Entre a transcendência e a imanência, eu e o Galo.

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             Tenho uma relação dúbia com a filosofia e as artes abstratas. Gosto dessas coisas do pensamento metafísico, mas me acho pedante já ao escrever “imanência”. Sinto que em algum lugar zombam de mim por usar palavras pomposas para  dar sentido ao caos do mundo. Porém, que venha a zombaria. Há alguns anos sinto um aperto existencial na pressão semântica dessas palavras, a imanência, por um lado, e a transcendência, de outro. Talvez utilize esses termos do meu próprio jeito, é preciso, portanto, explicar como me tocam essas palavras, e que diabos o Galo tem com isso.

                É difícil falar de transcendência sem imaginar Deus em sua onipotência imagética . Mas acho um modo preguiçoso de pensar a transcendência, não sigo por aí. Falar da transcendência implica acreditar que algo que não está presente age em nossa vida. Algo que atravessa tempo e espaço, imaterial e que não pode ser identificado pelos nossos sentidos. Algo da ordem do espírito. Deus é um exemplo claro pois, segundo os crentes, ele está e atua em todos os lugares e momentos. Podemos pensar no amor também, pois como entender que um rapaz é diferente daquele outro até mais bonito; ou porque será que aquela moça vale uma vida passada juntos? O que existe no beijo da mulher amada? Existe saliva, existe carne, talvez cáries e bafo. Mas há amor?

                A imanência significaria a pura presença. Está tudo aí impregnado nas coisas. Não há fora, não há segredo nem sagrado. Todos os atos são acolhidos em sua naturalidade e presença. Nada de extraordinário. Nenhuma porta está fechada, nada escondido, nenhuma revelação  entre linhas ou beijos.

                Atravessando o pântano da juventude de forma solitária e romântica tendi para um puro transcendentalismo burguês, sem nem mesmo perceber. Há algo mais absurdo do que esperar que chegue a mulher amada, o verdadeiro amor? A transcendência aparece muitas vezes nessa sensação de singularidade. Algo que é único e que não se repete. A imanência em sua presença é repetição e cotidiano, nada de romantismo ou ficção. Foi no início da faculdade, pelo interesse político-poético nos entornos do marxismo se misturando à forte impressão do cotidiano como lugar de ação, nessa junção peculiar de um zombeteiro Rubem Braga com uma profunda Agnes Heller, que começou a confusão. A minha transcendência seria buscada no cotidiano barulhento, no meio da bagunça. Ainda que me movendo num mundo material, sem esperar a intervenção de nenhuma força cósmica para resolver nossos problemas, eu teria e queria a minha parte de infinito nesse latifúndio. Achei e continuo achando em Tolstoi. Em Rubem Braga em suas descrições absurdas de cotovelos e ombros femininos. Na música de Paulo César Pinheiro, João Nogueira e Eduardo Gudin. No olhar da mulher que amo. A rotina dura, os problemas, os desenlaces, todos vinham trombando e gerando poesia. O romantismo continuou dessa forma, buscando maravilhas naquilo que é banal e precário, num gesto, num traço de corpo, num “transformar a vida prosaica em poesia”, nas belas palavras de Agnes Heller. Se a história fosse apenas essa não haveria tensão nem conflito entre os termos. Haveria apenas um belo encontro do infinito na finitude das coisas, mas não é essa a história. O problema é que o apego à esse mundo imaterial traz desânimo para o cinismo e a fragilidade da vida cotidiana. Desses acordos que nada valem e esgarçam a palavra e o sentimento. A vontade de se isolar das pessoas e terminar o dia com Tolstoi aparece. E é uma luta cotidiana para afastar essa vontade de infinito, belo e mortífero. E é aí que imanência vem salvar a vida, no pagar conta, no arranjar dinheiro, no tomar uma cerveja, sorrir e esquecer as dores.  É preciso balancear a busca do infinito, no escolher bons objetos de adoração e poesia. Chego então ao Galo e por extensão, ao futebol.

                Não lembro em que Copa do Mundo, mas quando questionaram Alessandro Nesta, zagueiro italiano sobre dinheiro e prêmios para jogadores da Itália no caso de título mundial, o jogador disse que numa Copa do Mundo o dinheiro não importa. A honra e a vontade tem que brotar de outro lugar. O futebol tem seus momentos de puro infinito e beleza. A Copa do Mundo, infelizmente, vem se mostrando cada vez mais pirotecnia financeira e pouco futebol, mas a princípio é o lugar privilegiado para nascer a magia e a lenda.

                O título da Libertadores do Atlético em 2013 foi pura transcendência. Entoam-se hinos, evocam-se santos, fala-se do acaso e da sorte dessa “saga”. Nós, atleticanos, vamos nos lembrar de cada um dos gols, lances e defesas desses jogos. Havia uma força maior surgindo do suor desses jogadores. Tínhamos a sensação, estranha, e que se fortalece com o passar do tempo, de que a despeito de todas as dificuldades, seríamos campeões. E fomos. E seremos sempre. A libertadores do Atlético não representa o título de um campeonato que ocorre a cada ano, claro que não. Acabou a matemática. A transcendência aparece quando passamos a fazer muitas histórias de um único momento.  É de um sorriso ou de uma palavra que nasce o amor. A singularidade do momento se desdobra não em um, mas em muitos caminhos, vidas, destinos. Quantas teses, músicas, sentimentos são acionados na defesa do penâlti de São Victor contra o Tijuana? E o que falar do valoroso Léo Silva fazendo o gol derradeiro na final?

