América Latina #3

1968

Cidade do México

REVUELTAS

Tem um longo meio século de vida, mas a cada dia comete o delito de ser jovem. Está sempre no centro do alvoroço, disparando discursos e manifestos. José Revueltas denuncia os donos do poder no Mexico, que por irremediável ódio a tudo o que palpita, cresce e muda, acabam de assassinar trezentos estudantes em Tlatelolco:

– Os senhores do governo estão mortos. Por isso matam.

No México, o poder assimila ou aniquila, fulmina com um abraço ou com um tiro: os respondões que não se deixam meter no orçamento público são metidos na cadeia ou no túmulo. O incorrigível Revueltas vive preso. É raro que ele não durma em cela e, quando não é lá, passa as noites estendido em algum banco de praça ou num gabinete da universidade. A polícia o odeia por ser revolucionário e os dogmáticos, por ser livre; os beatos de esquerda não lhe perdoam sua tendência aos botequins. Há algum tempo, seus camaradas, puseram nele um anjo de guarda, para que salvasse Revueltas de toda tentação, mas o anjo terminou empenhando as asas para pagar as farras que faziam juntos.

(p.275)

____________________________

1969

Bogotá

OS GAMINES

Têm a rua como casa. São gatos no pulo e no bote, pardais no voo, galos valentes na briga. Vagueiam em bando, em esquadrilhas; dormem feitos cachos, grudados pelo gelo da madrugada. Comem  o que roubam ou as sobras que mendigam ou o lixo que encontram; apagam a fome e o medo aspirando gasolina ou cola. Têm dentes cinzentos e caras queimadas pelo frio.

Arturo Dueñas, da turma da Vinte e Dois, vai abandonar o bando. Está farto de dar a bunda e levar surras por ser o menor, o percevejo, o manteiga derretida; e decide que é melhor se mandar sozinho.

Uma noite dessas, noite como qualquer outra noite, Arturo desliza debaixo de uma mesa de restaurante, agarra uma coxa de galinha e erguendo-a como estandarte foge pelas ruelas. Quando encontra um canto escuro, senta-se e janta. Um cãozinho olha para ele e lambe os beiços. Várias vezes Arturo o expulsa e o cachorrinho volta. Se olham: são iguaizinhos os dois, filhos de ninguém, surrados, puro osso e sujeira. Arturo se resigna e oferece.

Desde então andar juntos, caminhaalegres, dividindo as sortes e os azares. Arturo, que nunca falou com ninguém, conta suas coisas. O cachorrinho dorme acocorado a seus pés.

Em uma maldita tarde a polícia agarra Arturo roubando pão, arrasto-o para a Quinta Delegacia e ali lhe dão uma tremenda de uma sova. Tempos depois Arturo volta à rua, todo maltratado. O cachorrinho não aparece. Arturo corre e percorre, busca e rebusca, nada. Muito pergunta e nada. Muito chama, e nada. Ninguém no mundo está tão sozinho como este menino de sete anos que está sozinho nas ruas da cidade de Bogotá, rouco de tanto gritar.

(p.277-8 )

(O século do vento – Eduardo Galeano. Tradução Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM  Pocket)

Published in: on 18/06/2013 at 16:48  Deixe um comentário  

ANTÍTESES, EMBARAÇOS, DÚVIDAS, ANTAGONISMOS, PREGUIÇAS E DESVARIOS DO DEBATE SOCIOAMBIENTAL: REFLEXÕES PÓS-CÚ-PULA DOS POVOS

angli

Ao me interessar analiticamente e politicamente pelo movimento ambiental, passei a ser perseguido incansavelmente pelos termos do título acima. A questão ambiental, ou socioambiental, ou ecológica (dependendo tanto do foco, do caráter ou da posição ideológica de quem escreve) é um campo marcado pela exuberante diversidade de confusão. Não pretendo esgotar tais confusões (ó terrível pretensão), apenas queria tentar escaramuçá-las a partir dos debates que presenciei na recém-findada cúpula dos povos, evento “oficial paralelo” ao encontro oficial da ONU para discutir a questão do meio ambiente, a RIO + 20. Baseio-me também em conversas com amigos antenados, ou não, neste debate. Meu problema é menos com o tema em si, e mais em relação à maneira como as pessoas se inserem neste debate, como se todas as escolhas fossem possíveis e intercambiáveis, ao gosto do freguês, numa esquizofrenia hibridizada. Tipo assim: “Eu quero….         é      …        calma aí. Ah, já sei, me vê vida moderna urbaninha confortável – neon – mais IPADS – menos hidrelétricas  e carvão (que nojo!) – sem energia nuclear – energia de vento, sol, essas coisas – mais direitos socais – mais mantra ligações de harmonia e paz entre todos – menos pobreza – sem violência – menos cidades interioranas e mais metrópoles – mais tecnologia, luzes, trecos e tal – menos fundamentalismo religioso e menos trabalho também, quem gosta, né?

O sujeito quer sim um mundo diferente, pero no mucho. Ele acredita mesmo, e nisso em geral há mais romantismo do que cinismo, que a expansão das qualidades advindas com a com a modernidade, a expansão do ideal burguês de vida, sofá, televisão, ar condicionado, liberdades individiduais, séries americanas, pode ser desconectadas de seus malefícios, da competição, ganância, da poluição, dos genocídios sociais. A idéia é que  futuro é igual ao presente subtraído os elementos negativos. Assim, vivo num susto atrás do outro. Ontem (já faz uns meses) vi um comentarista do jornal da noite do SBT justificar que a fragilidade dos acordos estabelecidos na Rio + 20 estaria no fato de que atualmente estamos vivendo uma terrível crise econômica. Arremata ele, como se dissesse algo digno de ser falado, que a preocupação com a economia impera e, por isso, os países não tem tempo para a questão do meio ambiente, ou coisa que o valha… Ora bolas, é o fim do mundo. Foi só por afirmações como esta que me interessei pelo debate ambiental. Aí está em estado bruto a imagem fetiche bibelô do meio ambiente como uma preocupação estética da classe média bacana. O marxistão Istvan Meszáros em uma citação genial diz que as instituições de proteção ambiental deveriam ser chamadas de “ministérios de proteção das amenidades da classe média”. A questão ambiental diz dos fluxos de energia, dos ciclos de transformação da matéria, as cadeias de interação entre a atividade humana e o ambiente, seus efeitos, danos, consequências.

