Despedida, com decência e melancolia.

“Como se sai do fundo do poço? A pungência não só da pergunta, mas de uma eventual resposta, ajuda a explicar o afeto de Eduardo Coutinho pelo personagem que encerra Peões – o metalúrgico Geraldo -, cuja fala, cheia de decência e melancolia, é uma lenta progressão rumo à consciência de um impasse. Geraldo viveu o período das grandes greves do ABC. Aquilo não voltará mais, as condições históricas agora são outras. Não tendo mais emprego certo, ele roda pelas fábricas do país em busca de trabalho temporário. É uma existência dura, na contramão da felicidade. Geraldo é forçado a se afastar da família para poder sustentá-la em lides que já não forjam laços duradouros de solidariedade e luta.

Esse é o quadro que descrevia quando Coutinho lhe pergunta se tem saudade da fábrica. Ele esboça um sorriso: apesar de todo o sofrimento, às vezes tem, sim. ‘Quer que teus filhos sigam a profissão?’ (a edição eliminou a pergunta de Eduardo). ‘Não, espero que eles não passem o que eu passei, não’, responde, caindo no poço. Ele desvia o rosto, seus olhos marejam. ‘Espero que não’. A câmera segue rodando, num silêncio cada vez mais pesado. Para quem assiste, a sensação é a de uma homem que se afoga.

Se Geraldo parasse aí, se não repicasse, seria a derrota. Mas então ele se salva. Triste, vira-se para Coutinho: ‘O senhor já foi peão?’ De um golpe – e é disso que se trata -, o impasse já não é só dele. Agora é também do inquisidor, responsável, involuntário por atirá-lo no buraco. É como se Geraldo dissesse: ‘Por favor, não julgue o meu silêncio porque você nunca saberá o que eu passei’. Com cinco paalvras, ele afirma a singularidade de sua vida. A desolação que se segue comove e suscita respeito, nunca piedade. Geraldo não lamenta sua vida, antes a enfrenta com uma coragem muda”.

JOÃO MOREIRA SALLES – “Morrer e nascer – duas passagens na vida de Eduardo Coutinho” (p.364-5)

Eduardo Coutinho – Milton Ohata (org.) São Paulo: Cosac Nayfy, 2013

Anúncios
Published in: on 01/04/2014 at 20:03  Deixe um comentário  

Cena de Cinema#4 – Coisas piores

Não tenho nenhum apreço especial por filmes de terror ou de zumbi. Hoje, quando acontece de ver um desses filmes, ao pressentir que lá vem uma cena gosmenta, coloco logo a mão no rosto sem embaraço algum. Por isso é que estranho o fato de realmente gostar do Madrugada dos Mortos, de 2004 (Dawn of the dead, direção Zack Snyder). A presença de senhorita Sarah Polley, na sua beleza despretensiosa e seu charme todo sem graça, certamente ajuda, mas não é isso. O segredo de Madrugada dos Mortos, e que suspeito ser o segredo dos bons filmes de zumbi, é que não estamos falando dos mortos e sim dos vivos. São eles que importam. A enfermeira que começa o filme fazendo amor com o marido debaixo do chuveiro, que em seguida dorme de conchinha com o mesmo e acorda com a menina vizinha arrancando a jugular de seu amado, é uma pessoa bem próxima de nós, apesar de todo absurdo. Porém, mesmo gostando desse filme, ele não seria mais que divertido e não figuraria em nenhuma de minhas listas, senão fosse pela cena e pelo discurso do personagem de Kenneth (o personagem de Ving Rhames) aqui debaixo.

Antes, tentarei contextualizar o porquê dessa cena. De um dia para o outro as pessoas em todo o mundo começam a virar zumbis. Seres humanos mordidos por outros zumbis, morrem e renascem com fome de sangue, vocês conhecem o mote. O filme não explica o porquê disso, o que é sempre ótimo. Já começa com o desespero e o caos que se segue quando seus vizinhos e familiares, simplesmente, querem comer seu fígado. Um grupo de humanos ao fugir dos zumbis vai se constituindo. Eles então decidem se abrigar num grande shopping center, o que é bastante interessante. Lá, a princípio temos um excelente esconderijo. Há comida, diversão, espaço, e segurança, ainda que os zumbis vão se ajuntando na porta do shopping em busca de comida. Num dado momento essa precária harmonia se desfaz e algumas pessoas são mortas.  Com isso o grupo se dá conta de que não pode continuar esperando, e que as coisas não vão nada bem. É nesse contexto que, ao tentar dizer algumas palavras sobre os companheiros mortos, Kenneth diz: “…há coisas piores do que a morte”. Ele lembra àqueles que estão vivos, que morrer não é nada, perto de virar zumbi e sair por aí querendo comer outras pessoas. Perto disso, morrer é uma opção.

Em algum momento a expressão, “há coisas piores do que a morte”, articulou-se a  lembranças, vivências e fantasias, mais prosaicas, mas não menos importantes, de minha vida. Momento de afastar o medo e afirmar, por vezes, nadando contra uma suposta maré, assumindo riscos, enfrentando o medo. Pode haver dignidade na morte, nas mortes. Por vezes tratamos algum evento como a maior catástrofe possível, uma espécie de morte, quando na verdade há sempre algo pior do que isso em jogo. Perder o emprego e morrer de fome é ruim, mas depender da miséria de outros ou de si mesmo, para poder passar o janeiro na praia, parece pior. Ser agredido ou ameaçado também não é bom, mas pior é conviver com a culpa de não ter feito nada ao presenciar uma violência, uma agressão. Ficar sozinho o resto da vida parece a pior coisa do mundo, mas viver se alimentando das vísceras, sonhos e alegrias de pessoas belas e vivas, é pior. Há coisas piores do que a morte… Isso me parece um bom lembrete, rapaz.

