UM BRINDE AO CASAL QUE SE PEGA

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Sexta-feira, bar do Gomez, Santa Teresa, Rio de Janeiro. Meados de maio.

Indivíduo apresentável conversa com dama, certamente não menos apresentável do que este. Após uns dez minutos, indivíduos supracitados se atracam e é mão subindo e descendo, zueira linda e doida. Juvenil. Ao mesmo tempo que a pegação é digna, pela incontinência passional, parece-me fora de lugar. Ou estou eu fora do lugar, pois sinto-me invadindo a sempre sagrada intimidade da paixão. Mas, enfim, nossos efebos seguem apaixonados e atracados. Adolescentes. 22 anos, no máximo.

Não resisto, guiado pelo comandante geral da CIA que manda sua mensagem pela cerveja que bebo, escuto tudo o que conversam. E é genial. Antes, porém, contudo, todavia, devo confessar meus traumas. Enquanto adolescente fui um fracasso to-tal. O trauminha de mal-amado erigiu-se então em minh’alma. Até tempos atrás dava minhas surtadas perversas ao ver casaizinhos bem jovens e muito felizes com essa carinha de noite bem durmida. Tinha vontade de esfregar na cara deles algo triste, ruim e/ou vil, pelos quais seriam culpados. Tipo a fome no mundo.

Volto à tal sexta-feira. Como não me divertir com a moça que ficava insistindo em dizer de um tal ex, que foi para a Alemanha, um grande amor. Diz ela, sua única paixão. Foram 2 namorados, 3, corrige, mas re-corrige dizendo que um não conta. Vontade de dizer ao intrépido rapaz, “é esse, é esse que conta”. Camarada, papai Freud tá por aí lembrando que conta quem a gente não conta. Mas nada digo, posto que o carioca alvissareiro não parece precisar da ajuda de um mineiro neurótico.

Escutando esse jovem casal penso na vida, nas coisas boas da vida, no encontro, aquele fatal. E acho lindo que a moça fale tanto de ex-namorado, e ela fala muito. Escuto claro o seu recado, melhor, os dois: 1.“Presta atenção, pô não tô de brincadeira”. 2. “Eu não sou tão menina, como parece, tenho um grande amor no currículo”. É batata, a moça ou moço, falou de ex ou falou de família, pai, mãe, tá querendo algo sério, anota. Ou tá querendo parecer que quer algo sério, o que não dá no mesmo. E daí pulei para o texto que evito por tanto tempo em escrever e que haverá de se chamar:  “O dia em que o apaixonado Vinicius de Moraes matou o cínico Rubem Braga”. Explico.

Rubem Braga, que completaria cem anos em 2013 foi meu grande ídolo. Foi com ele, em suas crônicas, que passei a admirar e me apaixonar pela mulher. Foi por sua poesia. “As outras coisas que continuam me comovendo são as mulheres que vejo passar na rua. É inacreditável como qualquer mulher que passa me desperta turbilhões de pensamentos: sinto-me inteligente, fremente, e ao mesmo tempo estúpido. Como todas as artes são frágeis perante essa simples coisa natural!” (Carta a Moacyr Werneck de Castro, Livro: Rubem Braga – Um cigano fazendeiro do ar, p.294-5).  Foi com o velho Braga que, primeiro criei um certo ideal de homem namorador. Quase em paralelo fui lendo e escutando Vinícius de Moraes. E ao longo dos últimos 15 anos as diferenças entre eles foram se depurando. Vinícius, todos sabem, se casou 9 vezes e dizia “Que seja infinito enquanto dure”. Braga, solteirão convicto mantinha em sua residência uma placa “Aqui, vive um solteiro feliz”. Outra dele que merece menção honrosa, é que ele dizia preferir “namorar” mulheres casadas, pois estas nunca pretendiam dormir em sua casa.