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     São muitos esses momentos e infinitas as sensações. Ser campeão jogando feio não me interessa. Só me interesso pelo infinito. E a beleza não é plasticidade sem força e vontade. Tudo o que tivemos na fase final da Libertadores nos faltou no dia de ontem. Foi logo após o gol de empate do Ronaldinho contra o time marroquino que me dei conta de que jogávamos de igual para igual com o Raja Casablanca, nada havia de especial nesse time. E a derrota veio, banal. O que vimos ontem foi o epílogo da VERDADEIRA história, a saga da Libertadores. Em trinta anos vamos nos lembrar dos refletores apagados no momento único, do gol salvador do Guilherme, o RENEGADO. Não foi o Nelinho que conseguiu chutar a bola com a perna esquerda para fora do Mineirão, foi São Victor. Escafandristas procuraram a bola na lagoa da Pampula, sem encontrar. Que me importa se o jogo contra o Tijuana acontecen no Horto. O Tardelli, jogador e “marginal” atuava com metralhadoras semi-automáticas, fuzilando os rivais depois dos gols, um absurdo em 2013, logo proibido pela FIFA.  Vamos comentar que o Léo Silva tinha 2,45 de altura, sendo o maior zagueiro do futebol mundial, registrado no Guinness. Vamos contar que o Ronaldinho Gaúcho, depois de dar 9 chapéus seguidos fez um lindo gol de bicicleta, injustamente anulado pelo juiz. O Jô, após fazer o primeiro gol da épica final contra o Olímpia saiu correndo com o dedo para cima e nunca mais vai parou de correr. Vai Jô, corrê Jô, corre! O Bernard, com apenas 15 anos à época da final irá rejunescendo a cada ano. Essa é a história que eu vi.

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Published in: on 19/12/2013 at 16:06  Deixe um comentário  

Analíticas #2

Desejo

As frases, no meio de páginas de certos livros, saem do papel e se impregnam nos meus cabelos, entram no meu nariz e entortam meus óculos. Ler foi e continua a ser processo de vida, de padecer e escapar do sofrimento. Romances literários me guiam nos estudos acadêmicos. Referência para citação pedante de pé de pagina me explica o quê venho fazendo de errado na vida. É na experiência de ler, sentir e pensar que me desencontro.

Ao momento Rubem Braga foram se sucedendo mulheres e homens feitos de papel, vazio e tipo-grafias. Mas, e sempre demarco isso, começar com Braga não tem nada de cronológico, talvez de lógica. Falo isso não apenas para prestar conta, mas para deixar claro o limite. Não foi a poesia moderna de Drummond, não foi a prosa delirante e lírica de Guimarães Rosa, não foi a filosofia brega de Nietzsche, ou o pessimismo romântico de Freud, não. Foi pela visão pequeno burguesa, amorosa, lírica, erótica, devaneante, carioca e crítica-romântico-cínica de Rubem Braga. Tolstoi no meio, se impôs pelo o arrebatamento do clássico, o clássico posto que perfeito, forte. Com Orwell, pela esquerda combatendo a injustiça e Gárcia-Marquez à frente lidando com os problema do amor, encarava, solitário, a danada. E aí chegaram as mulheres, Agnes Heller e Hannah Arendt. Pela filosofia política passei a me questionar, como ja falei disso em outro momento.

Lendo A Vida do Espírito, livro póstumo de Hannah Arendt me deparei com a citação abaixo, de Heidegger. A verdade é que com essa citação encaminhei uns bons meses de análise. Um sofrimentozinho chato e covarde ganhou nome, sentido e foi embora, por um tempo.

“A auto-observação e o autoexame nunca trazem à luz o eu ou mostram como nós mesmos somos. Mas, ao querer e também ao não-querer, fazemos exatamente isso, aparecemos em uma luz que é em si iluminada por um ato de vontade. Querer sempre significa: trazer a si mesmo (…). Querendo, encontramo-nos com quem somos autenticamente’. Logo, ‘querer é essencialmente querer o próprio eu, mas não um eu dado que é aquilo que é, mas o eu que quer tornar-se aquilo que é (…)”   

Published in: on 25/09/2013 at 23:41  Deixe um comentário  

América Latina #1

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Tem sido bonito acompanhar as estórias da América Latina pela sensibilidade de Eduardo Galeano com o seu “Memórias do Fogo”. Comecei pelo último livro, “O século do Vento”, sobre o século XX.

No início do livro tem uma seção chamada: “Este livro”, que assim se explica:

É o volume final da trilogia Memórias do fogo. Não se trata de uma antologia, e sim de uma criação literária, que se apoia em bases documentadas, mas se move com inteira liberdade. O autor ignora o gênero ao qual pertence esta obra: narrativa, ensaio, poesia épica, crônica, depoimento… Talvez pertença a todos e a nenhum. O autor conta o que ocorreu, a história da América e sobretudo da América Latina; e gostaria de fazê-lo de tal maneira, que o leitor sinta que o acontecido torna a acontecer enquanto o autor conta. 

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1910 – Colônia Maurício.

TOSLTOI

Desterrado por ser pobre e judeu, Isaac Zimerman veio parar na Argentina. A primeira vez que viu um chimarrão achou que era um tinteiro, e a caneta lhe queimou a mão. Neste pampa levantou seu rancho, não longe dos ranchos de outros peregrinos também vindos dos vales do rio Dniester; e aqui teve filhos e colheitas.

Isaac e sua mulher têm muito pouco, quase nada, e o pouco que têm é tido com graça. Uns caixotes de verdura servem de mesa, mas a toalha parece sempre engomada, sempre muito branca, e sobre a toalha as flores dão cor, e as maçãs, aroma.

Uma noite, os filhos encontram Isaac sentado frente a esta mesa, com a cabeça nas mãos, derrubado. À luz da vela descobrem sua cara molhada. E ele conta. Diz a eles que por acaso, por puro acaso, acaba de ficar sabendo que lá longe, lá na outra ponta do mundo, morreu Leão Tolstoi. E explica para eles quem era esse velho amigo dos camponeses, que tão grandiosamente soube retratar seu tempo e anunciar outro.

(O século do vento – Eduardo Galeano. Tradução Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM  Pocket. pp51)

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1923, El Callao

MARIATEGUI

Depois de viver alguns anos na Europa, José Carlos Mariategui regressa ao Peru, de navio. Quando foi embora era um boêmio da noite limenha, cronista de turfe, poeta místico que sentia muito e entendia pouco. Lá na Europa descobriu a América: Mariategui encontrou o marxismo e encontrou Mariatégui, e assim soube ver, à distância, de longe, o Peru, que de perto não via.