Published in: on 09/07/2013 at 15:22  Deixe um comentário  

Cena de Cinema #3 ou Analíticas #1 – O homem que não estava lá

 

Nenhuma cena em momento algum, nunca. Nenhum outro filme mexeu tanto comigo, nenhum outro filme me colocou tanto na mira, machucou tanto meu pobre coração como a cena acima. Nada absolutamente nada. Saí do cinema com a certeza de que o perverso do François Ozon pôs a cena na tela para maltratar meu pobre coração, meus sentimentos. Até hoje, 6 ou 7 anos depois, revendo essa cena meu peito aperta, o coração bate acelerado, e em pensamento desejo um novo final para aquilo que vi na tela. Mas não. É preciso ser forte e ver e rever, sentir e (tentar) entender. Por alguns anos a cena rodeou, espreitou, deu medo. Numa noite qualquer ela voltava, sem aviso. Depois partia e restava longe por meses, às vezes anos. Mas a lembrança sempre estava por aí. Hoje me sinto mais forte para lidar com isso.

O filme francês 5X2 é lindo e forte. Um murro no ideal romântico de um amor tranquilo… Não companheiro a vida não é tranquila. Porém acho impossível falar e pensar qualquer coisa desse filme, com seus vários momentos delicados, sem me prender na cena acima. E não acho isso bom, muito pelo contrário, essa cena de quase 10 minutos é uma prisão para mim. Uma prisão completamente imaginária, na qual, percebo agora, nunca consegui mesmo escapar. Por isso, se você ainda não viu a cena volte lá e a veja, por favor, esse texto não faz sentido algum para quem não viu a cena.

::::

:::

::

:

A história do filme é simples, acompanhamos cinco cenas da vida amorosa de um casal. Momentos importantes, divórcio, brigas, casamento, filho. O homem se mostra um fraco, um babaca, um homem. A mulher é forte e bela. Valente menina diria o Braga. A história está de trás para frente, começamos pelo fim do amor para chegar ao seu princípio.  Até “A” cena do casamento via o filme com gosto, um filme sensível e inteligente. Porém, enfim, sem nenhum tipo de aviso a cena quebrou tudo. Ela quebrou certa relação satisfatória, ou confortável, que mantinha comigo mesmo. Essa cena criou um medo que nunca havia tido, um sentimento mesquinho, grosseiro e vil. É ela que representa todos os meus ciúmes, minhas angústias amorosas. Revendo-a, somente agora, percebo que há ali ainda mais do quê gostaria de ver, de saber.

Vamos à cena. Vemos o casamento, o casal serelepe e feliz bailando, pois a vida é bela e tudo é perfeito. Love is in the air. Logo, o casal se dirige ao quarto para a noite de núpcias. Ele claramente bêbado, trocando as pernas. Ela desejando-o. Eles vão se beijando. Ela vai tirar o vestido de noiva e se “preparar” para o marido. Ele, tonto, dorme nesse tempo. Ela ainda chega e tenta algo, mas ele dorme. A moça está feliz, olha-o com olhos ternos, mas se frustra. Coloca um jeans e sai para dar uma volta. Nada demais. Ela então, caminhando, sorri ao ver os restos do casamento, seus pais apaixonados dançando no salão. O amigo flertando com o garçom. Ela então se dirige ao lago e lá se senta. Em pouco tempo uma figura masculina chega do meio do mato. Um americano com jeito de galã. Ele chega e se senta ao seu lado. Quase não se falam, ela pressente o perigo, mas fica. Ele oferece um Malboro ela aceita, “que mal pode haver?”. Em 10 segundos ele já a encara com lascívia e ela entende tudo. Olha para ele também, mas agora vê o risco e vai embora. Ele a segura com força e pede um beijo. Ela hesita, quer ir embora, ele a segura. Ela ainda resiste, não grita, mas não quer. Ele a olha. Beija sua barriga e acaricia. Ela pensa e decide. Beija-o com calor, e se lança a ele de uma vez. Corte. Uma porta bate, ela corre, volta ao quarto do amado com pressa (teme que ele saiba? Teme que ele não esteja mais lá? Sente sua falta?). Ele dorme. Ela se aproxima e o beija. Sonolento e amorosamente ele recebe os beijos. Ela diz: “je t’aime, je t’aime, je t’aime…”.

A palavra chave aqui é identificação. Em determinada etapa da vida, quando vi esse filme, já não conseguia mais me identificar com o amante norte americano. O estrangeiro sexualizado. Seria fácil me ver nele quando era mais jovem. Pensaria aí nessa “mulherzinha gostosa dando sopa”. Mas não dá, não consigo. Só consigo me identificar com o marido, o tolo, que dorme e depois ainda recebe, de bom grado, beijos na face e alguns “je t’aime”. Não conseguiria também me identificar com a mulher, infelizmente. O melhor seria não me identificar com ninguém, posto que não tenho nada a ver com aquilo, mas isso também não é possível. Perceba, não tiro dessa cena nenhuma lição moralista, não a culpo e não culpo ninguém pelo desejo. Nada disso, acho a vida linda. E é o marido que dorme. O amante surge do meio do nada, um acaso feliz. A mulher deseja. É vida o que há nessa cena de amor, e por isso ela é uma prisão para mim, pois eu sou o homem que não está lá. O homem que dorme. E jesus, o que significa o retorno dela correndo e dizendo eu te amo? O que significa a primeira recusa e a aceitação posterior? No quê ela pensa? Não sei, mas também não é difícil saber… Mas o pior são os pequenos detalhes da cena, detalhes que remetem ao simbólico, logo à aposta, ao eterno. São esses detalhes que atormentam e voltam. Por exemplo, não poderia ela estar usando outra lingerie que não aquela, aquela escolhida para celebrar a noite de núpcias? E ela tem que voltar correndo e amorosa, não poderia andar cautelosamente, tomar um banho e deitar silenciosamente na cama?

