India #1

Aldeia próximo a Sambalpur, Orissa,India.

Permaneci na India por pouco menos de três meses. A experiência de realizar parte dos meus estudos de doutorado neste país transcendeu facilmente as categorias disciplinares. Depois de um bom tempo afastado desse blog recomeço essa estória com causos indianos, reflexões e sentimentos dos mais variados. Alguns contém filosofia, outros curry e lássi. Penso hoje, que eu já me encontrava na India ainda no longo processo entre aviões, aeroportos, esteiras, escada rolante. Ao descer em Mumbai, lugar no qual pegaria o último trecho aéreo fui tocado por uma cena bonita, por onde começo essa seção.

A miscelânea de cidadanias presente no vôo entre São Paulo e Dubai transformou-se, quando subi no avião para Mumbai, num mosaico colorido de estilos, longos saris, crianças, homens sizudos de dignos bigodes. No aeroporto de Mumbai seguimos para pegar as malas despachadas. No trajeto, em determinado momento, vi formar-se uma pequena confusão e uma fila na descida de uma escada rolante… Parei também sem entender, mas vi que aos poucos a pequena fila foi se desfazendo. Quando cheguei a botar o pé na escada rolante vi uma senhora parada, na frente da escada, e entendi que era ela a causa do atraso. Na hora que passei pela senhora escutei-a dizendo “I CAN”T”. Olhei para o lado e a vi, uma mulher indiana já idosa,  em trajes formais, jeito simples. Ela tentou utilizar aquele estranho aparelho, mas não conseguiu. Disse “I can’t” e na mesma hora se voltou para pegar a escada convencional, enquanto a pequena fila se desfazia…

Achei de uma banalidade comovente “tudo” isso. Eu que venho me degladiando com interpretações e conflitos em torno do processo de “modernização”, não poderia deixar passar em branco essa recusa. Senti que uma mão invisível, uma voz e um gesto poderoso que me diziam claramente. “Bem vindo Rafael, nós aqui, estamos felizes com sua presença. Suas preocupações e seu trabalho é também algo importante para nós. Bom trabalho!” No jeito intranquilo daquela senhora encontrei um primeiro vestígio do que fui buscar. Era preciso dar o próximo passo, em qualquer escada.

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Published in: on 01/05/2013 at 20:03  Deixe um comentário  

ANTÍTESES, EMBARAÇOS, DÚVIDAS, ANTAGONISMOS, PREGUIÇAS E DESVARIOS DO DEBATE SOCIOAMBIENTAL: REFLEXÕES PÓS-CÚ-PULA DOS POVOS

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Ao me interessar analiticamente e politicamente pelo movimento ambiental, passei a ser perseguido incansavelmente pelos termos do título acima. A questão ambiental, ou socioambiental, ou ecológica (dependendo tanto do foco, do caráter ou da posição ideológica de quem escreve) é um campo marcado pela exuberante diversidade de confusão. Não pretendo esgotar tais confusões (ó terrível pretensão), apenas queria tentar escaramuçá-las a partir dos debates que presenciei na recém-findada cúpula dos povos, evento “oficial paralelo” ao encontro oficial da ONU para discutir a questão do meio ambiente, a RIO + 20. Baseio-me também em conversas com amigos antenados, ou não, neste debate. Meu problema é menos com o tema em si, e mais em relação à maneira como as pessoas se inserem neste debate, como se todas as escolhas fossem possíveis e intercambiáveis, ao gosto do freguês, numa esquizofrenia hibridizada. Tipo assim: “Eu quero….         é      …        calma aí. Ah, já sei, me vê vida moderna urbaninha confortável – neon – mais IPADS – menos hidrelétricas  e carvão (que nojo!) – sem energia nuclear – energia de vento, sol, essas coisas – mais direitos socais – mais mantra ligações de harmonia e paz entre todos – menos pobreza – sem violência – menos cidades interioranas e mais metrópoles – mais tecnologia, luzes, trecos e tal – menos fundamentalismo religioso e menos trabalho também, quem gosta, né?

O sujeito quer sim um mundo diferente, pero no mucho. Ele acredita mesmo, e nisso em geral há mais romantismo do que cinismo, que a expansão das qualidades advindas com a com a modernidade, a expansão do ideal burguês de vida, sofá, televisão, ar condicionado, liberdades individiduais, séries americanas, pode ser desconectadas de seus malefícios, da competição, ganância, da poluição, dos genocídios sociais. A idéia é que  futuro é igual ao presente subtraído os elementos negativos. Assim, vivo num susto atrás do outro. Ontem (já faz uns meses) vi um comentarista do jornal da noite do SBT justificar que a fragilidade dos acordos estabelecidos na Rio + 20 estaria no fato de que atualmente estamos vivendo uma terrível crise econômica. Arremata ele, como se dissesse algo digno de ser falado, que a preocupação com a economia impera e, por isso, os países não tem tempo para a questão do meio ambiente, ou coisa que o valha… Ora bolas, é o fim do mundo. Foi só por afirmações como esta que me interessei pelo debate ambiental. Aí está em estado bruto a imagem fetiche bibelô do meio ambiente como uma preocupação estética da classe média bacana. O marxistão Istvan Meszáros em uma citação genial diz que as instituições de proteção ambiental deveriam ser chamadas de “ministérios de proteção das amenidades da classe média”. A questão ambiental diz dos fluxos de energia, dos ciclos de transformação da matéria, as cadeias de interação entre a atividade humana e o ambiente, seus efeitos, danos, consequências.

