sai para dar uma volta. Nada demais. Ela então, caminhando, sorri ao ver os restos do casamento, seus pais apaixonados dançando no salão. O amigo flertando com o garçom. Ela então se dirige ao lago e lá se senta. Em pouco tempo uma figura masculina chega do meio do mato. Um americano com jeito de galã. Ele chega e se senta ao seu lado. Quase não se falam, ela pressente o perigo, mas fica. Ele oferece um Malboro ela aceita, “que mal pode haver?”. Em 10 segundos ele já a encara com lascívia e ela entende tudo. Olha para ele também, mas agora vê o risco e vai embora. Ele a segura com força e pede um beijo. Ela hesita, quer ir embora, ele a segura. Ela ainda resiste, não grita, mas não quer. Ele a olha. Beija sua barriga e acaricia. Ela pensa e decide. Beija-o com calor, e se lança a ele de uma vez. Corte. Uma porta bate, ela corre, volta ao quarto do amado com pressa (teme que ele saiba? Teme que ele não esteja mais lá? Sente sua falta?). Ele dorme. Ela se aproxima e o beija. Sonolento e amorosamente ele recebe os beijos. Ela diz: “je t’aime, je t’aime, je t’aime…”.

A palavra chave aqui é identificação. Em determinada etapa da vida, quando vi esse filme, já não conseguia mais me identificar com o amante norte americano. O estrangeiro sexualizado. Seria fácil me ver nele quando era mais jovem. Pensaria aí nessa “mulherzinha gostosa dando sopa”. Mas não dá, não consigo. Só consigo me identificar com o marido, o tolo, que dorme e depois ainda recebe, de bom grado, beijos na face e alguns “je t’aime”. Não conseguiria também me identificar com a mulher, infelizmente. O melhor seria não me identificar com ninguém, posto que não tenho nada a ver com aquilo, mas isso também não é possível. Perceba, não tiro dessa cena nenhuma lição moralista, não a culpo e não culpo ninguém pelo desejo. Nada disso, acho a vida linda. E é o marido que dorme. O amante surge do meio do nada, um acaso feliz. A mulher deseja. É vida o que há nessa cena de amor, e por isso ela é uma prisão para mim, pois eu sou o homem que não está lá. O homem que dorme. E jesus, o que significa o retorno dela correndo e dizendo eu te amo? O que significa a primeira recusa e a aceitação posterior? No quê ela pensa? Não sei, mas também não é difícil saber… Mas o pior são os pequenos detalhes da cena, detalhes que remetem ao simbólico, logo à aposta, ao eterno. São esses detalhes que atormentam e voltam. Por exemplo, não poderia ela estar usando outra lingerie que não aquela, aquela escolhida para celebrar a noite de núpcias? E ela tem que voltar correndo e amorosa, não poderia andar cautelosamente, tomar um banho e deitar silenciosamente na cama?

Quando saí do cinema, depois desse filme, estava inconsolado por dentro. A virada simbólica se consolidara. Rubem Braga perdeu. Não poderia mais ser o amante bonito, leviano e sexy, mas sim o marido, ainda mais um que dorme. Já tinha a certeza, e continuo com ela, de que a cena foi projetada para maltratar nós homens neuróticos heterossexuais. François Ozon, diretor assumidamente gay, nos dá esse tapa de palma aberta, esse tapa que estala. É mais um desses golpes copernicanos. Se o sol não é o centro do mundo, se o homem não é uma espécie nada especial no reino animal, e se o sujeito já não é nem dono de sua casa, o desejo da mulher também não lhe pertence, colega. Nunca. O desejo vai pro turista, o desejo é do latin-lover, do passageiro distraído, é o vazio. O desejo é vento.

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Published in: on 07/06/2013 at 04:41  Deixe um comentário  

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