Quando saí do cinema, depois desse filme, estava inconsolado por dentro. A virada simbólica se consolidara. Rubem Braga perdeu. Não poderia mais ser o amante bonito, leviano e sexy, mas sim o marido, ainda mais um que dorme. Já tinha a certeza, e continuo com ela, de que a cena foi projetada para maltratar nós homens neuróticos heterossexuais. François Ozon, diretor assumidamente gay, nos dá esse tapa de palma aberta, esse tapa que estala. É mais um desses golpes copernicanos. Se o sol não é o centro do mundo, se o homem não é uma espécie nada especial no reino animal, e se o sujeito já não é nem dono de sua casa, o desejo da mulher também não lhe pertence, colega. Nunca. O desejo vai pro turista, o desejo é do latin-lover, do passageiro distraído, é o vazio. O desejo é vento.

Published in: on 07/06/2013 at 04:41  Deixe um comentário  

“DEBORAH VIVE”

Algumas coisas vão e passam. Outras ficam. Outras a gente pensa que fica, mas uma hora  também acaba indo, indo… Paulinho da Viola, que canta para mim a toda hora, fica e espero que nunca vá embora. Imagens, cenas, músicas, nomes. Será que há algum segredo atrás da  porta daquele sorriso? Será que aos meus 16 sabia que a linda mulher possuída pelo Banderas naquele filme sobre a ditadura chilena era a menina que dança e roda, e olha para o rapaz assustado escondido no banheiro? Ela envelheceu linda e mal. Envelheceu ocupando espaço da fruição estética e prazer, deixando seu reinado no infinito. Quem não amou aquela mocinha vestida de bailarina no fundo do restaurante? Quem não a bisbilhotou, outras e outras vezes e como o rapaz, também teve vergonha. Raiva, ódio, já não sei nem por onde. Lembro que lembrava, mas agora não faço idéia. A moça, a de verdade, depois de uns anos, só a via uma vez por ano. Festa junina no clube burguesinho, estúpido. Rodava a noite toda só (será que
foi aí que isso começou, essa vontade de ficar só e andar e andar, mentalizando alguma coisa fundamental?). Andava para achá-la, para saber se ela teria vindo à festa naquele ano. Depois andava para despistar, depois andava para vê-la só mais esta vez e depois despistar, e depois… Achava impossível que ela se lembrasse de mim. Quando moleque tinha uma sensação inflacionada da completa indiferença que produzia em todas as pessoas, sobretudo nas meninas. Por aí corria minha soberba. Ao iniciar qualquer conversa vinha um grilo chato, sentado no meu ombro, a dizer: “Seu retardado, é claro que você não tem chance, você não merece nem estar no campo de visão de uma mocinha assim, tão bela…”. Despistar. Aprendi cedo. Achava que essa moça tão, mas tão bela, tão parecida com a menina que dança no fundo do restaurante, ficaria para sempre na minha mente. Pensava que eu me lembraria de todos os esbarrões, olhares e as poucas palavras que trocamos. Ou melhor, todas as palavras que lhe dei (Será que daí veio o meu gosto pela atenção e a procura de uma memória perfeita para os assuntos do coração?). A vergonha infinita quando vi que ela e outras meninas haviam descoberto meu segredo, aqueles corações desenhados no caderno. Vergonha do fato e do clichê. Corri para o banheiro e lá fiquei 10 anos.

Quando fomos reencontrar a turma da escola, coisa de alguns anos atrás, fiquei nervoso com a pergunta que me espreitava: “E se ninguém se lembrar de mim? E se o grilo estiver certo?” O Bergman conta que sempre pensou que sua própria mãe nunca havia gostado dele. Sempre conviveu com essa impressão. No leito de morte, sua mãe o chamou e lhe disse uma coisa. Ela disse a seu filho que nunca gostou dele. Eu também descobri que pior que a angústia do que não sabemos, é ter certeza de que aquilo que se teme é mesmo verdade. No fundo, mesmo com todos os indícios a gente sempre descrê, quando quer.

Ainda encontrei a moça tal dentro do ônibus. Tola e ainda com alguma beleza, que com otempo foi rareando. Muito banal e burguesinha…. Preocupada talvez com o cabelo, com a loja tal, com o fim de semana, com passar em…. Uns moleques de rua jogaram uma manga na janela do ônibus, próximo a nós, que conversávamos. Eu não estava ali, estava tentando saber porquê diabos fôra tão apaixonado por aquela mulher, que engodo, que farsa… “Já fui acusado de amar mulheres tristes”, seu Rubem… Mais de uma vez… A moça ficou bastante nervosa com a manga que os moleques jogaram, eu não me assustaria se fosse uma banana de dinamite. Ainda me assusto mais como “o tudo vai bem, tudo legal…” A violência que me assusta é aquela invisível que faz tudo continuar indo bem, tudo legal. Se um dia morrer por causa de um canivete, um caco de vidro ou uma bala de revólver, não façam alarde demais sobre a violência das ruas, a criminalidade galopante do blablabla-sil. Tenham mais vergonha da opulência e da ambição, dessa sua majestade a prata que não desce do seu trono, nem para ver as milhões de almas aflitas. Ambição infinita para o amor, o desejo, a vida, o samba, a amizade, e pronto. A moça casou com um amigo de um amigo. Vê-la me lembrou de como fui um tolo óbvio quando me achei grandioso. Já não entendo da paixão secreta dos cadernos pichados, dos espelhos grafados com nossos nomes no vapor do banho. A dificuldade em lidar com esse tempo de tanto amor encalhado no peito, de aprisionamento e medo do mundo nele chegar, nada disso importa. Eu sou essa desimportância toda. O sentido mesmo da adolescência é que nunca houve drama, é tudo apenas um engano que a gente demora a perceber. Maior ingenuidade é achar que é esperto Elas sempre foram melhores na minha fantasia. Foi essa a dor que chegou depois. Não sabia fazer-me presente em suas fantasias. A gente aprende. Melhor: a gente tenta.