Certamente quem pensa que em tempos de crise econômica não dá para se preocupar com meio ambiente, deveria parar de beber água, defecar e recarregar a bateria do seu Ipad. Na rede Globo, no jornal da noite, ao falar do fim da cúpula dos povos o jornalista entrevistava um gari que disse que ao limpar o aterro do flamengo, onde deveria haver apenas pessoas “conscientes” e mi mi mis, foram encontradas muitas guimbas de cigarro jogadas no chão, guimbas que demoram alguns 2000 anos para se decompor. O jornalista, William Waack, o iluminado, poderia ter completado seu raciocínio deveras radiante da seguinte maneira: “Esses maconheiros bicho-grilo vem para cá, com dinheiro do governo, sujam tudo, ficam falando bla bla bla para pegar mulherzinha, mas continuam poluindo com as pessoas “normais”, então para quê vieram?”.

Fui a algumas palestras e andei muito pelo aterro do flamengo nesses dias de encontro. Impressiona a diversidade de posturas, de modos de ver as coisas e de se posicionar neste debate. Enquanto vemos o Sebrae com 16 barulhentos geradores movidos a combustível para manter o ar refrigerado no seu interior, temos tribos indígenas vendendo autênticas pinturas de seus povos por 3 R$. Não me incomodo nenhum pouco com o fato dos indígenas venderem pinturinhas de corpo, o que me tirou do sério foi o fato do alojamento das tribos indígenas ter sido no sambódromo, em péssimas condições de instalação e higiene. Mas o que mais me incomodou no evento é a incapacidade e a fraqueza de se colocar em discussão as questões chaves, de trazer as situações concretas para o debate. Se o meio ambiente NÃO é um problema fetiche, mas sim uma questão central na manutenção da vida, posto que não há vida sem água, ar, terra, então toda forma social de vida está intrinsecamente ligada a este debate. Então se você aí, “da poltrona” acha lindo viver em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Londres, Nova York, Belo Horizonte, Conceição do Mato Dentro, e ainda mais, acha que todos devemos viver assim, deveria pensar muito bem no quê isso significa. Porque se há “crise” ambiental, há causalidade na ação humana, ação que se dá num contexto cultural  e político. Se a pessoa vem para um debate, se ela abre a boca pra falar “meio ambiente”, é porque considera que há causação humana. Havendo essa relação causal, fico pensando que construção narrativa se passa na cabecinha de cada um desses ambientalistas moderninhos que ficam falando de Seattles e Chiapas. Não tenho dúvida que imaginam Hippies vivendo em “Blade Runner”. É como se sociedade e pessoa fossem coisas desconectadas. Muita solidariedade entre os povos, uma gotinha de “Avatar” aqui, vai, muitas máquinas, pouca dominação, etc… O mito de que o homem vai dominar todos os efeitos, vai controlar tudo e continuar sendo um cara legal está aí, deitado na cama, morto, pronto para ser exumado. Acho esse tipo de mentalidade fascinante. Fascinante sim. A dissociação completa e total de sujeito e história, de pessoa e sociedade. A realização completa do homem do iluminismo sob o manto abençoado do primitivismo solidário. O sujeito crê que a sua identificação imaginária com a causa rompe todos os grilhões da opressão social e ambiental real que permitem a ele ter água, comida, ar, um MAC, um Iphone. Não vê que ele é parte do problema. Não vê problema. Não companheiro, não precisa se charafundar na lama da culpa burguesa. Mas por favor, menos cinismo, menos certeza. Ao menos ajude a encaminhar as coisas de outo jeito, pensa rapaz, se aprume!  Acho que aqueles que só conseguem imaginar uma vida do modo como temos nas grandes cidades deveriam pensar um pouco mais, só um pouco.

Não que a “culpa” da poluição seja exclusivamente da manutenção das metrópoles ou algo do gênero. Pego esse exemplo, por algumas razões. Muitos dos grupos ambientalistas e dos ativistas moram e vivem nesses grandes centros. O local de moradia de uma pessoa, de uma cultura, de um povo é fato indissociável de sua relação com os recursos naturais, seja uma tribo do Xingu, uma população ribeirinha do interior do país, ou um grupo de jovens amigos libertários de uma megalópole.

