Entre a transcendência e a imanência, eu e o Galo.

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             Tenho uma relação dúbia com a filosofia e as artes abstratas. Gosto dessas coisas do pensamento metafísico, mas me acho pedante já ao escrever “imanência”. Sinto que em algum lugar zombam de mim por usar palavras pomposas para  dar sentido ao caos do mundo. Porém, que venha a zombaria. Há alguns anos sinto um aperto existencial na pressão semântica dessas palavras, a imanência, por um lado, e a transcendência, de outro. Talvez utilize esses termos do meu próprio jeito, é preciso, portanto, explicar como me tocam essas palavras, e que diabos o Galo tem com isso.

                É difícil falar de transcendência sem imaginar Deus em sua onipotência imagética . Mas acho um modo preguiçoso de pensar a transcendência, não sigo por aí. Falar da transcendência implica acreditar que algo que não está presente age em nossa vida. Algo que atravessa tempo e espaço, imaterial e que não pode ser identificado pelos nossos sentidos. Algo da ordem do espírito. Deus é um exemplo claro pois, segundo os crentes, ele está e atua em todos os lugares e momentos. Podemos pensar no amor também, pois como entender que um rapaz é diferente daquele outro até mais bonito; ou porque será que aquela moça vale uma vida passada juntos? O que existe no beijo da mulher amada? Existe saliva, existe carne, talvez cáries e bafo. Mas há amor?

                A imanência significaria a pura presença. Está tudo aí impregnado nas coisas. Não há fora, não há segredo nem sagrado. Todos os atos são acolhidos em sua naturalidade e presença. Nada de extraordinário. Nenhuma porta está fechada, nada escondido, nenhuma revelação  entre linhas ou beijos.

                Atravessando o pântano da juventude de forma solitária e romântica tendi para um puro transcendentalismo burguês, sem nem mesmo perceber. Há algo mais absurdo do que esperar que chegue a mulher amada, o verdadeiro amor? A transcendência aparece muitas vezes nessa sensação de singularidade. Algo que é único e que não se repete. A imanência em sua presença é repetição e cotidiano, nada de romantismo ou ficção. Foi no início da faculdade, pelo interesse político-poético nos entornos do marxismo se misturando à forte impressão do cotidiano como lugar de ação, nessa junção peculiar de um zombeteiro Rubem Braga com uma profunda Agnes Heller, que começou a confusão. A minha transcendência seria buscada no cotidiano barulhento, no meio da bagunça. Ainda que me movendo num mundo material, sem esperar a intervenção de nenhuma força cósmica para resolver nossos problemas, eu teria e queria a minha parte de infinito nesse latifúndio. Achei e continuo achando em Tolstoi. Em Rubem Braga em suas descrições absurdas de cotovelos e ombros femininos. Na música de Paulo César Pinheiro, João Nogueira e Eduardo Gudin. No olhar da mulher que amo. A rotina dura, os problemas, os desenlaces, todos vinham trombando e gerando poesia. O romantismo continuou dessa forma, buscando maravilhas naquilo que é banal e precário, num gesto, num traço de corpo, num “transformar a vida prosaica em poesia”, nas belas palavras de Agnes Heller. Se a história fosse apenas essa não haveria tensão nem conflito entre os termos. Haveria apenas um belo encontro do infinito na finitude das coisas, mas não é essa a história. O problema é que o apego à esse mundo imaterial traz desânimo para o cinismo e a fragilidade da vida cotidiana. Desses acordos que nada valem e esgarçam a palavra e o sentimento. A vontade de se isolar das pessoas e terminar o dia com Tolstoi aparece. E é uma luta cotidiana para afastar essa vontade de infinito, belo e mortífero. E é aí que imanência vem salvar a vida, no pagar conta, no arranjar dinheiro, no tomar uma cerveja, sorrir e esquecer as dores.  É preciso balancear a busca do infinito, no escolher bons objetos de adoração e poesia. Chego então ao Galo e por extensão, ao futebol.

                Não lembro em que Copa do Mundo, mas quando questionaram Alessandro Nesta, zagueiro italiano sobre dinheiro e prêmios para jogadores da Itália no caso de título mundial, o jogador disse que numa Copa do Mundo o dinheiro não importa. A honra e a vontade tem que brotar de outro lugar. O futebol tem seus momentos de puro infinito e beleza. A Copa do Mundo, infelizmente, vem se mostrando cada vez mais pirotecnia financeira e pouco futebol, mas a princípio é o lugar privilegiado para nascer a magia e a lenda.

                O título da Libertadores do Atlético em 2013 foi pura transcendência. Entoam-se hinos, evocam-se santos, fala-se do acaso e da sorte dessa “saga”. Nós, atleticanos, vamos nos lembrar de cada um dos gols, lances e defesas desses jogos. Havia uma força maior surgindo do suor desses jogadores. Tínhamos a sensação, estranha, e que se fortalece com o passar do tempo, de que a despeito de todas as dificuldades, seríamos campeões. E fomos. E seremos sempre. A libertadores do Atlético não representa o título de um campeonato que ocorre a cada ano, claro que não. Acabou a matemática. A transcendência aparece quando passamos a fazer muitas histórias de um único momento.  É de um sorriso ou de uma palavra que nasce o amor. A singularidade do momento se desdobra não em um, mas em muitos caminhos, vidas, destinos. Quantas teses, músicas, sentimentos são acionados na defesa do penâlti de São Victor contra o Tijuana? E o que falar do valoroso Léo Silva fazendo o gol derradeiro na final?