Published in: on 22/08/2012 at 20:49  Deixe um comentário  

CENA DE CINEMA #2 – AOS 13

Acho que nunca vi este filme do início ao fim, peguei lá pela metade e fui seguindo, sem muita atenção. E a beleza e a força da cena que descrevo logo abaixo se dá, mais por razões psicossociais, do que propriamente cinematográficas. Um dia, passando banalmente de canal para canal, vi que começava esse filme sobre adolescentes perdidas (aqui), tipo releitura norte-americana contemporânea de uma Cristiane F. Meninas bem jovens que se envolvem com drogas, sexo e violência. As meninas passam a se relacionar com traficantes e a coisa, obviamente, vai ficando cada vez pior. A mãe de uma delas, interpretada pela atriz Holly Hunter já não sabe o que fazer vendo a filha partindo aos poucos, aos 13. Na cena poderosa, a filha passa em casa por algum motivo e já vaipartir, o desespero já toma conta de mãe e também da filha. A sensação de que não há mais nada a fazer. No momento que a filha passa pela mãe, esta pula em cima de sua filha e a abraça, aagarra junto de si, sem deixar qualquer espaço, qualquer tempo ou movimento para a filha, sem deixar ela sair. As duas rolam por cima da cama e caem no chão, chorando. Depois disso a menina parece que leva jeito e as coisas melhoram.

Quantos abandonos, quanto sofrimento sujo poderia ser evitado com um gesto qualquer que deixe claro, sem sombra de dúvida que há amor! Que a coisa mais importante é esta ou aquela pessoa. Não acho que isso resolve tudo, que é solução geral,e nem que o problema ou a solução seja da mãe. Isolo o gesto louco de amor, de proteção e também de violência do ato que invade e desfaz a tese, bastante imaginária, de que vivemos sós, de que somos independentes e solitários.

Published in: on 19/07/2012 at 15:10  Deixe um comentário  

Cena de Cinema #1 – Malena

    

     Algumas cenas de filmes me acompanham pela vida toda. Vez ou outra, no meio de uma angústia ou de uma rua, lembro-me de uma dessas cenas, de uma fala, um silêncio, uma pausa, um beijo. São cenas que transformam um filme que mexem com o meu olhar. Como Abdias estou sempre acompanhado do diabo da análise, e com isso não consigo deixar a cena quieta no lugar dela, na sala de projeção ou na televisão. Ela vem e se instala na minha cabeça, passeando comigo pela vida.

     Essa seção é dedicada a essas cenas. Para os que não gostam de saber do final dos filmes é melhor não ler mais as linhas que seguem. O passeio pelos meus devaneios não sabe dizer de início, meio ou fim.

     “Malena” conta a história de uma bela viúva siciliana na segunda guerra mundial. A personagem central é interpretada pela única atriz possível: Monica Bellucci. O narrador da trama é um rapaz de 13 anos, como todos os moradores masculinos da vila onde mora, ele está completamente atormentado de desejo pela bela viúva. O filme narra os olhares, os desejos e abusos que envolvem Malena. Sempre a partir do olhar apaixonado do menino.

     Ao final do filme vemos o menino pedalando, na direção oposta a Malena, e ouvimos sua voz. Agora ele é um homem velho que finaliza aquela história. Ele nos diz que depois de Malena teve muitas mulheres, mas que a única mulher que ele nunca esqueceu foi ela, foi Malena.

Published in: on 27/01/2012 at 17:30  Deixe um comentário  

A Fita Branca

A Minha orientadora me pediu para escrever um pequeno texto sobre o filme A Fita Branca, para colocarmos no site do nosso grupo de pesquisa sobre a infancia e a juventude, O NIPIAC. Eu tinha entendido que era mais uma análise mesmo, mas depois vi que a idéia era apenas uma apresentação do filme. Então resolvi colocar aqui o resultado extendido, e lá apenas essa breve apresentação do filme.

A Fita Branca (Alemanha, 2009, Dir: Michael Haneke)

O filme narra uma série de estranhos acontecimentos ocorridos numa pequena vila alemã em 1913, um ano antes do início da primeira guerra mundial. Dirigido pelo austríaco Michael Haneke, esta obra ganhadora do prêmio mais importante no festival de Cannes, a Palma de Ouro de 2009, traz uma angustiada reflexão sobre a natureza e o ciclo da violência a partir das intrincadas relações entre os moradores desta vila, atravessando questões econômicas, religiosas, de gênero, mas sobretudo focando nas relações entre adultos e crianças.

 A obra é tecnicamente perfeita, marcada por uma fotografia belíssima em preto e branco e narrado em primeira pessoa, a trama se desdobra a partir de dois estranhos acontecimentos que marcam esta até então “pacata” vila. Num primeiro momento o médico do povoado, ao voltar para sua casa em seu cavalo, sofre uma terrível queda quando seu animal tropeça num arame amarrado entre duas árvores. Vemos que o acidente fora provocado por alguém, pois o arame havia sido amarrado exatamente no caminho cotidiano do médico. Poucos dias depois, uma camponesa de meia idade sofre um acidente em seu trabalho vindo a falecer. A partir destes episódios, e das condições em que estes ocorrem, somos convidados e entrar no âmbito das relações que caracterizam a aldeia. Outros acontecimentos ainda mais estranhos e violentos se seguem. Sem apelar para um suspense simples, que buscaria uma resposta objetiva à questão da responsabilidade e autoria dos atos de violência, esta narrativa se volta sobre o complexo mundo de relações humanas nos convocando a pensar em algo mais profundo sobre a condição humana. Do ponto de vista de sua estrutura narrativa, “A Fita Branca” nos lembra o filme “Dogville” (do sueco Lars Von Triers) no sentido em que ambos, através da análise de um povoado particular, descortinam elementos de um processo histórico mais amplo. Ou seja, o que acontece ali é, antes de mais nada, uma referência a algo estrutural determinado por condições sócio-históricas e não fruto de acidentes casuais. Portanto, não é fortuito que “A Fita Branca” termine com o início de um momento histórico central do século XX, a primeira guerra mundial.