Certamente quem pensa que em tempos de crise econômica não dá para se preocupar com meio ambiente, deveria parar de beber água, defecar e recarregar a bateria do seu Ipad. Na rede Globo, no jornal da noite, ao falar do fim da cúpula dos povos o jornalista entrevistava um gari que disse que ao limpar o aterro do flamengo, onde deveria haver apenas pessoas “conscientes” e mi mi mis, foram encontradas muitas guimbas de cigarro jogadas no chão, guimbas que demoram alguns 2000 anos para se decompor. O jornalista, William Waack, o iluminado, poderia ter completado seu raciocínio deveras radiante da seguinte maneira: “Esses maconheiros bicho-grilo vem para cá, com dinheiro do governo, sujam tudo, ficam falando bla bla bla para pegar mulherzinha, mas continuam poluindo com as pessoas “normais”, então para quê vieram?”.

Fui a algumas palestras e andei muito pelo aterro do flamengo nesses dias de encontro. Impressiona a diversidade de posturas, de modos de ver as coisas e de se posicionar neste debate. Enquanto vemos o Sebrae com 16 barulhentos geradores movidos a combustível para manter o ar refrigerado no seu interior, temos tribos indígenas vendendo autênticas pinturas de seus povos por 3 R$. Não me incomodo nenhum pouco com o fato dos indígenas venderem pinturinhas de corpo, o que me tirou do sério foi o fato do alojamento das tribos indígenas ter sido no sambódromo, em péssimas condições de instalação e higiene. Mas o que mais me incomodou no evento é a incapacidade e a fraqueza de se colocar em discussão as questões chaves, de trazer as situações concretas para o debate. Se o meio ambiente NÃO é um problema fetiche, mas sim uma questão central na manutenção da vida, posto que não há vida sem água, ar, terra, então toda forma social de vida está intrinsecamente ligada a este debate. Então se você aí, “da poltrona” acha lindo viver em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Londres, Nova York, Belo Horizonte, Conceição do Mato Dentro, e ainda mais, acha que todos devemos viver assim, deveria pensar muito bem no quê isso significa. Porque se há “crise” ambiental, há causalidade na ação humana, ação que se dá num contexto cultural  e político. Se a pessoa vem para um debate, se ela abre a boca pra falar “meio ambiente”, é porque considera que há causação humana. Havendo essa relação causal, fico pensando que construção narrativa se passa na cabecinha de cada um desses ambientalistas moderninhos que ficam falando de Seattles e Chiapas. Não tenho dúvida que imaginam Hippies vivendo em “Blade Runner”. É como se sociedade e pessoa fossem coisas desconectadas. Muita solidariedade entre os povos, uma gotinha de “Avatar” aqui, vai, muitas máquinas, pouca dominação, etc… O mito de que o homem vai dominar todos os efeitos, vai controlar tudo e continuar sendo um cara legal está aí, deitado na cama, morto, pronto para ser exumado. Acho esse tipo de mentalidade fascinante. Fascinante sim. A dissociação completa e total de sujeito e história, de pessoa e sociedade. A realização completa do homem do iluminismo sob o manto abençoado do primitivismo solidário. O sujeito crê que a sua identificação imaginária com a causa rompe todos os grilhões da opressão social e ambiental real que permitem a ele ter água, comida, ar, um MAC, um Iphone. Não vê que ele é parte do problema. Não vê problema. Não companheiro, não precisa se charafundar na lama da culpa burguesa. Mas por favor, menos cinismo, menos certeza. Ao menos ajude a encaminhar as coisas de outo jeito, pensa rapaz, se aprume!  Acho que aqueles que só conseguem imaginar uma vida do modo como temos nas grandes cidades deveriam pensar um pouco mais, só um pouco.

Não que a “culpa” da poluição seja exclusivamente da manutenção das metrópoles ou algo do gênero. Pego esse exemplo, por algumas razões. Muitos dos grupos ambientalistas e dos ativistas moram e vivem nesses grandes centros. O local de moradia de uma pessoa, de uma cultura, de um povo é fato indissociável de sua relação com os recursos naturais, seja uma tribo do Xingu, uma população ribeirinha do interior do país, ou um grupo de jovens amigos libertários de uma megalópole.

Se a crise ambiental decorre do padrão de produção e de consumo de bens de uso como então mudar tais padrões? Quais são as condições determinantes da vida moderna, quais são as ligações essenciais entre modernização e injustiça social, ambiental? É possível ter crescimento econômico nos moldes que temos vista com uma maior igualdade entre povos, considerando que cada cultura e povo entra nessa dança de um jeito?

Nesses dias de Rio + 20, entre cervejas no fim da noite, um grande amigo, o Patrão me contou uma coisa. Ele disse que em suas palestras joga para o público um gráfico no qual apresenta vários países a partir de dois eixos. No primeiro temos índices sociais relativos à saúde, educação, trabalho, e no outro, o nível de destruição e degradação do meio ambiente. Ele então me disse que apenas um país apresenta elevado índice tanto de indicadores sociais como de baixíssima degradação ambiental.

Em tom de charada que é impossível descobrir, ele me perguntou qual era este país. Claro que eu errei.

Published in: on 19/12/2012 at 18:09  Comments (1)  

Futebol e Política

“O político pode absorver sua energia dos mais variados campos humanos, do religioso, econômico, moral e de outras antíteses. Ele não descreve a sua própria substância, mas apenas a intensidade de uma associação ou dissociação dos seres humanos, cujos motivos podem ser religiosos, nacionais, econômicos ou de qualquer outro tipo e pode afetar em diferentes tempos, diferentes coalizações e separações”         

(Carl Schmitt)

“Minha política é o Flamengo!”

(Rubem Braga)

O torcedor do Galo chama o torcedor do Cruzeiro de “Maria”. O cruzeirense, por sua vez, refere-se, carinhosamente, ao atleticano como “cachorrada”. No Rio, o Flamengo é o time do povo, dos pobres e analfabetos, assim como o Corinthians, em São Paulo. Já os tricolores paulista e carioca representam a elite, a aristocracia branca.