Voltei nesse enredo por conta do jovem casal se pegando. Achei digno e bonito por parte dela querer dizer de ex- e falar de paixão antiga. Fosse eu o ele, ficaria cansado e a acharia besta… É bem chato assim de início ficar escutando papo de ex (é sempre chato). O colega em frente à dama, performatizava no estilo blasé, “È mesmo? Nossa…que coisa? É mesmo”. Enrolando, enrolando… Foi aí que me lembrei de Vinícius e Rubem. Confesso que o meu eu ideal foi por bom tempo o do velho Braga, o do carioca charmoso, porém fútil e útil. Daquele que no fundo não está aberto para nada, pois está aberto para qualquer coisa. E foi aí que percebi que, tendo ficado triste e sozinho boa parte da minha vida, não consigo mesmo entender o que leva uma pessoa a abnegar desse risco da paixão e do amor. O risco Vinícius. Não consigo deixar de achar medíocre aquele que trata a dama da noite como coisa posta, dada, codificando palavra, olhar e gesto em categoriazinhas cerradas. Fugindo do infinito do olhar e do toque, isso da ordem da coisa, os incategorizável. Esse povo foge mesmo é do delírio e do desejo. A paixão Braga é linda, lírica, poética, gostosa. Mas óbvia e conhecida. A paixão Vinícius é aposta sem crédito. É jogo sem regra, é um infinito de metáfora barata. E quem foge disso, por motivo quer que seja, foge da vida, cumpadi… Foge, e num adianta vir dizer que foge por medo, porque todo mundo tem medo, sempre, como me disse a bela cigana.

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Published in: on 01/10/2013 at 14:28  Comments (4)  

Diário emotivo-reflexivo de campo #3

as meninas trabalham

No meu primeiro dia na lan-house aqui em Conceição do Mato Dentro puxei papo com a moça que trabalha no estabelecimento. Queria apenas jogar conversa e a sensação de não conhecer ninguém, fora. Nisso perguntei se ela era da cidade mesmo. A moça sem desconfiar dos meus não-propósitos da pergunta deu logo uma resposta sociológica para eu ficar esperto e ir anotar no diário de campo. Ela disse que o pessoal que vem de fora da cidade não trabalha ali não, nem em supermercado, loja, essas coisas… É mais nas firmas mesmo. Isso foi ha quase um mês. Na última semana fui experimentar um sanduíche no “Coragem Burguer’s”, estabelecimento famoso por aqui. Já havia sido avisado das doses cavalares de bacon que vem no hamburguer. Cada sanduíche tem o nome de uma cachoeira da região. Tabuleiro é o X-Tudo. Três-Barras é o X-Banana, que foi altamente recomendado, mas que ainda não experimentei. Logo que fiz meu pedido reparei que havia dois homens adultos a fazer sanduíches, enquanto o atendimento era feito por mocinhas nos seus entornos de 16 anos, um pouco menos, talvez. Além deles havia um rapazinho que servia bebidas. Esse não tinha nem 14 e constantemente era chamado atenção pelo sujeito que fritava os hamburguers.

A menina, no balcão, anotava, levava e cobrava os pedidos. Parecia desenvolta na função. De vez em quando sorria. O rapazinho não disfarçava o desagrado no trabalho. O sujeito da chapa quente também não, parece o dono ou algo assim e tem uma cara mais emburrada. Deve ser as dificuldades da vida.

O sanduíche demorou muito, mas muito mesmo. Ficava olhando angustiado para todos os pedidos. Na outra barraca, que também faz parte do estabelecimento, a mesma configuração. Mocinha anotando, entregando, cobrando, sujeito homem fazendo na chapa, carne, ovos, bacon, banana.

As mocinhas não devem receber mais de meio salário. Devem estudar pela manhã. Os sujeitos homens donos devem ter dificuldade para conseguir empregados. Na cidade que minera, os funcionários preferenciais de muitos serviços mal-remunerados são mocinhas inteligentes, espertas e dóceis. Por enquanto, por enquanto…