Gostaria de finalizar esta discussão com um elemento suscitado a partir da reflexão em torno do título do filme. Esse faz referência à prática de um dos personagens principais da trama, o pastor da vila, que, como punição às diabruras de seus filhos, amarra em seus braços uma pequena fita branca para lembrar-lhes o ideal de pureza e de inocência que marca a infância. A função desta fita seria a de duplamente lembrar tanto o que eles haviam feito de errado como também como eles deveriam ser, puros e inocentes. Para alguns críticos de cinema, a fita branca seria uma alusão ao nazismo, na sua prática de marcar os judeus e outros sujeitos que não eram considerados “puros”. A referência a fita branca nos remete ao domínio simbólico. Neste domínio algo é importante não pelo que é, mas pelo que representa. Ou seja, a fita é o substituto de algo, nesse caso a infância inocente e pura. Da mesma forma como um pai simboliza a lei, ou um padre/pastor, a moral e a essência espiritual de um povo. O que me chamou atenção no filme partindo desses elementos é o complexo processo de dissolução do plano simbólico na sua capacidade de estruturar a realidade social. Duas cenas são importantes para entender o meu argumento. Em primeiro lugar vemos a cena na qual a filha do pastor se caminha para a sua crisma. Ali ela irá reforçar seus votos cristãos. No dia anterior ela realiza um ato bárbaro contra um pequeno animal de seu pai, com o intuito claro de provocá-lo. O filme nos mostra que o pai vê o que a filha fez. O que se segue é a cena do ritual de crisma na igreja, na qual seu pai, o pastor, hesita ao colocar a hóstia na boca de sua filha, mas após um breve instante conclui aquele ritual religioso, e também simbólico e público. Em outra cena, pouco antes do final do filme, vemos o narrador, o professor da vila se dirigir à casa do pastor para mostrar-lhe suas suspeitas de que as próprias crianças estariam envolvidas nos atos violentos que ali haviam ocorrido. Mas o pastor ao ouvir da boca do professor aquilo que ele também suspeitava o ameaça, fazendo-o se calar e defendendo assim seus filhos, através do uso de seu poder. A fita branca é colocada em seus filhos para que estes se lembrem de algo que deveriam ter entendido. Ela é uma espécie de reforço quando a realidade já dá mostras de se desintegrar.

Mais do que considerar o círculo de atos violentos em si, é talvez mais interessante pensar na maneira como se funda e se dissolve a estrutura simbólica dessa sociedade. Ao final do filme entende-se porque a autoridade não tem necessariamente a ver com o autoritarismo ou a punição, pois o pai continua sendo autoritário, mas não há mais a autoridade, no sentido do laço que estrutura e une um corpo social. O pastor severo e duro com seus filhos, não aceita o julgamento de quem está fora de sua casa e assim exclui o que acontece de sua casa do mundo público, da vida social. O professor, mais do que qualquer coisa, é ali um cidadão. E se ao longo do filme acompanhamos um pai rigoroso e um pastor devotado a lei de Deus, tudo isso desaparece quando percebemos que tais regras deixam de estar vinculadas à ordem social, e se fundam no desejo e no poder de um homem real. A cena da crisma nos mostra isso, quando frente aos olhos da cidade e, porque não, de Deus, o pai se desvia daquilo que não poderia ser desviado. Mais importante do que o ato de violência da filha, é a impotência da palavra e do ato em criar um sentido para as ações, e assim construir um mundo comum.   

A partir desse momento podemos dizer, parafraseando Freud, que a fita branca é só uma fita e nada mais.

Published in: on 09/05/2010 at 12:16  Deixe um comentário  

Simonal Não Usaria Mais Black Tie

Para a psicanálise é próprio do domínio do simbólico a operação de manejo do empírico, de construção e alteração da nossa relação com o que chamamos de realidade (algo que ainda deixa alguns “realistas ortodoxos” nervosos). Essa operação do simbólico, essa capacidade de criar relações a partir de nomes e símbolos, fica bastante evidente quando pensamos na figura de um político, roubando o exemplo de Slajov Zizek. Pois ainda que passemos metade de nossa vida a falar mal dos políticos, ainda que saibamos de suas falcatruas, ainda que os julguemos na nossa vida cotidiana como seres desprovidos de caráter e tudo mais, caso venhamos a ser apresentados a algum nobre deputado ou senador numa festa ou algo que o valha, provavelmente iremos apertar-lhe a mão e em algum momento soltar um “Excelentíssimo Senhor Deputado X” com um sorriso amarelo nos lábios… Menos do que o ser humano empiricamente corrupto nos vemos diante de uma figura que representa algo maior, que carrega em si algo para além do empírico e do fatual. Uma anedota política (que nem sei de onde tirei) conta que o Presidente Juscelino sabia o nome de todos aqueles que ele cumprimentava. Contava-se isso, pois sempre que o presidente cumprimentava alguém, principalmente quando estava em grandes situações sociais, por mais desconhecido que esta pessoa fosse, sempre dizia algo como: “Meu caro amigo Geraldinho…” Isso espantava a todos, e espanta mais ainda pensar que menos do que uma memória prodigiosa o truque era muito mais simples e genial. Ao se aproximar destas pessoas o presidente rapidamente perguntava em voz baixa seu nome, e dessa forma a pessoa sussurrava seu próprio nome para ele, e aí sim Juscelino exclamava em alto e bom tom como se eles fossem velhos conhecidos. Ao questionar se as pessoas não se sentiam usadas por isso, se não ficavam chateadas, ofendidas, o que li era que pelo contrário, elas se sentiam muito felizes por um Presidente da República do Brasil desejar falar seus nomes e dar a entender que os conhece.

