Te disco toda #3 –Eduardo Gudin, Coração Marginal, 1978.

Eduardo Gudin apareceu na minha vida no intervalo de um show da banda Zé da Guiomar, reciclo-antigo, quinta-feira. Naquele tempo, eu costumava ir ao samba com o Chico, meu primo e companheiro de discussões, cervejas e, por um curto tempo, de residência. Numa dessas quintas de reciclo ouvi uma música belíssima e que não conhecia. No intervalo do show, encontrei com o violonista e cantor principal da banda e puxei papo. Perguntei a ele de quem era aquela música e como ela se chamava. Ele respondeu que a canção era do Paulinho da Viola e do Eduardo Gudin e se chamava Ainda mais. Ele falou o nome do segundo compositor do mesmo jeito que se expressara acerca do primeiro. Como se falasse de um gênio sagrado da música brasileira, tal como Chico Buarque, Cartola, Noel. Não qualificou-o, explicando de quem se tratava. Mandou na lata Eduardo Gudin. Até aquele momento eu nunca havia escutado esse nome na vida.  Ainda no intervalo do show,o cantor principal do grupo vendo minha admiração pela música me disse para mandar um email para ele que então me enviaria a música.

Naquele dia devo ter chegado em casa por volta de duas da manhã, acompanhado daquele sensação boa de leve entorpecimento. Mandei o email na mesma hora. Foi com surpresa que vi a resposta curta e simpática logo na manhã seguinte, com a música anexada. Eu definitivamente não acredito que a genialidade seja obra do acaso. Uma música, um verso, um traço de gênio implica o gênio completo e total. A partir de Ainda Mais passei a buscar as músicas e discos de Eduardo Gudin. Lembro que o O importante é que a emoção sobreviva, foi dos primeiros, o disco me atropelou e continua a me atropelar e ressoar no meu jeito todo sempre que o escuto. Daí passei para o seu primeiro disco em ordem cronológica, o de 73, repleto de parcerias com o meste kung-fu da letra brasileira, Paulo César Pinheiro. E aí passamos a nos relacionar com mais frequência.

Esse cortejo, esse enamorar, começou há uns 8 anos. Tenho-me mantido fiel. Num primeiro momento, nesse ménage musical, encantei-me mais pela prosa aveludada de PC Pinheiro. Não sou homem da música, sou muito mais das palavras, da prosa. O amor pelas melodias de Gudin foram se fortalecendo sem que eu mesmo percebesse. Dei-me conta disso quando passei a preferir algumas de suas músicas tocadas sem letra, como Águas Passadas e Alma.

Coração Marginal foi o último disco que “descobri” do Gudin. Talvez não seja o meu preferido. Mas ele, até mesmo pelo título, fica no caminho entre o terra-arrasada, Eduardo Gudin, de 1975 e o exuberante e belo Fogo Calmo das Velas, de 1981. Não vou aqui fazer elogios biográficos ao artista. Ele tem um belo site onde há muita coisa interessante. Passemos ao que interessa.

Velho ateu é uma das músicas que mais gosto de ouvir e cantar nos domingos de Bip. Adoro o “bêbadocantor…poétaaa”. Samba em parceria com Roberto Riberti, letrista principal desse disco, traz essa figura do louco, em sua grandeza exuberante. A segunda canção, Mente é dessas músicas feitas pra exorcizar dor de cotovelo daquele amor nosso que era, infelizmente, de mão única, só ia, nada voltava. O apaixonado clama “Menteee…, ainda é uma saída, é uma hipótese de vida, mente, sai dizendo que me ama…” esperando, quem sabe, que um dia a mentira se faça verdade. A música tem uma gravação linda da Clara Nunes. Outro dia me peguei cantarolando Falta de cortesia, apesar dessa canção ter doído um pouco no peito quando passei a atinar para a letra. A canção fala dessa situação, tão comum e banal, sobretudo nos dias que correm, do amante de ocasião, do caso inconsequente, do rolo, daquele que é mais que amigo. Essa pessoa que a gente gosta, mas não muito, e que depois de um tempo de luxúria e prazer a gente parte pra outra. Mas e aí, quando se esbarra com o parceiro ou parceira de antigas rodas, nos sambas da vida? Ele, com ironia no mundo de Gudin, cantaria: “Que falta de cortesia até me pareceu que nem me conhecia / Que eu nunca fui consolo para suas noites vazias”. Samba leve, com letra também do Gudin. Fiquei ainda mais feliz de saber que letra e música são dele, pois venho insistindo na tese da sensibilidade extremamente expandida desse artista para os assuntos do coração. Nem réu nem juiz é mais uma bela canção de amor, ou do fim do amor, naquelas tentativas que são sempre patéticas de dar uma resposta do tipo “e foi bem melhor para você e para mim” que acompanham o abismo do fim.

