América Latina #3

1968

Cidade do México

REVUELTAS

Tem um longo meio século de vida, mas a cada dia comete o delito de ser jovem. Está sempre no centro do alvoroço, disparando discursos e manifestos. José Revueltas denuncia os donos do poder no Mexico, que por irremediável ódio a tudo o que palpita, cresce e muda, acabam de assassinar trezentos estudantes em Tlatelolco:

– Os senhores do governo estão mortos. Por isso matam.

No México, o poder assimila ou aniquila, fulmina com um abraço ou com um tiro: os respondões que não se deixam meter no orçamento público são metidos na cadeia ou no túmulo. O incorrigível Revueltas vive preso. É raro que ele não durma em cela e, quando não é lá, passa as noites estendido em algum banco de praça ou num gabinete da universidade. A polícia o odeia por ser revolucionário e os dogmáticos, por ser livre; os beatos de esquerda não lhe perdoam sua tendência aos botequins. Há algum tempo, seus camaradas, puseram nele um anjo de guarda, para que salvasse Revueltas de toda tentação, mas o anjo terminou empenhando as asas para pagar as farras que faziam juntos.

(p.275)

____________________________

1969

Bogotá

OS GAMINES

Têm a rua como casa. São gatos no pulo e no bote, pardais no voo, galos valentes na briga. Vagueiam em bando, em esquadrilhas; dormem feitos cachos, grudados pelo gelo da madrugada. Comem  o que roubam ou as sobras que mendigam ou o lixo que encontram; apagam a fome e o medo aspirando gasolina ou cola. Têm dentes cinzentos e caras queimadas pelo frio.

Arturo Dueñas, da turma da Vinte e Dois, vai abandonar o bando. Está farto de dar a bunda e levar surras por ser o menor, o percevejo, o manteiga derretida; e decide que é melhor se mandar sozinho.

Uma noite dessas, noite como qualquer outra noite, Arturo desliza debaixo de uma mesa de restaurante, agarra uma coxa de galinha e erguendo-a como estandarte foge pelas ruelas. Quando encontra um canto escuro, senta-se e janta. Um cãozinho olha para ele e lambe os beiços. Várias vezes Arturo o expulsa e o cachorrinho volta. Se olham: são iguaizinhos os dois, filhos de ninguém, surrados, puro osso e sujeira. Arturo se resigna e oferece.

Desde então andar juntos, caminhaalegres, dividindo as sortes e os azares. Arturo, que nunca falou com ninguém, conta suas coisas. O cachorrinho dorme acocorado a seus pés.

Em uma maldita tarde a polícia agarra Arturo roubando pão, arrasto-o para a Quinta Delegacia e ali lhe dão uma tremenda de uma sova. Tempos depois Arturo volta à rua, todo maltratado. O cachorrinho não aparece. Arturo corre e percorre, busca e rebusca, nada. Muito pergunta e nada. Muito chama, e nada. Ninguém no mundo está tão sozinho como este menino de sete anos que está sozinho nas ruas da cidade de Bogotá, rouco de tanto gritar.

(p.277-8 )

(O século do vento – Eduardo Galeano. Tradução Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM  Pocket)

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Published in: on 18/06/2013 at 16:48  Deixe um comentário  

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