Enquanto Freud explica, o diabo fica dando uns toques #1

Se estiveres muito feliz, tome cuidado quando houver pessoas ao seu redor.

Pois elas podem não estar.

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Published in: on 31/10/2011 at 02:05  Deixe um comentário  

Abdias e nossa solidão

O Abdias é meu amigo, muito mais do que um livro. É aquele amigo que chega no momento certo, aquele da dor ou da alegria. Ele chega diz e escuta. Presta atenção nas minhas dores e me traz às suas. Fico triste por ver que ele repete a sua história, mas talvez ache ele que eu também repita a minha, não sei. Em alguns momentos vejo o tanto que somos parecidos, no olhar, nos devaneios. Mas também, com os dias passando, vejo com mais clareza nossas diferenças. E as diferenças entre belo horizonte de fins dos anos 30 e a belo horizonte do século XXI. Nas última semanas nós tocamos num problema fundamental em nossas vidas, a solidão. Ele me disse:

“João Carlos é amigo, mas sua rudeza afasta confidências. Monsenhor Matias é uma criatura fora do mundo e Sizenando nunca teve bom senso. Como somos forçados a nos fechar dentro de nós mesmos!

Carlota consolava-me de minha mediocridade. Brincava muito, era irônica e, mesmo, um pouco mordaz, mas pressentia quando eu necessitava dela e mostrava-se, então, carinhosa e séria.

Há sofrimentos que, por patentearem uma fragilidade que queremos ocultar, se tornam incomunicáveis. A humilhação sofrida secretamente; a decepção que tenhamos tido com o amigo dileto, que supúnhamos nos estimasse na medida em que o estimamos e, no entanto, nos falha; o malogro de um plano literário; o conhecimento das limitações de nossa inteligência e das deficiências de nossa cultura…esses pequenos sofrimentos de cada dia, suscitados por uma introspecção que não pode deixar de ser mórbida, castigam-nos talvez mais do que as grandes dores da alma.

Quantas noites não passamos em claro, com a sensibilidade ferida por uma afronta imaginária, simples produto de nossa desconfiança?”

Published in: on 31/07/2011 at 17:37  Deixe um comentário  

A Claudia Cardinale estará?

No livro “Responsabilidade e Julgamento”, Hannah Arendt usa uma anedota que me veio à mente agora, quando pensava como algumas pessoas têm o incrível poder de fazer tudo ficar alegre, interessante ou simplesmente vivo, quando o mundo parece feio, chato ou bobo. Ela nos conta o caso do filósofo romano Cícero que ao comparar as filosofias de Platão com a dos sofistas arremata: “Por Deus, prefiro me extraviar com Platão a defender visões verdadeiras com aquelas pessoas”. Comecei a pensar nessas pessoas que valem qualquer extravio. Alguns desses sujeitos são amigos recorrentes de cerveja, professores, companheiros de futebol e outros têm sido mais fotografias de facebook do que qualquer outra coisa, infelizmente. Mas é isso, à companhia de qualquer uma dessas pessoas a sensação é de que estamos na assembléia geral do mundo, de que todo o mundo está aqui presente. O que achei curioso é que algumas dessas pessoas provavelmente não sabem desse meu sentimento. São conhecidos de momentos, cenas, discussões de boteco. A admiração às vezes é calada, quase invisível, a qualidade não se transformou necessariamente em quantidade.

Uma dessas pessoas foi o Biziu, que foi marido de minha mãe por mais de 10 anos, figura maravilhosa de minha infância. Ele que dizia só gostar de filme de submarino, guerra e bang-bang me colocou para ver “Butch Cassidy and Sundance Kid”, coisa de 15 anos atrás. O filme é maravilhoso, talvez pela simples presença de Paul Newman, Robert Redford e Claudia Cardinale. E na cena final, Biziu achava graça quando baleados, presos numa casa no interior da Bolívia e cercado por meio exército boliviano, Cassidy pergunta para Sundance se ele havia visto lá fora o famoso delegado que os perseguia desde os EUA. Sundance responde que não, e Cassidy suspira e diz: “Que bom, por um momento imaginei que nós estivéssemos com problemas”. É o mesmo que eu sinto, só que ao contrário.