Navegador é uma música bonita, profunda, diferente dos sambinhas que viemos escutando até então. É bonito o modo com a instrumentalidade entra e compõem seus discos. Isso acaba me seduzindo, eu que como falei, sou mais afeito à poesia do que as construções melódicas de uma canção. Longe de casa é parceria com Paulo Vanzolini, compositor paulistano de sambas, famoso pela clássica Ronda, mas que tem uma produção muito mais diversificada e belíssima. Eu amo esses versos iniciais de um desespero que salta da garganta, a tristeza danada de ruim de quem tá fora do seu chão.“Longe de casa eu choro e não quero nada”. Lendo uma entrevista do Vanzolini ele diz que fez essa letra enquanto fazia seu doutorado nos Estados Unidos, tentando rememorar sua casa, o vento da rua, os barulhos do cotidiano. Águas passadas é mais uma canção cujo tema nos remete à separação, às intempéries que se seguem no prosseguimento da vida, nos calos que provoca uma paixão. E é uma das músicas do Gudin que eu gosto muito mais da melodia do que da letra, apesar dela ser muito bonita também. Mas não sei, gosto muito dessa música, e gosto muito dela tocada por esse cidadão aqui debaixo.

É interessante a sequência das três próximas canções. O importante é que a emoção sobreviva foi um espetáculo que tinha como subtexto a ditadura militar brasileira, a censura, a perseguição. Mas, aos meus olhos, a preocupação política parecia muito mais coisa do PC Pinheiro do que particularmente do Gudin, talvez pela força que emana da letra de músicas como Pesadelo ou Mordaça. As músicas Notícia popular, Como tantos e Maria Fernanda de Sá têm como tema as questões sociais e políticas. Na primeira, o relato de uma família destroçada pela miséria, pelo desarranjo, pelo alcoolismo, contrasta com um samba bem animado. “Mostrei a situação /Meu pai sem emprego se pôs a beber / Minha mãe, sem muita esperança não quis entender”. Em Como tantos, Marília Medalha canta a história de seu homem banal, um homem, como tantos, que é torturado, “bem aos poucos” e morto. A alusão evidente aos mortos e desaparecidos pela ditadura militar brasileira. A música é linda também e o arranjo complexo reforça o drama da letra. A penúltima música do disco parece se referir, mais uma vez, aos desaparecidos políticos. Única música do disco em parceria com o PC Pinheiro, gosto da seguinte construção: “Eu já me cansei de esperar, cadê Fernanda / Pode estar em qualquer lugar, cadê Fernanda / O jornal vai noticiar, cadê Fernanda /Era de família exemplar, cadê Fernanda / Desapareceu na hora H, todo mundo ficou no ar / Maria Fernanda de Sá, pulseira, sandália e colar”.