Mariatégui acha que o marxismo integra o processo humano tão indiscutivelmente como a vacina contra a varíola ou a teoria da relatividade, mas para peruanizar o Peru é preciso por começar por peruanizar o marxismo, que não é catecismo nem cópia a carbono, e sim, a chave para entrar no país profundo. E as chaves do país profundo estão nas comunidades indígenas despojadas pelo latifúndio estéril mas invictas em suas socialistas tradições de trabalho e vida.

(O século do vento – Eduardo Galeano. Tradução Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM  Pocket. pp93)

Published in: on 27/05/2013 at 19:36  Deixe um comentário  

Aristocracia – Notas existenciais

Ao longo dos últimos anos passei a ver com outros olhos o sentido da palavra “aristocracia”. Nesse tempo convivi com pessoas extremamente aristocráticas no sentido que entendo tal termo e hoje vejo uma beleza nisso que não seria possível antes, para um sujeito que se considera “de esquerda”. Quando era pequeno acreditava que existiriam pessoas no mundo, em algum lugar, que sabiam tudo, que viam e entendiam coisas que ninguém mais entendia, , enfim, espécie de super homens. Depois de um tempo veio a visão empobrecida do homem, ser banal, engrenagem, incapaz de se fazer destino. Tudo igual, tudo ruim igual. Mas depois voltei a ver pessoas muito especiais que pensam, fazem, mudam. Não sei. Nunca acreditei ser bom em nada. Minha formação humana foi burguesa no sentido mais pobre do termo, de um esvaziamento de qualquer sentido transcendental do ser e de redução das possibilidades humanas à de base de manutenção das funções circulares e superficiais do capital. O bom era passar pela vida despercebido, pagando todas as contas, recebendo mais do que gastando. Nada de ser especial.

Mais novo gostava de pensar uma coisa besta, mas que faz muito sentido. Nem sempre fui bom em futebol. Aos 10 anos eu era horrível. A coisa mudou entre os 11 e 14 anos quando, senão passei a ser um craque, de fato melhorei bastante e cheguei a ser um dos melhores da minha idade no colégio. O fato de ter me tornado bom, quando achava que isso nunca seria possível, possibilitou e ainda hoje me permite pensar em novos horizontes. Depois passei a conviver com pessoas que ao contrário de mim sempre se acreditaram especiais e comecei a ver grande valor nisso. Essa fé na capacidade e na possibilidade de fazer o melhor, sem barganha. Aristocracia hoje para mim, tem pouco ou quase nada a ver com nobreza ou com riqueza. Tem a ver com ser e buscar não o mais útil ou mais prático e vantajoso, simplesmente o que é melhor. É trazer para esse mundinho besta a transcendência não de um Deus católico, de uma divindade externa a nós, mas a transcendência que há no infinito da ação humana. De se saber capaz de fazer um tudo que é sempre +1 do que aquilo que existe. Essa inspiração de buscar lonjuras e não se contentar com o que o sistema me dava foi surgindo, foi aparecendo. Primeiro foi o Cântico Negro com a sua impetuosidade virulenta tão distante de quase tudo o que vi-viaMuito novo senti uma verdade nisso…

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.

Eu tenho a minha Loucura!

Depois, ou antes, não importa, veio o Ouro de Tolo, que lançou o avisou de que “Há algo de muito errado no mundo”. E eu que não tinha emprego, não sabia do que se tratava ser cidadão e sabia que o Corcel 73 era um carro, entendi tudo o que Raul falava, quando cantava:

Eu devia estar contente 
Porque eu tenho um emprego 
Sou um dito cidadão respeitável 
E ganho quatro mil cruzeiros 
Por mês 
Eu devia agradecer ao Senhor 
Por ter tido sucesso na vida como artista 
Eu devia estar feliz 

Porque consegui comprar um Corcel 73

O dano estava instalado. Nietzsche e Matrix acabaram de polir esse mundo errado no qual fui, certamente contra minha vontade, inserido. Era precisava então lutar por outra coisa, não ir por ali. É aí que toda essa crítica me jogava num mundo de loucura, de irrealidade. Encontrar ao final da juventude uma sadia aristocracia,  voltar a um mundo pré-burguês e pré-funcional soou um grande achado. Encontrar o ponto de Arquimedes numa vida bela, forte, verdadeira. Ora, é no desfiladeiro da loucura e da morte que rondamos, sempre. E o que fazer? Poderia, partindo dos dados da experiência empobrecida da burguesia funcionalista, da compulsão ao consumo, juntar-me a alguma seita fatalista, engrossar o caldo das religiões neopentecostais, buscar disco voador, ou, pior ainda me reunir com aqueles que buscam refundar os valores da família, da pátria, da propriedade. Esse é o risco das críticas demasiadas à fraqueza do mundo burguês. Houve algo contra o qual a burguesia lutou e que vale a pena lutar. Alguma coisa de liberdade e igualdade.

Por isso o amor a Agnes Heller que cunhou a expressão Aristocracia de Esquerda. A defesa incondicional a esses valores, a defesa sem barganha. Na longa entrevista reunida no livro com o título auto-ajudístico de “Para mudar vida” há uma passagem no qual a pensadora discute porque, apesar de nossa vida ser dominada por rituais burocráticos, judicializados, nós, ocidentais, gostamos tanto dos filmes de faroeste no qual a justiça é feita à bala. Ela propõe o seguinte:

“…nossa vida cotidiana é realmente cinzenta, mesquinha, e então inventamos um mito que fala de uma vida que não é mesquinha, que é grandiosa e que, talvez, não tenha nunca existido. Inventamos o faroeste, mas talvez um faroeste que jamais existiu. Inventamos contos medievais que nada tem a ver com o que a idade média realmente foi, como se os servos da gleba que aravam a terra da manhã à noite tivessem vivido uma vida mais justa, mas heróica, mais completa do que a nossa.

Esse romantismo é invenção nossa. Só pode haver para ele um tipo de remédio: tornar mais ‘grandiosa’ a própria vida tal como é, desenvolver as formas de grandeza humana nas circunstâncias existentes, transformar a vida prosaica em poesia. Só assim não teremos mais necessidade de mitos” (P.194-5).”

