Entre a transcendência e a imanência, eu e o Galo.

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             Tenho uma relação dúbia com a filosofia e as artes abstratas. Gosto dessas coisas do pensamento metafísico, mas me acho pedante já ao escrever “imanência”. Sinto que em algum lugar zombam de mim por usar palavras pomposas para  dar sentido ao caos do mundo. Porém, que venha a zombaria. Há alguns anos sinto um aperto existencial na pressão semântica dessas palavras, a imanência, por um lado, e a transcendência, de outro. Talvez utilize esses termos do meu próprio jeito, é preciso, portanto, explicar como me tocam essas palavras, e que diabos o Galo tem com isso.

                É difícil falar de transcendência sem imaginar Deus em sua onipotência imagética . Mas acho um modo preguiçoso de pensar a transcendência, não sigo por aí. Falar da transcendência implica acreditar que algo que não está presente age em nossa vida. Algo que atravessa tempo e espaço, imaterial e que não pode ser identificado pelos nossos sentidos. Algo da ordem do espírito. Deus é um exemplo claro pois, segundo os crentes, ele está e atua em todos os lugares e momentos. Podemos pensar no amor também, pois como entender que um rapaz é diferente daquele outro até mais bonito; ou porque será que aquela moça vale uma vida passada juntos? O que existe no beijo da mulher amada? Existe saliva, existe carne, talvez cáries e bafo. Mas há amor?

                A imanência significaria a pura presença. Está tudo aí impregnado nas coisas. Não há fora, não há segredo nem sagrado. Todos os atos são acolhidos em sua naturalidade e presença. Nada de extraordinário. Nenhuma porta está fechada, nada escondido, nenhuma revelação  entre linhas ou beijos.

                Atravessando o pântano da juventude de forma solitária e romântica tendi para um puro transcendentalismo burguês, sem nem mesmo perceber. Há algo mais absurdo do que esperar que chegue a mulher amada, o verdadeiro amor? A transcendência aparece muitas vezes nessa sensação de singularidade. Algo que é único e que não se repete. A imanência em sua presença é repetição e cotidiano, nada de romantismo ou ficção. Foi no início da faculdade, pelo interesse político-poético nos entornos do marxismo se misturando à forte impressão do cotidiano como lugar de ação, nessa junção peculiar de um zombeteiro Rubem Braga com uma profunda Agnes Heller, que começou a confusão. A minha transcendência seria buscada no cotidiano barulhento, no meio da bagunça. Ainda que me movendo num mundo material, sem esperar a intervenção de nenhuma força cósmica para resolver nossos problemas, eu teria e queria a minha parte de infinito nesse latifúndio. Achei e continuo achando em Tolstoi. Em Rubem Braga em suas descrições absurdas de cotovelos e ombros femininos. Na música de Paulo César Pinheiro, João Nogueira e Eduardo Gudin. No olhar da mulher que amo. A rotina dura, os problemas, os desenlaces, todos vinham trombando e gerando poesia. O romantismo continuou dessa forma, buscando maravilhas naquilo que é banal e precário, num gesto, num traço de corpo, num “transformar a vida prosaica em poesia”, nas belas palavras de Agnes Heller. Se a história fosse apenas essa não haveria tensão nem conflito entre os termos. Haveria apenas um belo encontro do infinito na finitude das coisas, mas não é essa a história. O problema é que o apego à esse mundo imaterial traz desânimo para o cinismo e a fragilidade da vida cotidiana. Desses acordos que nada valem e esgarçam a palavra e o sentimento. A vontade de se isolar das pessoas e terminar o dia com Tolstoi aparece. E é uma luta cotidiana para afastar essa vontade de infinito, belo e mortífero. E é aí que imanência vem salvar a vida, no pagar conta, no arranjar dinheiro, no tomar uma cerveja, sorrir e esquecer as dores.  É preciso balancear a busca do infinito, no escolher bons objetos de adoração e poesia. Chego então ao Galo e por extensão, ao futebol.

                Não lembro em que Copa do Mundo, mas quando questionaram Alessandro Nesta, zagueiro italiano sobre dinheiro e prêmios para jogadores da Itália no caso de título mundial, o jogador disse que numa Copa do Mundo o dinheiro não importa. A honra e a vontade tem que brotar de outro lugar. O futebol tem seus momentos de puro infinito e beleza. A Copa do Mundo, infelizmente, vem se mostrando cada vez mais pirotecnia financeira e pouco futebol, mas a princípio é o lugar privilegiado para nascer a magia e a lenda.