A última canção é a minha preferida no disco. Talvez…não sei. Alma me remete ao disco O Fogo Calmo das Velas que apareceu de uma forma bonita em minha vida, que me invadiu, me acendeu, que colocou uma doçura sem tamanho, uma certeza em meu olhar, nas minhas mãos. Já gostava dessa música e também de sua letra partir do outro disco, em Fogo Calmo das Velas, Alma antecede o forró Mais de um esse hino particular do amor e do encontro. A alma diz: “Sei que eu não vou te convencer / E nem você vai me mudar / Mas mesmo assim a gente vive querendo provar e comprovar / Seja como fôr, que deu certo o nosso amor”.

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Published in: on 07/08/2012 at 21:08  Comments (3)  

TE DISCO TODA# 2 – Canto por um novo dia

    

      Não sou fã da Beth Carvalho. Reconheço seus méritos como cantora e a admiro por sua militância cultural. Acho bonito seu modo de cantar e seu repertório, mas na verdade não me derreto de paixão por ela. Não tenho nenhum orgulho disso, não porto-bandeira dos meus desgostos. Beth é reconhecida por iluminar outros artistas a partir de sua posição, gênios da antiga, como Cartola e Nelson Cavaquinho, mas também artistas que ela ajudou a lapidar como Zeca Pagodinho e o pessoal do Fundo de Quintal. Mas mesmo assim tenho que confessar que sinto algo estranho pela cantora. Um desconforto. Talvez tome por “Beth Carvalho” sua última versão. E aí já não gosto tanto de sua voz, do seu repertório e do modo como canta. Por isso amo tanto o disco Canto por um novo dia, de 1973. Ainda não temos a Beth de Coisinha do pai ou a de “Chora não vou deixar…chegou a hora, laiá laiá”.

      O disco é triste, lírico um tanto grave com sutis toques de graça. E é um disco, coisa rara. Por isso falo dele aqui. Escuto-o todo, de cabo a rabo, muitas e muitas vezes.  Como já falei, a idéia dessa seção é falar sobre alguns discos que me deixam felizes por existir. Discos que soam como uma obra, na qual até aquilo que é estranho parece ter sido cuidadosamente colocado ali. Foi só me preparando para escrever esse texto que vi o grupo da pesada que toca com a madrinha do samba. Não sabia, mas os arranjos são de Cesar Camargo Mariano. No violão Dino 7 Cordas, Geraldo Vespar e Nelson Cavaquinho (em Folhas Secas), na percussão Mestre Marçal, dentre outros. Mas o que mais gosto é a maneira como Beth canta. Tem vida, tem dor, uma voz mais grave que aquela que acostumamos. Coisa linda. Escute, vai.

      O início é retumbante. A primeira música é das que eu mais gosto no disco, Hora de chorar. “Com licença… está na minha hora de chorar…”. É nesse tom, melancólico e profundo, já anunciado na primeira frase que o disco segue. Na letra e na melodia. A próxima canção que dá nome ao disco Canto para um novo dia parte da dor da música anterior para nos dizer que: “a tristeza que chora é a mesma que ri / vou morrendo agora, mas esta dor terá fim…”.É um desses sambas que gosto tanto, ps levanta-defunto, os sambas “sacode, levanta a poeira e dá volta por cima”. Essas músicas de esperança e de vida, porque a tristeza e a dor, bebê, estão sempre aí.

      Em Se é pecado sambar Beth nos brinda com outro gênero de samba que amo, o meta-samba. no estilo “o samba é o meu dom” do Wilson Batista e PC. Pinheiro ou o “eu canto samba” do mestre Paulinho. É uma dessas músicas que a gente fica cantando e se deliciando com a doce sacanagem explícita do samba. A malícia, o requebro do pandeiro, do cavaco. E aí com a próxima perdemos um pouco o rumo, pois  para surpresa geral, chega um frevo, e dos crássicos: Evocação n.1. Nessa versão o arranjo cheio de estilo dá uma sublimada nos calorsh do frevo. Na sequência vem essa música triste e tão bonita. De autoria do Gudin e do PC. Pinheiro, com a interpretação feminina, necessária nesse caso, para a Velhice da Porta-Bandeira . A música pede um andamento lento, uma tristeza que aparece de uma dia para o outro, uma dor impossível que se instala quando tudo parecia só beleza.