 

Published in: on 23/03/2011 at 00:37  Deixe um comentário  

RB e as mulheres #2

Essa é de uma outra carta do mestre Rubem Braga ao poeta Manuel Bandeira. Ele começa  a carta canalha e termina lírico, inversamente ao que em geral fazem os homens com seus amores.

“Pretendo desde rapazinho escrever uma longa coisa que nunca tive coragem de escrever a respeito da beleza das mulheres. Atrapalhadamente minha tese é isso: uma repulsa por tudo o que o cristianismo fez com as mulheres bonitas. Minha tese era declarar pateticamente a benemerência pública e universal da mulher bonita, pelo bem enorme, inapreciável que ela faz. Sustentaria essa tese com argumentos e evidências de toda espécie, inclusive esse de que na vida diária, na rua, a visão de uma mulher bonita desconhecida, a simples e passageira visão que ela nos oferece nos faz um bem tão grande e tão grátis que é um absurdo feroz não conceder a uma pessoa assim todas as espécies de privilégios neste mundo e no outro. Já me aconteceu estar desesperado, atormentado com problemas às vezes (não estou dramatizando, você pode acreditar) bem cruéis, duros, urgentes, insolúveis e nesse estado a simples visão de uma mulher bonita me dar um ânimo tão grande, um perdão tão completo para toda a estupidez da vida que em certa época eu talvez tivesse me matado se não fosse isso. Agora que estou pacato, com problemas menos horríveis e prementes, em geral apenas crônicos, com crises de agudez suportáveis, tenho tempo para pensar nesse benemerência que estupidamente o cristianismo desconhece. A mais boa mulher feia não pode fazer tanto bem como a mais ruim mulher bonita. Não é humano, mas sim desumano querer dar uma espécie de preferência moral à mulher feia, como faz o cristianismo, que sempre está em guarda contra a beleza (…) Você deve estar chateado e rindo dessa minha dissertação confusa sobre mulher bonita, mas o que eu queria dizer é que experimento pelos poetas como você uma gratidão semelhante. Quanta gente você não ajuda, não enriquece com a sua simples poesia. Que bem faz! Digo por mim, que lhe devo mil coisas, mil serviços íntimos” (Carta a Manuel Bandeira, , Livro: Rubem Braga – Um cigano fazendeiro do ar, p.298-9 )

Published in: on 20/01/2011 at 16:36  Comments (1)  

Dois mil e onze

2010 é só um retrato no facebook, mas como dói.

Foi um ano modorrento e chato. Porra, um filme de suspense de cabeça para baixo, quem é que aguenta. Clímax no início? Pois veja você, tudo começou com defesa de mestrado; verão carioca e Moacyr Luz; amigos cruzando a BR3 para me ver; eu cruzando pela primeira vez o Atlântico para visitar a amada no velho continente. Ano de casórios. 2010 começou fervendo e lindo e foi esfriando, esfriando… Quem editou essa merda? Pois só restou, que preste mesmo, a trilha sonora, restou o samba sagrado de todos os dias. Amo o samba, e quando digo amor, digo dessa coisa louca que nos persegue pela noite.

No fim do ano os amigos vieram, ou melhor, eu vim a eles. E o ano termina com um belo porre e uma grande ressaca, que já dura 3 dias. Mas se me perguntarem, eu direi, valeu a pena.

(O momento mais lindo desses dias foi a bela roda de samba do Sabiá, lá no bar do Orlando em Santa Tereza, a música, o pandeiro, a lua…ai ai)

Agora ando triste e cabisbaixo, cansado de mim e da minha inércia para a vida, o estudo, o trabalho, cansado de  promessas de fim de ano. Vai Rafael, vai ser qualquer coisa na vida…