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     São muitos esses momentos e infinitas as sensações. Ser campeão jogando feio não me interessa. Só me interesso pelo infinito. E a beleza não é plasticidade sem força e vontade. Tudo o que tivemos na fase final da Libertadores nos faltou no dia de ontem. Foi logo após o gol de empate do Ronaldinho contra o time marroquino que me dei conta de que jogávamos de igual para igual com o Raja Casablanca, nada havia de especial nesse time. E a derrota veio, banal. O que vimos ontem foi o epílogo da VERDADEIRA história, a saga da Libertadores. Em trinta anos vamos nos lembrar dos refletores apagados no momento único, do gol salvador do Guilherme, o RENEGADO. Não foi o Nelinho que conseguiu chutar a bola com a perna esquerda para fora do Mineirão, foi São Victor. Escafandristas procuraram a bola na lagoa da Pampula, sem encontrar. Que me importa se o jogo contra o Tijuana acontecen no Horto. O Tardelli, jogador e “marginal” atuava com metralhadoras semi-automáticas, fuzilando os rivais depois dos gols, um absurdo em 2013, logo proibido pela FIFA.  Vamos comentar que o Léo Silva tinha 2,45 de altura, sendo o maior zagueiro do futebol mundial, registrado no Guinness. Vamos contar que o Ronaldinho Gaúcho, depois de dar 9 chapéus seguidos fez um lindo gol de bicicleta, injustamente anulado pelo juiz. O Jô, após fazer o primeiro gol da épica final contra o Olímpia saiu correndo com o dedo para cima e nunca mais vai parou de correr. Vai Jô, corrê Jô, corre! O Bernard, com apenas 15 anos à época da final irá rejunescendo a cada ano. Essa é a história que eu vi.

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Published in: on 19/12/2013 at 16:06  Deixe um comentário  

Mulher

Não é segredo que eu gosto de mulher. Ainda que adore a patifaria da frase anterior ela expressa de modo muito simples a intensidade de uma afeição. Há um texto que li certa vez, numa “revista masculina”, que trazia uma imagem grosseira, chula, porém pertinente sobre o universo masculino. No texto a moça dizia que homens não gostam de mulher, gostam isso sim de buraco. No que, convivendo com homens mais do que gostaria, tenho que confessar a parcela de verdade. A companhia de homens, nessa vida, só me fez falta em duas situações. Por um lado, na faculdade de psicologia, naqueles dias posteriores a partidas do campeonato brasileiro quando não sabia o resultado deste ou daquele jogo. Aí me dava conta, olhando para o lado, vendo apenas moças dos 80, a falta que um engenheiro faz. A outra situação se devia e se dá, na dificuldade que sempre tive de contar aspectos mais realistas de minha autobiografia amorosa-afetivo-sexual para as amigas, em contar as coisas sem me sentir um perfeito calhorda. Há ainda uma distância propositadamente mantida em relação a esses assuntos. Há mais de 10 anos a maioria das amizades que faço é com mulheres, ainda que nesses anos tenha feito alguns grandes amigos, desses cinco que nos acompanham por toda a vida. Não vou cair na armadilha de ficar dando atributo pra esse ou praquela. A preferência pela companhia feminina foi algo que só me dei conta depois. Hoje não seria insensato dizer que abandonei uma faculdade exatamente por isso. No curso de física havia mais Rafael do que mulheres na sala.

Mas o que veio, nesta monótona sexta-feira a me lembrar dessas coisas todas, das mulheres enquanto tais, não foram minhas amigas e companheiras de época, mas sim as senhoras que eu acompanhei, auxiliei a andar, conversei e alimentei durante o meu estágio numa casa de convivência para idosas em Belo Horizonte, no improvável ano de 2003. Hoje relembro também que foi dos meus períodos mais solitários. As velhinhas foram, então, minhas mulheres, aquelas senhoras, a Tiná e a Beta, por exemplo, as duas: Albertinas. Beta queria sempre escapar para algum lugar. Ela oscilava entre a angústia e a incompreensão, e não oscilamos todos? Tiná era das favoritas. Certo dia enquanto caminhava de braço dado a ela e a outra senhora, ela me pediu para parar, se abaixou, pegou uma flor e adornou seus cabelos (aprendam meninas). Dona Afrodite, a Didita, dona Dídima, Argentina, Clades, Cilene, Laurinha, dona Yêda, esta que havia morado em Ipanema e conservava um carioquês bastante elegante. Tiná e Didita tinham um lugar cativo no meu coração, talvez pelo leve desprezo que dispensavam a mim. Eu sabia que o desprezo era apenas de superfície. Certamente elas não eram das que eu mais conversava ou das que mais me davam atenção. Mas na palavra, no gesto, às vezes num único movimento em todo o dia, havia muita atenção e carinho. Quando eu faltava elas davam notícia, perguntavam.