“Ela se emocionou / perto dela ela ouviu /
alguém gritou / Viva a porta-bandeira!! /
sou eu, ela pensou / mas foi a outra quem se curvou…”

     Ai, como isso dói. Até hoje, quando escuto esses versos fico com uma pena daquela que já não é mais a porta-bandeira. Fico pensando se não teria jeito das coisas serem diferentes, mas não, não tem, não tem jeito… a vida é isso mesmo. O tempo passa e há sempre outra porta-bandeira a espreitar. A próxima música é dessas gravações que consolidaram o lugar especial da Beth Carvalho no nosso imaginário. A clássica Folhas secas de Nelson Cavaquinho. Adoro os bordões do violão do Nelson quando ele toca, os tom tom tom, marca única do mestre. E a música seguinte vem anexada à sacanagem carioca, uns sorrisos no meio dos versos. Salve a preguiça meu pai. “Com meus pés não vou, venha me buscar / mas só vou…. de colo, para não me cansar”.

      Em seguida a gente escuta Mariana da gente, outro samba filho mais da tristeza do que da alegria. Tem uma passagem que o Cartola, já mais velho, comenta que o seu samba  já não serve para animar carnaval e escola de samba, que seu samba agora é triste, melancólico, e é esse samba que tanto me toca. A autoria de Mariana é do João Nogueira, o que me surpreende, pois não parece coisa do João não. Adoro a passagem: “Em um lindo apartamento, de mármores negros, do lado do vento, de frente pro mar / Nova mulher, nova beleza, um olhar só de tristeza, com um sorriso de agradar…”. É das minhas favoritas. Ô Mariana, menina, volta para Piedade. Copacabana não é seu lugar, que a gente tem saudade…

      A partir daqui, em minha opinião o disco perde força. O melhor já passou. Talvez Beth tenha exagerado tanto no início que o quoficiente de lirismo atinge seu limite com MarianaFim de reinado é um samba bonito, mas não é dos meus preferidos. Clementina de Jesus, a 11ª primeira canção, é um samba de autoria de Gisa Nogueira para homenagear a folclórica Clementina. A lendária cantora que integrou o conjunto Rosa de Ouro e só foi ser reconhecida publicamente já bem velha. Em Memórias de um Compositor Beth rasga o verbo para elogiar a sua escola do coração, a Mangueira. A última versão é um pout-pourri composto por Flor de Laranjeira/Sereia/São Jorge Protetor. São músicas antigas que ressoam nessa emoção do povo que canta no fundo de quintal, nos churrascos da periferia. Sambas que procuram fazer a gente cantar, sem rebuscamento, para simplesmente fazer festa. rir, sem pretensão estéticas. É assim que Beth termina o disco. Sai um pouco do tom “Cesar Camargo Mariano”, na sua elegância para chegar a esse elemento povo. É sempre bom se despedir dizendo para onde se vai.
Cacique de Ramos, Fundo de Quintal, Cartola, Nelson Cavaquinho.

    É Zé, é nóis.

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Para escutar:

    http://umquetenha.org/uqt/?p=1146

Mais informações sobre Beth e o disco:

    http://www.samba-choro.com.br/artistas/bethcarvalho

    http://loronix.blogspot.com/2008/06/beth-carvalho-canto-para-um-novo-dia.html

    http://veja.abril.com.br/blog/passarela/figuracas/beth-carvalho-2/

Published in: on 29/01/2012 at 18:49  Deixe um comentário  

Te disco toda #1 – Um novo samba?

Eu era daqueles que via num disco nada além de um aglomerado de músicas. Daqueles que preferem colher uma música aqui e outra versão ali, catando-as como quem pega fruta no pé, antes da estação. Segue-se cuidadoso procurando no disco somente aquela bela música desejada, lá no alto do pé. E quando outras músicas vêm junto joga-se de lado com desinteresse. Música verde.