Se a crise ambiental decorre do padrão de produção e de consumo de bens de uso como então mudar tais padrões? Quais são as condições determinantes da vida moderna, quais são as ligações essenciais entre modernização e injustiça social, ambiental? É possível ter crescimento econômico nos moldes que temos vista com uma maior igualdade entre povos, considerando que cada cultura e povo entra nessa dança de um jeito?

Nesses dias de Rio + 20, entre cervejas no fim da noite, um grande amigo, o Patrão me contou uma coisa. Ele disse que em suas palestras joga para o público um gráfico no qual apresenta vários países a partir de dois eixos. No primeiro temos índices sociais relativos à saúde, educação, trabalho, e no outro, o nível de destruição e degradação do meio ambiente. Ele então me disse que apenas um país apresenta elevado índice tanto de indicadores sociais como de baixíssima degradação ambiental.

Em tom de charada que é impossível descobrir, ele me perguntou qual era este país. Claro que eu errei.

Published in: on 19/12/2012 at 18:09  Comments (1)  

CIDADE SUBMERSA

Saí caminhando pela cidade que cresci, que aprendi a gostar sem saber o que fazia, cidade de ruas e esquinas que marcaram minha vida, meus sonhos e frustrações. Esquinas nada abstratas nem metafóricas que cruzei, rapazinho, depois nem tanto, bêbado de madrugada culpado, ao sol, pensando em não suar, atrasado, sempre atrasado, se pensando sempre atrasado.

Mexo, e remexo

E me perco

E adormeço

Nas ruínas

Da cidade submersa.

Fui votar em prefeito e vereador de Belo Horizonte, cidade que já não é a minha há mais de 4 anos. Belo Horizonte e eu mudamos tanto nesses anos. A cidade deixou de ser a vida besta, passou a ser nostalgia e passado, depois voltou a ter presente e projeta futuro. Fui caminhando, no dia da votação, parti do Santo Antônio, passei pelo São Pedro para chegar no Sion. No trajeto nostálgico, saí das Bakanas/Dragon Palace, passei pelo entre-folhas, por aquele restaurante que ficava ali na Grão Mogol com avenida Uruguai (Mãezinha?), e cheguei ao colégio Santa Dorotéia.

Antes de sair da casa achei, perdido entre papeis, o comprovante de votação de 2002, 1º turno da eleição vitoriosa de Lula, dia 6 de outubro, momento dos mais importantes da história do país. Saí feliz com esse achado. Andei uns 100 metros e logo ao dobrar a segunda esquina vi, dentro de um carro, a Adélia, minha professora no curso de Psicologia na UFMG. Quando a vi não me lembrei das provas fáceis e sem graça que ela mandava a gente fazer. Depois que terminávamos a prova, ela pedia o papel de volta para usar no próximo ano, o que já acontecia há bastante tempo. Podia-se dar a sorte de pegar uma prova com parte das respostas. Mas não foi isso que me veio à mente quando vi a Adélia. Lembrei, isso sim, da 1ª aula, na manhã seguinte à vitória de Lula, há 10 anos. Nunca havia visto uma pessoa tão emocionada por causa de eleição e política, como a vi naquele dia. Na sua voz, nos olhos, mais do que pelas palavras, ela transmitia a mensagem de que a aurora tão esperada e sofrida, por vezes impossível, havia chegado. Foi bonito, muito bonito. Eu que naquele momento não tinha a identificação que passei a ter com o PT, com os ideais democráticos e socialistas que constituíram historicamente o partido, fiquei mexido ao ver a professora “gastar” toda a aula para dizer de sua emoção. Eu nunca tinha visto e vivido a política naquela paixão-afirmação como vi naquele momento, na fala daquela senhora que tentava deixar claro para nós, jovens, que vivíamos um momento histórico.

Depois que a Adélia passou, eu segui adiante, em direção à minha zona eleitoral, no colégio no qual estudei minha vida toda. Colégio este que guardo com todo amor no espaço largo de meu coração reservado à contradição e ambiguidade. Próximo ao colégio passei por uma camionete da empresa Nova Luz, uma das firmas contratadas pela multinacional Anglo American para desenvolver o projeto minerário na região de Conceição do Mato Dentro, contexto no qual faço minha tese de doutorado. Na pesquisa, estudo os impactos psicossociais deste “empreendimento” sobre os jovens da região, sobre a relação entre desenvolvimento e vida cotidiana, sobre as expectativas de futuro, os desejos e medos desses jovens.  E na esquina da Buenos Aires com a Grão Mogol, expectativas e angústias quanto ao futuro não só da minha cidade, mas também do país emergiram condensados na ojeriza que senti de uma camionete, de um adesivo amarelo, um NLZ 17. Angústia quanto ao futuro, não da democracia, mas do socialismo, palavrinha cada mais deixada de lado até mesmo pela “esquerda” (?!), problema, cujo significado me eximo, covardemente, de explorar.

