Certas Companhias #4

No carnaval de alguns anos atrás, troquei meus amigos, esperanças de beijos velozes e vazios, ressaca e bebedeira infinda; caso, briga e riso, pelos amores e desvarios de Noel Rosa em sua Rio da década de 20, entre putas  e mangues, marinheiros, bordéis e Mario Lagos… Na escola de música da UFMG encontrei o calhamaço da biografia do compositor carioca que morreu aos 26 anos de idade. Enfim, foi o desejo de chegar perto e conhecer. Aí, talvez resida min’alma. Chego mais pelos livros, músicas… E estes momentos, livros, músicas e histórias têm feito minhas tardes menos vazias, na falta de um papo, ou de um telefonema, e assim alimentam uma conversa em outra hora, uma noite de bar…coisas essenciais.

Assim, minhas duas últimas companhias, aos quais tenho me agarrado com ardor são Tom Zé e Paulo Vanzolini. E é sobre o último que me concentro agora. Talvez esse movimento de buscar, desenterrar histórias de música brasileira tenha começado mesmo com o livro do Noel, escrito por João Máximo e Carlos Didier. Foi aí, por exemplo, que fiquei sabendo que Noel e Cartola foram grandes amigos. E mais ainda soube de uma das histórias mais lindas que já escutei, de como Cartola conheceu e se apaixonou por sua primeira esposa. E assim, secretei a mim mesmo este projeto que é  o de caçar essas histórias de compositores, cantores e encontros na música brasileira,  sobretudo no samba.

E foi através de uma coleção maravilhosa, que é “A Música Brasileira Deste Século por Seus Autores e Intérpretes”, que encontrei um belo caminho.  A idéia da coletânea é que os autores e cantores comentem histórias de música, do que acontecia na época, essas coisas. São palavras,  frases que esquentam o corpo, os sentidos. Enfim, que dizem assim: “Olha, a vida vale a pena, ela é bela…” Numa das faixas de Paulo Vanzolini, na qual ele comenta sobre um amigo seu, ele diz o seguinte:

[Fiori]… “Era como Adoniran (Barbosa) assim, indivíduos que tem o traço do caricaturista, um risco , uma frase … Nós tava conversando isso hoje… um exemplo que eu gosto muito de dar, quando o Adoniran fala assim ‘Inês, saiu pra comprar pavio pro Lampião’. Você pode escrever dez volumes sobre periferia, você não define tão bem, quanto uma mulher sair de casa pra comprar pavio de Lampião em São Paulo, né…”

Tom zé escreveu algo que tem se tornado meu mantra, e que até coloquei logo aqui embaixo, em outro textinho, mas como convém no caso dos mantras, vale a pena repetir…

“Quando essas sintonias se fundem e difundem, precisamos ouvir nossa alma, uma desatendida, que tanto fala à toa.” – TOM ZÉ

Bom, aí é massacre. Vanzolini, Adoniran, Inês, (que afirmo, agora sem medo,  ainda que entre parênteses, ser o nome feminino mais bonito  da língua portuguesa) isso tudo junto… Haja sintonia, ressonância, beleza…

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Published in: on 21/10/2009 at 22:28  Comments (2)  

Certas Companhias #3

Tudo, mas tudo mesmo, que se precisa saber para olhar, pensar e se posicionar sobre os conflitos sociais no Brasil de hoje  está contido neste trecho abaixo.

“Colocar os direitos na ótica dos sujeitos que os pronunciam significa, de partida, recusar a idéia corrente de que esses direitos não são mais do que a resposta a um suposto mundo das necessidades e carências. Pois essa palavra que diz o justo e o injusto está carregada de positividade, é através dela que os princípios universais de cidadania se singualarizam no registro do conflito e do dissenso quanto à medida de igualdade e à regra de justiça que devem prevalecer nas relações sociais. Para além das garantias formais inscritas na lei, os direitos estruturam uma linguagem pública que baliza os critérios pelos quais os drama de existência são problematizados em suas exigências de equidade e justiça. E isso significa um certo modo de tipificar a ordem de suas causalidades e definir as responsabilidades envolvidas, de figurar diferenças e desigualdades, e de conceber a ordem das equivalências que os princípios de igualdade e de justiça supõem, porém como problema irredutível à equação jurídica da lei, pois pertinente ao terreno conflituoso e problemática da vida social. Mas isso também significa dizer que, ao revés da versão hoje corrente que reduz os direitos a meras defesas corporativas de intreresses, em torno dos vários sujeitos que os reivindicam abrem-se horizontes de possibilidades que, desenhados a partir da singularidade de cada um, não se deixam encapsular nas suas especificidades, pois a conquista e o reconhecimento de direitos tem o sentido da invenção das regras da civilidadee da sociabilidade democrática. Ou, para colocar em outros termos mais sintonizados com os debates recentes, tem o sentido de inventar, em uma negociação sempre difícil e sempre reaberta, os princípios reguladores da vida social.”

Vera da Silva Telles – “Direitos Sociais: Afinal do que se Trata?” (p.178-9) em Direitos Sociais: Afinal do que se Trata?, ED. UFMG, 2006.

Published in: on 19/10/2009 at 14:31  Deixe um comentário