O futebol se alimenta e retroalimenta preconceitos sociais. Atributos pessoais deste ou daquele jogador se espalham e passam a representar toda uma torcida. Os conflitos no futebol, dificilmente tratam de futebol, há sempre algo externo ao campo.

Há pouco mais de dois meses, no Egito, as torcidas presentes numa partida de futebol partiram para a luta corporal, após o fim do jogo. Muito se falou, neste caso, sobre a influência do clima político do país, o impacto das revoltas contra o governo e da “instabilidade política” sobre o comportamento dos torcedores. 73 pessoas morreram nos gramados.

Amo o futebol. Acho transcendente. O homem/mulher, a bola voando, a espera, o momento mágico de um drible, o gol. A possibilidade de criar diferença, de inventar. É clichê, mas o futebol é uma grande metáfora da vida. Amo muito mais o jogo em si, do que tenho prazer em torcer e ver o meu time ganhar. Futebol é o Zidane caminhando em campo, levando a bola. É isso o que me emociona. Mas sei que sou minoria, minha apreensão do jogo, ainda que movida pelo amor, é quase fria, um tanto distante, pois pouco me interesso pelo resultado, ainda que possa estar mentindo um pouco.

A maioria torce e sofre e comemora, só quer ver seu time ganhar e não importa como. Vão aos estádios, falam disso a semana inteira, entoam hinos a favor do seu time, xingam os adversários e provocam. Independente de time, classe, gênero, ou raça. Quantos já não perderam o emprego nas segundas feiras, nas quintas depois de desvarios futebolísticos. A famosa invasão corintiana em 76 ou mesmo a notícia de que 10 mil torcedores do Internacional foram para o Japão em 2010 para torcer no mundial interclubes, nos lembram do poderoso verso gremista:

“Até a pé nós iremos / para o que der e vier / mas o certo é que nós estaremos com o Grêmio onde o Grêmio estiver”

Para Carl Schmitt, jurista e pensador alemão, o caráter político de uma relação se dá pela instauração de uma relação do tipo amigo-inimigo. O político não tem a ver, a priori, com o estado ou o governo. A dimensão estética envolve o belo e o feio; a moral, o bem e o mal. Seria a intensidade do antagonismo numa relação coletiva o que qualificaria o político. Ele se dá pelo fortalecimento do caráter conflitivo numa relação tipo nós contra eles.

A rivalidade é marca tradicional do futebol. Os grandes clássicos e o clima épico que criam, sublinhados pela violência recorrente, que o digam. Podemos dizer, então, que a disputa entre Flamengo e Vasco é um fenômeno político? E para quê isso tudo? Talvez eu esteja exagerando, vai… O torcedor vai ao estádio entoar as canções de amor e louvor ao seu time querido, e muitos nunca chamam ninguém de “cachorro” ou de “maria”. Torcer é pura festa e magia, exaltação do sublime amor e não de ódio. O Marshall Sahlins me atacaria por outro lado e me diria, como um psicanalista de botequim, que é essa minha obssessão Nietzsche-foucaut-gramsciana que me faz ver política em tudo, lançando disparates por todo o lado. Não discordo dos argumentos. Não quero reduzir o futebol aos conflitos políticos/sociais, ainda me sinta tentado à tal empreitada. Mas não posso, como a maioria faz, deixar de pensar na tensão social implicada no futebol,  como se isso fosse algo natural, ou o resultado da sociopatia de uns poucos trogloditas que acabam com a festa da maioria que só quer “paz” nos estádios, sem entender as entranhas desse bagulho.

Considerar o futebol e a relação entre as torcidas a partir da noção de amigo-inimigo de Schmitt, ou seja, enquanto questão política coloca algumas questões. Penso em dois caminhos. Por um lado, acho essa postulação perigosa, por reduzir o fenômeno amplo do jogo e do amor ao time à essa dimensão antagônica/política. E aí, vejo que o Sahlins está certo. Por outro lado, essa consideração traz o futebol e sua relação de amor para a vida social de nosso país. Pois não se trata “simplesmente” de um jogo. Esse segundo ponto pode nos ajudar a entender a dinâmica de amor e paixão que envolve o brasileiro, considerando a centralidade constitutiva da peleja para nosotros. Dessa forma, importa menos o conflito esportivo em si, as brigas, a pancadaria e as mortes, e muito mais entender como essa paixão se explicita no ato de torcer, no falar disso, nos  discursos e significações. Ou seja, como torcer se articula com questões sociais, quaisquer que sejam, como o racismo ou a homofobia.

Tudo isso traria a discussão do amor, da paixão, do ódio dos torcedores, para fora das estapafúrdias mesas-redondas com seus jornalistas esportivos, quase sempre obtusos, para outros espaços de debate e formação de opinião.

Talvez paixão, luta e ódio andam sempre juntas. Talvez o filósofo aqui esteja querendo dominar as paixões no futebol, por não fazer parte disso. Talvez o romântico aqui queira que a potência da paixão futebolística alimente também nossos desejos socialistas. Que alimente nossa vontade de eliminar a desigualdade e a opressão, essa vontade cada vez mais acomodada no liberalismo tranquilo e feliz. Que a igualdade radical, que a liberdade fora das oscilações e determinações excludentes do senhor mercado também nos faça entoar hinos e canções de exaltação. Fora dos estádios.

Talvez.

Published in: on 08/04/2012 at 20:24  Deixe um comentário  

Notas doutorais #7 – Tomar para si a responsabilidade

Uma das coisas que mais me intriga, me angustia e por isso me convoca a realizar minha pesquisa de doutorado é saber porque diabos as pessoas resolvem se responsabilizar pelo quê acontece no mundo. Quando é cada vez mais fácil culpar o Eike Batista, a globalização, a rede Globo, o estado brasileiro, a ganancia dos mega-especuladores ou a baixa qualidade da educação no país. Por que algumas pessoas resistem a jogar a capacidade de ação nestes atores e se colocam a criar um espaço possível de ação, de fala, de articulação, de política? Essa questão aparece sempre em qualquer luta social e política. Pode se dar quando uma mulher na rua presencia um homicídio perpetrado pela própria polícia e faz alguma coisa com isso; quando as pessoas passam a não aceitar mais a violência cotidiana contra determinadas populações, negros, homossexuais, mulheres e se mobilizam para mudar leis, para colocar a boca no trombone. Pode também se dar quando populações resistem a ser esmagadas pelo capital que pega o que vê pela frente, histórias, pensamentos, tradições, árvores e pedras e lançam num alto forno. O posicionamento crítico do sujeito sobre sua realidade, sua força para agir, isso que para mim não tem nada de heroísmo. Odeio essa referência que só que só nos faz desconsiderar a realidade que vivemos e suas determinações olhando apenas para capacidade única de alguns tipos privilegiados de sujeitos, moldando mitos que se dissociam completamente da vida, essa besta. Há banalidade nos atos mais “heroicos”. Há que se recuperar essa banalidade.