Olha, mas peço a você aí que, por favor, tenha mais carinho e atenção para as pessoas ao seu redor. Olhe mais nos olhos de todo mundo e tenha paciência com os desejos alheios assim como com os seus próprios desejos e sonhos. Tente pensar e fazer valer as coisas e as pessoas que te fazem feliz. Nesse final de ano, mais uma vez, vi e senti que nada me faz mais feliz do que a companhia de bons amigos num bar, ao redor desse espírito sagrado da palavra e da amizade que por aqui chamamos de “cerveja”. E quando chega a música, ai… Nada mais lindo do que discutir com as pessoas que gostamos qual seria o melhor disco do João Nogueira (“Vida Boêmia” é claro), e num dia, mesmo sem cerveja, ser apresentado ao homoerotismo latente de uma canção do Djavan. Ou ainda descobrir com assombro, que a música “Eclipse Oculto” do Caetano é só o retrato patético de uma broxada (“Nosso amor não deu certo, gargalhadas e lágrimas…”).

Enfim, devaneios de fim de ano. Algumas coisas sérias também valeram a pena, como a derrota da direita na política brasileira e no futebol mundial. Se a gente tem dúvidas sobre o que diabos é a esquerda nesse mundo de jesus, a gente sabe muito bem que a direita tá aí e a espreita e isso basta, por hora. No futebol, graças ao divino, perdemos a copa. Basta de mediocridade, lealdade e espírito de equipe. Eu quero é beleza, graça e exuberância. Esse é nosso dever enquanto brasileiro para com o mundo, e no mais, que se fodam os não-nacionalistas e os chatos dos gramáticos.

Published in: on 30/12/2010 at 15:52  Comments (8)  

Sim.

Ainda não estou levando muito a sério o blog no ano que segue, como talvez não esteja levando mesmo todas as minhas obrigações e responsabilidades. E o ano segue valente para o seu final. Depois de um começo belo e pretensioso, ele segue indiferente e preguiçoso. Ele ou eu. Ele e eu. E só a idéia da Copa, no seu poder, é que segura a angústia e a dissolve em pura e besta expectativa. Como a Copa acontece de quatro em quatro anos, como nela ocorrem feitos extraordinários que nunca se repetem, há contida na idéia da Copa uma dimensão extra-temporal que transcende todo e qualquer evento terreno e que não tem nenhuma relação com futebol. De fato o que mais me lembro quando penso em Copa do Mundo são em certos momentos passados de minha vida, momentos de outras copas, nos quais sempre imaginava como estaria minha vida numa próxima Copa. Em 1994 aos 11 anos pensava como seria viver em 1998 quando estaria então com 15 anos de idade. No tempo e na vida incerta só havia a certeza de uma próxima copa. Em 2002 estaria então com 19 anos e toda a minha vida estaria clara e definida. Os 19 anos ficaram para trás já há 8 e essas perambulações imaginativas perderam a graça há muito mais tempo.

E agora depois de um início de ano virulento e apressado, marcado por grandes acontecimentos sobreveio o marasmo das coisas. O que não seria de se estranhar para quem há tanto ouve e tenta decifrar o segredo daquela música dos senhores Gudin e Pinheiro que diz: “Dia de muito é véspera de nada”. É preciso, antes mesmo da Copa que nunca trouxe nada além de uma alegria boba, espantar o diabo do marasmo. Trazer de volta a vida, bela, extraordinária e encantadora. Num texto curto que coloquei logo aqui embaixo do Rubem Braga ele sintetiza isso de uma forma linda quando agradece a todos os infortúnios, acasos, graças e violências que aconteceram na vida de sua amada, pois tudo isso a trouxe aos seus braços. É essa força que preciso, é dessa afirmação que quero me alimentar. É preciso afastar o medo de estar certo, é preciso excluir os talvezes, os nãos, e dizer sim, sim, sim! E mesmo sabendo que todo sim está contaminado com o erro, é preciso então viver o erro, reconhecer o erro e falar sim para outras coisas que possam então surgir.

             Sim, aí está a Vida. Por uma onto-teologia Tolstoiana.