Published in: on 26/05/2012 at 16:16  Deixe um comentário  

Diário emotivo-reflexivo de campo #1

felicidades banais

             Logo no início da faculdade cheguei a conclusão de que não adiantava escrever o que os professores falavam ou botavam nos quadros. Durante os últimos anos de colégio já pensava que anotar era uma perda de tempo, pois eu nunca utilizava essas notas e ainda por cima não prestava atenção nas palavras do professor. Na faculdade, principalmente após a disciplina de Sociologia, vi que as coisas importantes ficavam na cabeça, mesmo se eu não quisesse. Assim, passei a deixar de me preocupar com um caderno sistematizado, escrevia nomes, datas e lançava rabiscos apenas para ocupar o tempo-espaço. Com a felicidade é a mesma coisa. Não precisa tomar nota. Essa alegria besta que aparece não pede preparo e atenção nem nada. Apenas acontece e a gente sabe. É  besta mesmo. Vem sem rodeio, subterfúrgio ou aviso prévio. As coisas importantes, belas e fortes é que marcam a gente e não o contrário.

                O grande amigo, o Patrão, vem realizando ao longo dos últimos anos festas memoráveis num belo casarão de sua família localizado à rua Rio Grande do Norte, em Belo Horizonte. Numa dessas festas, há coisa de uns 3 anos, me dispus a ajudá-lo a organizar. Compramos cerveja, carnes, refrigerante e carvão. Ao chegar na casa organizamos o espaço para a festa. Os amigos  e amigas foram chegando e trazendo mais bebidas (homens levam uma caixa de latinhas e as mulheres meia, invariavelmente). Ainda era cedo, pouca gente tinha chegado e coloquei meu velho e estimado Tocador de Mp3 para tocar. Provavelmente queria mostar alguma coisa para o Patrão, mas eu não havia preparado nada para a ocasião. Havia apenas música brasileira. Muito samba, uns jorges bens, erasmos, algum tipo toni tornado, joão nogueira, robertão, talvez um choro e pode ser até mesmo um depressivo eduardo gudin. Fui tomado de alegria ao perceber que as pessoas iam chegando e todo mundo gostava do som que rodou madrugada a dentro. Ah, se ele tivesse me pedido para preparar uma playlist, provavelmente nada teria dado certo e eu teria me frustrado, de novo. Nessa mesma noite, ainda sob o contentamento de ouvir “as minhas canções” nas vozes alheias, saboreando e discordando dos comentários sobre este ou aquele compositor fui brindado pelo supremo elogio de uma moça, uma que o Rubem Braga diria que é dessas que a gente comenta que há mais feias.  Ela virou para mim, já tarde da madrugada, eu bêbado e feliz e ela me disse: “Sabe o que você é…? Você é um boêmio!!” Ah, a glória, a glória… Salve salve o reconhecimento.

                Agora ando a fazer meu trabalho de pesquisa de campo para minha tese de doutorado, em Conceição do Mato Dentro, região belíssima das Minas Gerais. Ao voltar para a casa onde estou morando, depois do almoço, avisto a rua da foto abaixo.

Published in: on 03/05/2012 at 15:07  Comments (2)  

Inverno de 2000

Não lembro o dia, mas sei que comecei a ficar nostálgico em junho ou julho de 2001. Quando as manhãs belorizontinas esfriam e o céu fica de um azul tão bonito. Imenso, claro, infinito. A partir do inverno de 2001, por mais outros dez consecutivos, era só baixar a temperatura que eu sempre voltava a reviver o inverno de dois mil. Nada me avisava dessa lembrança. Ao andar numa rua qualquer, quando dava por mim, estava encolhendo o corpo dentro de um moleton surrado e sentindo novamente esse outro período de minha vida.  E o que houve de tão belo e excepcional no inverno de dois mil, meu caro, o que aconteceu aí? absolutamente nada.

A lembrança que me veio com força descendente nos últimos dez invernos é tão banal que fica difícil até mesmo descrevê-la. Nessa época de frio, no meu último ano de colégio, nós descíamos para o pátio do colégio, durante o recreio, e ficávamos unidos, sentados numas frias mesas de mármore, cobertos por moletons “hard rock cafe” e ideologias burguesas. Sentávamos próximos uns dos outros, conversando e buscando um lugar ao sol, literalmente. Foi um tempo de reforço nos laços de amizade, de aproximação de meninos e meninas, em todos os sentidos. Essa lembrança que agora começa a perder seu sentido, totalizava minha experiência daquele tempo, daquele colégio, as angústias de solidão daquele momento. Nós, próximos pelo frio, tentando esquentar o corpo, conversando tranquilamente no último ano de escola, na passagem de momento na vida, no preparo do rompimento desse laço “semi-natural” que nos unia naquela escola de classe média alta na zona sul-sul do belot.