 Não sei se algum dia deixaremos de ter necessidade de mitos. Sei que a grandiosidade, ainda que ilusória, deve nos acompanhar dando sentido à pobreza da vida. E isso pode ser bom. É essa procura por mitos que nos coloquem em marcha desfazendo os nós da dominação e da injustiça.

Published in: on 18/11/2012 at 20:48  Deixe um comentário  

Acontecimento

Ontem, pouco antes de dormir, peguei para ler o livro “Momentos Políticos”, de autoria de Jacques Rancière. Já falei da minha devoção a esse pensador algumas postagens abaixo. Minha relação com Rancière tem muito mais de uma relação amorosa do que propriamente intelectual. As explicações, as razões vieram depois. E vieram a confirmar aquele pressentimento.

O livro é composto por intervenções do pensador em jornais, revistas, ao longo de 30 anos. São texto políticos, textos nos quais ele discute fatos, experiências, distúrbios sociais dessas última décadas. Se eu soltasse o freio de mão acadêmico me dedicava de corpo e alma a análisar panfletos políticos. Esses textos repletos de imagens metáforas, brilho e drama que buscam mais fazer agir, fazer fazer do que demonstrar como pensam bem esses nossos belos intelectuais engravetados.

Ontem a noite peguei este livro de Jacques Rancière. Li apenas um texto. O primeiro.

Dormi muito bem.

Jacques Rancière

(tradução minha desse texto em edição argentina)

Existem acontecimentos na vida intelectual?

A vida intelectual é como a vida da oficina ou da fábrica. O normal é que ali não ocorra nada: apenas o ruído das máquinas e dos motores. O acontecimento é, em cada uma dessas vidas, o que as interrompe.

Por interrupções [intelectuais] entendo essas suspensões da ficção coletiva que devolvem a cada um a sua própria aventura intelectual, estes cortes que o obriga a renunciar a escrever o que outros cem escreveram como ele ou a pensar o que seu tempo pensa ou não pensa, por si mesmo. Todos conhecemos esses acontecimentos, sempre individuais, que, de vez em quando, em um lugar ou outro, recordam a cada um o seu próprio caminho. Recordo, por exemplo, aquela tarde de maio, num tempo em que se desencadeava uma dessa batalhas intelectuais que se supunha devia fazer história. Esse dia, a bibliotecária me levou uma fina pasta com umas cartas que, em outro mês de maio, cento e cinqüenta anos atrás, haviam trocado um carpinteiro com um soldador nas quais contava seus passeios filosóficos de domingo e suas semanas de férias utópicas, e compreendi que era sobre isso o que eu tinha algo a dizer e não sobre o debate filosófico da época; que era isso o que me surgia: registrar a marca dessas férias, daquela interrupção diferente que não interessava a ninguém, que não era filosofia para filósofos, nem história para historiadores, nem política para os políticos…em suma, a nada, ou a quase nada que nos remete a todos a pergunta: tu que falas, quem és?” (p.20-1)

Published in: on 11/11/2011 at 19:23  Comments (2)  

NOTAS DOUTORAIS #6 – Referência biblio-afetiva: Rancière e a síntese.

Quando me dei conta “O Desentendimento” já tinha entrado na minha vida intelectual e afetiva. Veio e ficou como um enigma a ser decifrado. Este livro, do filósofo Jacques Rancière, paira indefinido, entre a mesa e minha cabeça. Rancière é um desses pensadores que representam muito mais do que uma nota de rodapé ou uma referência ao final da tese. Sua influência na maneira que entendo a relação dos sujeitos com a vida social, com as formas de determinação, com a política é coisa difícil até de delimitar. É dessas relações que a diferença entre fora e dentro, entre meu e dela, perdem base de sustentação. Já havia, antes do “Desentendimento”, lido um artigo de síntese de seu trabalho e também já tinha passado os olhos na tese do autor, transformada em livro, “A noite dos proletários”. Sem dúvida Rancière junto a Ernesto Laclau, filósofo político argentino, são as bases da minha concepção sócio-subjetiva-política. Ambos, com suas ênfases na linguagem na sua relação constitutiva das identidades, a discussão sobre projetos políticos, hegemonia e articulação, a igualdade levada a seu próprio absurdo como o operante político, por excelência. Ambos são fundamentais, apresentam certas similitudes teóricas gerais, mas também divergências que não podem ser desprezadas. Não irei falar disso aqui, mas considero Laclau meio engenheiro, um tanto estrutural na sua maneira de pensar. Parece querer dar conta de tudo, cortando, medindo, encaixando. É analítico o seu pensamento. Ranciére, por sua vez, coloca na mesa situações, experiências pungentes que conseguem abrir um mundo, um encontro entre a compreensão teórica e a vida real, de uma forma desconcertante. Sua teoria é poética. Seu trabalho, ainda que por vezes escrito muito em francês, apresenta picos de uma clareza e de uma beleza absurda. Algumas linhas suas me sugerem uma tese de doutorado, uma teoria da linguagem, uma linha de pesquisa e outros delírios. Laclau me soa mais preocupado em quebrar, em perceber num dado projeto apresentado como homogêneo, as articulações e divisões. O que é bonito no trabalho de Rancière é sua capacidade de trazer muito, de desdobrar a partir de “pouco”. Síntese.

