Rubem, terno.

Sempre que falo de Rubem Braga soergue à minha frente o imperativo de traduzir sua relevância, em minha vida, através de algum termo singular, um nome ou adjetivo. Mas nunca consigo, por isso continuo a tentar…  No início era o estilo, claro, eu era apenas um imitador barato do autor. Depois entendi que era e é toda uma sensibilidade o que me ligava à ele. Em certo sentido já não era ele, nem era eu. Sem saber, o escolhi. Braga, portanto, não era apenas aquele a quem me fiava para tentar alguma coisa, qualquer coisa, frente ao absurdo das mulheres, isso também, mas era ele quem me dava força para seguir em minhas andanças de pensamento nos rumos de um mundo mais justo, de um cotidiano mais belo e poético. Nesse sentido Rubem Braga chegou antes de Agnes Heller ou Jacques Rancière. Fazia alguns anos que não voltava às suas palavras. A distância que apareceu entre nós nunca me pareceu uma briga, apenas  um tempo, que finalmente passou. Ao ler um pequeno texto do livro: “As boas coisas da vida” todo o sentimento de devoção e de alegria voltou.

Nesse trecho, Rubem Braga me deu um alento nos confusos, belos e fortes dias de protesto que seguem acontecendo no Brasil. Dizia ele:

“Antigamente diziam que ou o Brasil acabava com a saúva, ou a saúva acabava com o Brasil. Eu era menino, cansei de ouvir isto; o pessoal todo acreditava e ficava aflito. Eu também ficava aflito, e quando encontrava alguma saúva no jardim lá de casa matava logo para ela não acabar com o Brasil. 
Agora estou bastante velho e me lembro dessa história e vejo que continua havendo saúva e continua havendo Brasil.
Por isso é que eu digo: O PESSOAL É MUITO AFOBADO”.  

É velho Braga, o pessoal continua afobado.

Ando a ler o livro com um prazer tão intenso. Esse sentimento de  quando estamos conhecendo coisas novas, descobrindo  o mundo… que apesar de ser mais triste do que feliz ainda conserva alguma graça.

É sempre bom lembrar que a beleza e a suavidade de Braga ajudaram um rapaz feio e tímido a sofrer.

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Published in: on 27/06/2013 at 22:13  Deixe um comentário  

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