Despedida, com decência e melancolia.

“Como se sai do fundo do poço? A pungência não só da pergunta, mas de uma eventual resposta, ajuda a explicar o afeto de Eduardo Coutinho pelo personagem que encerra Peões – o metalúrgico Geraldo -, cuja fala, cheia de decência e melancolia, é uma lenta progressão rumo à consciência de um impasse. Geraldo viveu o período das grandes greves do ABC. Aquilo não voltará mais, as condições históricas agora são outras. Não tendo mais emprego certo, ele roda pelas fábricas do país em busca de trabalho temporário. É uma existência dura, na contramão da felicidade. Geraldo é forçado a se afastar da família para poder sustentá-la em lides que já não forjam laços duradouros de solidariedade e luta.

Esse é o quadro que descrevia quando Coutinho lhe pergunta se tem saudade da fábrica. Ele esboça um sorriso: apesar de todo o sofrimento, às vezes tem, sim. ‘Quer que teus filhos sigam a profissão?’ (a edição eliminou a pergunta de Eduardo). ‘Não, espero que eles não passem o que eu passei, não’, responde, caindo no poço. Ele desvia o rosto, seus olhos marejam. ‘Espero que não’. A câmera segue rodando, num silêncio cada vez mais pesado. Para quem assiste, a sensação é a de uma homem que se afoga.

Se Geraldo parasse aí, se não repicasse, seria a derrota. Mas então ele se salva. Triste, vira-se para Coutinho: ‘O senhor já foi peão?’ De um golpe – e é disso que se trata -, o impasse já não é só dele. Agora é também do inquisidor, responsável, involuntário por atirá-lo no buraco. É como se Geraldo dissesse: ‘Por favor, não julgue o meu silêncio porque você nunca saberá o que eu passei’. Com cinco paalvras, ele afirma a singularidade de sua vida. A desolação que se segue comove e suscita respeito, nunca piedade. Geraldo não lamenta sua vida, antes a enfrenta com uma coragem muda”.

JOÃO MOREIRA SALLES – “Morrer e nascer – duas passagens na vida de Eduardo Coutinho” (p.364-5)

Eduardo Coutinho – Milton Ohata (org.) São Paulo: Cosac Nayfy, 2013

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Published in: on 01/04/2014 at 20:03  Deixe um comentário  

Analíticas #4

Nos movimentos do mundo cada um tem o seu momento

todos tem o pensamento

de vencer a solidão.

(…)

No horizontes do mundo requerer perdas e danos

é abrigar desenganos

Sem amor e sem perdão.

Published in: on 14/01/2014 at 17:24  Deixe um comentário  

Entre a transcendência e a imanência, eu e o Galo.

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             Tenho uma relação dúbia com a filosofia e as artes abstratas. Gosto dessas coisas do pensamento metafísico, mas me acho pedante já ao escrever “imanência”. Sinto que em algum lugar zombam de mim por usar palavras pomposas para  dar sentido ao caos do mundo. Porém, que venha a zombaria. Há alguns anos sinto um aperto existencial na pressão semântica dessas palavras, a imanência, por um lado, e a transcendência, de outro. Talvez utilize esses termos do meu próprio jeito, é preciso, portanto, explicar como me tocam essas palavras, e que diabos o Galo tem com isso.

                É difícil falar de transcendência sem imaginar Deus em sua onipotência imagética . Mas acho um modo preguiçoso de pensar a transcendência, não sigo por aí. Falar da transcendência implica acreditar que algo que não está presente age em nossa vida. Algo que atravessa tempo e espaço, imaterial e que não pode ser identificado pelos nossos sentidos. Algo da ordem do espírito. Deus é um exemplo claro pois, segundo os crentes, ele está e atua em todos os lugares e momentos. Podemos pensar no amor também, pois como entender que um rapaz é diferente daquele outro até mais bonito; ou porque será que aquela moça vale uma vida passada juntos? O que existe no beijo da mulher amada? Existe saliva, existe carne, talvez cáries e bafo. Mas há amor?