Há algum tempo escutei[1] uma banda tocando a linda “Serrado”, do Djavan, num bar de Belo Horizonte. Fiquei com a fruta na cabeça e saí a sua cata nos pomares da net. Lembro que baixei vários discos do compositor sem obter sucesso. Em determinado momento achei o bendito disco e quietei-me a escutar freneticamente a bela canção. E qual seria o disco? Não lembro… E alguma outra música do disco? Nada disso. Ponto final e corta.

Mas alguma coisa aconteceu e subitamente virei uma pessoa de disco. Nem bem sei quando nem como isso se deu. Suspeito que tenha algo a ver com a compra de um toca fitas, novo, porém já uma velharia nos idos de 2004 que adquiri para colocar no carro. A época era de assaltos rotineiros aos aparelhos de CD, aqueles com frente removível[2]. Por conta disso resolvi colocar um toca fita no carro e ouvir rádio. Quem teria fitas K7, quem ainda gravaria fitas em 2004? Certo dia, fui almoçar na casa do namorado de minha mãe e de lá saí feliz com duas fitas bem antigas. A primeira era o belo disco “Meus caros amigos” do Chico, de 76. A fita tinha de um lado “Mulheres de Atenas”, “Você vai me seguir” e do outro, “Corrente” e a lindíssima e tristíssima “Basta um dia[3]. O outro disco era o maravilhoso Toquinho/Vinícius de 75. “Turbilhão”, “Acorde solto no ar”, “Meu pranto rolou”, a preferida “Se ela quisesse” e por fim a também belíssima e tristíssima “Um homem chamado Alfredo”. E aí só dava Chico, toquinho e vinícius no carro e na vida. As músicas dançavam ao ritmo dos solavancos, e coloriam as feias esquinas da avenida Antônio Carlos, no meu caminho diário para a FAFICH[4]. Quantas vezes, não dei mais uma volta no quarteirão, antes de chegar em casa, só para ouvir “Adeus” ou então “A noiva da cidade”. Uma fita… O lado acabava, virava de lado, virava de outro…

“Se ela tivesse a coragem de morrer de amor

Se não soubesse que a paixão traz sempre muita dor

Se ela me desse toda a devoção da vida

Num só instante, sem momento de partida”

A partir daí comecei a entender que um disco é um disco e não um punhado de músicas.

A memória anda fogo, porque também não lembro quando me atentei para a beleza e a completude do disco “Um novo samba” do Benito de Paula. Só conhecia o compositor pelo samba-lava-a-alma “Retalhos de Cetim”, e pela canção-piada, “Meu amigo Charlie Brown”, sendo que nunca entendi a graça desta. Portanto, eu não era por princípio ético-estético um partidário do Sr. De Paula. Nada disso. Foi por arrebatamento mesmo que virei a casaca.

O disco é uma obra. No sentido pleno da palavra. “Tudo está no seu lugar”. O disco é triste, tem um “molejo de amor machucado”, é pesado e profundo, mas com alguns sambas alegres marcando o compasso.  Começa pela triste e fundamental “Se não for Amor”: “Você me olha desse jeito/ meus direitos e defeitos / querem se modificar…”.  A música é dessas pra voltar cantarolando, bêbado e sozinho pela rua, triste e cerrado na beleza e na magnitude de coisas profundas e bestas, como sorriso de mulher ou lágrima de amigo. Tem esse lema fundamental: “Mas se não for amor, não diga nada, poor favor…”. A segunda faixa é talvez o único exemplar conhecido do gênero samba-épico. O “samba do profeta” tem coro, e começa com um potente: “Eu vi…”. A canção segue entre acordes de cavaco e metafísica. Não precisa falar mais nada. Coisa linda.