Ao ver o filme acima uma fala me chamou atenção, por fazer eco com coisas que venho estudando. Um senhor de barbas brancas, indignado e com raiva, quando vê que está sendo expulso da sua própria terra por uma grande empresa, diz:

“Eu saindo daqui não preciso viver mais. Daqui dessa terra que eu nasci e criei meus pais, meus avós…”

É o filho que cria os pais. E os avós. É ele que toma para si o cuidado com o mundo que foi, que é. É ele que restitui e defende a eterna continuidade das coisas. Mesmo que as coisas devam continuar diferentes.

O velho fala dos seus pais falando também para seus filhos.  E ele diz:

“Não se esqueçam!”

Published in: on 13/02/2012 at 18:40  Deixe um comentário  

Bipianas #2

Ironia.

Num domingos desses de samba no bip, aconteceu o seguinte. Em geral temos sempre mais cordas do que couros. Mas nesse dia a turma da percursão apareceu reforçada e o samba corria ainda mais bonito. Em determinado momento alguém puxou a maravilhosa Ilu Ayê, samba-enredo-exaltação-black-is-beautiful da Portela de 72.

Negro diz tudo, que pode dizer….

é samba, é batuque é reza, é dança, é ladainha

negro joga capoeira e faz louvação à rainha…

Negro é sensacional

é toda a festa de um povo é dona do carnaval”…

A coisa contagiou e os batuques foram assombrando. Forças ocultas se assomavam a alegria banal, gritos de hoje, gemidos de outro tempo. Um alumbramento se apossou de todos ali presentes. Conversões, absurdos e transmutações se avizinhavam ao momento… O pandeiro, o surdo e os demais  acompanhando/mandando no ritmo da alma.

Nisso, um branco com jeito de europeu, vira para os percurssionistas, a maioria de negros, e os manda diminuir o ritmo e tocar mais lentamente. Logo nessa música, meu deus. Logo nesse momento lindo de desvario. Ah, esse senhor que manda no feudo, no engenho ou só num samba em copacabana.

Os chicotes, sempre eles…

Agora vêm embutidos nas palavras.

Published in: on 11/12/2011 at 22:50  Deixe um comentário  

Sementes espalhadas nesse chão

Published in: on 03/07/2011 at 14:37  Deixe um comentário  

A GRANDE MARCHA DOS VAGABUNDOS

“Em primeiro lugar o que é um vagabundo?

… Estas são as características que o distinguem: ele não tem dinheiro, veste-se com andrajos, caminha cerca de vinte quilômetros por dia e nunca dorme no mesmo lugar.

…Ele não tem emprego, lar ou família, nada de seu no mundo, exceto os farrapos que cobrem seu pobre corpo; vive às custas da comunidade…

O vagabundo não perambula para se divertir, ou porque herdou os instintos nômades de seus ancestrais; antes de mais nada, ele tenta não morrer de fome”.

Eric Blair, 1942 [George Orwell]

 

Sábado passado, ao lado de homens, mulheres, de jovens, idosos e crianças, fui às ruas protestar contra o estupro e outras formas de violência sexual contra mulheres. Para os boçais de plantão as mulheres, quando usam roupas curtas, estão na verdade convidando os homens para que estes as estuprem. É claro. E alguns ainda dirão: “Não é que a gente concorda com isso, mas é como o mundo é”. No sábado, mulheres de todas as idades em roupas de tamanhos e cores variadas, andavam gritando e cantando. Foi bonito de se ver, de participar, mas também triste, muito triste. É triste que o estupro possa ter atenuantes e justificativas, coisa que nos avisa que o mundo está acabando. A marcha das vagabundas, ou das vadias, é fundamental no enfrentamento da violência, ao colocar na rua esses corpos todos, suas formas e tempos. Corpos que deixam de ser corpos para dizer: “Somos mulheres!” Sim, sim aí está uma mulher. Pois, então que a violência infinita do estupro nunca mais ocorra.

Mas o mundo está acabando também porque, a cada dia, vemos menos manifestações contra a miséria, contra a pobreza, contra a opressão do capitalismo. Ah, esses que se vangloriam dizendo que estas palavras já estão gastas demais, que nada nos dizem nesse belo século XXI. E a dor da pobreza e da miséria, isso, para vocês aí, diz alguma coisa? Fiquei absurdamente chocado com o texto acima do grande George Orwell que não só lutou na Guerra Espanhola, mas também marchou cotidianamente ao lado dos vagabundos e mendigos ingleses. Fiquei a pensar numa grande MARCHA DOS VAGABUNDOS contra as práticas e ações moderno-fascistas que nos rodeiam. Essa visão que nega qualquer lugar a quem já não tem lugar. Ah, esses senhores que enchem o peito de orgulho com obras, tratores, casas devastadas, e pensam felizes que finalmente o “Brasil Grande” está chegando. Esse papo de progressos e avanços mil, sempre com responsabilidade social e ecológica, baseada na capacidade gestora de gente incapaz de entender que há coisas que não podem ser geridas. Há coisas que devem ser simplesmente aceitas, atenuadas, pensadas, mas que não podem ser resolvidas, sobretudo na base da caneta, do cassetete ou do trator.

Uma GRANDE MARCHA DOS VAGABUNDOS contra esses belos senhores que, sem nada compreender, pensam que tudo administram. Esses que falam de democracia e participação, mas logo-logo, complicando, chamam as ferramentas de trabalho de sempre. Os cães, a polícia, o ódio, o gás de pimenta. Sempre prontos a massacrar aqueles que não estão entendendo os rumos do novo tempo, ou para mais bem dizer, aqueles que simplesmente não concordam.