Published in: on 09/10/2012 at 15:56  Comments (5)  

Diário andarilho de campo #7 – Gentileza rural

Há cerca de uma semana, durante o feriado de 7 de setembro, seguia para o distrito de Tabuleiro decidido a conhecer a famosa cachoeira, aqui em Conceiçao do Mato Dentro. Num dado momento pedi informação a dois sujeitos parados na beira da estrada, de terra, por onde devia seguir. Depois de devidamente informado acelerei o carro e segui o caminho indicado. A Rita então me disse que eu havia acelerado muito, levantando poeira em cima dos sujeitos e de seus burrinhos de carga. Apoderou-se de mim uma pequena, porém incisiva vergonha ético-política. Tanto estudo, tanta preocupação com o outro para agir kinem um turista paulistano, ora bolas?

Tratei de não esquecer a lição e prestar mais atenção nessas coisas, pequenas e importantes.

Dias atrás seguia a pé em diração a Itapanhoacanga, distrito de Alvorada de Minas. Saltei do ônibus na MG10 e deveria caminhar por 3 km. Logo no início da caminhada vinha em minha direção um caminhão pequeno. Parei na beira da estrada e me preparei para comer poeira, mas a uns 2o metros de mim o caminhão diminuiu muito a marcha e passou lentamente ao meu lado, levantando quase nenhuma poeira. O caminhão passou, eu cumprimentei o motorista que me devolveu o cumprimento e, displicentemente, foi embora, sem nem perceber que havia me ensinado como se deve proceder.

Published in: on 14/09/2012 at 13:48  Comments (4)  

Diário estratégico-digestivo-ideológico de campo #6

Um dos textos que mais me impressionou nos anos de faculdade de psicologia foi o texto “Estratégias discursivas ideológicas”, de autoria da psicóloga social Maritza Montero. O texto não é absolutamente genial, mas é foda. A autora analisa os discursos de candidatos políticos demonstrando como uma frase simples está repleta de conteúdo ideológico. O bom marxismo de botequim. Por exemplo, aquele candidato de oposição que profere uma sentença simples como: “agora, vamos trabalhar!”, na verdade está dizendo ispsis literis que o candidato da situação não fez absolutamente nada fez em seu mandato. A autora lista formas ideológicas do discurso e seus recursos estratégicos. O que gosto do texto é exatamente seu caráter simples, sintético, a determinação positiva do elemento ideológico de uma sentença. O texto inclusive é lindo para ser lido em época eleitoral. Foi o caráter sintético do texto o que mais me chamou atenção quando comecei a namorar a srta.psicologia social, que a tudo “problematizava”, sem no entanto me dar nenhuma certezazinha para emendar os rasgos que fazia na minha maneira de ver a vida.

Esse texto me veio a mente há uns 2 meses aqui em Conceição do Mato Dentro. Na semana do meio ambiente, foi realizada uma série de  oficinas, debates e teatrinhos sobre o tema. Pelo que entendi muitos desses eventos foram patrocinados pela Anglo American, empresa responsável pela mineração aqui na região da Serra da Ferrugem, e por suas sub-contratadas.A programação da semana não foi divulgada com antecedência e com isso não consegui saber dos conteúdos e proponentes do debate. Só fiquei sabendo no dia que tinha uma viagem marcada. Sendo assim dei um jeito de ir ao local para ver o que acontecia. Queria ver como estava organizada a semana e quem promovia os debates. Cheguei na hora que começaria uma apresentação sobre biodiversidade. Um punhado de crianças barulhentas de 8, 9 e 10 anos preenchiam o espaço. Na frente das crianças, uma mulher carioca com uniforme da Anglo começaria dali a pouco a apresentar alguns slides mal ajambrados, falando sobre a natureza e a ecologia. Fotos do planeta, da vegetação do cerrado e da mata atlântica, dos animais, das flores e até mesmo uma famigerada composição na qual ela dizia que existem pessoas que trabalham pela preservação da biodiversidade, ilustrando tal passagem com a foto de um funcionário da Anglo American. Fiquei ali reparando nos meninos. Eles não prestavam atenção. A apresentação era cuidadosamente mal feita, produzida às pressas, certamente feita para um público mais velho e adaptada praqueles meninos. Num momento de balbúrdia mais intensa a moça usou um artifício belíssimo. Ela disse que depois da apresentação “teria teatrinho e depois lanche, refrigerante e pipoca, (senão me engano), mas só haveria lanche para aqueles que ficassem quietinhos”.

Nessa hora embarquei direto para a minha 6ª série no colégio Santa Dorotéia, em Belo Horizonte. Naquele ano fomos com o professor de Geografia conhecer o processo de extração do minério de ferro. Fomos para a antiga MBR ali em Nova Lima (hoje Vale). Fiquei bastante espantado com o tamanho das rodas de alguns caminhões, mas o que mais me lembro desse dia foi que no refeitório havia uma máquina de refrigerante. E o mais importante: a gente podia pegar o tanto de refrigerante que quisesse!

Eis aí a estratégica ideológica digestiva.