Relendo o livro “O mestre ignorante”, também de Rancière, surpreendo-me com a potência deste trabalho. E de como cada obra de Rancière, mantendo sua validade singular diferenciada, seja pelos elementos históricos ou políticos, aparece para mim de maneira integrada e coesa, como se o trabalho singular fosse também um momento de algo maior. Num artigo recente o autor que fora um promissor aluno de filosofia de Louis Althusser que escreveu com este o “Ler o capital”; que se distanciou criticamente do mestre, mantendo-se nos estudos sociais, históricos e políticos; e que atualmente é associado às teorias da imagem, do cinema e da arte, assim respondeu aos que demarcam uma “virada estética” na sua obra. Nesta referência a “virada estética”, vislumbra-se por um lado uma crítica ao passado marxista do autor associado a um enlevo pueril de sua “descoberta” deste infinito que é a arte. Por outro lado há também uma malícia que identificaria na mudança de objeto um desapego daquilo que “realmente” importa, ou seja, o foco na mudança social, na revolução, para uma atenção maior com as frivolidades burguesas, a preocupação com as belas formas. Modo-Rancière de responder a estes “críticos”:

“Minha preocupação principal, através da qual eu realizei minha pesquisa política e histórica era apontar para a dimensão estética da experiência política (…) Esta preocupação já estava no coração da minha dissertação de doutorado, publicado como La Nuit des proletaires [A noite dos proletários]. Neste trabalho eu recoloquei o nascimento do assim chamado movimento dos trabalhadores como um movimento estético: uma tentativa de reconfigurar as partições de tempo e espaço na qual a prática do trabalho era enquadrada, e que configurava ao mesmo tempo conjunto inteiro de relações. Isto é, relações entre práticas dos trabalhadores – localizadas no espaço privado e numa alteração temporal exata entre trabalho e descanso – e uma forma de visibilidade que equacionava sua invisibilidade pública; relações entre sua prática e a pressuposição de certo tipo de corpo, das capacidade e incapacidade desse corpo – a primeira da qual sendo sua incapacidade de falar suas experiências como experiências comuns na língua universal da argumentação pública. E mostrei que no núcleo da emancipação dos trabalhadores era uma revolução estética. E o núcleo desta revolução era uma questão do tempo. (…) Para reconfigurar a ocupação de seu ‘espaço-tempo’, os trabalhadores tiveram que invalidar a mais comum partição do tempo: a partição na qual os trabalhadores iriam trabalhar durante o dia e dormir durante a noite. Era a conquista da noite para fazer outra coisa que não dormir. A mudança básica envolvia uma completa reconfiguração da partição da experiência. Ela envolvia um processo de desidentificação, outra relação com o discurso, visibilidade e assim por diante.” (JACQUES RANCIÈRE, 2005, “From Politics to Aesthetics?” Em: Paragraph. Volume 28, PG.13-25, tradução minha) ”

Lendo “O mestre ignorante” me deparo a toda hora com frases, construções que estabelecem princípios, modos de interrogar a vida social, caminhos de pesquisa e ação que muito me animam para a vida acadêmica. A passagem a seguir é dessas que poderiam, em minha, às vezes não tão, modesta opinião fundar uma linha de pesquisa para a psicologia social.

“É preciso aprender. Todos os homens têm em comum essa capacidade de experimentar o prazer e a pena. Mas essa similitude não é, para cada um, senão uma virtualidade a ser verificada. E ela é só pode sê-lo através do longo caminho do dissemelhante. Devo verificar a razão de meu sentimento, mas não posso fazê-lo aventurando-os nessa floresta de signos que, por si sós, não querem dizer nada, não mantém qualquer acordo. O que se concebe bem, repita-se com Boileau, se enuncia claramente. Essa frase não quer dizer nada. Como todas as frases que deslizam sub-repticiamente do pensamento para a matéria, ela não exprime nenhuma aventura intelectual. Bem conceber é próprio do homem razoável. Bem enunciar é uma obra de artesão, que supõe o exercício dos instrumentos da língua. É bem verdade que o homem razoável tudo pode fazer. Mas ele deve aprender a língua própria à cada uma das coisas que quer fazer: sapato, máquina ou poema.” Consideremos, por exemplo, esta terna mãe, que vê seu filho voltar de uma longa guerra. Ela experimenta uma comoção que não lhe permite falar. Mas ‘esses longos abraços; esses enleios de um amor que parece temer uma nova separação; esses olhos onde a alegria brilha, em meio a lágrimas; essa boca que sorri, para servir de intérprete para a equívoca linguagem do choro; esses beijos, esses olhares, essa atitude, esses suspiros, mesmo esse silêncio’, em resumo, toda essa improvisação não é muito mais eloquente do que poemas? Sentis a emoção. Experimentai, entretanto, comunica-la: é preciso transmitir a instantaneidade dessas idéias e desses sentimentos que se contradizem e se nuançam até o infinito, fazê-los viajar no daqui de palavras e frases. E isso não se inventa. Pois nesse caso, seria preciso supor um tertius entre a individualidade desse pensamento e a língua comum. O que implicaria em uma ou outra língua: mas como seu inventor seria entendido? É preciso aprender, buscar nos livros os instrumentos dessa expressão. Decerto que não nos livros dos gramáticos: eles ignoram completamente essa viagem. E, não nos livros dos oradores: eles não buscam se fazer adivinhar, eles querem se fazer escutar. Eles nada querem dizer, eles querem comandar: ligar as inteligências, submeter as vontades, forçar a ação. É preciso aprender com aqueles que trabalharam o abismo entre o sentimento e a expressão, entre a linguagem muda da emoção e o arbitrário da língua, com os que tentaram fazer escutar o diálogo mudo da alma com ela mesma, que comprometeram todo o crédito de sua palavra no desafio da similitude dos espíritos.”

Jacques Rancière, “O mestre ignorante” ed. Autêntica, 2007, p.100-1

Published in: on 21/10/2011 at 15:44  Deixe um comentário  

Bipianas #1

Aprenda a chegar nos lugares. Mais do que isso, aprenda a sentir, saber se colocar e se movimentar dependendo do lugar que você está.

Desde a primeira vez que entrei no Bip-Bip senti algo bem diferente. Senti uma força de outro plano que me disse: “Vem sempre, menino!”. Senti uma necessidade de que deveria estar ali mais vezes, todas, se possível. Foi o que senti também, anos atrás, no bar Opção, do seu Ronaldo, lá em BH. Fico devendo um texto traçando as relações entre estes dois cenários, o bip e o opção, e seus donos, Alfredinho e seu Ronaldo.

