UM BRINDE AO CASAL QUE SE PEGA

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Sexta-feira, bar do Gomez, Santa Teresa, Rio de Janeiro. Meados de maio.

Indivíduo apresentável conversa com dama, certamente não menos apresentável do que este. Após uns dez minutos, indivíduos supracitados se atracam e é mão subindo e descendo, zueira linda e doida. Juvenil. Ao mesmo tempo que a pegação é digna, pela incontinência passional, parece-me fora de lugar. Ou estou eu fora do lugar, pois sinto-me invadindo a sempre sagrada intimidade da paixão. Mas, enfim, nossos efebos seguem apaixonados e atracados. Adolescentes. 22 anos, no máximo.

Não resisto, guiado pelo comandante geral da CIA que manda sua mensagem pela cerveja que bebo, escuto tudo o que conversam. E é genial. Antes, porém, contudo, todavia, devo confessar meus traumas. Enquanto adolescente fui um fracasso to-tal. O trauminha de mal-amado erigiu-se então em minh’alma. Até tempos atrás dava minhas surtadas perversas ao ver casaizinhos bem jovens e muito felizes com essa carinha de noite bem durmida. Tinha vontade de esfregar na cara deles algo triste, ruim e/ou vil, pelos quais seriam culpados. Tipo a fome no mundo.

Volto à tal sexta-feira. Como não me divertir com a moça que ficava insistindo em dizer de um tal ex, que foi para a Alemanha, um grande amor. Diz ela, sua única paixão. Foram 2 namorados, 3, corrige, mas re-corrige dizendo que um não conta. Vontade de dizer ao intrépido rapaz, “é esse, é esse que conta”. Camarada, papai Freud tá por aí lembrando que conta quem a gente não conta. Mas nada digo, posto que o carioca alvissareiro não parece precisar da ajuda de um mineiro neurótico.

Escutando esse jovem casal penso na vida, nas coisas boas da vida, no encontro, aquele fatal. E acho lindo que a moça fale tanto de ex-namorado, e ela fala muito. Escuto claro o seu recado, melhor, os dois: 1.“Presta atenção, pô não tô de brincadeira”. 2. “Eu não sou tão menina, como parece, tenho um grande amor no currículo”. É batata, a moça ou moço, falou de ex ou falou de família, pai, mãe, tá querendo algo sério, anota. Ou tá querendo parecer que quer algo sério, o que não dá no mesmo. E daí pulei para o texto que evito por tanto tempo em escrever e que haverá de se chamar:  “O dia em que o apaixonado Vinicius de Moraes matou o cínico Rubem Braga”. Explico.

Rubem Braga, que completaria cem anos em 2013 foi meu grande ídolo. Foi com ele, em suas crônicas, que passei a admirar e me apaixonar pela mulher. Foi por sua poesia. “As outras coisas que continuam me comovendo são as mulheres que vejo passar na rua. É inacreditável como qualquer mulher que passa me desperta turbilhões de pensamentos: sinto-me inteligente, fremente, e ao mesmo tempo estúpido. Como todas as artes são frágeis perante essa simples coisa natural!” (Carta a Moacyr Werneck de Castro, Livro: Rubem Braga – Um cigano fazendeiro do ar, p.294-5).  Foi com o velho Braga que, primeiro criei um certo ideal de homem namorador. Quase em paralelo fui lendo e escutando Vinícius de Moraes. E ao longo dos últimos 15 anos as diferenças entre eles foram se depurando. Vinícius, todos sabem, se casou 9 vezes e dizia “Que seja infinito enquanto dure”. Braga, solteirão convicto mantinha em sua residência uma placa “Aqui, vive um solteiro feliz”. Outra dele que merece menção honrosa, é que ele dizia preferir “namorar” mulheres casadas, pois estas nunca pretendiam dormir em sua casa.

Voltei nesse enredo por conta do jovem casal se pegando. Achei digno e bonito por parte dela querer dizer de ex- e falar de paixão antiga. Fosse eu o ele, ficaria cansado e a acharia besta… É bem chato assim de início ficar escutando papo de ex (é sempre chato). O colega em frente à dama, performatizava no estilo blasé, “È mesmo? Nossa…que coisa? É mesmo”. Enrolando, enrolando… Foi aí que me lembrei de Vinícius e Rubem. Confesso que o meu eu ideal foi por bom tempo o do velho Braga, o do carioca charmoso, porém fútil e útil. Daquele que no fundo não está aberto para nada, pois está aberto para qualquer coisa. E foi aí que percebi que, tendo ficado triste e sozinho boa parte da minha vida, não consigo mesmo entender o que leva uma pessoa a abnegar desse risco da paixão e do amor. O risco Vinícius. Não consigo deixar de achar medíocre aquele que trata a dama da noite como coisa posta, dada, codificando palavra, olhar e gesto em categoriazinhas cerradas. Fugindo do infinito do olhar e do toque, isso da ordem da coisa, os incategorizável. Esse povo foge mesmo é do delírio e do desejo. A paixão Braga é linda, lírica, poética, gostosa. Mas óbvia e conhecida. A paixão Vinícius é aposta sem crédito. É jogo sem regra, é um infinito de metáfora barata. E quem foge disso, por motivo quer que seja, foge da vida, cumpadi… Foge, e num adianta vir dizer que foge por medo, porque todo mundo tem medo, sempre, como me disse a bela cigana.

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Published in: on 01/10/2013 at 14:28  Comments (4)  

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4 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Por aqui, eu matando e sentindo saudade. Um graaande abraço.

  2. ôô meu bem, vamos encontrar nos bares reais da vida! Valeu pelo registro, grande beijo!

  3. Rapaz, como eu fiquei tanto tempo sem vir aqui? Maravilha esse reencontro virtual. Vamos trabalhar um encontro real também?

  4. ó meu caro, maravilha são essas suas linhas. Vamos trabalhar demais um encontro real, quando tu vens? Um skáipezinho cai bem também, né não? hehehe


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