                A imanência significaria a pura presença. Está tudo aí impregnado nas coisas. Não há fora, não há segredo nem sagrado. Todos os atos são acolhidos em sua naturalidade e presença. Nada de extraordinário. Nenhuma porta está fechada, nada escondido, nenhuma revelação  entre linhas ou beijos.

                Atravessando o pântano da juventude de forma solitária e romântica tendi para um puro transcendentalismo burguês, sem nem mesmo perceber. Há algo mais absurdo do que esperar que chegue a mulher amada, o verdadeiro amor? A transcendência aparece muitas vezes nessa sensação de singularidade. Algo que é único e que não se repete. A imanência em sua presença é repetição e cotidiano, nada de romantismo ou ficção. Foi no início da faculdade, pelo interesse político-poético nos entornos do marxismo se misturando à forte impressão do cotidiano como lugar de ação, nessa junção peculiar de um zombeteiro Rubem Braga com uma profunda Agnes Heller, que começou a confusão. A minha transcendência seria buscada no cotidiano barulhento, no meio da bagunça. Ainda que me movendo num mundo material, sem esperar a intervenção de nenhuma força cósmica para resolver nossos problemas, eu teria e queria a minha parte de infinito nesse latifúndio. Achei e continuo achando em Tolstoi. Em Rubem Braga em suas descrições absurdas de cotovelos e ombros femininos. Na música de Paulo César Pinheiro, João Nogueira e Eduardo Gudin. No olhar da mulher que amo. A rotina dura, os problemas, os desenlaces, todos vinham trombando e gerando poesia. O romantismo continuou dessa forma, buscando maravilhas naquilo que é banal e precário, num gesto, num traço de corpo, num “transformar a vida prosaica em poesia”, nas belas palavras de Agnes Heller. Se a história fosse apenas essa não haveria tensão nem conflito entre os termos. Haveria apenas um belo encontro do infinito na finitude das coisas, mas não é essa a história. O problema é que o apego à esse mundo imaterial traz desânimo para o cinismo e a fragilidade da vida cotidiana. Desses acordos que nada valem e esgarçam a palavra e o sentimento. A vontade de se isolar das pessoas e terminar o dia com Tolstoi aparece. E é uma luta cotidiana para afastar essa vontade de infinito, belo e mortífero. E é aí que imanência vem salvar a vida, no pagar conta, no arranjar dinheiro, no tomar uma cerveja, sorrir e esquecer as dores.  É preciso balancear a busca do infinito, no escolher bons objetos de adoração e poesia. Chego então ao Galo e por extensão, ao futebol.

                Não lembro em que Copa do Mundo, mas quando questionaram Alessandro Nesta, zagueiro italiano sobre dinheiro e prêmios para jogadores da Itália no caso de título mundial, o jogador disse que numa Copa do Mundo o dinheiro não importa. A honra e a vontade tem que brotar de outro lugar. O futebol tem seus momentos de puro infinito e beleza. A Copa do Mundo, infelizmente, vem se mostrando cada vez mais pirotecnia financeira e pouco futebol, mas a princípio é o lugar privilegiado para nascer a magia e a lenda.

                O título da Libertadores do Atlético em 2013 foi pura transcendência. Entoam-se hinos, evocam-se santos, fala-se do acaso e da sorte dessa “saga”. Nós, atleticanos, vamos nos lembrar de cada um dos gols, lances e defesas desses jogos. Havia uma força maior surgindo do suor desses jogadores. Tínhamos a sensação, estranha, e que se fortalece com o passar do tempo, de que a despeito de todas as dificuldades, seríamos campeões. E fomos. E seremos sempre. A libertadores do Atlético não representa o título de um campeonato que ocorre a cada ano, claro que não. Acabou a matemática. A transcendência aparece quando passamos a fazer muitas histórias de um único momento.  É de um sorriso ou de uma palavra que nasce o amor. A singularidade do momento se desdobra não em um, mas em muitos caminhos, vidas, destinos. Quantas teses, músicas, sentimentos são acionados na defesa do penâlti de São Victor contra o Tijuana? E o que falar do valoroso Léo Silva fazendo o gol derradeiro na final?