                O título da Libertadores do Atlético em 2013 foi pura transcendência. Entoam-se hinos, evocam-se santos, fala-se do acaso e da sorte dessa “saga”. Nós, atleticanos, vamos nos lembrar de cada um dos gols, lances e defesas desses jogos. Havia uma força maior surgindo do suor desses jogadores. Tínhamos a sensação, estranha, e que se fortalece com o passar do tempo, de que a despeito de todas as dificuldades, seríamos campeões. E fomos. E seremos sempre. A libertadores do Atlético não representa o título de um campeonato que ocorre a cada ano, claro que não. Acabou a matemática. A transcendência aparece quando passamos a fazer muitas histórias de um único momento.  É de um sorriso ou de uma palavra que nasce o amor. A singularidade do momento se desdobra não em um, mas em muitos caminhos, vidas, destinos. Quantas teses, músicas, sentimentos são acionados na defesa do penâlti de São Victor contra o Tijuana? E o que falar do valoroso Léo Silva fazendo o gol derradeiro na final?

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     São muitos esses momentos e infinitas as sensações. Ser campeão jogando feio não me interessa. Só me interesso pelo infinito. E a beleza não é plasticidade sem força e vontade. Tudo o que tivemos na fase final da Libertadores nos faltou no dia de ontem. Foi logo após o gol de empate do Ronaldinho contra o time marroquino que me dei conta de que jogávamos de igual para igual com o Raja Casablanca, nada havia de especial nesse time. E a derrota veio, banal. O que vimos ontem foi o epílogo da VERDADEIRA história, a saga da Libertadores. Em trinta anos vamos nos lembrar dos refletores apagados no momento único, do gol salvador do Guilherme, o RENEGADO. Não foi o Nelinho que conseguiu chutar a bola com a perna esquerda para fora do Mineirão, foi São Victor. Escafandristas procuraram a bola na lagoa da Pampula, sem encontrar. Que me importa se o jogo contra o Tijuana acontecen no Horto. O Tardelli, jogador e “marginal” atuava com metralhadoras semi-automáticas, fuzilando os rivais depois dos gols, um absurdo em 2013, logo proibido pela FIFA.  Vamos comentar que o Léo Silva tinha 2,45 de altura, sendo o maior zagueiro do futebol mundial, registrado no Guinness. Vamos contar que o Ronaldinho Gaúcho, depois de dar 9 chapéus seguidos fez um lindo gol de bicicleta, injustamente anulado pelo juiz. O Jô, após fazer o primeiro gol da épica final contra o Olímpia saiu correndo com o dedo para cima e nunca mais vai parou de correr. Vai Jô, corrê Jô, corre! O Bernard, com apenas 15 anos à época da final irá rejunescendo a cada ano. Essa é a história que eu vi.

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Published in: on 19/12/2013 at 16:06  Deixe um comentário  

Memória

Perigoso, Chiquinho e Binga; Cordeiro, Brant e Ivo; Dalmi, Said (um turco brigador), Jairo, Mário de Castro (o melhor jogador da época) e Cunha.

O trabalho da memória é curioso. Já faz quase 10 anos que fico a relembrar o nome de 11 homens que nunca conheci, porém hoje, já não me recordo o nome daquele único senhor que todo santo dia me ditava a formação do esquete do galo dos anos 30[1].

O goleiro se chamava Perigoso, o que já é motivo de graça. Era médico: “Doutôôr Oswááldo Costa”. Eu delirava mesmo era com os adjetivos associados aos jogadores, havia dois, o “turco brigador” e “o melhor jogador da época”. Quase todos os dias esse senhor implicava comigo por causa do meu cabelo, logo quando eu chegava ele destilava seu veneno contra meus cachos que, certamente, metaforizavam o declínio da civilização.

Foi ao ler um texto sobre memória de velhos que imediatamente retornei a esse período. Um período de solidão. Um período que eu, aos 21 anos, compartilhava da espera da morte, entre o filé de peixe no almoço e a salada de fruta das 15:30; eu e elas, aquelas tristes senhoras devassadas pela loucura e pela decadência. Mas foi também um período de conseguir trabalhar e ter um pequeno e cotidiano reconhecimento pelos serviços prestados.

Acho bonito esse cantado das escalações de times antigos. Já faz 10 anos que, sem pensar muito, decorei a escalação acima. Lembro de ter comentado com minha avó do nome dos jogadores lá de cima, e ela, atleticana doente, ficou toda feliz e se pôs a falar dos jogadores, suas histórias, seus trágicos destinos.


[1] Depois de 10 dias me lembro casualmente. Era o “seu” Plínio.

Published in: on 01/09/2012 at 12:57  Deixe um comentário  

Futebol e Política

“O político pode absorver sua energia dos mais variados campos humanos, do religioso, econômico, moral e de outras antíteses. Ele não descreve a sua própria substância, mas apenas a intensidade de uma associação ou dissociação dos seres humanos, cujos motivos podem ser religiosos, nacionais, econômicos ou de qualquer outro tipo e pode afetar em diferentes tempos, diferentes coalizações e separações”         

(Carl Schmitt)

“Minha política é o Flamengo!”

(Rubem Braga)

O torcedor do Galo chama o torcedor do Cruzeiro de “Maria”. O cruzeirense, por sua vez, refere-se, carinhosamente, ao atleticano como “cachorrada”. No Rio, o Flamengo é o time do povo, dos pobres e analfabetos, assim como o Corinthians, em São Paulo. Já os tricolores paulista e carioca representam a elite, a aristocracia branca.