Quando Tiná colocou as flores no cabelo e perguntou se estava bonita, requisitando minha opinião, não acho que ela queria uma opinião de um funcionário da casa de convivência, mas a minha.

Atenção e carinho, meninas, atenção e carinho, meninos.

Published in: on 24/11/2012 at 02:12  Comments (2)  

CIDADE SUBMERSA

Saí caminhando pela cidade que cresci, que aprendi a gostar sem saber o que fazia, cidade de ruas e esquinas que marcaram minha vida, meus sonhos e frustrações. Esquinas nada abstratas nem metafóricas que cruzei, rapazinho, depois nem tanto, bêbado de madrugada culpado, ao sol, pensando em não suar, atrasado, sempre atrasado, se pensando sempre atrasado.

Mexo, e remexo

E me perco

E adormeço

Nas ruínas

Da cidade submersa.

Fui votar em prefeito e vereador de Belo Horizonte, cidade que já não é a minha há mais de 4 anos. Belo Horizonte e eu mudamos tanto nesses anos. A cidade deixou de ser a vida besta, passou a ser nostalgia e passado, depois voltou a ter presente e projeta futuro. Fui caminhando, no dia da votação, parti do Santo Antônio, passei pelo São Pedro para chegar no Sion. No trajeto nostálgico, saí das Bakanas/Dragon Palace, passei pelo entre-folhas, por aquele restaurante que ficava ali na Grão Mogol com avenida Uruguai (Mãezinha?), e cheguei ao colégio Santa Dorotéia.

Antes de sair da casa achei, perdido entre papeis, o comprovante de votação de 2002, 1º turno da eleição vitoriosa de Lula, dia 6 de outubro, momento dos mais importantes da história do país. Saí feliz com esse achado. Andei uns 100 metros e logo ao dobrar a segunda esquina vi, dentro de um carro, a Adélia, minha professora no curso de Psicologia na UFMG. Quando a vi não me lembrei das provas fáceis e sem graça que ela mandava a gente fazer. Depois que terminávamos a prova, ela pedia o papel de volta para usar no próximo ano, o que já acontecia há bastante tempo. Podia-se dar a sorte de pegar uma prova com parte das respostas. Mas não foi isso que me veio à mente quando vi a Adélia. Lembrei, isso sim, da 1ª aula, na manhã seguinte à vitória de Lula, há 10 anos. Nunca havia visto uma pessoa tão emocionada por causa de eleição e política, como a vi naquele dia. Na sua voz, nos olhos, mais do que pelas palavras, ela transmitia a mensagem de que a aurora tão esperada e sofrida, por vezes impossível, havia chegado. Foi bonito, muito bonito. Eu que naquele momento não tinha a identificação que passei a ter com o PT, com os ideais democráticos e socialistas que constituíram historicamente o partido, fiquei mexido ao ver a professora “gastar” toda a aula para dizer de sua emoção. Eu nunca tinha visto e vivido a política naquela paixão-afirmação como vi naquele momento, na fala daquela senhora que tentava deixar claro para nós, jovens, que vivíamos um momento histórico.

Depois que a Adélia passou, eu segui adiante, em direção à minha zona eleitoral, no colégio no qual estudei minha vida toda. Colégio este que guardo com todo amor no espaço largo de meu coração reservado à contradição e ambiguidade. Próximo ao colégio passei por uma camionete da empresa Nova Luz, uma das firmas contratadas pela multinacional Anglo American para desenvolver o projeto minerário na região de Conceição do Mato Dentro, contexto no qual faço minha tese de doutorado. Na pesquisa, estudo os impactos psicossociais deste “empreendimento” sobre os jovens da região, sobre a relação entre desenvolvimento e vida cotidiana, sobre as expectativas de futuro, os desejos e medos desses jovens.  E na esquina da Buenos Aires com a Grão Mogol, expectativas e angústias quanto ao futuro não só da minha cidade, mas também do país emergiram condensados na ojeriza que senti de uma camionete, de um adesivo amarelo, um NLZ 17. Angústia quanto ao futuro, não da democracia, mas do socialismo, palavrinha cada mais deixada de lado até mesmo pela “esquerda” (?!), problema, cujo significado me eximo, covardemente, de explorar.

Published in: on 09/10/2012 at 15:56  Comments (5)  

Memória

Perigoso, Chiquinho e Binga; Cordeiro, Brant e Ivo; Dalmi, Said (um turco brigador), Jairo, Mário de Castro (o melhor jogador da época) e Cunha.

O trabalho da memória é curioso. Já faz quase 10 anos que fico a relembrar o nome de 11 homens que nunca conheci, porém hoje, já não me recordo o nome daquele único senhor que todo santo dia me ditava a formação do esquete do galo dos anos 30[1].

O goleiro se chamava Perigoso, o que já é motivo de graça. Era médico: “Doutôôr Oswááldo Costa”. Eu delirava mesmo era com os adjetivos associados aos jogadores, havia dois, o “turco brigador” e “o melhor jogador da época”. Quase todos os dias esse senhor implicava comigo por causa do meu cabelo, logo quando eu chegava ele destilava seu veneno contra meus cachos que, certamente, metaforizavam o declínio da civilização.