A lembrança do amigo tão querido, morto de forma tão besta, dói muito nesses momentos. Como pensar que o Bogus, tão presente naquelas conversas de inverno já não está mais presente aqui, nessas primaveras e nesse verão.

A partir de inverno de 2001 passei a viver um pouco mais o passado, a me voltar sempre para uma lembrança, para um olhar. Mas, mais do que uma coisa assim fragmentada o que mais se inaugurou nesse momento foi reviver um tempo-espaço tão significativo a partir de um momento singular. E agora, o natal. O fim de ano, esse tempo extendido em minha cidade natal, os reencontros com amigos tão queridos que também foram viver longe da Afonso Pena.  Nos últimos dois anos venho rememorando o fim de 2009. Época difícil de finalização e muita angústia no mestrado. O momento da escrita final, no qual antecipava em parcelas e sem tanto medo, a certeza objetiva de uma mediocridade acadêmica, quando esperava tanto de mim e de minha escrita. Fiquei por muito tempo esperando as belas frases e as análises inteligentes que deveriam aparecer. Esqueci que elas não caminham sozinhas, e que não se faz uma dissertação apenas com citações instigantes e pensadores complexos. Momento de viver para dentro, nesse lugar inóspito e solitário, de repensar caminhos e escolhas. Esse momento que foi de muita angústia, mas também de belezas e exuberâncias, quando tomamos para nós mesmos a vida, a suja, a do “wild side”.

Ah, como fico melancólico e saudoso ao beber com amigos queridos na minha cidad.. Bom, que venha dois mil e douze. Com novas lembranças, novas saudades. Que se aprochegue mais essa senhorita vida. Safada e altaneira.

Ah, como gosto dessa palavra, “altaneira”…

Published in: on 02/01/2012 at 14:04  Comments (2)  

Bipianas #1

Aprenda a chegar nos lugares. Mais do que isso, aprenda a sentir, saber se colocar e se movimentar dependendo do lugar que você está.

Desde a primeira vez que entrei no Bip-Bip senti algo bem diferente. Senti uma força de outro plano que me disse: “Vem sempre, menino!”. Senti uma necessidade de que deveria estar ali mais vezes, todas, se possível. Foi o que senti também, anos atrás, no bar Opção, do seu Ronaldo, lá em BH. Fico devendo um texto traçando as relações entre estes dois cenários, o bip e o opção, e seus donos, Alfredinho e seu Ronaldo.

Uma coisa que ambos fazem muito bem, e isso não é de forma alguma por acaso, é dar seus esporros, seus recados. E isso não é nada mais, nada menos do que o signo derradeiro, o aviso final aos desavisados. O esporro, não importando o conteúdo, diz sempre a mesma coisa: “Meu chapa, você não está em qualquer lugar. Você não está na sua casa, no seu quarto, num boteco sem dono, sem história, sem singularidade, portanto, respeite!”. Quando se chega nesses lugares se cruza uma fronteira. Há algo radicalmente estranho nesses bares. E compreendo muito bem porque várias pessoas não gostam de ir aí, já quase não chamo ninguém para me acompanhar no bip. E vejo vários problemas nesses bares, vejo coisas que não deviam acontecer e que acontecem. Mas essa experiência de viver um espaço que não é seu, que é radicalmente outro é algo muito poderoso e lindo. Dá uma tranquilidade, uma paz. Por isso vejo sempre minha relação com esses espaços no enquadre do sagrado. Saber que há transcendência, que algo não se reduz a sua percepção imediata é entender que o mundo é povoado por outras pessoas, outras regras, outras leis, outros sentimentos.  Meu amigo, sinta, não tente entender.