Há dois anos a prefeitura do Rio de Janeiro colocou grandes pedras embaixo de alguns viadutos da cidade. A visão era de uma superfície lunar e o seu intuito era impedir que moradores de rua ali dormissem. Semana passada, num jornal de Belo Horizonte, circulou as denúncias contra agentes da prefeitura que estariam roubando cobertores, caixas de papelão e pertences dos moradores de rua. Taí: O FIM DO MUNDO. Pois, vejamos: se essas pessoas já não são homens e mulheres, se são ratos ou coisas que o valha, então os tratemos como tais, não? Onde está a honestidade no belo mundo moderno? Não deveríamos então simplesmente exterminá-los de uma só vez? Ou será que conseguimos ver que esses maltrapilhos, mendigos e vagabundos não são simplesmente homens e mulheres, presos na perversidade de um sistema opressor que exclui muitos para garantir a liberdade, a vida, a riqueza a poucos, bem poucos. Os vagabundos são homens e mulheres, posto que têm sonhos, pensam, sentem desejos e frio. Sigam a seguinte sequência, por favor: Estamos no inverno. Em Belo Horizonte faz frio no inverno. À noite faz ainda mais frio. Os seres humanos sentem frio. Cobertores e caixas de papelão protegem contra o frio. É possível entender o encadeamento desses fatos? Eu entendo. Eles, os vagabundos, entendem e por isso se juntam, e por isso recorrem a cobertores e caixas de papelão.

E você, será que compreende?

E me diga, então, quem é o rato?

Published in: on 22/06/2011 at 19:39  Comments (3)  

Mulher brasileira

A vida ordinária e cotidiana das grandes cidades brasileira tem sido o cenário de um teatro violento e triste. O mesmo enredo repetido à exaustão. A violência urbana acompanhada de cenas de execução em todas as configurações possíveis. Os perversos  sempre ávidos por novas formas de sofrimento e tortura devem se deleitar com o que vemos nos jornais. Por um lado um jovem de 14 anos recebe 6 (seis!) tirous à queima-roupa da polícia em Manaus. Por outro um policial joga spray de pimenta nos olhos de uma menina, uma criança. Poderia dar outros exemplos, mas não é disso que quero falar.

Edmundo Leite, colunista do Estadão, no textoTributo a uma mulher desconhecida relata o caso da mulher, que ao presenciar uma execução, liga para a polícia e denúncia o caso. Podemos ler a notícia e ouvir a ligação aqui. A mulher, com voz firme e resoluta, conta ao atendende da PM, com clareza, que uma viatura da polícia entrou no cemitério, em seguida um rapaz foi retirado de dentro do camburão e depois ela ouviu um tiro de execução desse sujeito. A mulher logo no início da ligação fala: “Diz que já é normal fazer isso aqui, mas não é normal eu assistir isso”. Essa mulher merece um tributo, como propõe Edmundo Leite.  Mas ela merece mais, muito mais. Não uma retribuição pessoal, particular. Merece que nós honremos seu gesto. Sua ação. Ora, ela ligou para a Polícia vendo a polícia matar. Ela não só agiu frente à bárbarie, como ainda acreditou na instituição.  E  percebe-se  que  a PM agiu em conformidade com a lei como deveria acontecer sempre e não acontece. E por isso estamos agora discutindo esse caso.

Nos comentários do blog do Edmundo Leite, fiquei espantado com a truculência e a agressividade de certos homens que frente a casos como esse, sempre tagarelam coisas estapafúdias, como “bandido bom é bandido morto”; “ela só denunciou porque eram policiais, se fossem bandidos matando/estuprando ela não teria feito nada (!)”; “os defensores dos direitos humanos não deveriam ter direito a defesa da polícia” e absurdos do gênero. É curioso que as resoluções propostas avançam sempre contra qualquer regra ou valor democrático. Além de naturalizar as relações sociais, como se vivessemos sob a divisão dos bons contra os maus, e ai de você em defender “bandido”. O que esta senhora fez foi simplesmente dizer, “Não, isso não pode acontecer”. Não há predicado, não há condição. Ela diz: eu não vou viver, de forma alguma, com a responsabilidade frente a esse fato. Daí vem o poder do seu ato. E quando o policial executor vem em sua direção dizendo que apenas socorria o criminiso e questiona se ela sabia o que aquele rapaz teria feito, ela diz sem medo: “Eu não sei o que ele fez (voz do PM ao fundo) É mentira senhor. Eu não quero conversar com o senhor. O senhor paga o que o senhor faz. O senhor tem a consciência do que faz.”

Não é coincidência que esse caso faça ressonância com os exemplos que tenho discutido aqui, nas ultimas semanas, a partir da inquietação que produziu em mim a leitura do livro “Responsabilidade e Julgamento”, uma coletânea de artigos de Hannah Arendt.  A possibilidade de romper e inaugurar algo no mundo, de fazer valer a justiça é algo raro, mas sempre necessário. Esquecemos isso quando banalizamos a ação desta mulher, ou quando passamo a ver a violência e a miséria urbana como mera paisagem. Hannah Arendt, no trabalho citado, discute a questão moral e ética envolvida na decisão humana. Ela se baseia na maneira como os agentes de baixa patente do nazismo se defenderam quando julgados pelos crimes cometidos no período nazista.  O ponto central é a relação entre a decisão e a questão da moralidade.  A autora rechaça veementemente certos  “argumentos”  que  justificavam a ação dos agentes nazistas como apenas ordens que estes deveriam cumprir, sem caber a eles refletir sobre a natureza das ordens;  ou então de que frente a um regime criminoso como um todo, todos  foram igualmente culpados. Esses argumentos (como os acima tipo: “bandido bom é bandido morto”) buscam estruturar uma rede de proteção contra o pensamento e o julgamento, contra  o sentido de certos atos e a responsabilidade frente a estes atos. Não é preciso ser uma filósofa com o NOME de Hannah Arendt para entender o que se deve ou não fazer. A mulher anônima entendeu muito bem o que tudo isso envolvia.

x                                                  x                                                   x

Ps: Não sei se é coincidência que seja uma mulher a autora desta ligação. Suspeito que não. Assim como não acho que seja coincidência que os homens estejam sempre envolvidos nessas situações de violência. Odeio qualquer tipo de ontologia de gênero, que atribui a homens ou mulheres qualidades e características essenciais. Mas não consigo deixar de pensar nessas coisas  ao me deparar com esse caso.