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     São muitos esses momentos e infinitas as sensações. Ser campeão jogando feio não me interessa. Só me interesso pelo infinito. E a beleza não é plasticidade sem força e vontade. Tudo o que tivemos na fase final da Libertadores nos faltou no dia de ontem. Foi logo após o gol de empate do Ronaldinho contra o time marroquino que me dei conta de que jogávamos de igual para igual com o Raja Casablanca, nada havia de especial nesse time. E a derrota veio, banal. O que vimos ontem foi o epílogo da VERDADEIRA história, a saga da Libertadores. Em trinta anos vamos nos lembrar dos refletores apagados no momento único, do gol salvador do Guilherme, o RENEGADO. Não foi o Nelinho que conseguiu chutar a bola com a perna esquerda para fora do Mineirão, foi São Victor. Escafandristas procuraram a bola na lagoa da Pampula, sem encontrar. Que me importa se o jogo contra o Tijuana acontecen no Horto. O Tardelli, jogador e “marginal” atuava com metralhadoras semi-automáticas, fuzilando os rivais depois dos gols, um absurdo em 2013, logo proibido pela FIFA.  Vamos comentar que o Léo Silva tinha 2,45 de altura, sendo o maior zagueiro do futebol mundial, registrado no Guinness. Vamos contar que o Ronaldinho Gaúcho, depois de dar 9 chapéus seguidos fez um lindo gol de bicicleta, injustamente anulado pelo juiz. O Jô, após fazer o primeiro gol da épica final contra o Olímpia saiu correndo com o dedo para cima e nunca mais vai parou de correr. Vai Jô, corrê Jô, corre! O Bernard, com apenas 15 anos à época da final irá rejunescendo a cada ano. Essa é a história que eu vi.

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Published in: on 19/12/2013 at 16:06  Deixe um comentário  

Analíticas#3

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Tentei escapar pela HISTERIA. Um gesto, A performance e aplauso-choro/riso. Emoções sobrevoando na bordinha final subsequente ao ATO, falso. Compreensão total, fantasia. Na base do choque. Nada de manha, tudo nesse jorro. Pero,  NO.

O OBSSESSIVO foi vedado de partida, mas se impôs pela estrutura. Que podia eu fazer?Andar e falar com coisas, mexer nas regras e lógicas? Das análises do mundo físico cai no colo do senhor Althusser que lentamente massageia/quebra meu pescoço. Se não tenho ginga? Ôxi, tenho não… Regra clara e o grave problema da determinação social, pois haveria outra razão para ter falado tanto de contingência? Mundo de coisa e regras queria até querer, porém posso não. Meu mûinho é pandeiro, berro, choro. Falha-me.

Maria Rita Kehl falou aí do MELANCÓLICO e achei bonito. Mas vá lá, tinhoso, já não será tarde para buscar a “temporalidade perdida”? Deixe-me retirar à luta, fazer de sentido. Pois veja, pois nisso de defender-me mal da castração, não levo jeito.

Fora disso aí tem também a VIDA, que é mais chata, que não segue nada, que escolhe mal vírgula não entende de gramática, não define nada direito e segue IMPÁVIDA COLOSSO a te nocautear sem fim.

Isso foi a HISTERIA,

Aplauso…

Published in: on 27/11/2013 at 12:44  Deixe um comentário  

UM BRINDE AO CASAL QUE SE PEGA

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Sexta-feira, bar do Gomez, Santa Teresa, Rio de Janeiro. Meados de maio.

Indivíduo apresentável conversa com dama, certamente não menos apresentável do que este. Após uns dez minutos, indivíduos supracitados se atracam e é mão subindo e descendo, zueira linda e doida. Juvenil. Ao mesmo tempo que a pegação é digna, pela incontinência passional, parece-me fora de lugar. Ou estou eu fora do lugar, pois sinto-me invadindo a sempre sagrada intimidade da paixão. Mas, enfim, nossos efebos seguem apaixonados e atracados. Adolescentes. 22 anos, no máximo.