A terceira canção entra em ressonância com o nosso cansaço cotidiano e suas possibilidades de emancipação. A cerveja, o samba, a morena. Do batente pro batuque como canta Edu Lobo. Tem um ritmo gostoso e diz: “Eu passei a noite inteira lhe admirando/ Fui sambando, fui chegando e você me amando / Você foi tomando conta do meu coração”. A música põe em relevo, tanto na melodia quanto na letra, essa associação entre a banalidade da vida, a chateação rotineira e o lirismo do encontro. A próxima música é também triste e lenta, talvez seja esse o tom do disco. A desilusão, o desencontro, essa vida que não é e que espera para acontecer. “Quando tudo mudar”.

A quinta faixa, “Certeza de você voltar” é uma das minhas favoritas. Marca esse ponto entre o desânimo e a alegria besta, que não vai nem fica. “Foi você na madrugada que chegou sem dizer nada / Que sorriu para mim notar/ conversamos simplesmente/ foi aí que de repente/ despertei para dar amor/ e passamos tanto tempo / nos olhando e até por dentro sem falar eu dediquei / amor a você/ tudo… e a noite foi passando / você se distanciando / bem pra trás fiquei no amor / não faz mal, valeu o instante/ e a certeza de você voltar (…)”. E os puristas babam de raiva com esse “mim notar”… Mim não faz nada diria uma antiga professora. Mal sabe ela que “mim” fez um samba lindo e singelo. No meio do disco temos a descontraída “Que beleza”, que como “Mulher brasileira”, segue num fraseado simples, divertido e banal. A faixa quebra o clima arrastado que se seguia. A próxima é “Sandália de couro” das mais sem graças do disco. Nada demais, nem de menos. A canção fala mais uma vez do amor, enquanto apresenta as belezas de Salvador.

A oitava faixa volta a cantar com tristeza a paixão impossível, ou melhor, o que existe “Depois do amor.” Canta Benito: “Quarto frio… janela escancarada, pra mostrar desarrumado/ tudo o que nós consumimos, resto do mais puro amor / E agora, mais distantes do que antes, nem amigos, nem amantes / sem conceito e sem respeito, demos fim no nosso amor”. Pausa… Essa é de chorar… Linda. E ela que começa lenta, subitamente cresce: “…e de repente loucos, perdidos sem nada a nos dizer / nós demos fim no amor, num grito a dor calou…/ de nós pouco restou”. E aí entra um fraseado de tango pontuando a dor e o drama da canção. A próxima música, “Agradecimento” é leve e otimista. É a canção de devoção a companhia perene e segura do amor. “Hoje eu sou feliz / você me ajuda a lutar e vencer”. A décima canção segue o roteiro do encontro possível. A música, “Ela veio do lado de lá” faz dupla com a terceira faixa “Fui sambando, fui chegando”.

Para finalizar o disco Benito de Paula nos convida a celebrar a dor da promessa quebrada, de um passo no carnaval e uma companhia na vida, daquela que não vai mais desfilar para você. “Mas chegou… O carnaval, e ela não desfilou / eu chorei na avenida, eu chorei…/ Não pensei que mentia a cabrocha que eu tanto amei…”. Nem eu Benito, nem eu. E assim a gente fica por aí, não mais envoltos em retalhos de cetim, mas em retalhos da gente mesmo. Cansados desse amor impossível, do olhar que nos segue no samba que vem do lado de lá e vai embora. Se o compositor tem certeza dela voltar, a gente não, a gente nunca sabe.

Para baixar: (http://umquetenha.org/uqt/?p=2315)


[1] Sujeito muito mais oculto do que pode parecer.

[2] É estranho como 2004 ficou parecendo 1993.

[3] Gosto mais da versão do Chico do que da Clara Nunes.

[4] Nunca entendi a implicância da Elisa com a música “Meu pranto rolou”. Ela cismava com a métrica da estrofe, “Meu pranto rolou / mais do que água na cachoeira / depois que ela me abandonou”.

Published in: on 26/10/2010 at 11:17  Comments (4)