Foi ao ler um texto sobre memória de velhos que imediatamente retornei a esse período. Um período de solidão. Um período que eu, aos 21 anos, compartilhava da espera da morte, entre o filé de peixe no almoço e a salada de fruta das 15:30; eu e elas, aquelas tristes senhoras devassadas pela loucura e pela decadência. Mas foi também um período de conseguir trabalhar e ter um pequeno e cotidiano reconhecimento pelos serviços prestados.

Acho bonito esse cantado das escalações de times antigos. Já faz 10 anos que, sem pensar muito, decorei a escalação acima. Lembro de ter comentado com minha avó do nome dos jogadores lá de cima, e ela, atleticana doente, ficou toda feliz e se pôs a falar dos jogadores, suas histórias, seus trágicos destinos.


[1] Depois de 10 dias me lembro casualmente. Era o “seu” Plínio.

Published in: on 01/09/2012 at 12:57  Deixe um comentário  

Descoberta

             Volta e meia volta.

     Quando conheci o disco-show “O importante é que a nossa emoção sobreviva” de Paulo César Pinheiro, Eduardo Gudin e Márcia, fiquei uma noite e três semanas em êxtase profundo, escutando e tentando decifrar o segredo da vida. Na casa de minha mãe, enquanto meu irmão fazia uma festinha com seus amigos, eu ficara ali absorvido pelo disco que acabara de baixar. A noite foi de deslumbramento. Foi quando também me apresentei ao Sr. Roberto Ribeiro. Ouvia esses discos absurdos, “novos”, mais uma vez, mais uma vez, mais uma vez. Ah, essa boa repetição! Como também aquela outra. “Onde você estava?”, “como vivi até aqui sem te escutar?”, ou “o que havia de tão importante na escola para nunca terem me ensinado a escutar isso?”. São os pensamentos que brotam nesses momentos. É um troço doido, uma alegria maior, e maior do que a música é a própria “descoberta”, a esperança que dá de saber que esse troço bonito existe mesmo, de verdade. Nesse momento a coisa fica.

     Em Salvador, sentado num albergue no Pelourinho escutei, enquanto esperava a Rita acordar, uma voz linda e grave, cheia de charme, vindo da rua. Fui lá na loja de música, origem do som, e perguntei quem é que estava cantando. “Ederaldo Gentil”, respondeu o rapaz. Registrei o nome para mobilizar um pouco minha obsessão quando voltasse de férias. Contrariando as estatísticas, acabei esquecendo… Passaram alguns meses e, semana passada, me deparei com a voz desse sujeito nas redes sociais da vida, exatamente com a música acima. Que coisa linda.

     A descoberta desse mundo secreto não deve nada às descobertas mais lindas da vida, do amor, da poesia, das mulheres. Principalmente quando elas deixaram a companhia de Platão e vieram, de mãos dadas com o velho Marx, entoando sambas e marchinhas, a me encontrar. E tudo isso aconteceu mais ou menos no mesmo momento, no final da escola/início da faculdade. Foi quando veio o samba e que se fez presente a mulher. Essas lembranças me mandam mais uma vez à amargurinha que sinto dos meus dias de escola, de minha adolescência…. Vivi tudo aquilo como uma prisão. Não me envolvi verdadeiramente comigo mesmo nessas relações com o mundo, as artes, os problemas de meu tempo, as paixões, as moças. Errei pouco, briguei pouco, maltratei pouco… Tinha medo dos efeitos de minhas ações, tinha medo de desagradar, de deixar minha mãe triste… Tinha medo. Imaginava um godfather mafioso e bravo, lá em cima a perguntar: “E aquele magrelo esquisito ali do lado, qual é a dele?” Alguém diria, “nada chefia, esse aí é figurante, liga não.”

     Descobrir as mulheres continuou no descobrir músicas, cantores, suas histórias, e a história que há por trás disso tudo. Saber que a letra de Regra Três foi, na verdade, uma segunda versão feita por Vinícius de Moraes, atacando pessoalmente Toquinho que não havia gostado da primeira versão, é algo bonito. Mas mais bonito ainda é entender que o ataque está nisso aqui, no: “tantas vocês fez que ela cansou / porque você rapaz, abusou da regra três / onde menos vale mais”. A letra é toda um puxão de orelha do poeta no parceiro que andava ludibriando sua amada de então, uma pobre e bela donzela indefesa, procurando outras e sempre mais, quando Vinícius lhe ensinava que menos vale mais.