Não resisto, guiado pelo comandante geral da CIA que manda sua mensagem pela cerveja que bebo, escuto tudo o que conversam. E é genial. Antes, porém, contudo, todavia, devo confessar meus traumas. Enquanto adolescente fui um fracasso to-tal. O trauminha de mal-amado erigiu-se então em minh’alma. Até tempos atrás dava minhas surtadas perversas ao ver casaizinhos bem jovens e muito felizes com essa carinha de noite bem durmida. Tinha vontade de esfregar na cara deles algo triste, ruim e/ou vil, pelos quais seriam culpados. Tipo a fome no mundo.

Volto à tal sexta-feira. Como não me divertir com a moça que ficava insistindo em dizer de um tal ex, que foi para a Alemanha, um grande amor. Diz ela, sua única paixão. Foram 2 namorados, 3, corrige, mas re-corrige dizendo que um não conta. Vontade de dizer ao intrépido rapaz, “é esse, é esse que conta”. Camarada, papai Freud tá por aí lembrando que conta quem a gente não conta. Mas nada digo, posto que o carioca alvissareiro não parece precisar da ajuda de um mineiro neurótico.

Escutando esse jovem casal penso na vida, nas coisas boas da vida, no encontro, aquele fatal. E acho lindo que a moça fale tanto de ex-namorado, e ela fala muito. Escuto claro o seu recado, melhor, os dois: 1.“Presta atenção, pô não tô de brincadeira”. 2. “Eu não sou tão menina, como parece, tenho um grande amor no currículo”. É batata, a moça ou moço, falou de ex ou falou de família, pai, mãe, tá querendo algo sério, anota. Ou tá querendo parecer que quer algo sério, o que não dá no mesmo. E daí pulei para o texto que evito por tanto tempo em escrever e que haverá de se chamar:  “O dia em que o apaixonado Vinicius de Moraes matou o cínico Rubem Braga”. Explico.

Rubem Braga, que completaria cem anos em 2013 foi meu grande ídolo. Foi com ele, em suas crônicas, que passei a admirar e me apaixonar pela mulher. Foi por sua poesia. “As outras coisas que continuam me comovendo são as mulheres que vejo passar na rua. É inacreditável como qualquer mulher que passa me desperta turbilhões de pensamentos: sinto-me inteligente, fremente, e ao mesmo tempo estúpido. Como todas as artes são frágeis perante essa simples coisa natural!” (Carta a Moacyr Werneck de Castro, Livro: Rubem Braga – Um cigano fazendeiro do ar, p.294-5).  Foi com o velho Braga que, primeiro criei um certo ideal de homem namorador. Quase em paralelo fui lendo e escutando Vinícius de Moraes. E ao longo dos últimos 15 anos as diferenças entre eles foram se depurando. Vinícius, todos sabem, se casou 9 vezes e dizia “Que seja infinito enquanto dure”. Braga, solteirão convicto mantinha em sua residência uma placa “Aqui, vive um solteiro feliz”. Outra dele que merece menção honrosa, é que ele dizia preferir “namorar” mulheres casadas, pois estas nunca pretendiam dormir em sua casa.

Voltei nesse enredo por conta do jovem casal se pegando. Achei digno e bonito por parte dela querer dizer de ex- e falar de paixão antiga. Fosse eu o ele, ficaria cansado e a acharia besta… É bem chato assim de início ficar escutando papo de ex (é sempre chato). O colega em frente à dama, performatizava no estilo blasé, “È mesmo? Nossa…que coisa? É mesmo”. Enrolando, enrolando… Foi aí que me lembrei de Vinícius e Rubem. Confesso que o meu eu ideal foi por bom tempo o do velho Braga, o do carioca charmoso, porém fútil e útil. Daquele que no fundo não está aberto para nada, pois está aberto para qualquer coisa. E foi aí que percebi que, tendo ficado triste e sozinho boa parte da minha vida, não consigo mesmo entender o que leva uma pessoa a abnegar desse risco da paixão e do amor. O risco Vinícius. Não consigo deixar de achar medíocre aquele que trata a dama da noite como coisa posta, dada, codificando palavra, olhar e gesto em categoriazinhas cerradas. Fugindo do infinito do olhar e do toque, isso da ordem da coisa, os incategorizável. Esse povo foge mesmo é do delírio e do desejo. A paixão Braga é linda, lírica, poética, gostosa. Mas óbvia e conhecida. A paixão Vinícius é aposta sem crédito. É jogo sem regra, é um infinito de metáfora barata. E quem foge disso, por motivo quer que seja, foge da vida, cumpadi… Foge, e num adianta vir dizer que foge por medo, porque todo mundo tem medo, sempre, como me disse a bela cigana.