Em 2009 coisas belas e tristes ocorreram. Foi um ano forte, um ano de envelhecimento. Foi um ano no qual perdi um grande amigo. Ano que ganhei uma sobrinha linda e esperta que continuou esta tradição feminina em minha família. Foi o ano em que conheci Anna Karienina do Tolstoi. Numa determinada passagem do livro ao conhecer e conversar com a extraordinária e bela Anna, Liévin, um dos personagens principais, pensa:

 ‘Sim, sim, aí está uma mulher!’, pensou Liévin, esquecido de si mesmo e fitando o belo rosto vivaz de Anna, que agora se modificara completamente. Liévin não escutava o que ela estava falando, inclinada na direção do irmão, mas estava impressionado com a mudança da sua expressão. Antes tão lindo em sua serenidade, o rosto de Anna passou, de repente, a exprimir uma estranha curiosidade, além de raiva e orgulho.
(…) O sorrido de Anna, o seu olhar, tudo lhe dizia que ela dirigia aquelas palavras apenas a ele, com pela sua opinião e, ao mesmo tempo, ciente de antemão de que os dois se compreendiam um ao outro.” (Anna Kariênina, p.684-7)”.

Nos últimos anos nada me impressionou tanto do que essa primeira expressão, que mais do que descritiva é antes de tudo performativa. Ela constitui aquilo que enuncia. O poder simbólico para Pierre Bourdieu é esse poder de construir o dado pela enunciação. Ao dizer “sim, aí está uma mulher” Liévin constrói uma mulher e também um mundo inteiro de relações. Este momento é o momento de verdade. Por isso é também teológico, funda o início das coisas e instaura um domínio do eterno, do transcendente. Por isso continua Tolstoi e diz que Liévin estava esquecido de si mesmo, e que ali tudo o que ocorria era destinado a ele, todos os movimentos aconteciam apenas para que ele os percebesse. O livro me marcou tanto, pois é uma obra que traz a tona toda a angústia, a solidão e o vazio, mas que consegue sair desse sofrer através de uma filosofia afirmativa, viva, exuberante, voltada para as pessoas, para fora. É linda e exuberante a afirmação, “sim, aí está uma mulher.” No último parágrafo do livro temos o vislumbre de toda a potência do pensamento de Liévin, ou de Tolstoi:

 “Continuarei a me irritar com o cocheiro Ivan, continuarei a discutir, continuarei a expressar minhas idéias fora de hora, continuará a existir um muro entre as coisas mais sagradas da minha alma e as outras pessoas, mesmo a minha esposa, e continuarei a culpá-la do meu medo e a me arrepender disso, continuarei a não entender por meio da razão porque eu rezo, e rezarei, mas minha vida, agora, toda a minha vida, a despeito de tudo o que possa vir a me acontecer, e cada minuto seu, não só não será absurda, como era antes, como terá também o incontestável sentido do bem, que cabe a mim infundir a ela” (p.801).

Sim, aí está um livro. Sim, aí está uma filosofia que vale ser vivida. Sim, aí está uma música. Sim, aí está uma mãe. Sim, aí está um pai. Sim, aí está um amigo. Sim, aí está uma decisão. Sim, aí está o meu caminho. Sim, aí está um amor. Sim, aí está um sorriso. Sim, aí está uma noite boa. Sim, aí está minha casa. Entre o ver, o sentir e o afirmar infundir em todas as coisas uma idéia infinita de bem. Passe impossível e necessário para um viver, para afirmação de uma vida. Fazer da relação com as coisas, mesmo as mais bestas, mas também as mais sagradas, momentos de afirmação da beleza, da verdade e da bondade.

Published in: on 05/06/2010 at 16:50  Comments (3)  

Neurótico!

pinto-grande-marie-claireTodas sempre dizem isso pra gente, de um jeito ou de outro.

O quadrinho, ainda que tosco, é muito feliz. Saudade dos amigos…Sempre!