 

 

Published in: on 05/04/2011 at 13:30  Comments (4)  

Ruminiscências eleitorais #1 Esquerda!… E Direita?

O filósofo lacaniano/marxista Slajov Zizek em recente visita ao Brasil abusou de sua reconhecida “simpatia” e disse odiar o carnaval, essa festa pagã que tanto mobiliza nosotros abaixo da linha do Equador e dos quadris. Ele diz odiar o fato das pessoas acharem que podem fazer qualquer coisa durante o carnaval. O filósofo despreza a idéia de um tempo-espaço que autoriza e libera desejos e fantasias do enquadre da responsabilidade.

Acabamos de passar por um dos processos eleitorais mais sofridos e difíceis dos últimos 20 anos. Um processo marcado pela influência de questões morais e religiosas no curso da eleição; por acusações falsas (e também verdadeiras); pelo preconceito das elites contra determinado “tipo” de eleitor. Dossiês, sigilo bancário, denúncias infundadas de uma pretensa ditadura petista, Zé Dirceu, filho de Erenice e tráfico de influência, Paulo Preto e superfaturamento, fogo-amigo no PSDB… Bom, antes de qualquer coisa, é preciso dizer que votei na Dilma e também participei da sua campanha. Agi assim pelo fato de me identificar com a esquerda petista, por considerar a desigualdade social o problema mais importante do país e por acreditar na centralidade do Estado na luta contra essa condição. E também por ver a direita em seu estado puro no projeto do PSDB, tanto na visão reducionista do Estado, aliada a crença de um mercado intrinsecamente virtuoso, como no plano político na  ativação de preconceitos e moralismos, rechaço dos direitos de minorias sociais e criminalização dos movimentos sociais. Liberalismo econômico com conservadorismo político.

Com o fim das eleições e a vitória de Dilma Roussef vimos um final triste e patético para a direita. Esse final começou com a deselegância suprema do candidato Serra na sua demora para reconhecer a derrota; passou pela saia justa interna no PSDB quando o coordenador da campanha psdebista acusou o ex-governador Aécio Neves de ter feito corpo mole na campanha pró-Serra em Minas Gerais, e teve seu ponto culminante com a onda de discriminação e preconceito no twitter contra o povo do nordeste. Se este último evento não deve ser creditado na conta da campanha do candidato Serra, ele não pode, no entanto, ser desprezado para uma análise maior do processo, dos debates cotidianos e da experiência que vivemos nessas eleições. A idéia preconceituosa de que é o miserável nordestino anônimo, aquele que sobrevive às custas dos programas sociais, esse eleitor vendido e não esclarecido que teria elegido a candidata Dilma, permeou os papos de boteco e os e-mails na rede. Um discurso que ganhou força, tendo em vista o fato das classes altas, socialmente influentes acharem sempre que o que eles pensam representa o que pensa o país. Eles acreditam que é a realidade que deve se curvar sobre seus delírios coletivos. Frente a isso o texto singular de Maria Rita Kehl[1] colocou as coisas e as pessoas no seu lugar, desfetichizando em poucas linhas tolices com força e elegância.

Eu fiquei bastante aliviado com o fim do pleito, estava angustiado com a possibilidade do Serra ganhar a eleição, menos pelo sentido político-partidário disso, mas muito, muito mais com o sentido social, dos afetos públicos que essa possibilidade construiu. Esse espírito raivoso, pré-golpista de parte dos eleitores serristas que na verdade não aceitam e nem toleram o governo Lula/PT. Ora, que ótimo que temos paixão, amor e ódio. Isso é bom. O problema é que a maneira dessa direita agir e pensar me deixou um tanto assustado mesmo. Ao atiçar preconceitos e farsas deslavadas de toda ordem, revelando coisas absurdas, como por exemplo, fazer crer que o passado de militância armada da candidata Dilma seria um indício de que se estaria forjando uma nova ditadura no país. Ou então de que os “radicais do PT” que teriam sido controlados pelo Lula voltariam com tudo frente a uma candidata frágil como Dilma (ficou a pergunta, ela seria frágil por que mulher?).

Uma eleição, especialmente no seu segundo turno junta em torno de uma candidatura projetos políticos, visões e grupos diversos, com propostas que podem até mesmo ser antagônicas. Tais grupos e propostas, no entanto, aliam-se num dado momento contra algo percebido como um mal comum. Dessa forma, tivemos na candidatura petista, de um lado o PMDB junto com os “radicais comunistas” do MST. Do lado psdebista, vimos os setores mais ricos, liberais e metropolitanos da sociedade brasileira aliada a igrejas e grupos evangélicos. O que se constrói, de um lado e de outro, é um arco de equivalências entre os diferentes grupos, baseado mais na diferença construída na relação com o projeto rival do que propriamente na semelhança interna[2]. Em larga medida as semelhanças se constroem a partir dessa relação com o projeto antagônico, e não o contrário. Por essa razão que acredito que se mantém fundamental a clássica diferença entre esquerda e direita, muitas vezes desacreditada. Diferença que se mantém, mas que é alterada pelo curso dos acontecimentos. Acreditar que a esquerda ou a direita são sempre as mesmas é de fato desprezar a história. O tema da ideologia me fascina há muito tempo e essas eleições forneceram carne, corpo material para minhas aflições e considerações, das quais esboço alguma coisa por aqui. Minha angústia em relação ao debate esquerda/direita surge por um lado pela minha identificação com a esquerda, o que significa invariavelmente com o legado marxista da sociedade como uma sociedade de conflito, luta e divisão; e por outro com a percepção social, cotidiana de uma direita que manda, que se mantém no poder, mas que se exime de entrar na disputa de peito aberto. Uma direita que atualmente não tem nada de exuberante[3]. A esquerda tem orgulho de sua posição, e o pessoal da direita, hoje, como se afirma publicamente sobre suas posições?