Published in: on 01/10/2013 at 14:28  Comments (4)  

Analíticas #2

Desejo

As frases, no meio de páginas de certos livros, saem do papel e se impregnam nos meus cabelos, entram no meu nariz e entortam meus óculos. Ler foi e continua a ser processo de vida, de padecer e escapar do sofrimento. Romances literários me guiam nos estudos acadêmicos. Referência para citação pedante de pé de pagina me explica o quê venho fazendo de errado na vida. É na experiência de ler, sentir e pensar que me desencontro.

Ao momento Rubem Braga foram se sucedendo mulheres e homens feitos de papel, vazio e tipo-grafias. Mas, e sempre demarco isso, começar com Braga não tem nada de cronológico, talvez de lógica. Falo isso não apenas para prestar conta, mas para deixar claro o limite. Não foi a poesia moderna de Drummond, não foi a prosa delirante e lírica de Guimarães Rosa, não foi a filosofia brega de Nietzsche, ou o pessimismo romântico de Freud, não. Foi pela visão pequeno burguesa, amorosa, lírica, erótica, devaneante, carioca e crítica-romântico-cínica de Rubem Braga. Tolstoi no meio, se impôs pelo o arrebatamento do clássico, o clássico posto que perfeito, forte. Com Orwell, pela esquerda combatendo a injustiça e Gárcia-Marquez à frente lidando com os problema do amor, encarava, solitário, a danada. E aí chegaram as mulheres, Agnes Heller e Hannah Arendt. Pela filosofia política passei a me questionar, como ja falei disso em outro momento.

Lendo A Vida do Espírito, livro póstumo de Hannah Arendt me deparei com a citação abaixo, de Heidegger. A verdade é que com essa citação encaminhei uns bons meses de análise. Um sofrimentozinho chato e covarde ganhou nome, sentido e foi embora, por um tempo.

“A auto-observação e o autoexame nunca trazem à luz o eu ou mostram como nós mesmos somos. Mas, ao querer e também ao não-querer, fazemos exatamente isso, aparecemos em uma luz que é em si iluminada por um ato de vontade. Querer sempre significa: trazer a si mesmo (…). Querendo, encontramo-nos com quem somos autenticamente’. Logo, ‘querer é essencialmente querer o próprio eu, mas não um eu dado que é aquilo que é, mas o eu que quer tornar-se aquilo que é (…)”   

Published in: on 25/09/2013 at 23:41  Deixe um comentário  

Cena de Cinema#4 – Coisas piores

Não tenho nenhum apreço especial por filmes de terror ou de zumbi. Hoje, quando acontece de ver um desses filmes, ao pressentir que lá vem uma cena gosmenta, coloco logo a mão no rosto sem embaraço algum. Por isso é que estranho o fato de realmente gostar do Madrugada dos Mortos, de 2004 (Dawn of the dead, direção Zack Snyder). A presença de senhorita Sarah Polley, na sua beleza despretensiosa e seu charme todo sem graça, certamente ajuda, mas não é isso. O segredo de Madrugada dos Mortos, e que suspeito ser o segredo dos bons filmes de zumbi, é que não estamos falando dos mortos e sim dos vivos. São eles que importam. A enfermeira que começa o filme fazendo amor com o marido debaixo do chuveiro, que em seguida dorme de conchinha com o mesmo e acorda com a menina vizinha arrancando a jugular de seu amado, é uma pessoa bem próxima de nós, apesar de todo absurdo. Porém, mesmo gostando desse filme, ele não seria mais que divertido e não figuraria em nenhuma de minhas listas, senão fosse pela cena e pelo discurso do personagem de Kenneth (o personagem de Ving Rhames) aqui debaixo.