Published in: on 25/10/2009 at 02:07  Deixe um comentário  

Certas Companhias #1

“A razão fundamental pela qual em alguma época da minha vida tive interesse pela política (…) sempre foi o desconforto diante do espetáculo das enormes desigualdades, tão desproporcionais quanto injustificáveis, entre ricos e pobres, entre quem está acima e quem está abaixo da escala social (…). Desigualdades particularmente visíveis e conscientemente vividas por quem, como eu nascera e fora educado em uma família burguesa, na qual as diferenças de classe eram ainda muito marcantes. Estas diferenças eram particularmente evidentes durante as longas férias no campo, quando nós, vindos da cidade, brincávamos com os filhos dos camponeses. Para dizer a verdade, entre nós havia um perfeito entendimento afetivo e as diferenças de classe eram absolutamente irrelevantes, mas não nos escapava o contraste entre as nossas casas e as deles, nossas roupas e as deles. Todo ano, retornando ao campo nas férias, ficávamos sabendo que um de nossos companheiros de brincadeiras morrera durante o inverno de tuberculose. Não me recordo, porém, de uma única morte por doença entre os meus colegas de escola na cidade.”

Norberto Bobbio

Bobbio, N. – Direita e Esquerda, p.125 (1995) em Loureiro, C. F. B. – A Assembléia Permanente de Entidades de Defesa do Meio Ambiente – RJ… Tese Apresentada a Escola de Serviço Social – UFRJ, 2000.

Published in: on 14/09/2009 at 21:36  Deixe um comentário  

Saudade e Dor

Resta a saudade dele, da sua alegria misturada ao seu jeito arredio muito peculiar que se via em certo trejeitos, como o de pentear o cabelo com as mãos puxando-os para frente. Difícil imaginar que esse cara que estava sempre por perto, e do qual havia entre nós um desejo mútuo de co-presença não está aqui entre nós já há quase 8 meses.

Foi dos poucos amigos que tive o imenso prazer de brigar, e brigar mesmo, dessas brigas que a gente chora de raiva, e que depois felizmente  se transforma em riso e alegria em algum boteco da vida.

Bogus e Eu na minha despedida de BH

Bogus e Eu na minha despedida de BH

Escrevi o texto abaixo depois de uma pelada. Sempre jogávamos bola no nosso antigo colégio às terças-feiras. Já estávamos na faculdade, mas continuávamos a jogar bola na escola. E depois da pelada (o que é óbvio) sempre íamos para um boteco, tomávamos umas e íamos embora achando que a vida tinha jeito. Eu e ele éramos os mais entusiastas dessa cerveja pós-pelada, eu por razões mais teológicas (com o Raul acredito que agente agrada a deus fazendo o que o Diabo gosta) e ele por razões mais terrenas do prazer mesmo da cerveja e da conversa. E certo dia ele disse que não ia pro boteco, tinha prova, tinha que estudar. E aí, é claro, eu zoei e insisti demais, (Pô, estudar, você faz publicidade?) . De fato, a história foi mais ou menos essa, e eu falei com ele, “Tenho certeza que você não vai conseguir não ir para o boteco”. E não é que felizmente eu estava certo…

“Dilema de um (pré) alcoólatra.

Rafael Prosdocimi

Estava em meu carro , numa terça feira fria, voltava pra casa depois de bater aquela “pelada” com os amigos, haveria prova amanha, nem sei de que, não que importasse muito, afinal eu fazia publicidade. Depois da pelada, os amigos me chamaram praquela cervejinha obrigatória, completar meu dia. Com firmeza, afirmei- Não hoje eu vou pra casa estudar, porque tenho prova amanhã…- Acho que fui firme, ninguém insistiu.

Me despeço de todos, e vou tranqüilamente pra casa, no meu uninho, lembro-me de cada lance da pelada, apesar de um não me sair da cabeça- Prós filha da puta…me canetou bonito…Pôô o prós tá no boteco, com o Roberto, o Papa e o Panga…

Mas e eu…eu vou pra casa estudar. Afinal tenho uma prova muito importante amanhã…Nem eu acredito nessa frase…Nesse momento me vejo ridículo; Desde quando uma prova vai ser mais importante do que sentar no bar e falar de sexo,futebol e o futuro do Brasil (não necessariamente nessa ordem) com meus amigos, alem de saborear a melhor cerveja da face da terra, que é essa depois de jogar bola.