 

Published in: on 10/10/2011 at 02:46  Deixe um comentário  

B de Bip-Bip

“Eu chego lá, parece que cheguei em casa. Cheguei na maravilha, cheguei no céu, cheguei aonde eu queria chegar.”

 

Published in: on 30/08/2011 at 21:05  Deixe um comentário  

A. de Alfa

“Os melhores de todos serão aqueles que têm apenas uma única certeza: independentemente dos fatos que aconteçam enquanto vivemos, estaremos condenados a viver conosco mesmos”. Hannah Arendt

Apesar do nome deste blog tenho falado pouco, ou quase nada dos bares. E é talvez um descuido. Não descuido com os bares, mas um descuido comigo mesmo. Porque os bares são parte de mim, são meus “lares”, se me permitem a infâmia. Mas é isso aí, quando entro num bar, barulhento, confuso, com garçons berrando pedidos, gente fazendo caras e bocas, aí sim… Aí sim, me sinto em casa. Não sei dizer sobre o meu conforto nessa bagunça, mas que las hay, las hay.  Em Belo Horizonte nenhum lugar, nada me fez e me faz mais feliz do que o Opção. Ali eu encontrei, em matéria e devaneio, tudo o que se precisa para viver. Ao seu Ronaldo e a todos da casa serei eternamente grato. Mas o Opção sempre foi um lugar do delírio, não tanto isso do bar-lar, dessa relação próxima e cotidiana, quando, por exemplo, sem ir ao bar ele vai a você na figura de um garçom que atravessa a rua na sua frente. Em BH senti algo assim pelo Bar do Paulinho, apesar do dono do recinto ser dado a desaforos. Mas enfim lá também foi um bar de infância/adolescência/mulecagem. Assim, nenhum bar em minha vida se equivale ao Alfa, aqui no rio, ao lado da casa onde morei e fui feliz por mais de 3 anos. Chego agora de lá, fui tomar uma cerveja e comer uma pizza de carne seca com catupiry para descansar da escrita do meu projeto de tese. E sentado no bar não impedi as lembranças. Ali, entre paredes de um azulejo de muito mau gosto recordei histórias, momentos, pessoas. Sentado numa cadeira que é grande demais para o tamanho da mesa, percebi que ali me senti sempre em casa. Não seria exagero dizer que a escolha da casa onde morei, a 20 metros do bar, se deu em larga medida pela presença desse bar. Num domingo, nos idos de 2008, eu e Gabriela passamos na porta a caminho do apartamento que iríamos olhar. Ao passar na porta do bar, no seu clima peculiar de domingo, cadeiras na rua, conversas animadas, um preparo dos clientes para o futebol de mais tarde, senti ali algo bom. Essa coisa que a gente sente e diz quando encontra o lugar da gente, no mundo, na existência ou mesmo em Botafogo. Foi no Alfa que, ainda na primeira semana de mudança, sentamos para almoçar e esperar o fogão que chegaria da loja naquele dia. Na dúvida, comi logo uma feijoada, ainda que de início tenha refugado, pensando que talvez não poderia dar uma dormida depois do almoço. Disso não lembro, mas é provável que não tenha resistido a siesta. Poucas semanas depois resolvi almoçar lá por volta das 5 da tarde. Corri pro Alfa e perguntei para o garçom, o Neto, se ainda havia almoço. Ele, zombeteiro me disse: “Rapaiz, aqui quando acaba o café da manhã, começa o almoço e quando termina o almoço já é a janta” Tem como não se apaixonar por um lugar onde se ouve isso?