O Filósofo-Psicanalista e Marxista-Lacaniano, Slajov Zizek, no seu jeito peculiar de escrever lembra uma fala de um dos irmãos Marx, que depois de fazer algo que não devia na frente de outros, retrucava: “Em que vocês acreditam, nos seus olhos ou nas minhas palavras?“. O ponto no qual Zizek toca é que quem realmente só acredita nos olhos perde um ponto importante e fundamental, que é a força de estruturação da realidade pelas palavras. Como a maneira que nomeamos e entendemos determinada coisa estrutura em certo sentido o que esta coisa é e o que podemos fazer. Não quero dizer com isso que devemos sempre acreditar no que qualquer um nos diz, ou ainda que não exista nada que seja real, material, que a força de tudo está nas palavras, como se estas fossem passe de mágica. A questão não é se um raio objetivamente existe ou não (esta não é a questão, pois é claro que ele existe) o problema é entender se este raio é um fenômeno da natureza ou uma demonstração da força de Deus. Uma amiga me relatou certa um vez um caso que leva ao absurdo toda essa discussão. Certa esposa dirigia a noite seu carro pela cidade e ao parar no sinal de trânsito se deparou com seu marido dentro de um carro parado ao lado. Ao olhar com mais atenção reparou que o marido estava acompanhado de uma loura, destas que dizemos que “existem mais bonitas”. Quando o marido viu a esposa o vendo virou para ela e de dentro do carro falou e gesticulou: “Não sou eu…não sou eu…não sou eu…” (a esposa teve dúvida se era realmente ele…)

Enfim, tudo bem, mas o que diabos isso tem a ver com o Simonal? Depois de ver o filme “Simonal – Ninguém Sabe o Duro que eu Dei” entendi que sua história foi exatamente marcada por isso, pela força das palavras, do entrelaçamento de situações e experiências a signos, o colamento da pessoa a uma figura. Um fato complexo e estranho (Para quem não sabe a história, o fato de Simonal ter mandado agentes policiais conhecidos bater no seu ex-contador), ao ser transformado em palavras (Simonal é ligado a ditadura, é de direita, está a favor da tortura e da perseguição política..) eliminou qualquer possibilidade de outro sentido para sua vida e história. E o filme traz a radicalidade dessa situação, ao colocar em relação a magnitude do poder em certo momento deste astro aliado ao seu trágico destino. Tragédia, na qual em momento algum outra palavra conseguiria se interpor e criar um novo sentido, pelo menos enquanto ele estivesse vivo. (O honesto relato de Paulo Moura quando este tentou convidá-lo para um show é bem didático deste caráter trágico, assim a presença titubeante de Simonal no programa da Hebe com uma série de documentos na mão buscando provar sua inocência…)

Ao contar esta história vemos também surgir outro relato, um outro sentido para todo esse conjunto de fatos. Por exemplo, eu aprendi através do Nelson Motta que o Simonal teria sido achincalhado de maneira irresponsável pelo Pasquim, que o teria acusado injustamente de Dedo-Duro. Portanto, para mim o Pasquim era o responsável direto pelo banimento do cantor. Por esse motivo fiquei surpreso com a simpática presença de Ziraldo assim como pelo sempre antipático Jaguar no filme. Depois entendi, pois a história e sua narrativa traz além de uma outra leitura sobre a vida de Simonal, também uma abordagem diferente sobre a relação do Pasquim com toda esta história. Ainda que tenha minhas questões sobre esse livramento apressado da revista, acho interessante como a salvaguarda desta importante publicação brasileira sintomaticamente carrega a marca de nosso tempo. Se durante a ditadura era psicologicamente importante identificar o dedo-duro, o de direita, o errado, hoje vivemos essa época onde não se parece ter mais culpado, nem lado, nem partido, nem esquerda… (Fundamental entender melhor esta questão do bode expiatório, concordo que Simonal, pelo fato também de ser negro e ter sido um grande astro tornou-se uma “ótima” figura para ocupar esse lugar do torto, do perverso…)

Pensei em muita coisa a partir do filme. Mas principalmente liguei essa história a dois outros filmes. O recente filme “O Leitor” e o clássico nacional “Eles não Usam Black-Tie”. O que é central para o meu argumento no primeiro filme, é a questão de como nos apropriamos da história, como esta é organizada e “semantizada” pelas pessoas a partir de certo contexto. No filme, mais do que a história singular ali mostrada, de um rapaz e uma mulher, achei maravilhosa a questão de considerar esse não lugar, e esse não tempo que é o da Alemanha pós-nazismo como na verdade um espaço de histórias singulares, pessoas e vidas. Como ver a História da Alemanha, pensar a si mesmo frente à idéia deste monstro (o nazismo, Hitler) que teria tudo engolfado, tudo determinado. Concordo com muitos pensadores quando estes buscam desmistificar estes momentos agudos da história, estes que adquirem aura de inferno (ou paraíso) na Terra, uma não vida, como se as pessoas não comprassem mais pão, não se fosse mais a escola, como senão quisessem salários maiores. Mas “O Leitor” traz essa dimensão de que há vida e pessoas nesse momento e de que não se trata de uma não história, há muitas e muitas circulando longe do que veremos no futuro nestes pobres livros didáticos de história. “Eles Não Usam Black-Tie” se baseia na peça de mesmo nome escrita por Gianfrancesco Guarnieri sobre a vida de uma família de operários da periferia paulistana. Confesso que nunca senti uma angústia tão grande vendo um filme quanto no final deste. É um desses filmes maravilhosos, mas que dói muito de ver. Aquele final, no qual o jovem personagem submetido as agruras da vida, as dificuldades materiais de existência, coloca-se contra a greve da qual seu pai é um dos militantes mais apaixonados é sem dúvida de deixar a gente no vazio. Pois este personagem torto, no qual fatalmente nos vemos segue desfiliado, abandonado por todos, sem nome, sem lugar ou história ou na vida que não a do erro do mal. Ao ver o filme sobre Simonal nada me abalou mais do que o relato de sua esposa, quando esta conta que quando Simonal ia aos shows de seus filhos se escondia do público para que as pessoas não relacionassem seus filhos a ele, para que não se perpetuasse neles aquilo que ele carregaria até morrer.