Antes, tentarei contextualizar o porquê dessa cena. De um dia para o outro as pessoas em todo o mundo começam a virar zumbis. Seres humanos mordidos por outros zumbis, morrem e renascem com fome de sangue, vocês conhecem o mote. O filme não explica o porquê disso, o que é sempre ótimo. Já começa com o desespero e o caos que se segue quando seus vizinhos e familiares, simplesmente, querem comer seu fígado. Um grupo de humanos ao fugir dos zumbis vai se constituindo. Eles então decidem se abrigar num grande shopping center, o que é bastante interessante. Lá, a princípio temos um excelente esconderijo. Há comida, diversão, espaço, e segurança, ainda que os zumbis vão se ajuntando na porta do shopping em busca de comida. Num dado momento essa precária harmonia se desfaz e algumas pessoas são mortas.  Com isso o grupo se dá conta de que não pode continuar esperando, e que as coisas não vão nada bem. É nesse contexto que, ao tentar dizer algumas palavras sobre os companheiros mortos, Kenneth diz: “…há coisas piores do que a morte”. Ele lembra àqueles que estão vivos, que morrer não é nada, perto de virar zumbi e sair por aí querendo comer outras pessoas. Perto disso, morrer é uma opção.

Em algum momento a expressão, “há coisas piores do que a morte”, articulou-se a  lembranças, vivências e fantasias, mais prosaicas, mas não menos importantes, de minha vida. Momento de afastar o medo e afirmar, por vezes, nadando contra uma suposta maré, assumindo riscos, enfrentando o medo. Pode haver dignidade na morte, nas mortes. Por vezes tratamos algum evento como a maior catástrofe possível, uma espécie de morte, quando na verdade há sempre algo pior do que isso em jogo. Perder o emprego e morrer de fome é ruim, mas depender da miséria de outros ou de si mesmo, para poder passar o janeiro na praia, parece pior. Ser agredido ou ameaçado também não é bom, mas pior é conviver com a culpa de não ter feito nada ao presenciar uma violência, uma agressão. Ficar sozinho o resto da vida parece a pior coisa do mundo, mas viver se alimentando das vísceras, sonhos e alegrias de pessoas belas e vivas, é pior. Há coisas piores do que a morte… Isso me parece um bom lembrete, rapaz.

Published in: on 09/07/2013 at 15:22  Deixe um comentário  

Rubem, terno.

Sempre que falo de Rubem Braga soergue à minha frente o imperativo de traduzir sua relevância, em minha vida, através de algum termo singular, um nome ou adjetivo. Mas nunca consigo, por isso continuo a tentar…  No início era o estilo, claro, eu era apenas um imitador barato do autor. Depois entendi que era e é toda uma sensibilidade o que me ligava à ele. Em certo sentido já não era ele, nem era eu. Sem saber, o escolhi. Braga, portanto, não era apenas aquele a quem me fiava para tentar alguma coisa, qualquer coisa, frente ao absurdo das mulheres, isso também, mas era ele quem me dava força para seguir em minhas andanças de pensamento nos rumos de um mundo mais justo, de um cotidiano mais belo e poético. Nesse sentido Rubem Braga chegou antes de Agnes Heller ou Jacques Rancière. Fazia alguns anos que não voltava às suas palavras. A distância que apareceu entre nós nunca me pareceu uma briga, apenas  um tempo, que finalmente passou. Ao ler um pequeno texto do livro: “As boas coisas da vida” todo o sentimento de devoção e de alegria voltou.

Nesse trecho, Rubem Braga me deu um alento nos confusos, belos e fortes dias de protesto que seguem acontecendo no Brasil. Dizia ele:

“Antigamente diziam que ou o Brasil acabava com a saúva, ou a saúva acabava com o Brasil. Eu era menino, cansei de ouvir isto; o pessoal todo acreditava e ficava aflito. Eu também ficava aflito, e quando encontrava alguma saúva no jardim lá de casa matava logo para ela não acabar com o Brasil. 
Agora estou bastante velho e me lembro dessa história e vejo que continua havendo saúva e continua havendo Brasil.
Por isso é que eu digo: O PESSOAL É MUITO AFOBADO”.  

É velho Braga, o pessoal continua afobado.

Ando a ler o livro com um prazer tão intenso. Esse sentimento de  quando estamos conhecendo coisas novas, descobrindo  o mundo… que apesar de ser mais triste do que feliz ainda conserva alguma graça.