O Alfa fecha por volta das 3, 4 da manhã e abre antes das 7, nos dias de semana. Nos fins de semana ele abre por volta das 9, com isso poucas vezes vi o bar fechado. E é possível que denunciasse mais o fim do mundo ver o Alfa fechado do que não ver o sol. Mas foi quando quando terminava minha dissertação de mestrado, ansioso e angustiado, que nós dois mais nos aproximamos. Enquanto achava que nada daria certo, que não conseguiria terminar nem o capítulo 2, quiçá a dissertação, corria para o alfa e lá tomava, invariavalmente, uma cerveja e comia ou uma pizza ou um belo PF, que às 3 da manhã, é muito mais PF. Voltava para casa repleto de idéias e bem mais tranqulo. Os turistas que chegam ao rio logo querem conhecer o Pão de Açúcar, o Cristo e essas coisas, Ipanema, Lapa. Mas só hoje me dei conta de que nunca deixei de levar um amigo para conhecer o Alfa. Alguns compartilhavam dessa minha alegria esfuziante pelo recinto, enquanto outros apenas prezavam muito minha amizade. Não me importava o que achavam, importava que conhecessem o “meu” bar. Mais do que um bar o Alfa foi um tempo. Que passou. Mas o Alfa continua lá, firme, nos lembrando como diz um dos velhos entrevistados por Ecléia Bosi, que não é o tempo que passa, é a gente que passa por ele.

Published in: on 21/07/2011 at 12:41  Comments (5)  

Dois mil e onze

2010 é só um retrato no facebook, mas como dói.

Foi um ano modorrento e chato. Porra, um filme de suspense de cabeça para baixo, quem é que aguenta. Clímax no início? Pois veja você, tudo começou com defesa de mestrado; verão carioca e Moacyr Luz; amigos cruzando a BR3 para me ver; eu cruzando pela primeira vez o Atlântico para visitar a amada no velho continente. Ano de casórios. 2010 começou fervendo e lindo e foi esfriando, esfriando… Quem editou essa merda? Pois só restou, que preste mesmo, a trilha sonora, restou o samba sagrado de todos os dias. Amo o samba, e quando digo amor, digo dessa coisa louca que nos persegue pela noite.

No fim do ano os amigos vieram, ou melhor, eu vim a eles. E o ano termina com um belo porre e uma grande ressaca, que já dura 3 dias. Mas se me perguntarem, eu direi, valeu a pena.

(O momento mais lindo desses dias foi a bela roda de samba do Sabiá, lá no bar do Orlando em Santa Tereza, a música, o pandeiro, a lua…ai ai)

Agora ando triste e cabisbaixo, cansado de mim e da minha inércia para a vida, o estudo, o trabalho, cansado de  promessas de fim de ano. Vai Rafael, vai ser qualquer coisa na vida…

Olha, mas peço a você aí que, por favor, tenha mais carinho e atenção para as pessoas ao seu redor. Olhe mais nos olhos de todo mundo e tenha paciência com os desejos alheios assim como com os seus próprios desejos e sonhos. Tente pensar e fazer valer as coisas e as pessoas que te fazem feliz. Nesse final de ano, mais uma vez, vi e senti que nada me faz mais feliz do que a companhia de bons amigos num bar, ao redor desse espírito sagrado da palavra e da amizade que por aqui chamamos de “cerveja”. E quando chega a música, ai… Nada mais lindo do que discutir com as pessoas que gostamos qual seria o melhor disco do João Nogueira (“Vida Boêmia” é claro), e num dia, mesmo sem cerveja, ser apresentado ao homoerotismo latente de uma canção do Djavan. Ou ainda descobrir com assombro, que a música “Eclipse Oculto” do Caetano é só o retrato patético de uma broxada (“Nosso amor não deu certo, gargalhadas e lágrimas…”).

Enfim, devaneios de fim de ano. Algumas coisas sérias também valeram a pena, como a derrota da direita na política brasileira e no futebol mundial. Se a gente tem dúvidas sobre o que diabos é a esquerda nesse mundo de jesus, a gente sabe muito bem que a direita tá aí e a espreita e isso basta, por hora. No futebol, graças ao divino, perdemos a copa. Basta de mediocridade, lealdade e espírito de equipe. Eu quero é beleza, graça e exuberância. Esse é nosso dever enquanto brasileiro para com o mundo, e no mais, que se fodam os não-nacionalistas e os chatos dos gramáticos.

Published in: on 30/12/2010 at 15:52  Comments (8)  

Folga: Enquanto a vida não me escala…

Espero conseguir dar um tempo aqui nesse blog. Tenho que ir ali e terminar um mestrado, depois volto. Todas essas palavras digitais acabam me distraindo e por isso importa dar um tempo. Mas, às vezes, não escolho mesmo escrever um texto, é ele quem me escolhe. Como nesse agora que segue aqui embaixo. Pretendo mesmo esquecer da vida (que me deixou ferida, diria o pagodeiro) e partir para a análise e escrita acadêmica.