simona2

Published in: on 17/09/2009 at 13:32  Deixe um comentário  

“O Ouvinte”

Deitado no sofá viajava entre lembranças e aflições produzidas pelo filme que acabara de ver no cinema. Esparramado no sofá com Gabriela pensava nos caminhos tortuosos da vida, coisas que começam sem querer e sem pedir licença passam a fazer parte eterna da vida. Mesmo que em pensasentimento. Assim como há isso outro sob o qual nos atemos com tanto zelo em um momento para depois se perguntar o porquê disso tudo, sem saber qualquer resposta. Para quem viu o filme, “O Leitor”, impossível não pensar nessas coisas. Coisas que surgem e vão sem explicação ou ordem razoável, deixando para trás frases não integráveis, sentimentos sem nome, pontos fora do traço que unimos num ponto do tempo ao outro e dizemos: “Essa linha sou Eu”. E como dizem os pós-modernos, os pontos que deixamos fora dos nós dizem muito dessa linhazinha besta.

Na rádio, enquanto eu permanecia no sofá, uma música tocava…. “Tema de Amor de Gabriela”, (Chega mais perto, moço bonito..), e a lembrança dos primeiros momentos com ela, Gabriela, que está aqui agora a me fitar como esses grandes e amorosos olhos veio num instante, pois o pensamento parece uma coisa à toa, mas faz a gente voar como já notara o Lupicínio. Essa uma outra canção de mi vida, num tempo de menino e de sítio, tempo de gente grande acharem bonito menino cantando música de gente grande. A música que tocou após Tema de Amor de Gabriela foi uma do Zeca Baleiro, que diz “O melhor futuro este hoje escuro/ O maior desejo da boca é o beijo/ Quero a Guanabara / Quero o Rio Nilo”. Esta que também tocou por muito tempo numa rádio de outra cidade, quando descobria que podia ouvir a música que quisesse, assim como fazer escolhas na minha vida. Escolhas maiúsculas. E assim segui deitado no sofá, viajando pela minha matéria cinzenta, que aí já vinha se colorindo.

E a surpresa-das-canções-inesperadas-que-tocam-o-coração deu lugar para a gostosa-angústia-de-não-saber-o-que-vem-por-aí. E veio “Diga lá, meu coração / Da alegria de rever essa menina / E abraçá-la e beijá-la”, época bonita de minha vida quando descobri com pudores e sentimento de sinceridade impossível de cinismo, a importância do corpo, do beijo, do carinho, e do que se segue disso, naturalmente. Tendo sido isso muito Foulcaultiano e pouco platônico. Nessa época não conseguiria pensar um relacionamento como uma longa conversa, como me diria pouco depois um filósofo alemão chatinho. Momento esse que foi de corpo sem idéias. Pelo menos é assim que liguei a linha deixando alguma idéia fora. “Diga um verso bem bonito /E de novo vá embora”. E quando já satisfeito, ou melhor, transbordando, especialmente para uma noite de quinta sem memória, ouvi os versos… “O meu amor tem um jeito manso que é só seu / E que me deixa louca quando me beija a boca / A minha pele toda fica arrepiada”… e em seguida os versos mais eróticos da música brasileira “O meu amor tem um jeito manso que é só seu / De me fazer rodeios, de me beijar os seios / Me beijar o ventre e me deixar em brasa / Desfruta do meu corpo como se o meu corpo / Fosse a sua casa”. Música essa que corta transversalmente minha vida inspirando um ego ideal de macho alfa (como o personagem de Copo de Cólera comendo um tomate) e que também vai sempre embora como macho.

E vi que minha vida é cortada por músicas que condensaram pessoas, lugares, sentimentos. E ouvir tais músicas, hoje, é re-construir uma cena na qual eu era outro. E ao construir essa cena, trazendo esses outros, lido melhor comigo. Entender não há como. É bonito e desafiante tentar lembrar como fui de “ursinho pimpão” a “ainda mais”. Enfim, ou como o “acontece que já não sei mais amar”, deu lugar ao “uma, qualquer uma que pelo menos dure enquanto é carnaval…”. E o segredo incompreensível que sentia escutando: “o pensamento parece uma coisa a toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar”, de versos fáceis e simples foi passando de música para música num processo interminável. Eu, como o Gonzaguinha, “acreditava na vida” e também embalado por ele pensava ser “um guerreiro como terras e gente a conquistar”. Algumas músicas, como essa mesma ou Ouro de Tolo, parecem fornecer um enredo sob a qual eu poderia inscrever toda a vida; outras valem “apenas” por uma frase (“Ela não sabe Quanta tristeza cabe numa solidão”, ou “Solidão de manhã,Poeira tomando assento, rajada de vento…”).