Essa promessa de abundância, de infinito, onde mais a veria? Em que outro lugar do mundo poderia tomar quanto refrigerante quisesse?

Interessante a aposta das grandes corporações em ganhar crianças na base de balas, doce, teatro, mentira e refrigerante.E aí me pergunto, por que dão tanta importância para esse público?

É preciso enfrentar essas estratégias digestivas. Não sei como. Há coisas tristes e importantes acontecendo, coisas que não se come e que NÃO deveriam poder repetir.

Diário de Campo e cidade #5 – Feliz, jovem e despreocupado

Como já escrevi por aqui, o livro “O campo e a cidade”, do inglês Raymond Williams, tem sido não um objeto inerte ao qual recorro eventualmente, e sim um parceiro real, um amigo que me socorre nas aflições solitárias da vida em pesquisa. Nas horas que penso sobre o que venho pensando, não só em minha pesquisa, mas também sobre tudo o que vivo, sobre as possibilidades e os impedimentos da compreensão, no momento em que me boto a ver, conversar, e tomar cafezinho com pessoas que não conheço e que, aos meus olhos, vivem uma experiência aguda de transformações das relações totais de um espaço-tempo, é o Campo e a Cidade que me ajuda no desassossego.

Nesse percurso, a relação e a tensão entre o urbano e o rural aparece a toda hora com suas quinas e dobras. No entanto, esse fantasma não aparece apenas na análise dos dados, não… bem antes, na própria identificação do que penso que são dados, está além. A minha versão de Campo e Cidade está na minha constituição cognitiva, social, emotiva, determinada pela minha terra natal, a metrópole, de onde EU nunca saí.

[Com a crescente urbanização, os campos verdejantes se transformam, e com isso…]

“Para qualquer homem em particular, há também a perda de uma paisagem especificamente humana e histórica, que gera sentimentos não por ser ‘natural’, e sim por ser ‘natal’:

Terra natal que cada vez mais amo! (…) 

E tudo aquilo que pertence a ela –

Um velho mourão, ou pedra singela,

Verdes de limo – me faz desejar

Que tudo fique sempre onde está;

E dói-me ver que as coisas mais queridas

De seu lugar já foram removidas

(John Clare, the village ministrel)

Assim, a perda mais lamentada – a das ‘coisas mais queridas’ – é a perda da infância causada pela destruição da paisagem imediata:

Tudo isto não é mais, e, como o meu,

O teu orgulho de viver morreu.

É perfeitamente compreensível que isso tenha sido escrito por um garoto de dezesseis anos. Uma maneira de ver foi associada a uma fase da vida, e a associação entre felicidade e infância deu origem a toda uma convenção, na qual não apenas inocência e segurança, mas também paz e abundância, foram incorporadas de modo indelével, primeiro à paisagem, e depois, numa extrapolação poderosa, a um período específico do passado do campo, agora ligado a uma identidade perdida, a relações e certeza perdidas, na lembrança do que é denominado, em contraposição a uma consciência presente, Natureza. O sentimento primevo é tão intenso que inevitavelmente se associa a muitas outras experiências:

Cenas de infância! Ó mais doce dos sons! 

Pois não há coração, por mais sofrido,

Que não sinta brotarem emoções 

Ao pensar no torrão natal querido:

Mesmo o que pode a sebe, maltrapido, 

Mal pousa a luva num ramo orvalhado

E vem-lhe a mente, do mais fundo olvido,

A lembrança dorida de um passado

Em que ele era feliz, jovem, despreocupado.

(Raymond Williams, O campo e a cidade, Companhia das Letras, 2011. Versão de bolso, P.235-6)

Diário emotivo-reflexivo de campo #3

as meninas trabalham

No meu primeiro dia na lan-house aqui em Conceição do Mato Dentro puxei papo com a moça que trabalha no estabelecimento. Queria apenas jogar conversa e a sensação de não conhecer ninguém, fora. Nisso perguntei se ela era da cidade mesmo. A moça sem desconfiar dos meus não-propósitos da pergunta deu logo uma resposta sociológica para eu ficar esperto e ir anotar no diário de campo. Ela disse que o pessoal que vem de fora da cidade não trabalha ali não, nem em supermercado, loja, essas coisas… É mais nas firmas mesmo. Isso foi ha quase um mês. Na última semana fui experimentar um sanduíche no “Coragem Burguer’s”, estabelecimento famoso por aqui. Já havia sido avisado das doses cavalares de bacon que vem no hamburguer. Cada sanduíche tem o nome de uma cachoeira da região. Tabuleiro é o X-Tudo. Três-Barras é o X-Banana, que foi altamente recomendado, mas que ainda não experimentei. Logo que fiz meu pedido reparei que havia dois homens adultos a fazer sanduíches, enquanto o atendimento era feito por mocinhas nos seus entornos de 16 anos, um pouco menos, talvez. Além deles havia um rapazinho que servia bebidas. Esse não tinha nem 14 e constantemente era chamado atenção pelo sujeito que fritava os hamburguers.