Uma coisa que ambos fazem muito bem, e isso não é de forma alguma por acaso, é dar seus esporros, seus recados. E isso não é nada mais, nada menos do que o signo derradeiro, o aviso final aos desavisados. O esporro, não importando o conteúdo, diz sempre a mesma coisa: “Meu chapa, você não está em qualquer lugar. Você não está na sua casa, no seu quarto, num boteco sem dono, sem história, sem singularidade, portanto, respeite!”. Quando se chega nesses lugares se cruza uma fronteira. Há algo radicalmente estranho nesses bares. E compreendo muito bem porque várias pessoas não gostam de ir aí, já quase não chamo ninguém para me acompanhar no bip. E vejo vários problemas nesses bares, vejo coisas que não deviam acontecer e que acontecem. Mas essa experiência de viver um espaço que não é seu, que é radicalmente outro é algo muito poderoso e lindo. Dá uma tranquilidade, uma paz. Por isso vejo sempre minha relação com esses espaços no enquadre do sagrado. Saber que há transcendência, que algo não se reduz a sua percepção imediata é entender que o mundo é povoado por outras pessoas, outras regras, outras leis, outros sentimentos.  Meu amigo, sinta, não tente entender.

 

Published in: on 10/10/2011 at 02:46  Deixe um comentário  

leia UM livro (referências)

É preciso situar nossas referências, mesmo as inconscientes ou as que nos chegam posteriormente.


Published in: on 28/09/2011 at 13:34  Deixe um comentário  

leia UM livro

                Este texto surge a partir de uma querela com o meu primo, o Chico, uma das muitas que temos, graças a…

Enfim.

O Chico aí de cima é um profundo admirador das potencialidades da internet em difundir textos, divulgar idéias e ampliar a capacidade de compreensão dos sujeitos sobre o mundo. O acesso a informação pela internet se diferencia, de outros meios de comunicação, pela pluralidade de perspectivas e pela liberdade da rede em relação às amarras capitalistas e centralizadoras das mídias tradicionais, como a televisão e o rádio. Um mesmo “fato”, na rede, pode ser narrado por diversos sujeitos, a partir de posições singulares. Eu não discordo de forma alguma das benesses da internet. Não sou desses que adoram jogar água fria nesse papo, soltando a baixa porcentagem de indivíduos que já acessaram alguma vez a rede ou demarcando que 85,9 % das buscas no Google se dão em torno de termos bastante educativos, como “pinto grande” ou “orgia anão Adriano Cavalo”. Nada disso é um argumento contra a potência da rede em estabelecer modos alternativos e não-hegemônicos de entendimento do que nos acontece. Obviamente, como uma pessoa que pensa, fico possesso quando leio coisas do tipo: “a revolução no Egito foi causada pelo twitter ou facebook”. Tenho gastrite também quando a internet vira sinônimo de um mundo mágico e abstrato de possibilidades infinitas dessa nossa bela globalização. Como se todos estivéssemos agora numa nova era, pois a verdade é que no mundo que habito, ainda se morre de fome e tuberculose. Os jovens negros moradores da periferia brasileira são limitados na sua circulação territorial e continuam sendo assassinados no atacado, muitas vezes pelos agentes do estado. Portanto, não se pode ir a qualquer lugar a toda hora, há limites, vivemos e viveremos sempre num mundo material marcado por condições e possibilidades finitas, mais finitas para uns e menos para outros, certamente. Ora, o ponto simples e besta é que a internet faz parte da realidade. É estúpido, mas é preciso dizer, porque há sempre os engraçadinhos que deliram feio nessa onda. Assim, antes de ser o espaço livre de piratas anárco-cibernéticos a internet é toda articulada a empresas privadas e submetida a diversas formas de controle. Boa parte dos chamados “blogueiros” são jornalistas profissionais, atravessados por contratos, publicidade, etc… Além disso, eu posso criar um blog e escrever o que quiser. Mas aí o wordpress pode discordar e querer me tirar do ar. Ou então meu provedor pode me achar bobo, feio e chato e me deletar também. Estou falando tudo isso sobre a rede, porque não é disso que quero falar. Eu não discordo do ponto levantado e sustentado pelo Chico, da possibilidade da rede em ampliar temas e formas de apreender a realidade. Discordo é claro, do seu grau etílico de otimismo. Se houvesse uma lei com o meu nome, a Lei Rafael, vamos chamá-la assim, ela diria o seguinte: “O mundo é sempre menos moderno do que se supõe. Isso mesmo, sempre”. E é só isso, as regras do mundo ainda são antigas, a religião ainda pauta a política em todas as instâncias e as mulheres continuam apanhando dos maridos.

A rede é a terra das possibilidades, das navegações e zapeadas. É o espaço da interação, da malemolência. Na internet estamos sempre com o mouse na mão. “Um” e “único” são termos difíceis de articular à rede. Buscamos múltiplas referências sobre diversos assuntos, ao mesmo tempo. E penso que isso nem sempre é bom. Mais nem sempre é melhor. Foi na rede, há coisa de dez anos, que descobri um texto do Sergio Porto, assinado com seu verdadeiro nome e não com o famoso pseudônimo, Stanislaw Ponte Preta. Foi através do site, releituras que li uma dessas coisas que nos acompanham a vida inteira, como uma espécie de oração particular.

“Se não me for dado comparecer às grandes noites de gala, que fazer? Resta-me o melhor, afinal, que é esticar de vez em quando por aí, transformando em festa uma noite que poderia ser de sono.”

A internet possibilitou o acesso a esse texto, que por sua vez, trouxe uma coisa linda para a minha vida. Descobri aí que o Sérgio Porto escreveu alguns livros utilizando seu verdadeiro nome, sendo que em tais obras ele falava de forma diferente da fanfarra hilária que marca o personagem Stanislaw. Sem a rede, provavelmente não saberia disso e seria uma pessoa mais infeliz ainda. A partir daí cheguei ao livro “A casa demolida”. Ora, pronto, nesse momento cessa o papel da internet nessa história. Porque daí se estabeleceu uma ligação linda entre o livro e a minha pessoa, que nada mais deve a rede. Se sou um tanto conservador, por outro lado não sou desses que contrapõe a matéria, o papel ao virtual, ao imaterial. Não é disso que se trata. A questão é a possibilidade de totalizar uma experiência. Na internet começamos procurando o Sérgio Porto, passamos para a crônica brasileira de meados do século XX, vamos a Rubem Braga, amigo do Vinicius de Moraes, poeta e também diplomata, seguimos pelas relações internacionais do Brasil e logo, logo chegamos a segunda guerra mundial… Não há fim.