     Foi nessa toada de solidão e descoberta, que pouco antes do Carnaval de 2005 me debrucei na vida de Noel Rosa. Já não sei o quê tanto me intimava para comparecer a Noel. Talvez apenas uma curiosidade mórbida, que naquele momento me assombrava. Perguntava-me como um sujeito que morreu tuberculoso aos 26 anos conseguiu compor tanta música (mais de 300) e viver uma vida tão intensa. Aos 22 anos sem sinal de tubérculos ou intensidade, andava assombrado pela possibilidade da solidão e da incapacidade de deixar marca alguma na terra. Passei aquele carnaval longe da música alta e dos desejos e carícias, trancado em casa lendo a volumosa biografia do compositor carioca, safado e bem-humorado da Vila. Noel compôs Gago Apaixonado pra sacanear seu vizinho que sempre cantava as músicas que ele gravava. “Canta essa agora meu chapa, canta?”. Ah como fui feliz naquele carnaval. Por um lado ficava ansioso com a ausência das mulheres reais, lembrando sempre do imperativo moral do filósofo Rubem Braga que dizia enquanto estou escrevendo, lá fora, na rua, passam mulheres. Minha obrigação era descer as escadas e ir vê-las”. Eu que nem escrevia, apenas lia, por outro lado, já suspeitava que os afagos não dados, mas bem guardados na estufa da imaginação, iriam se proliferar e se converteriam em beijos e olhares ainda mais bonitos e exuberantes, tempos depois.

     Noel Rosa e Mário Lago disputaram bravamente o coração de Ceci. Foi para Ceci que Noel compôs “Ultimo Desejo”. Ceci dizia sobre os dois amantes uma coisa interessante. Mário Lago, comunista de carteirinha do partidão, fazia longos discursos contra a opressão do capitalismo, mas vestia as melhores roupas e freqüentava os ambientes mais privilegiados, burgueses, daquele Rio dos anos 30. Já Noel, por sua vez, dizia a moça, nada dizia, mas andava sempre entre os pobres, vivendo com o povo, fazendo samba e não discurso. Em outro momento, ouvimos outra história. A esposa de Noel (sim, ele foi casado) desconfiando de suas saídas noturnas perguntou ao poeta aonde ele ia. Ele então sugeriu que ela o acompanhasse. Noel seguiu para a central do Brasil, entrou nesses trens que seguem para o subúrbio e lá, vendo o povo, compôs música. Era o que ele fazia. E era também o que fazia Odair José, sentado nas rodoviárias, nos cantos pobres da cidade, conversando com o povo e escrevendo música. Como psicólogo social, o que sou, não posso deixar de me encantar com isso tudo. Um dia ainda constará numa ementa de um curso de metodologia em psicologia social, um trecho da biografia do Noel e alguma coisa sobre Odair.

       Ah, e mais uma coisa, antes que me esqueça. Noel morou em Belo Horizonte, minha terra. Não agüentou, queria voltar para o Rio, para suas orgias, para seus sambas. Seu médico lhe aconselhou que ficasse em BH. No que o mestre disse: “Melhor um mês no Rio do que 10 anos em Belo Horizonte”. Se o seu julgamento foi justo ou não é coisa que não me cabe julgar, mas que ele acabou correto no seu dizer, isso sim, pois morreu pouco depois, no Rio de Janeiro.

Published in: on 14/03/2012 at 12:22  Comments (1)  

Inverno de 2000

Não lembro o dia, mas sei que comecei a ficar nostálgico em junho ou julho de 2001. Quando as manhãs belorizontinas esfriam e o céu fica de um azul tão bonito. Imenso, claro, infinito. A partir do inverno de 2001, por mais outros dez consecutivos, era só baixar a temperatura que eu sempre voltava a reviver o inverno de dois mil. Nada me avisava dessa lembrança. Ao andar numa rua qualquer, quando dava por mim, estava encolhendo o corpo dentro de um moleton surrado e sentindo novamente esse outro período de minha vida.  E o que houve de tão belo e excepcional no inverno de dois mil, meu caro, o que aconteceu aí? absolutamente nada.

A lembrança que me veio com força descendente nos últimos dez invernos é tão banal que fica difícil até mesmo descrevê-la. Nessa época de frio, no meu último ano de colégio, nós descíamos para o pátio do colégio, durante o recreio, e ficávamos unidos, sentados numas frias mesas de mármore, cobertos por moletons “hard rock cafe” e ideologias burguesas. Sentávamos próximos uns dos outros, conversando e buscando um lugar ao sol, literalmente. Foi um tempo de reforço nos laços de amizade, de aproximação de meninos e meninas, em todos os sentidos. Essa lembrança que agora começa a perder seu sentido, totalizava minha experiência daquele tempo, daquele colégio, as angústias de solidão daquele momento. Nós, próximos pelo frio, tentando esquentar o corpo, conversando tranquilamente no último ano de escola, na passagem de momento na vida, no preparo do rompimento desse laço “semi-natural” que nos unia naquela escola de classe média alta na zona sul-sul do belot.

A lembrança do amigo tão querido, morto de forma tão besta, dói muito nesses momentos. Como pensar que o Bogus, tão presente naquelas conversas de inverno já não está mais presente aqui, nessas primaveras e nesse verão.