A menina, no balcão, anotava, levava e cobrava os pedidos. Parecia desenvolta na função. De vez em quando sorria. O rapazinho não disfarçava o desagrado no trabalho. O sujeito da chapa quente também não, parece o dono ou algo assim e tem uma cara mais emburrada. Deve ser as dificuldades da vida.

O sanduíche demorou muito, mas muito mesmo. Ficava olhando angustiado para todos os pedidos. Na outra barraca, que também faz parte do estabelecimento, a mesma configuração. Mocinha anotando, entregando, cobrando, sujeito homem fazendo na chapa, carne, ovos, bacon, banana.

As mocinhas não devem receber mais de meio salário. Devem estudar pela manhã. Os sujeitos homens donos devem ter dificuldade para conseguir empregados. Na cidade que minera, os funcionários preferenciais de muitos serviços mal-remunerados são mocinhas inteligentes, espertas e dóceis. Por enquanto, por enquanto…

Published in: on 26/05/2012 at 16:16  Deixe um comentário  

Diário emotivo-reflexivo de campo #1

felicidades banais

             Logo no início da faculdade cheguei a conclusão de que não adiantava escrever o que os professores falavam ou botavam nos quadros. Durante os últimos anos de colégio já pensava que anotar era uma perda de tempo, pois eu nunca utilizava essas notas e ainda por cima não prestava atenção nas palavras do professor. Na faculdade, principalmente após a disciplina de Sociologia, vi que as coisas importantes ficavam na cabeça, mesmo se eu não quisesse. Assim, passei a deixar de me preocupar com um caderno sistematizado, escrevia nomes, datas e lançava rabiscos apenas para ocupar o tempo-espaço. Com a felicidade é a mesma coisa. Não precisa tomar nota. Essa alegria besta que aparece não pede preparo e atenção nem nada. Apenas acontece e a gente sabe. É  besta mesmo. Vem sem rodeio, subterfúrgio ou aviso prévio. As coisas importantes, belas e fortes é que marcam a gente e não o contrário.

                O grande amigo, o Patrão, vem realizando ao longo dos últimos anos festas memoráveis num belo casarão de sua família localizado à rua Rio Grande do Norte, em Belo Horizonte. Numa dessas festas, há coisa de uns 3 anos, me dispus a ajudá-lo a organizar. Compramos cerveja, carnes, refrigerante e carvão. Ao chegar na casa organizamos o espaço para a festa. Os amigos  e amigas foram chegando e trazendo mais bebidas (homens levam uma caixa de latinhas e as mulheres meia, invariavelmente). Ainda era cedo, pouca gente tinha chegado e coloquei meu velho e estimado Tocador de Mp3 para tocar. Provavelmente queria mostar alguma coisa para o Patrão, mas eu não havia preparado nada para a ocasião. Havia apenas música brasileira. Muito samba, uns jorges bens, erasmos, algum tipo toni tornado, joão nogueira, robertão, talvez um choro e pode ser até mesmo um depressivo eduardo gudin. Fui tomado de alegria ao perceber que as pessoas iam chegando e todo mundo gostava do som que rodou madrugada a dentro. Ah, se ele tivesse me pedido para preparar uma playlist, provavelmente nada teria dado certo e eu teria me frustrado, de novo. Nessa mesma noite, ainda sob o contentamento de ouvir “as minhas canções” nas vozes alheias, saboreando e discordando dos comentários sobre este ou aquele compositor fui brindado pelo supremo elogio de uma moça, uma que o Rubem Braga diria que é dessas que a gente comenta que há mais feias.  Ela virou para mim, já tarde da madrugada, eu bêbado e feliz e ela me disse: “Sabe o que você é…? Você é um boêmio!!” Ah, a glória, a glória… Salve salve o reconhecimento.

                Agora ando a fazer meu trabalho de pesquisa de campo para minha tese de doutorado, em Conceição do Mato Dentro, região belíssima das Minas Gerais. Ao voltar para a casa onde estou morando, depois do almoço, avisto a rua da foto abaixo.

Published in: on 03/05/2012 at 15:07  Comments (2)  