As coisas são simples. Uma pessoa é simples. E o livro é um mundo inteiro que se abre, um mundo que se abre e que também se fecha, ao se finalizar o livro. A rede é de fato um universo, mas nós não somos seres intergalácticos, nunca seremos, pela Lei Rafael. É no mundo finito que vivemos. É numa cidade, às vezes, num bairro que circulamos e que nos familiarizamos. O velho Braga escreveu: “Dizem que o mundo está cada dia menor. É tão perto do Rio a Paris! Assim é na verdade, mas acontece que raramente vamos sequer a Niterói”. Ler “um” livro é viver a cidade, é a possibilidade de viver o mundo na sua totalidade. É aqui que percebemos o problema da rede, não há totalidade passível de se fazer disso, pois tudo nos escapa. Há sempre um mais, um dado a ser complementado. E no delírio de buscar tudo vamos somando, somando, somando… Rapaz, a conta não fecha. Que o mundo seja mais do que nós mesmos isso é coisa necessária para não cair no delírio paranóico. No entanto penso que é necessário totalizar nossa relação com as coisas do mundo. E essa é, ao meu ver, a boa luta. Ora, na rede, quase sempre estamos conectados demais a coisas demais. É tudo fragmento. Vejo que poderia ler apenas “Anna Kariênina” do Tolstói a minha vida inteira. E sinto que saberia mais sobre a vida, a mulher, a morte, a política que alguém que ficasse lendo todos os blogs sobre economia, política, sociedade, história, psicologia, ciência. Leria e releria o mesmo livro, aquele que na sua singularidade é um mundo inteiro. Talvez não viria a obter mais informações, mas acredito que viria ao cabo do processo ser uma pessoa, e não um banco de dados. Ler “um” livro, amar “uma” mulher, ter “um” amigo. Amar uma pessoa é amar todas, porque ali você está completo. Tudo está ali, nada falta. Ao ler “o” livro, amar “a” mulher, lutar “a” luta sente-se uma coisa estranha… Não há mais tempo, não há espaço, não resta nada, nada lá fora.  Tudo, absolutamente tudo que te constitui se faz presente. Lendo, meio sem querer, o livro de Pierre Clastres, “A sociedade contra o estado” deparei-me com a citação abaixo. Ela sintetiza de forma maravilhosa o que penso sobre o tema.

“…a linguagem não é um simples instrumento, que o homem pode caminhar com ela, e que o Ocidente moderno perde o sentido de seu valor pelo excesso de uso que a submete. A linguagem do homem civilizado tornou-se completamente exterior a ele, pois é para ele apenas um puro meio de comunicação e informação. A qualidade do sentido e a quantidade dos signos variam em sentido inverso. As culturas primitivas, ao contrário, mais preocupadas em celebrar a linguagem do que em servir-se dela, souberam manter com ela essa relação interior que é já em si mesma aliança com o sagrado.” (Pierre Clastres. “O arco e o cesto”. Em: A sociedade contra o estado, 2003, p.143, Ed. Cosac Naify)

É curioso, mas o que sinto é que para abandonar as pretensões de saber todas as línguas, de amar todas as mulheres e ler todos os livros, o que basta é se fiar nisso de ler apenas uma mulher. De amar um livro. De lutar uma luta. E fazer disso o caminho da vida, coisa que os bytes nunca entenderiam. No meu caso, foi “Anna”, mas, e aí está a beleza, cada um faz um mundo do livro, da mulher, ou da luta que quiser.

Published in: on 25/08/2011 at 03:01  Comments (8)  

Sobre o desamor, amor ou Notas doutorais # 5 – A negação da contingência

(Dedico este texto a Julia Mesquita. Amiga incondicional com quem converso sobre os problemas da contingência e do destino há quase 10 anos.)

 

“Numa certa hora eu perguntei: ‘Mas porque você foi embora Lali?’

‘É… a vida… um equívoco! Você brigava muito comigo, queria que eu pusesse farinha, quando eu não punha farinha, se eu comprava Sissi você queria gasosa, e tal… E eu dizia: ‘Um dia eu vou embora!’. E você: ‘Vai quando quiser…’”

(Depoimento do Sr. Abel para Ecléia Bosi, no livro “Memória e Sociedade”, p.220)

“Vivo muito o presente, o futuro, só agora fiquei voltada para o passado. A vida é o presente. Depois de 1927 casei-me e casada não fui mais eu. Fui Jovina-Samuel. Minha vida foi a dele. Não posso falar das feridas recentes que ainda doem. Não posso reviver uma vida que terminou com ele.

(Depoimento de dona Jovina a Ecléia Bosi no livro “Memória e Sociedade”, p.295)

                Os dois trechos acima me marcaram muito. Quando os li senti alguma coisa que não sei nomear. Tanto devido à força das experiências de amor e desamor contida nas frases, quanto por tocar em elementos sócio-psicológicos que tenho me voltado nos últimos meses, ao pensar minha tese de doutorado. No primeiro depoimento, a memória de um casal que se separa traz isso que é tão banal, serial… Essas coisas… Esses detalhes cotidianos que espinafram, incomodam. Tolices quando vistas assim, por cima, na terceira pessoa. E tudo parece tão simples, tão fácil de resolver, mas atrás dessa simplicidade há tanta mágoa. Atrás desses detalhes o que não se esconde? Essa briga, as dezenas do “você vai quando quiser” quanta destruição não há? Mas há aí uma série, uma repetição de cenas, de coisas, de palavras. No segundo depoimento, dona Jovina, convidada a narrar sua vida só nos conta até 1927. E é dessa forma que justifica porque não falará mais. Ela não pode dizer o que se passou depois de 1927, pois a partir daí sua vida já não foi mais dela. Não há apelo, condição possível para que ela narre, pela simples construção: “Não posso reviver uma vida que terminou com ele”. Não posso, só pode implicar que não está sob meu poder. Ela não diz, “eu não quero”, diz, “não posso”. Sua vida não foi mais dela e sobre isso não há apelo.