As músicas colocaram palavras em minha vida. Deram sentido a coisas que sentia. Amar foi principalmente com o Gonzaguinha, assim como pensar esse Brasil que vivemos, “Você deve notar que não tem mais tutu e dizer que não está preocupado” . A beleza misteriosa do samba aprendi com o Paulinho. Do Cartola tirei principalmente a tristeza e um certo desamor, também necessário. Do Raul ficou a certeza de que a vida é sempre mais, e de que sem mistério, que seja de disco-voador, é tudo impossível (Eu que não me sento No trono de um apartamento Com a boca escancarada /Cheia de dentes / Esperando a morte chegar…), e também a importância de manter o humor mesmo quando tudo vai pelos ares (“Tá vendo tudo / E fica aí parado / Cum cara de viado, ôme? Que viu caxinguelê”). Sobre as músicas do Vinicius, Paulo César Pinheiro ou do Chico poderia escrever a minha própria vida. Lembranças tão antigas que tenho de Cotidiano (“Todo dia ela diz / Que é pr’eu me cuidar / E essas coisas que diz /Toda mulher”). E sei que não é por acaso a atenção teórica que tenho com o cotidiano, e que me chegou assim distraída através desses poetas que tanto escreveram sobre como os sujeitos ao misturar poesia com cachaça acabam discutindo futebol.

Gostaria de lembrar mais uma vez um dos versos que inspiraram a criação desse lugar. E que para mim é a música mais completa sobre a alegria e a dor de um amor. Em determinado momento decorei “esses versos tão singelos” para declamar para alguém. Não declamei para ninguém, o que foi uma pena. Hoje percebo que poderia ter arrumado alguém que gostaria de ouvir isso, alguém que se não fizesse bem, também não fizesse mal…

“Nosso amor que eu não esqueço, e que teve o
seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje sem foguete, sem retrato e sem bilhete,
sem luar, sem violão
Perto de você me calo, tudo penso e nada falo
Tenho medo de chora..r”

Mas é melhor parar por aqui. Também tenho medo de chorar…

Published in: on 13/03/2009 at 15:50  Comments (3)  

Sessão da Tarde #1

Dizer que “2 Filhos de Francisco” é uma obra prima da cinematografia nacional, chega de fato, a ser um exagero. Mas que o filme é bom isso ele é. Logo no início do filme, quando vi uma casa no meio do nada, onde alguém tenta achar uma estação de rádio, fui invadido por uma sensação boa, talvez expressão do bom selvagem que mora dentro de mim e que sente falta da vida simples de alguém no meio do nada ao som de grilos, da passarinhada e de estações de rádio mal sintonizadas ao contrário do sufoco, internet e buzina das belorizontes e riosdejaneiros da vida.

Não por acaso “Tristeza do Jeca” nos acompanha o filme todo. É bonito essa companhia da canção ad infinitum na vida dos personagens. Claro também é o efeito que isso produz ao conectar o novo sertanejo do qual Zezé e Luciano são claras expressões com uma música tradicional, antiga, enraizada. Além disso, outras coisas me chamaram atenção no filme. A primeira é a construção do percalço dos personagens como algo extremamente difícil no qual o sucesso é realmente contingente. Não acho que isso foi apenas uma retórica, um blablabla que diria apenas das dificuldades de um herói predestinado a ter sucesso. Eu acreditava mesmo que tudo pudesse dar errado e nisso o filme ganha emoção, como por exemplo no duro aprendizado nas cenas iniciais do jovem Zezé com a gaita ou com o acordeom. E mais ainda quando depois que Francisco briga com o maravilhoso e picareta personagem de José Dumont, que era empresário da dupla, e eles chegam a uma rádio onde haveria um concurso para jovens talentos, e vão para o final da fila. Dificilmente seriam ouvidos se não fosse o personagem de Dumont. Nessa mesma cena vemos dezenas de garotos que poderiam ou não chegar ao mesmo lugar dos futuros Zezé de Camargo e Luciano. Outra coisa é a beleza de algumas cenas. Quando o velho sanfoneiro diz que vai ensinar apenas uma vez para o menino e que ele deve prestar atenção. É linda essa cena. Outra é aquela da chegada da família a Goiania, o desespero daquela casa suja, na chuva, as crianças chorando, e nesse momento o patriarca começa a brincar, a acender e apagar a lâmpada, uma novidade para todos. E há outras cenas, na rodoviária, o encontro de Zezé e Zilu, enfim…

Vi o filme sozinho numa sala de cinema que devia ter além de mim outras 5 pessoas. Ainda morava em BH e nessa época tinha a mania de ir ao cinema sozinho no meio da semana. Adorava ir ao cinema sozinho. A gente sai e fica no filme ainda por um bom tempo, fica misturado àquelas coisas. E eu que gosto muito de música caipira, mas não de sertaneja como é de feitio dos meio intelectuais meio de esquerda de nosso tempo, passei a ver de forma diferente o Zezé de Camargo e (menos o) Luciano. E aí sim, no final do filme, dá uma sensação estranha, quando vemos a família, o seu Francisco de verdade e tal. Aí fica parecendo uma coisa globo repórter, e quebra o encantamento do ficcional misturado ao real próprio do cinema. Ainda que o filme não seja uma maravilha inovadora, que não tenha uma narrativa nada especial, ele tem uma forma de contar a história que não pula demais, que consegue captar momentos e também a totalidade dos acontecimentos. Resta para nós, visto que tenho certeza que a maioria não conhecia a história da dupla, o suspense pela beleza e tragédia da história. O filme consegue mostrar toda uma trajetória sem correr, mostra o essencial sem parecer um índice filmado, carregando no espectador expectativa, emoção e riso. E isso já é muito.

Published in: on 05/03/2009 at 18:30  Deixe um comentário