Notas doutorais #7 – Tomar para si a responsabilidade

Uma das coisas que mais me intriga, me angustia e por isso me convoca a realizar minha pesquisa de doutorado é saber porque diabos as pessoas resolvem se responsabilizar pelo quê acontece no mundo. Quando é cada vez mais fácil culpar o Eike Batista, a globalização, a rede Globo, o estado brasileiro, a ganancia dos mega-especuladores ou a baixa qualidade da educação no país. Por que algumas pessoas resistem a jogar a capacidade de ação nestes atores e se colocam a criar um espaço possível de ação, de fala, de articulação, de política? Essa questão aparece sempre em qualquer luta social e política. Pode se dar quando uma mulher na rua presencia um homicídio perpetrado pela própria polícia e faz alguma coisa com isso; quando as pessoas passam a não aceitar mais a violência cotidiana contra determinadas populações, negros, homossexuais, mulheres e se mobilizam para mudar leis, para colocar a boca no trombone. Pode também se dar quando populações resistem a ser esmagadas pelo capital que pega o que vê pela frente, histórias, pensamentos, tradições, árvores e pedras e lançam num alto forno. O posicionamento crítico do sujeito sobre sua realidade, sua força para agir, isso que para mim não tem nada de heroísmo. Odeio essa referência que só que só nos faz desconsiderar a realidade que vivemos e suas determinações olhando apenas para capacidade única de alguns tipos privilegiados de sujeitos, moldando mitos que se dissociam completamente da vida, essa besta. Há banalidade nos atos mais “heroicos”. Há que se recuperar essa banalidade.

Ao ver o filme acima uma fala me chamou atenção, por fazer eco com coisas que venho estudando. Um senhor de barbas brancas, indignado e com raiva, quando vê que está sendo expulso da sua própria terra por uma grande empresa, diz:

“Eu saindo daqui não preciso viver mais. Daqui dessa terra que eu nasci e criei meus pais, meus avós…”

É o filho que cria os pais. E os avós. É ele que toma para si o cuidado com o mundo que foi, que é. É ele que restitui e defende a eterna continuidade das coisas. Mesmo que as coisas devam continuar diferentes.

O velho fala dos seus pais falando também para seus filhos.  E ele diz:

“Não se esqueçam!”

Published in: on 13/02/2012 at 18:40  Deixe um comentário  

NOTAS DOUTORAIS #6 – Referência biblio-afetiva: Rancière e a síntese.

Quando me dei conta “O Desentendimento” já tinha entrado na minha vida intelectual e afetiva. Veio e ficou como um enigma a ser decifrado. Este livro, do filósofo Jacques Rancière, paira indefinido, entre a mesa e minha cabeça. Rancière é um desses pensadores que representam muito mais do que uma nota de rodapé ou uma referência ao final da tese. Sua influência na maneira que entendo a relação dos sujeitos com a vida social, com as formas de determinação, com a política é coisa difícil até de delimitar. É dessas relações que a diferença entre fora e dentro, entre meu e dela, perdem base de sustentação. Já havia, antes do “Desentendimento”, lido um artigo de síntese de seu trabalho e também já tinha passado os olhos na tese do autor, transformada em livro, “A noite dos proletários”. Sem dúvida Rancière junto a Ernesto Laclau, filósofo político argentino, são as bases da minha concepção sócio-subjetiva-política. Ambos, com suas ênfases na linguagem na sua relação constitutiva das identidades, a discussão sobre projetos políticos, hegemonia e articulação, a igualdade levada a seu próprio absurdo como o operante político, por excelência. Ambos são fundamentais, apresentam certas similitudes teóricas gerais, mas também divergências que não podem ser desprezadas. Não irei falar disso aqui, mas considero Laclau meio engenheiro, um tanto estrutural na sua maneira de pensar. Parece querer dar conta de tudo, cortando, medindo, encaixando. É analítico o seu pensamento. Ranciére, por sua vez, coloca na mesa situações, experiências pungentes que conseguem abrir um mundo, um encontro entre a compreensão teórica e a vida real, de uma forma desconcertante. Sua teoria é poética. Seu trabalho, ainda que por vezes escrito muito em francês, apresenta picos de uma clareza e de uma beleza absurda. Algumas linhas suas me sugerem uma tese de doutorado, uma teoria da linguagem, uma linha de pesquisa e outros delírios. Laclau me soa mais preocupado em quebrar, em perceber num dado projeto apresentado como homogêneo, as articulações e divisões. O que é bonito no trabalho de Rancière é sua capacidade de trazer muito, de desdobrar a partir de “pouco”. Síntese.

Relendo o livro “O mestre ignorante”, também de Rancière, surpreendo-me com a potência deste trabalho. E de como cada obra de Rancière, mantendo sua validade singular diferenciada, seja pelos elementos históricos ou políticos, aparece para mim de maneira integrada e coesa, como se o trabalho singular fosse também um momento de algo maior. Num artigo recente o autor que fora um promissor aluno de filosofia de Louis Althusser que escreveu com este o “Ler o capital”; que se distanciou criticamente do mestre, mantendo-se nos estudos sociais, históricos e políticos; e que atualmente é associado às teorias da imagem, do cinema e da arte, assim respondeu aos que demarcam uma “virada estética” na sua obra. Nesta referência a “virada estética”, vislumbra-se por um lado uma crítica ao passado marxista do autor associado a um enlevo pueril de sua “descoberta” deste infinito que é a arte. Por outro lado há também uma malícia que identificaria na mudança de objeto um desapego daquilo que “realmente” importa, ou seja, o foco na mudança social, na revolução, para uma atenção maior com as frivolidades burguesas, a preocupação com as belas formas. Modo-Rancière de responder a estes “críticos”:

“Minha preocupação principal, através da qual eu realizei minha pesquisa política e histórica era apontar para a dimensão estética da experiência política (…) Esta preocupação já estava no coração da minha dissertação de doutorado, publicado como La Nuit des proletaires [A noite dos proletários]. Neste trabalho eu recoloquei o nascimento do assim chamado movimento dos trabalhadores como um movimento estético: uma tentativa de reconfigurar as partições de tempo e espaço na qual a prática do trabalho era enquadrada, e que configurava ao mesmo tempo conjunto inteiro de relações. Isto é, relações entre práticas dos trabalhadores – localizadas no espaço privado e numa alteração temporal exata entre trabalho e descanso – e uma forma de visibilidade que equacionava sua invisibilidade pública; relações entre sua prática e a pressuposição de certo tipo de corpo, das capacidade e incapacidade desse corpo – a primeira da qual sendo sua incapacidade de falar suas experiências como experiências comuns na língua universal da argumentação pública. E mostrei que no núcleo da emancipação dos trabalhadores era uma revolução estética. E o núcleo desta revolução era uma questão do tempo. (…) Para reconfigurar a ocupação de seu ‘espaço-tempo’, os trabalhadores tiveram que invalidar a mais comum partição do tempo: a partição na qual os trabalhadores iriam trabalhar durante o dia e dormir durante a noite. Era a conquista da noite para fazer outra coisa que não dormir. A mudança básica envolvia uma completa reconfiguração da partição da experiência. Ela envolvia um processo de desidentificação, outra relação com o discurso, visibilidade e assim por diante.” (JACQUES RANCIÈRE, 2005, “From Politics to Aesthetics?” Em: Paragraph. Volume 28, PG.13-25, tradução minha) ”

Lendo “O mestre ignorante” me deparo a toda hora com frases, construções que estabelecem princípios, modos de interrogar a vida social, caminhos de pesquisa e ação que muito me animam para a vida acadêmica. A passagem a seguir é dessas que poderiam, em minha, às vezes não tão, modesta opinião fundar uma linha de pesquisa para a psicologia social.

“É preciso aprender. Todos os homens têm em comum essa capacidade de experimentar o prazer e a pena. Mas essa similitude não é, para cada um, senão uma virtualidade a ser verificada. E ela é só pode sê-lo através do longo caminho do dissemelhante. Devo verificar a razão de meu sentimento, mas não posso fazê-lo aventurando-os nessa floresta de signos que, por si sós, não querem dizer nada, não mantém qualquer acordo. O que se concebe bem, repita-se com Boileau, se enuncia claramente. Essa frase não quer dizer nada. Como todas as frases que deslizam sub-repticiamente do pensamento para a matéria, ela não exprime nenhuma aventura intelectual. Bem conceber é próprio do homem razoável. Bem enunciar é uma obra de artesão, que supõe o exercício dos instrumentos da língua. É bem verdade que o homem razoável tudo pode fazer. Mas ele deve aprender a língua própria à cada uma das coisas que quer fazer: sapato, máquina ou poema.” Consideremos, por exemplo, esta terna mãe, que vê seu filho voltar de uma longa guerra. Ela experimenta uma comoção que não lhe permite falar. Mas ‘esses longos abraços; esses enleios de um amor que parece temer uma nova separação; esses olhos onde a alegria brilha, em meio a lágrimas; essa boca que sorri, para servir de intérprete para a equívoca linguagem do choro; esses beijos, esses olhares, essa atitude, esses suspiros, mesmo esse silêncio’, em resumo, toda essa improvisação não é muito mais eloquente do que poemas? Sentis a emoção. Experimentai, entretanto, comunica-la: é preciso transmitir a instantaneidade dessas idéias e desses sentimentos que se contradizem e se nuançam até o infinito, fazê-los viajar no daqui de palavras e frases. E isso não se inventa. Pois nesse caso, seria preciso supor um tertius entre a individualidade desse pensamento e a língua comum. O que implicaria em uma ou outra língua: mas como seu inventor seria entendido? É preciso aprender, buscar nos livros os instrumentos dessa expressão. Decerto que não nos livros dos gramáticos: eles ignoram completamente essa viagem. E, não nos livros dos oradores: eles não buscam se fazer adivinhar, eles querem se fazer escutar. Eles nada querem dizer, eles querem comandar: ligar as inteligências, submeter as vontades, forçar a ação. É preciso aprender com aqueles que trabalharam o abismo entre o sentimento e a expressão, entre a linguagem muda da emoção e o arbitrário da língua, com os que tentaram fazer escutar o diálogo mudo da alma com ela mesma, que comprometeram todo o crédito de sua palavra no desafio da similitude dos espíritos.”

Jacques Rancière, “O mestre ignorante” ed. Autêntica, 2007, p.100-1

Published in: on 21/10/2011 at 15:44  Deixe um comentário