Mas caso a dor sobrevenha e estoure um texto, bom aí não terei mesmo escolha…

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Deus Protege a Quem Chora.

Foi numa noite de tristeza e solidão. Foi ao final do dia ao me descer o cansaço; no limiar da enunciação, de uma explosão ou de um grito; de um choro, agora incontido. Num não saber o quê, porque e quando me coloquei para fora de casa. Andaria para onde quer que fosse. Choraria, bailaria, falaria. Quem sabe um delíriozinho qualquer. Buscava que da solidão unida a angústia brotasse um gesto de amor. Ser mineiro no Rio de Janeiro nos traz a experiência culminante desse “ser mineiro”. Na diferença com o calor, a vida e o riso das pessoas, entendo um pouco mais quem sou.

Foi no meio disso e à falta de companhia que me dirigi ao Bip-Bip em Copacabana. Bar famoso pela boa música. Não fui atrás de som e sim de redenção. De um pouco de paz. Ao chegar lá tudo estranhei. Sozinho, sentia que me olhavam… Não há mesa e ficam todos em pé na rua, exceto pela roda de músicos que tocam e cantam, sentados nas únicas duas mesas dentro do recinto. De início fiquei incomodado. Mal sabia onde por meus pés e mãos. E aí resolvi ir embora, passear pela praia de Copacabana desistindo, temporariamente, de encontrar ali minha paz. Era domingo e o calçadão estava cheio. Putas, turistas, tias gordas e sebentas. Meninas e meninos feios. Depois de um tempo resolvi voltar ao bar, última chance… Dali iria embora enterrar minha dor na cama, chorar até sobrevir o soluço vazio, a secura da lágrima, o silêncio de quando a palavra acaba…

E na volta senti algo diferente. Nos sambas antigos, nos versos floreados, aos poucos me achei. Nas cabeças brancas de violeiros impacientes, refiz um passado. Na roda embalada pelo compartilhamento da emoção me vi menino… Vi outras noites, outras pessoas, alguém que fôra eu…
“João, são muitas as noites antigas que me prendem no meio desta noite. Pobres as noites sob as lâmpadas da redação, mesquinhas as noites de trabalho insincero, tristes noites sem ternura noturna”…
Tristes noites sem ternura noturna. Nos versos do velho e fundamental Braga, recapitulei noites antigas dentro desta. Vivi mais uma vez outras noites entre homens velhos e brancos, com as mesmas caras rosadas, barrigas salientes e a pose de quem tudo entende da vida. O ar desses homens que enunciavam que eles tinham sim, e um dia eu também teria, todas as respostas. Nos gestos dominadores desses machos-alfa revi ilusões. Mas no meio da música, do samba, do chico, do cartola, do elton, ah… No meio dessas canções e do amor nos olhos desses homens e mulheres já atravessados pelo tempo, vi as coisas mais lindas da vida, de minha vida. Lembrei uma noite específica, na qual estava numa outra roda como essa. Roda de velhos e de música. E lá, nessa noite passada, eu encontrava uma paz tão verdadeira e estranha aos meus vinte anos que tudo isso me desarranjou muito. E em determinado momento nesta noite, na qual  me preparava para deixar a roda e a música, e daí partir com amigos jovens a caçar mulheres, meninas, bocas e, talvez, seios, pensei uma coisa. Algo que baixou com todo peso e brutalidade de uma benção, ou maldição. No meio disso tudo, na dúvida se partiria para a “night”, pensei: “Para onde posso eu ir depois de estar aqui e viver essa maravilha, essa beleza, essa música? Como sair daqui e me dirigir a uma boate, a uma palavra sem sentido, a um gesto que nada traz de beleza?”. É claro que não parti e fiquei ali com os velhos e o violão. E nunca, nunca me arrependi dessa escolha. Talvez me arrependa simplesmente de não ter escolhido mais isso, em outros momentos da vida. O caminho da beleza. O caminho do infinito, independente de tecidos e intumescências…