A partir de inverno de 2001 passei a viver um pouco mais o passado, a me voltar sempre para uma lembrança, para um olhar. Mas, mais do que uma coisa assim fragmentada o que mais se inaugurou nesse momento foi reviver um tempo-espaço tão significativo a partir de um momento singular. E agora, o natal. O fim de ano, esse tempo extendido em minha cidade natal, os reencontros com amigos tão queridos que também foram viver longe da Afonso Pena.  Nos últimos dois anos venho rememorando o fim de 2009. Época difícil de finalização e muita angústia no mestrado. O momento da escrita final, no qual antecipava em parcelas e sem tanto medo, a certeza objetiva de uma mediocridade acadêmica, quando esperava tanto de mim e de minha escrita. Fiquei por muito tempo esperando as belas frases e as análises inteligentes que deveriam aparecer. Esqueci que elas não caminham sozinhas, e que não se faz uma dissertação apenas com citações instigantes e pensadores complexos. Momento de viver para dentro, nesse lugar inóspito e solitário, de repensar caminhos e escolhas. Esse momento que foi de muita angústia, mas também de belezas e exuberâncias, quando tomamos para nós mesmos a vida, a suja, a do “wild side”.

Ah, como fico melancólico e saudoso ao beber com amigos queridos na minha cidad.. Bom, que venha dois mil e douze. Com novas lembranças, novas saudades. Que se aprochegue mais essa senhorita vida. Safada e altaneira.

Ah, como gosto dessa palavra, “altaneira”…

Published in: on 02/01/2012 at 14:04  Comments (2)  

Isto é um assalto!

Já há algum tempo vinha pensando que nunca mais seria assaltado. Mesmo morando no rio, considerava cada vez mais  remota a possibilidade de ter uma grana extorquida por outro ser humano, ao atravessar uma rua ou ao sair de casa. E olha que eu já vinha, com tranquilidade, atravessando o túnel velho, na alta madrugada carioca.

No entanto, não é que há poucas horas, voltando de uma casa amiga na minha cidade natal, ouvi algo como “me passa o celular”, “isto é um assalto” ou “fica quieto e me passa a grana”. O sujeito chegou rápido, era menor do que eu, mas acabei levando a pior, talvez, pela surpresa do anúncio. Mesmo um tanto bebâdo nessa hora de aperto me sobreveio uma força primitiva de luta. Quando o agressor se aproximou de mim, e anunciou o ataque grudei em seu corpo e logo estávamos os dois no chão. Ainda na luta o empurrei para um pouco mais longe de mim. Nesse momento achei melhor correr aproveitando a distância momentânea. Dei um pique de vinte metros e logo olhei para trás. A primeira intenção era  saber se o assaltante vinha atrás ou não. A segunda era entender quais eram suas reações. Ao levantar vi que minha camisa tinha um rasgo considerável e que o assaltante, já distante estava próximo de uma caçamba repleta de pedras. Resolvi prosseguir no meu caminho, com o coração sobressaltado, mas ao mesmo tempo consciente de que estava seguro. Não sei porque diabos me lembrei nesse mesmo instante da frase do Walter Benjamin: “as citações, no meu trabalho, são como ladrões à beira da estrada, que irrompem armados e arrebatam o consciente do ocioso viajante”.  Bom, eu não tinha nenhuma citação no momento, apenas ladrões me irrompendo pela estrada e interrompendo um poético e ocioso viajante. Minha tranquilidade pequena burguesa ficou no caminho, assim como o rasgo da camisa. Há mais de quinze anos não era abordado ou assaltado, ou nada do gênero. Apesar de saber, sempre, que isso não significava absolutamente nada.

A vontade foi voltar logo depois e arrebentar a cara do sujeito. O que durou por volta de vinte minutos. Depois disso nada restou, no máximo a consciência de evitar andar pela avenida nossa senhora do carmo depois das duas da manhã, e também uma escoriação no cotovelo, mas que não chega mesmo a ser uma dor.

Published in: on 26/12/2011 at 06:31  Deixe um comentário  

No tempo da delicadeza

Algumas lembranças insistem em voltar. Momentos, fragmentos de um tempo. E são coisas tolas mesmo, detalhes perdidos no cotidiano, esse tempo sem evento, de quase pura repetição. Há alguns anos, ainda estudante de psicologia, fiz um estágio numa clínica particular para idosos. Um espaço de convivência, “como se diz”, para senhores e senhoras da elite belorizontina. Chamavam-nos de estagiários, mas não havia nada de estágio, éramos funcionários de baixo custo e muita disposição. Nós, estudantes de psicologia,  realizávamos atividades recreativas e educativas com os idosos. Foi um tempo difícil, pois é duro conviver com esse limite do corpo, com almas quebradas pela vida, mulheres silenciadas e, muitas vezes, marcadas pela violência passada e presente.