A direita continua presente e forte, como ficou claro nessas eleições, mas não se  nomeia enquanto tal, lançando mão de recursos para escapar do rótulo: “direita”. E aí é fácil ouvir coisas, como: “Cara, direita e esquerda são coisas velhas, que não existem mais”, ou ainda “Nós não somos de direita, somos realistas”. O que significa essa ausência de uma identificação explícita por parte da direita, a recusa de seu nome? Ainda que no discurso a diferença apareça facinho, facinho… Basta falar assim pro camarada: “Bolívia, MST, aumento de gastos públicos, estatização…”. Bom, mas com a recusa de aceitar o nome ficamos nós aqui, na esquerda tagarelando para o vazio, falando deles, dessa direita, da Veja, d@ Globo, mas somos nós que nos dirigimos a eles, somos nós que os nomeamos assim… Poucos chegam e falam: “Sim, eu sou a direita e estou aqui![4]. Tudo bem e se você não se chama “direita”, gostaria de ser chamado como? (Terceira via, talvez?).  Numa entrevista recente da Miriam Leitão com o economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central durante o segundo mandato do FHC aconteceu uma situação interessante. E tenho de confessar que é por essas coisinhas que gosto da colunista global. Em determinado momento ela pergunta para o ex-presidente do Banco Central de forma um tanto quanto retórica: “Mas você, vocês são de direita, né?”. No que um titubeante Armínio Fraga responde “Não, não… eu me considero assim de centro-esquerda…”. Se o Armínio Fraga não é direita, quem seria então, ó Jesus? Qual é o medo desse carimbo “direita”? Eu realmente não sei (e isso não é jogo de palavras da minha parte. Não entendo porque a direita não se declara enquanto tal).

Pode ser que tudo o que estou escrevendo aqui seja um delírio. Que a ausência de uma auto-nomeação da direita não seja nada mais do que um detalhe sem importância. Já que não estamos confundindo a auto-declaração com a existência prática. Bom, o que eu queria mesmo do Papai Noel era uma direita que não fuja da raia declarando que as distinções ideológicas fazem parte do passado, ou então que não se considere também de esquerda, minando assim o debate e o reconhecimento da diferença. E qual seria essa diferença?

Talvez seja essa a pergunta importante. E por isso comecei o texto com a fala do Zizek. Não podemos esquecer e fazer vento com o que aconteceu durante as eleições. Não devemos e nem podemos fazer das eleições um carnaval, e por isso é fundamental lembrar o Zizek e marcar os eventos, as associações, reações desencadeadas e responsabilidades por tudo o que aconteceu, de um lado e de outro. O clima golpista criado contra a possibilidade de vitória da Dilma e contra o governo PT de forma geral deve ser creditado a quem for de direito. Menos para perseguição e mais para entender o que está em jogo. Vídeos como esse aqui embaixo não podem ser esquecidos simplesmente. É preciso que todos o vejamos sempre e ainda mais uma vez, pois ele aponta esses elementos ideológicos que marcam a diferença entre a direita e esquerda[5].

Para finalizar tenho que reconhecer que não sei muito bem o que quero. Na distração me pego delineando uma direita bem específica, muito liberal, voltada para o mercado e sua ilusão de avanço tecnológico, social e ético. Pessoal bem metropolitano, afeito às liberdades individuais. Uma direita menos conservadora politicamente e laica, por favor. Mas ao pedir isso, excluo uma parcela fundamental que se identifica com a direita. A minha tese é isso mesmo o que você pensa, no mínimo confusa. Porque por um lado acredito que a direita sendo devidamente ocupada pela burguesia metropolitana muitíssimo liberal economicamente e politicamente, poderia extirpar do discurso público o preconceito e a discriminação, criando uma certa equivalência entre esquerda e direita e assim constituindo um “cordão de proteção” a determinados direitos[6]. Dessa forma, por exemplo, fica acordado que a homofobia, ou o preconceito são inaceitáveis em qualquer projeto político. Porém, isso iria  certamente minar o debate político, ao excluir de forma acintosa temas polêmicos, temas que por serem polêmicos, ficam no cruzamento de universos de sentido, como acontece, por exemplo, com o tema do aborto. E no momento que estes temas são taxados como pré-políticos, como moralismo, ou o que seja, teríamos aí a exclusão do tema do debate e da divergência política. Joga-se para outras esferas e a polêmica deixa de constituir um ponto de antagonismo. Ao criar uma equivalência entre esquerda e direita mina-se um aspecto importante da diferença política.

Ao “escolher” uma direita feroz, mas ao mesmo tempo “clean”, “modernosa” estaria limpando um terreno que é por natureza sujo, o terreno da política. Não! Ficamos com o abacaxi. Não podemos impedir que os conflitos sociais, sexuais, morais deixem de se expressar na política, sob pena desta se tornar cada vez mais (como se já não fosse bastante) uma área exclusiva dos chatos dos economistas e dos obtusos teóricos do estado.


[1] E também com a repercussão de sua demissão do jornal Estado de São Paulo.

[2] Aqui estou me baseando claramente na teoria política e social de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, a partir da obra conjunta “Hegemony and Socialist Strategy” de 1985. Em anexo coloco três textos sobre essa teoria para os interessados.Notas a proposito de Laclau (Celi Pinto)Novos Movimentos Sociais (Laclau) ; Política e paixões (Mouffe)

[3] Para ver uma direita exuberante basta ler as crônicas políticas do Nelson Rodrigues ou os textos do Roberto Campos.

[4] No fundo, acredito que seja esse o modus operandi clássico da direita. Para o filósofo Jacques Ranciere, a direita sempre se recusa a ver a sociedade como uma sociedade dividida, cindida, quebrada. A direita sempre acha que a sociedade se reduz a uma verdade e que, por coincidência, é ela quem a detém.

[5] Num próximo texto quero tentar mapear como percebo essa diferença hoje.

