Cena de Cinema#4 – Coisas piores

Não tenho nenhum apreço especial por filmes de terror ou de zumbi. Hoje, quando acontece de ver um desses filmes, ao pressentir que lá vem uma cena gosmenta, coloco logo a mão no rosto sem embaraço algum. Por isso é que estranho o fato de realmente gostar do Madrugada dos Mortos, de 2004 (Dawn of the dead, direção Zack Snyder). A presença de senhorita Sarah Polley, na sua beleza despretensiosa e seu charme todo sem graça, certamente ajuda, mas não é isso. O segredo de Madrugada dos Mortos, e que suspeito ser o segredo dos bons filmes de zumbi, é que não estamos falando dos mortos e sim dos vivos. São eles que importam. A enfermeira que começa o filme fazendo amor com o marido debaixo do chuveiro, que em seguida dorme de conchinha com o mesmo e acorda com a menina vizinha arrancando a jugular de seu amado, é uma pessoa bem próxima de nós, apesar de todo absurdo. Porém, mesmo gostando desse filme, ele não seria mais que divertido e não figuraria em nenhuma de minhas listas, senão fosse pela cena e pelo discurso do personagem de Kenneth (o personagem de Ving Rhames) aqui debaixo.

Antes, tentarei contextualizar o porquê dessa cena. De um dia para o outro as pessoas em todo o mundo começam a virar zumbis. Seres humanos mordidos por outros zumbis, morrem e renascem com fome de sangue, vocês conhecem o mote. O filme não explica o porquê disso, o que é sempre ótimo. Já começa com o desespero e o caos que se segue quando seus vizinhos e familiares, simplesmente, querem comer seu fígado. Um grupo de humanos ao fugir dos zumbis vai se constituindo. Eles então decidem se abrigar num grande shopping center, o que é bastante interessante. Lá, a princípio temos um excelente esconderijo. Há comida, diversão, espaço, e segurança, ainda que os zumbis vão se ajuntando na porta do shopping em busca de comida. Num dado momento essa precária harmonia se desfaz e algumas pessoas são mortas.  Com isso o grupo se dá conta de que não pode continuar esperando, e que as coisas não vão nada bem. É nesse contexto que, ao tentar dizer algumas palavras sobre os companheiros mortos, Kenneth diz: “…há coisas piores do que a morte”. Ele lembra àqueles que estão vivos, que morrer não é nada, perto de virar zumbi e sair por aí querendo comer outras pessoas. Perto disso, morrer é uma opção.

Em algum momento a expressão, “há coisas piores do que a morte”, articulou-se a  lembranças, vivências e fantasias, mais prosaicas, mas não menos importantes, de minha vida. Momento de afastar o medo e afirmar, por vezes, nadando contra uma suposta maré, assumindo riscos, enfrentando o medo. Pode haver dignidade na morte, nas mortes. Por vezes tratamos algum evento como a maior catástrofe possível, uma espécie de morte, quando na verdade há sempre algo pior do que isso em jogo. Perder o emprego e morrer de fome é ruim, mas depender da miséria de outros ou de si mesmo, para poder passar o janeiro na praia, parece pior. Ser agredido ou ameaçado também não é bom, mas pior é conviver com a culpa de não ter feito nada ao presenciar uma violência, uma agressão. Ficar sozinho o resto da vida parece a pior coisa do mundo, mas viver se alimentando das vísceras, sonhos e alegrias de pessoas belas e vivas, é pior. Há coisas piores do que a morte… Isso me parece um bom lembrete, rapaz.

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Published in: on 09/07/2013 at 15:22  Deixe um comentário  

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