A instituição se especializou em receber idosos acometidos por diferentes tipos de demências. Alguns passavam o dia na instituição e ao fim da tarde voltavam para suas residências, enquanto outros dormiam em casas mantidas pela mesma instituição, com fins lucrativos, e bem lucrativos, eu diria. A maior parte das senhoras me tratavam muito bem. Foi um tempo de uma rotina marcada pelo inusitado, pela graça, e também pela dificuldade. Num dia a Beta estava confusa, sem saber onde estava, querendo sair para comprar um remédio na farmácia da esquina de sua casa, em Juiz de Fora. No outro, Rosa contava suas histórias, quando professora de piano em Valença. Esta também apimentava as coisas contando semi-safadezas, que provavelmente nunca fez. Eram coisas pueris, para os dias de hoje, mas que ela achava graça, pois deixava as outras senhoras ruborizadas. Com o passar do tempo fui conhecendo parcialmente as histórias. Entendendo o jeito de cada uma. E assim, o estágio, no qual não havia nenhum aprendizado explícito, dado que a supervisão se configurava mais num quadro de recados orais do que na discussão de problemas e casos, mostrou-se um momento de puro aprendizado. Momento de aprender a ver, entender sentimentos, pensar lógicas de ação e reação. Quantas não foram as vias pelas quais busquei o entendimento do quê movia, o quê queria, aquela senhora ali, agitada e agressiva, murmurando coisas incompreensíveis. Como proceder e intervir em relação àquele senhor que, à meia tarde de um dia qualquer, simulava uma masturbação, na mesma hora que jovens senhoras conheciam a casa e se decidiam sobre deixar seus entes queridos ali ou não? Este mesmo senhor que teve uma loja no mercado central, e que, sempre rabugento, implicava com meus cabelos cacheados, num misto de deboche e desprezo. E ainda este mesmo senhor que todo dia me contava do melhor time do Atlético de todos os tempos: “Perigoso, Chiquinho e Binga; Cordeiro, Brant e Ivo; Dalmi, Said (um turco brigador), Jairo, Mario de Castro (o melhor jogador da época) e Cunha”. No meu primeiro dia fui logo apresentado a Dona Argentina. Uma senhora doce, doce. Dizia torcer para o São Paulo e que gostava do Raí, que era bonitão. Daí em diante, de 20 em 20 minutos, ela me perguntava se o Raí ainda jogava futebol. Eu, com toda a paciência, dizia que não, que o Raí já havia se aposentado, naqueles idos de 2003. O bom é ver que, mesmo lentamente, as coisas mudam. Alguns meses depois ela passou a perguntar pelo Kaká e não falou mais no Raí.

No meio disso tudo, com o passar dos dias e meses, é claro que passei a ter minhas preferidas. Uma delas era a Didita, dona Afrodite. Uma senhora magrinha, que ficava mascando um chiclete imaginário o dia todo. Ela falava de forma seca e direta, sempre. Não gostava de mim de início, como convém às pessoas desconfiadas. Mas com o tempo ela foi se tornando carinhosa. Não era essa coisa explícita não, era um carinho velado, mas nem por isso menos profundo e sincero. A outra senhora é sobre quem queria contar uma pequena história. Dona Tiná foi o meu xodó (ela se chamava Albertina, havia outra senhora com o mesmo nome que chamávamos de Beta). Tiná era era muito calma, de fala baixa, gestos delicados, sempre elegante. A cabeça boa, observadora. Ficava sentada olhando tudo e todos e vez ou outra se aproximava buscando saber alguma coisa, ou querendo compartilhar uma impressão que lhe causara os fatos do dia. Ela não gostava das atividades que propúnhamos. Preferia ficar quieta, sentada, conversando com uma ou outra senhora. Às vezes subia para escutar música. Ela era casada e diziam que seu marido era um senhor elegante que aos fins de semana a buscava para um passeio. Ela dormia durante os dias da semana numa das casas mantidas pela instituição e no fim de semana ia para sua casa. Em determinada tarde o carro que levaria as senhoras para suas casas atrasou muito. As gerentes da casa, então, pediram para que alguns de nós, estagiários e funcionários, levássemos as idosas que conseguiam andar para a casa mantida pela instituição, na qual estas pernoitavam e que ficava a três quarteirões de onde estávamos. Eu fui de braços dados com duas senhoras que caminhavam relativamente bem. Uma era a Cilene, uma senhora esperta e ágil que ficava o dia todo lendo e que não se envolvia com nenhuma atividade. Parecia gostar de pontuar que não era da mesma categoria daquelas senhoras demenciadas. E a outra era a Tiná.

Andávamos lentamente. Eu sempre observando o caminho, preocupado com possíveis quedas. Segui ao meio das duas senhoras de braços dados. Caminhávamos e conversávamos. Eram três quarteirões que, sozinho, percorreria em 5 minutos. Nesse dia demoramos uns 20 minutos. Na presença das duas senhoras provenientes de um tempo de outras relações, me fiz um fidalgo perdido no corpo de um jovem estudante de psicologia. Tiná parecia gostar muito de andar de braço dado comigo e eu, levianamente, imaginava evocar ali uma outra presença masculina. Um rapaz de outro tempo, de outros carinhos e destinos. Tiná parecia mais leve, talvez até mesmo por sair à rua, coisa que a vida regrada das instituições, mesmo essas pagas e caras, não permitia. Em determinado momento ela me pediu para parar. Agachou-se um pouco e lentamente pegou uma flor vermelha, num quintal qualquer. Colocou a flor na orelha, olhou para mim e perguntou: “Está bonito?” Eu, respeitosamente, disse que sim. Ela sorriu e continuamos a caminhar, mas agora a calçada que jazia à nossa frente não estava cravejada de buracos, também não ouvíamos buzinas, nem víamos carros. Havia, em volta, um tanto mais de gentileza, e tudo, tudo parecia lento. Minhas roupas também se transformaram. De súbito envelheci um pouco, talvez menos na idade e mais nos trejeitos e no vernáculo. Tiná, ao contrário, estava mais jovem. O olhar profundo e a elegância permaneciam as mesmas. Seguimos andando, um ao lado do outro, talvez no tempo da delicadeza, sem nunca chegar a lugar algum.