                Quem não tenta compreender os fatos de sua vida? Quem não tenta entender a seqüência, os acontecimentos, os sentimentos? E quem dá conta de todos esses fatos? E quando é tudo duro demais, ou lindo demais, ou puro demais?

                Ora, seria tentador articular o desamor ao condicional, às circunstâncias; e o amor à pura verdade de uma revelação, sem início, processo ou causa. A tentação é forte. Mas Cartola nos previne contra isso, quando canta: “Ai se eu pudesse fingir que te amo, ai se eu pudesse, mas não posso nem devo fazê-lo, isso não acontece”. O que acontece, ou melhor, o amor que não mais acontece, está para além de circunstâncias, na mesma medida que a vida de Jovina depois de 1927 já não foi mais dela. No entanto, e isso é importante, eu não creio em misticismo, forças ocultas ou interferência divina e, portanto, houve sim uma vida de Dona Jovina pós-1927, houve segredos, pensamentos, fatos. Para o sujeito cínico e cientificista é tudo muito claro, dado que nesse caso trata-se de uma escolha da pessoa Jovina não nos contar sobre sua vida. Não há, empiricamente, nada como Jovina-Samuel. Mas isso não é tão pobre, meu amigo? Pensar assim, não é jogar fora algo tão belo e forte? Algo que leva o sujeito a demarcar, com uma potência fora do comum, que sua vida não é mais sua. Dona Jovina tem que falar, tem que se colocar para poder não se colocar mais.

                Já há algum tempo venho me debruçando sobre os problemas da contingência, essa condição na qual o que é poderia muito bem não ter acontecido. Essas coisas que não são nem impossíveis, nem determinadas. Foi através de um pequeno texto de Agnes Heller que me deparei com este problema que me acompanha há tanto tempo. A filósofa húngara, ao tratar do problema da insatisfação na vida moderna, demarca que a insatisfação é resultado de uma vida contingente, na qual podemos ser qualquer coisa, mas ainda não somos nada. Ela diz que só saímos da contingência de uma vida de condições abertas quando fazemos nossas, as palavras de Martin Lutero: “Estou aqui e não poderia agir de outro modo”. É quando, nos termos dela, transformamos nossa contingência em destino. Um destino que não foi dado de antemão, a despeito de nossas experiências, mas sim afirmado sobre estas experiências.

                Se por um lado fiquei deslumbrado com a fórmula elegante e retumbante do “estou aqui e não posso”, por outro sempre me seduziu os delírios e aberturas da contingência. Afinal, para o neurótico, ela fornece uma desculpa para não ser, ainda não, posto que pode-se ser ainda, depois. Justificam-se adiamentos e esperas. Ainda que tudo isso recheado de angústia. A verdade é que no bojo da contingência, há uma promessa de redenção final, a promessa de um momento no qual saberemos sim o que fazer e como decidir, de forma mágica, automaticamente, sem mágoa.

                Mas isso é pura ilusão. O momento de decidir é sempre impossível e é sempre agora. Ficar delirando na contingência como condição intrínseca ao nosso tempo simplesmente afasta o que importa, a decisão e suas conseqüências. Que é quando vivemos, sempre. Vivemos sempre decidindo, querendo perceber isso ou não. E não há escolha certa, pronta, dada, e sim a decisão que acarreta responsabilidade. É aí que jaz a beleza da resposta “estou aqui e não posso agir de outro modo”. Ora, pois é claro que você poderia. Sim, formalmente não há dúvida alguma. Pois se a decisão já estivesse pronta, não haveria de fato contingência, poderia haver deconhecimento. Mas será que alguém é tão decidido assim, será que vivemos respondendo “eu não posso agir de outro modo”? E não será que ao gastar essa fórmula não fugimos das decisões jogando a responsabilidade para outros lugares que não nós mesmos?

                Os dois depoimentos acima falam do desamor, amor, mas acho que toda essa discussão trata de muito mais, diz da relação existencial, constitutiva dos sujeitos com o mundo. Observe que não se trata de construir mitos, super sujeitos. Pois o sujeito pode falar que não pode agir de outra forma e, logo em seguida, o fazer. E não há problema, porque haveria? O que é bonito não é a certeza e sim a carga de energia, de emoção, de vontade implicada em colocar as coisas dessa forma. De ser tomado por algo que não nos damos conta. Talvez por isso seja mais fácil articular o amor a pura afirmação e o desamor a banalidades e acúmulo de circunstâncias. No primeiro caso somos invadidos impiedosamente por outra pessoa, coisa que mesmo desejando não damos conta porque já não somos donos de nossa casa. No segundo caso, tentamos limpar a casa, expulsar os demônios e conviver apenas conosco.

                Como decidir as coisas em nossa vida? Como nos colocamos para decidir nossa profissão? Um trabalho? A pessoa com quem passaremos nossa vida? Pensamos seriamente em ajudar ou não aquele velho caído no chão, bêbado e fétido? Se juntar a um protesto contra a morte de três jovens no morro da providência? Decidir em quem votar nas eleições? Criticar publicamente um amigo homofóbico ou racista?

                Saber que as coisas não estão dadas desde sempre é libertário. Por isso a contingência nesse sentido deve permanecer sempre presente. Mas isso não pode nos fazer esquecer da nossa responsabilidade pelo que o mundo é, pelo o que fazemos no mundo, pelo o que fazemos com nossa vida. É preciso não fugir da determinação, do que é, do que queremos que seja. Isso tudo nos remete a como vivemos nossa vida e como nos relacionamos com o mundo que nos cerca. Como nos posicionamos frente a tudo isso que acontece, que nos acontece e que fazemos acontecer?

Published in: on 08/08/2011 at 13:40  Comments (2)