Isso veio a mim, e restaurou uma paz. Parcial, mas ainda sim uma paz. A vida faz sentido. Há algo que valha uma lágrima. Há princípio no acordar. Coisas assim, muito afirmativas. E aí vivi minhas muitas noites, minhas noites de música e beleza, minhas noites de solidão, de abandono, de silêncio e vazio. De choro. E no meio disso, esses velhos  sagazes ao ver a lágrima descer logo escalaram o Elton e o Paulinho Pinheiro a me socorrer:

“Choraaa… Põe o coração na mesa.
Choraaa, sua secular tristeza
Tiiiira… o teu coração da lama
E chora a…dor santa e a dor profana
Que….
Deus Protege a quem chora”…

Published in: on 14/11/2009 at 03:30  Comments (7)  

Um Deus Possível

“Eu só poderia acreditar em um deus que soubesse dançar” – NIETZSCHE

Andei pensando numa coisa que pode até mesmo ser simples, mas que não é tola.

O mistério das coisas e das pessoas, dos lugares mágicos, místicos, estranhos e belos. O mistério do bar, da singularidade daquele bar, do garçom ou da música, ou ainda daquela menina que se perdeu da gente na passagem de uma madrugada para um triste amanhecer, naquele bar de mesas e espírito de plástico que nunca fecha. A certeza da humanidade universal no sempre deixar a colherzinha suja e sozinha no meio da pia, depois de toda louça lavar. A beleza de achar a coisa mais linda ver e ouvir João Nogueira cantando “Mineira”. O sentimento profundo de entender que através de uma pessoa chamada Rubem Braga foram enunciadas as grandes verdades da vida. A certeza da beleza das coisas e do mundo numa menina magra e bela dirigindo um carro a sorrir sem conseguir se controlar, despertada por palavras e gestos bobos de um “rapaz novo encantado com vinte anos de amor” e uma intenção bem sapeca, ainda que desprovida de razão ou motivo concreto. O mistério de entender que aquela pessoa ali, em tudo diferente de você, é bem possível de fazer qualquer coisa, inclusive te entender. Ou te fazer entender que aquilo que você achava saber era pura fantasia classe média besta e porca. E ainda o sempre sentir algo grande e cerimonioso se misturar com a gente no meio de um samba bom, a alegria a nos atravessar e transformar. Achar a si mesmo ali onde você não se estava.

Uma coisa central para a vida, o amor, a política, a amizade, a arte. O que quer que seja, é esse algo do transcendente, de uma compreensão que nos atravessa e nos encontra. O sentir e entender que o que chegamos a pensar ser só nosso é muito mais, está no mundo, atravessa pessoas e corações. A passeata, a cama, o bar, o samba. Não interessa onde, pois há sempre essa dimensão no qual o agir mais individual, o pensar mais concreto e sólido abraça e abrange vários, muitos, sem deixar de ser o que sempre fora.
Quando Rubem Braga intimamente diz que já foi acusado de amar mulheres tristes, quantos, eu pergunto, quantos culpados não circulam por aí protegidos pela luz natural e pela dissimulação, quantos?

Algo sério a se estudar. Projeto, não de doutorado (que pena…), mas de vida. Focar nesse mistério das proximidades entre diferentes. Da compreensão do universal no mais concreto. Da passagem do fechado para o espírito sempre aberto. Dizendo que falo da compreensão, do entendimento, estaria preso a dimensão da razão. Focando no transcendente haveria sempre esse ranço do divino. Mas… e aqui arrisco, talvez a expressão do divino contenha antes mesmo da idéia de um terceiro, Deus, uma maneira de expressar esse desejo de comunhão, de união. Não consigo deixar de associar este estar num samba ouvindo e sendo ouvindo, cantando e gritando à condição daquele que reza e acredita.
Depois que se entende que o sexo é sempre um fracasso, a gente passa a dar mais valor as pessoas, a vida, a conversa. Ponto mais belo da vida.

Published in: on 04/09/2009 at 03:59  Comments (1)