Published in: on 05/07/2011 at 19:18  Comments (6)  

 Fui buscar meus trastes, meus rasgos, minhas poeiras… E assim cheguei mais uma vez ao meu primeiro blog, “A vida tem sempre a razão”.

Engraçado… Essa frase da letra de Vinicius,  sua reverberação, sua potência sutil e displicente num samba redondinho do Toquinho contém toda uma filosofia, uma epistemologia complexa, que primeiro chegou de forma pré-reflexiva e tempos  depois foi adquirindo consistência teórica. Às vezes acho que é isso…. Filosofia, ciência é o que a gente faz com nossas intuições mais verdadeiras… As verdades que nos habitam.  Vinícius conseguia colocar em sua música princípios abstratos e fundamentais de forma tão sintética, que uma simples frase dariam sei lá quantas teses de doutorado. Como aquela outra da mesma música que diz que a hora do sim é um descuido do não. Vê se a gente não consegue tirar uns Heideggers, Bergsons e Derridas de frases assim? Ou então o que dizer de “Ah, não existe coisa mais triste que ter paz, e se arrepender, e se conformar, e se proteger, de um amor a mais…/ Que não seja meu o mundo em que o amor morreu.

Bom, mas não é disso que queria escrever.

Ao voltar aos meus textos antigos encontrei esse aqui, sobre meu pai, nossos reencontros, sobre a dor.

Nossos momentos

Lembro com muito carinho desses nossos momentos. São para mim os momentos mais doces ao seu lado. Pelo menos os momentos mais lindos de que me lembro. Dele comigo, ele: meu pai. Com certeza houve outros momentos de mais mistério e encanto, momentos de mais amor e carinho, de pura surpresa, de meninice, momentos de aprender a andar e de sorrir. Mas não me lembro desses dias, dessa meninice minha. Você deve se lembrar, talvez não, quem sabe. De minha memória tenho esses dias, há poucos anos, que nós sentávamos em um bar, cada um com sua respectiva tristeza, que talvez fosse a mesma, a angústia de existir, a saudade, a solidão, nada mesmo nunca foge muito disso. Sentávamos em um bar que prezava em continuar vazio, ficávamos nós e os garçons a beber cerveja, nós bebíamos e eles nos serviam. Ora ou outra, eles pediam uma música, ou contavam uma piada. Mas no mais era eu, você, o Lú e o violão. Éramos tristes alegres. Você se recolhia humildemente no bar todo dia depois de tais horas, não havia muita diferença de domingo e quarta-feira. Nós íamos quando dava pra ir. Tomávamos cerveja e você cantava todas as músicas que o universo te permitia cantar. Samba, rock’roll, tangos e boleros, sem ordem alguma, ou mesmo pudor, e tudo com a mesma paixão. A cerveja, a música, o clima que só um bom bar tem. A brisa do bar.
Às vezes tínhamos companhia, o Flavio, o Chico, o Bruno e o Lulu. Esses todos irmãos, todos sempre alegres e apaixonados pelo som da viola. Eu sem vergonha nem nada te pedia um “Ultimo Desejo”, mas que era sempre o primeiro, e depois pedia “Across the Universe”, sem a menor coerência. Na primeira música sempre cantávamos com paixão: “…e às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que o meu lar é um botequiiimmm!!!”
Cantávamos com tamanha ênfase nesse “botequim” que os mais desavisado deviam achar que de fato morávamos no botequim. Noel, Buarque, Beatles, Vinicius e Toquinho, The Doors, Cartola, e tinha sempre aquela música do Djavan que você não lembrava nunca, e o que eu achava uma pena. Era uma cantoria alegre e feliz, apesar de saber que estávamos ali, mais tristes e meio abandonados do que de fato felizes; sei que agora você anda mais feliz do que “naquele tempo”, mas eu, eu sinto meu “peito vazio”, sinto saudade de suas “cordas de aço”, que bem a tempo, sempre foram de nylon. Um violão, cerveja (mesmo que meio contada, ou talvez por isso), um carinho no ar, uma reunião, uma união, uma comunhão tal que, infelizmente só ocorria no bar. E foi assim que depois de 19, 20 anos eu comecei a conhecer meu pai. Sua incapacidade de terminar uma música, as suas manias, o copo sempre cheio (reclamando muito quando abaixava um dedo que fosse), sempre meio apressado, meio intranqüilo, querendo agradar às mesas simpáticas ao redor, e claramente desagradar a quem ali não gostasse do que fazia, falando alto, cantando alto, sem cobrar nada, uma grande figura. Foram nossos melhores momentos. A distancia nossa sempre foi encurtada pelo caminho da cerveja e do violão.

Published in: on 19/05/2011 at 12:20  Comments (3)  

Neurótico!

pinto-grande-marie-claireTodas sempre dizem isso pra gente, de um jeito ou de outro.

O quadrinho, ainda que tosco, é muito feliz. Saudade dos amigos…Sempre!

Published in: on 25/10/2009 at 02:07  Deixe um comentário