No meio dos meus devaneios, quase avanço num sinal…cada minuto mais perto de casa e longe do bar…-já imagino a cena do brinde ( “Que nossa sogra nunca se chame esperança, diria o Digo”)-, aquele primeiro gole, período completamente desprovido de tempo, em que se saboreia a cerveja, aquela na qual não se fala nada e na qual se vai todo o copo, lagoinha é claro.

Pego a praça Alasca, onde viro pra ir pra casa, reduto final de minha decisão, é agora ou nunca…desespero…

Calma Bogus …uma voz me diz – Você tem apenas 21 anos…vai tomar “a sua” sossegado…- No momento que tenho que virar o carro pra ir me enfiar nos livros, não viro e continuo na praça…darei mais uma volta. De repente ouço outra voz a me dizer nos ouvidos- Deixa de ser imbecil, seu narigudo e vai tomar sua cerveja com a galera e que “se foda-se” a prova amanhã…pelo menos você nunca vai ter úlcera…-gostei dessa voz…

Paro o carro no pé de cana e ao descer do carro uma voz conhecida me diz : “É  Bogus, eu sabia que você vinha…tava esperando…- Esse Prós é mesmo um filho da puta…”

Belo Horizonte, idos de 2000 e alguma coisa…

Published in: on 02/09/2009 at 19:25  Deixe um comentário  

Sobre a amizade #1

A verdade triste da vida é que as coisas que nos habitam, preenchem e nos cercam todos os dias se esvaem no correr dos mininutos e das sem-horas que nos atravessam, e acabam por levar o sabor e valor disso tudo que é difícil definir. E nesse processo, nós que temos grande certeza de encontrar este ou aquele amanhã ou depois, e por isso adiamos esses encontros, o alegrião para esse amanhã, ou no máximo depois, que no entanto, podem se prolongar infinitamente, até a nossa vontade intervir rompendo a série, que é o que cremos. E os momentos juntos vão se adiando até que um dia acontecem e tudo o mais faz sentido.

Não venho sendo um bom amigo há algum tempo. No sentido de fazer valer essa vontade de ver e conversar. De intrometer e brigar. De deixar de lado as frescuras da vida. Tenho buscado subterfúgios para adiar mais um pouco essa série. E nesse processo os amigos vão ficando muito longe. Ainda que acredite que os amigos, contrariando minha filiação materialista, tem algo de abstrato, algo de imanente. Isso porque com grandes amigos, mesmo depois de longo tempo, ao nos encontrarmos as palavras vem e vão diretas e certeiras, a procurar riso e alegria, sem desvios ou culpas, tão comuns nessas horas. Esses desvios de quem se lembra de numa ocasião passada, na qual combinaram de se encontrar, mas por preguiça ou mesmo por privilegiar um outro afeto, não se foi a tal encontro e assim sem mais passaram-se 7 anos. Confesso que até bem pouco tempo vivi minha vida assim bem despreocupado com o movimento dos barcos, pois a terra continuava firme no rumar dos dias, e todos sobreviveriam. Mas ai veio esse janeiro fatal no qual perdi esse grande amigo. Aos pouco a dor aguda vai sendo substituída por uma tristeza bem rouca, grossa, cascuda. E a cada festa e encontro com os outros amigos me sobe a certeza dessa incerteza dos encontros que coloca no seu devido lugar o valor e sabor da vida. Mas se o intelecto assim o faz, a vontade débil de um adiador de prazeres, neurótico e tudo mais acaba sendo insensível aos olhos cheios de dores no caminho.

Ps: Vivo agora a certeza de ser adulto. Qualquer definição da vida adulta acaba sendo chata e cheia de senões. Minha certeza vem de algo bem simples. O tempo agora não é algo que se pode brincar. Ele não brinca mais com a gente. Ah, como era bom quando criança pensar algo como, e daqui há 20 anos como será? E a copa de 2006, onde será que estarei? Nossa, já terei 24 anos… Hoje tal pergunta só não é menos impossível de ser feita do que de respondida… O tempo hoje vai e quando a gente chama, ele não volta…

Published in: on 08/02/2009 at 16:24  Comments (3)