É sempre bom lembrar que a beleza e a suavidade de Braga ajudaram um rapaz feio e tímido a sofrer.

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Published in: on 27/06/2013 at 22:13  Deixe um comentário  

Cena de Cinema #3 ou Analíticas #1 – O homem que não estava lá

 

Nenhuma cena em momento algum, nunca. Nenhum outro filme mexeu tanto comigo, nenhum outro filme me colocou tanto na mira, machucou tanto meu pobre coração como a cena acima. Nada absolutamente nada. Saí do cinema com a certeza de que o perverso do François Ozon pôs a cena na tela para maltratar meu pobre coração, meus sentimentos. Até hoje, 6 ou 7 anos depois, revendo essa cena meu peito aperta, o coração bate acelerado, e em pensamento desejo um novo final para aquilo que vi na tela. Mas não. É preciso ser forte e ver e rever, sentir e (tentar) entender. Por alguns anos a cena rodeou, espreitou, deu medo. Numa noite qualquer ela voltava, sem aviso. Depois partia e restava longe por meses, às vezes anos. Mas a lembrança sempre estava por aí. Hoje me sinto mais forte para lidar com isso.

O filme francês 5X2 é lindo e forte. Um murro no ideal romântico de um amor tranquilo… Não companheiro a vida não é tranquila. Porém acho impossível falar e pensar qualquer coisa desse filme, com seus vários momentos delicados, sem me prender na cena acima. E não acho isso bom, muito pelo contrário, essa cena de quase 10 minutos é uma prisão para mim. Uma prisão completamente imaginária, na qual, percebo agora, nunca consegui mesmo escapar. Por isso, se você ainda não viu a cena volte lá e a veja, por favor, esse texto não faz sentido algum para quem não viu a cena.

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A história do filme é simples, acompanhamos cinco cenas da vida amorosa de um casal. Momentos importantes, divórcio, brigas, casamento, filho. O homem se mostra um fraco, um babaca, um homem. A mulher é forte e bela. Valente menina diria o Braga. A história está de trás para frente, começamos pelo fim do amor para chegar ao seu princípio.  Até “A” cena do casamento via o filme com gosto, um filme sensível e inteligente. Porém, enfim, sem nenhum tipo de aviso a cena quebrou tudo. Ela quebrou certa relação satisfatória, ou confortável, que mantinha comigo mesmo. Essa cena criou um medo que nunca havia tido, um sentimento mesquinho, grosseiro e vil. É ela que representa todos os meus ciúmes, minhas angústias amorosas. Revendo-a, somente agora, percebo que há ali ainda mais do quê gostaria de ver, de saber.

Vamos à cena. Vemos o casamento, o casal serelepe e feliz bailando, pois a vida é bela e tudo é perfeito. Love is in the air. Logo, o casal se dirige ao quarto para a noite de núpcias. Ele claramente bêbado, trocando as pernas. Ela desejando-o. Eles vão se beijando. Ela vai tirar o vestido de noiva e se “preparar” para o marido. Ele, tonto, dorme nesse tempo. Ela ainda chega e tenta algo, mas ele dorme. A moça está feliz, olha-o com olhos ternos, mas se frustra. Coloca um jeans e sai para dar uma volta. Nada demais. Ela então, caminhando, sorri ao ver os restos do casamento, seus pais apaixonados dançando no salão. O amigo flertando com o garçom. Ela então se dirige ao lago e lá se senta. Em pouco tempo uma figura masculina chega do meio do mato. Um americano com jeito de galã. Ele chega e se senta ao seu lado. Quase não se falam, ela pressente o perigo, mas fica. Ele oferece um Malboro ela aceita, “que mal pode haver?”. Em 10 segundos ele já a encara com lascívia e ela entende tudo. Olha para ele também, mas agora vê o risco e vai embora. Ele a segura com força e pede um beijo. Ela hesita, quer ir embora, ele a segura. Ela ainda resiste, não grita, mas não quer. Ele a olha. Beija sua barriga e acaricia. Ela pensa e decide. Beija-o com calor, e se lança a ele de uma vez. Corte. Uma porta bate, ela corre, volta ao quarto do amado com pressa (teme que ele saiba? Teme que ele não esteja mais lá? Sente sua falta?). Ele dorme. Ela se aproxima e o beija. Sonolento e amorosamente ele recebe os beijos. Ela diz: “je t’aime, je t’aime, je t’aime…”.