[6] É, meu caro Sr. Rafael, mas aí você também fortalece tanto o debate Sul-Sul e hegemoniza discurso desenvolvimentista e tecnologizante, o que é um problema…

Published in: on 29/11/2010 at 22:01  Comments (3)  

Ainda temos Chico Buarque de Hollanda

“Vim reiterar meu apoio a essa mulher de fibra (Dilma), que já passou por tudo, e não tem medo de nada. Vai herdar um governo que não corteja os poderosos de sempre. O Brasil é um país que é ouvido em toda parte porque fala de igual para igual com todos. Não fala fino com Washington, nem fala grosso com a Bolívia e o Paraguai”. (Chico Buarque)

Depois da declaração do Chico ontem, lembrei-me de um texto do Vinicius de Moraes escrito para o cronista e compositor Antonio Maria, amigo intimo do poetinha. O texto é delicioso, mas os dois últimos parágrafos são de arrepiar.

É preciso ouvir o poeta.

Oração Para Antônio Maria, Pecador e Mártir
– de Vinícius de Moraes- 1968

Nós saíamos os dois do Vogue, e depois de deixar Aracy no táxi que a levava ao seu subúrbio, seguíamos de carro até o Leblon, às vezes acompanhando a matilha madrugadora de vira-latas a transitar entre as calçadas do Jardim de Alá; havia sempre um que parava para fazer pipi, o que provocava o reflexo dos outros, e era aquela mijação feliz – que eu nunca vi raça de bicho mais contente da vida que vira-lata carioca ao nascer do sol. Parecia, mal comparando, uma fileira de lingüíças semoventes, uma a cheirar o rabinho da outra.
Você ria uma grande gargalhada, contente com o seu Cadillac velho, com a explosão da aurora no mar, com os vira-latas transeuntes e com seu novo amigo e poeta. E depois de passar pela casa de Caymmi, para ver se o baiano ainda relentava a noite, acabávamos nos Pescadores, enfrentando um filé com fritas, ou uns ovos com presunto, os melhores de Copacabana, porque eram feitos para a nossa grande fome. O pão era fresco, a cerveja bem gelada. Depois você me deixava em casa, eu dilacerado de saudades de tudo: de você, das conversas na boate amiga, onde dois barões, Von Schiller e Von Stuckart, disputavam em carinho e gentileza. E sobretudo da mulher amada ainda não tida. Você, maciste ao volante, cantava a marcha que tinha feito para a minha infinita dor-de-corno:

É muito Tarde para esperar por ela
Ela não vem ouvir a tua voz
Esquece, amigo, porque a vida é bela
A noite é grande e cabe a todos nós…

Um elo forte e viril se fizera entre nossas almas, e nós passamos a ser imprescindíveis um ao outro. A noite  – que esperança! – não era grande, era pequena para a nossa gula de vivê-la em toda a sua plenitude. Tudo passava tão rápido, nós olhávamos as moças dançando. Aracy cantava, surgia a figura amiga de Fernando Ferreira, de repente a porta da boate deixava filtrar a luz da manhã. “Ele”, como dizia Américo Marques da Costa, tinha despontado. Mais um dia, mais uma morte. Muitas mortes morremos nós, meu Maria, antes que a sua acontecesse para deixar-me mais só vivendo as minhas.
Tantos já se foram, atraídos pela Grande Noite… Evaldo Rui, Bicudo, Stuckart, Waldemarzinho, Louis Cole, Alzirinha, Mauro, Dolores, Ozorinho, Ismael Filho, Ari… Mas em compensação aí estão Paulinho Soledade, Carlos Niemeyer, respirando por um fole só, mas cada dia fazendo mais viração; Verinha, esse amor de Verinha, uma graça total; a nossa boa Araça, rainha das vagotônicas, e o querido Rinaldinho, que neste particular nada lhe fica a dever, ele e sua gargalhada que o rádio silenciou. E de vez em quando ainda acontece uma grávida, em geral moça do Norte. Porque a verdade, meu Maria, é que depois da pílula, moça carioca quase não muda de silhueta.
Às Vezes eu fico pensando. Não sei se você gostaria de estar vivo agora, meu Maria, depois de 1964. Tudo piorou muito, o governo, o meu caráter, a música. Agora só se faz música para Festival e perdeu-se aquela criatividade boa e gratuita da década de 50. Todo mundo faz música com objetivo: comprar apartamento, ter um carrinho, ganhar popularidade, dobrar o cachê, vencer Festival, namorar as moças, bater papo furado. Isso não quer dizer que os caras sejam ótimos compositores: eles o são. Mas tudo é feito com espírito muito toma-lá-dá-cá, cada-um-por-si-e-Deus-por-todos. Assim, a meu ver, perde a graça. Aliás, não é culpa deles, em absoluto. É “o esquema”, como está na moda falar. Eles têm que estar na onda, senão não tem apartamento, não tem carro, não tem cachê, não tem Festival, o papo micha e as moças não dão. Ficam, por assim dizer, marginalizados, e aí nem o Globo nem a Record querem nada com os infelizes. Em resumo, meu Maria, não se perdeu a música; perdeu-se a sua dignidade.
Mas por um motivo eu sei que você gostaria de estar vivo: as moças. Elas estão, meu Maria, cada dia mais lindas e esportivas, havendo mesmo uns espécimes de se espetar na parede com alfinete. E acho que você iria gostar do Antônio’s, um restaurante novo do Leblon onde todo mundo vai, e tem de certo modo o espírito do velho Maxim’s dos anos 51/53.
De vivo mesmo, meu bom Maria, há Oscar Niemeyer e Di Cavalcanti, certamente os dois maiores homens do atual Brasil. Di está, nos seus setenta, a coisa mais jovem, trêfega, inteligente e lírica do mundo, pintando cada dia mais lindo e batendo o melhor papo da República. E Oscar então, desse nem se fala. Elevou-se muito acima de todos, pelo gênio, pela consciência política, pela compreensão humana, pela simplicidade autêntica.
E há os estudantes. Estão maravilhosos, e dando lição de cultura aos pais e professores. Saem à rua como um fogo que se alastra, fazendo comícios relâmpagos, topando as paradas com a polícia e conseguindo unir todas as camadas da população, com exceção dos milicos. Outro dia nós saímos em passeata cívica, e éramos 100 mil na Avenida Rio Branco: estudantes, intelectuais, clero, donas de casa, protegidos por um extraordinário esquema de segurança bolado pelos próprios garotos. Uma beleza. Se alguma coisa de bom tem que sair deste país, vai ser à base do novo movimento estudantil.
E, naturalmente, Chico Buarque de Hollanda

Published in: on 19/10/2010 at 15:04  Comments (2)