A palavra chave aqui é identificação. Em determinada etapa da vida, quando vi esse filme, já não conseguia mais me identificar com o amante norte americano. O estrangeiro sexualizado. Seria fácil me ver nele quando era mais jovem. Pensaria aí nessa “mulherzinha gostosa dando sopa”. Mas não dá, não consigo. Só consigo me identificar com o marido, o tolo, que dorme e depois ainda recebe, de bom grado, beijos na face e alguns “je t’aime”. Não conseguiria também me identificar com a mulher, infelizmente. O melhor seria não me identificar com ninguém, posto que não tenho nada a ver com aquilo, mas isso também não é possível. Perceba, não tiro dessa cena nenhuma lição moralista, não a culpo e não culpo ninguém pelo desejo. Nada disso, acho a vida linda. E é o marido que dorme. O amante surge do meio do nada, um acaso feliz. A mulher deseja. É vida o que há nessa cena de amor, e por isso ela é uma prisão para mim, pois eu sou o homem que não está lá. O homem que dorme. E jesus, o que significa o retorno dela correndo e dizendo eu te amo? O que significa a primeira recusa e a aceitação posterior? No quê ela pensa? Não sei, mas também não é difícil saber… Mas o pior são os pequenos detalhes da cena, detalhes que remetem ao simbólico, logo à aposta, ao eterno. São esses detalhes que atormentam e voltam. Por exemplo, não poderia ela estar usando outra lingerie que não aquela, aquela escolhida para celebrar a noite de núpcias? E ela tem que voltar correndo e amorosa, não poderia andar cautelosamente, tomar um banho e deitar silenciosamente na cama?

Quando saí do cinema, depois desse filme, estava inconsolado por dentro. A virada simbólica se consolidara. Rubem Braga perdeu. Não poderia mais ser o amante bonito, leviano e sexy, mas sim o marido, ainda mais um que dorme. Já tinha a certeza, e continuo com ela, de que a cena foi projetada para maltratar nós homens neuróticos heterossexuais. François Ozon, diretor assumidamente gay, nos dá esse tapa de palma aberta, esse tapa que estala. É mais um desses golpes copernicanos. Se o sol não é o centro do mundo, se o homem não é uma espécie nada especial no reino animal, e se o sujeito já não é nem dono de sua casa, o desejo da mulher também não lhe pertence, colega. Nunca. O desejo vai pro turista, o desejo é do latin-lover, do passageiro distraído, é o vazio. O desejo é vento.

Published in: on 07/06/2013 at 04:41  Deixe um comentário  

De dentro do ônibus

Escutando minhas músicas, minhas melancolias ressonando nas charadas e cortes, nos gritos calados.

No metrô a caminho de Copacabana. Escutando também minhas músicas, brasileiras músicas, lembro-me de passar pelas entupidas estações, talvez Chandni Chowk, Central Secretariate ou quem sabe Kashmere Gate. Nessas estações de metrô de Nova Déli um dia parei para observara aquelas pessoas todas. Os indianos, cada um de um jeito, cada um com uma roupa e uma crença diferente. Monges budistas, mulheres tribais com roupas tão coloridas,  homens grandes e seus vistosos bigodes, esses misteriosos sikhs. Conversando com uma amiga falei que alguns Sikhs lembram tanto bandido de filme de James Bond. Ela não me achou um entnocentrista sem noção e ainda confidenciou, com graça: “É só estilo mesmo, eles são ótimos”. Dentro do vagão, olhando eles me olhando e pensando, “que bom estar aqui”. Eu, ali, quase distraído, quase banal, quase só pegando um metrô pra ir pra casa. Dentro do metrô a caminho de Copacabana me lembrei desses outros dias, desse outro metrô.

Published in: on 29/05/2013 at 21:07  Deixe um comentário