O futebol se alimenta e retroalimenta preconceitos sociais. Atributos pessoais deste ou daquele jogador se espalham e passam a representar toda uma torcida. Os conflitos no futebol, dificilmente tratam de futebol, há sempre algo externo ao campo.

Há pouco mais de dois meses, no Egito, as torcidas presentes numa partida de futebol partiram para a luta corporal, após o fim do jogo. Muito se falou, neste caso, sobre a influência do clima político do país, o impacto das revoltas contra o governo e da “instabilidade política” sobre o comportamento dos torcedores. 73 pessoas morreram nos gramados.

Amo o futebol. Acho transcendente. O homem/mulher, a bola voando, a espera, o momento mágico de um drible, o gol. A possibilidade de criar diferença, de inventar. É clichê, mas o futebol é uma grande metáfora da vida. Amo muito mais o jogo em si, do que tenho prazer em torcer e ver o meu time ganhar. Futebol é o Zidane caminhando em campo, levando a bola. É isso o que me emociona. Mas sei que sou minoria, minha apreensão do jogo, ainda que movida pelo amor, é quase fria, um tanto distante, pois pouco me interesso pelo resultado, ainda que possa estar mentindo um pouco.

A maioria torce e sofre e comemora, só quer ver seu time ganhar e não importa como. Vão aos estádios, falam disso a semana inteira, entoam hinos a favor do seu time, xingam os adversários e provocam. Independente de time, classe, gênero, ou raça. Quantos já não perderam o emprego nas segundas feiras, nas quintas depois de desvarios futebolísticos. A famosa invasão corintiana em 76 ou mesmo a notícia de que 10 mil torcedores do Internacional foram para o Japão em 2010 para torcer no mundial interclubes, nos lembram do poderoso verso gremista:

“Até a pé nós iremos / para o que der e vier / mas o certo é que nós estaremos com o Grêmio onde o Grêmio estiver”

Para Carl Schmitt, jurista e pensador alemão, o caráter político de uma relação se dá pela instauração de uma relação do tipo amigo-inimigo. O político não tem a ver, a priori, com o estado ou o governo. A dimensão estética envolve o belo e o feio; a moral, o bem e o mal. Seria a intensidade do antagonismo numa relação coletiva o que qualificaria o político. Ele se dá pelo fortalecimento do caráter conflitivo numa relação tipo nós contra eles.

A rivalidade é marca tradicional do futebol. Os grandes clássicos e o clima épico que criam, sublinhados pela violência recorrente, que o digam. Podemos dizer, então, que a disputa entre Flamengo e Vasco é um fenômeno político? E para quê isso tudo? Talvez eu esteja exagerando, vai… O torcedor vai ao estádio entoar as canções de amor e louvor ao seu time querido, e muitos nunca chamam ninguém de “cachorro” ou de “maria”. Torcer é pura festa e magia, exaltação do sublime amor e não de ódio. O Marshall Sahlins me atacaria por outro lado e me diria, como um psicanalista de botequim, que é essa minha obssessão Nietzsche-foucaut-gramsciana que me faz ver política em tudo, lançando disparates por todo o lado. Não discordo dos argumentos. Não quero reduzir o futebol aos conflitos políticos/sociais, ainda me sinta tentado à tal empreitada. Mas não posso, como a maioria faz, deixar de pensar na tensão social implicada no futebol,  como se isso fosse algo natural, ou o resultado da sociopatia de uns poucos trogloditas que acabam com a festa da maioria que só quer “paz” nos estádios, sem entender as entranhas desse bagulho.

Considerar o futebol e a relação entre as torcidas a partir da noção de amigo-inimigo de Schmitt, ou seja, enquanto questão política coloca algumas questões. Penso em dois caminhos. Por um lado, acho essa postulação perigosa, por reduzir o fenômeno amplo do jogo e do amor ao time à essa dimensão antagônica/política. E aí, vejo que o Sahlins está certo. Por outro lado, essa consideração traz o futebol e sua relação de amor para a vida social de nosso país. Pois não se trata “simplesmente” de um jogo. Esse segundo ponto pode nos ajudar a entender a dinâmica de amor e paixão que envolve o brasileiro, considerando a centralidade constitutiva da peleja para nosotros. Dessa forma, importa menos o conflito esportivo em si, as brigas, a pancadaria e as mortes, e muito mais entender como essa paixão se explicita no ato de torcer, no falar disso, nos  discursos e significações. Ou seja, como torcer se articula com questões sociais, quaisquer que sejam, como o racismo ou a homofobia.

Tudo isso traria a discussão do amor, da paixão, do ódio dos torcedores, para fora das estapafúrdias mesas-redondas com seus jornalistas esportivos, quase sempre obtusos, para outros espaços de debate e formação de opinião.

Talvez paixão, luta e ódio andam sempre juntas. Talvez o filósofo aqui esteja querendo dominar as paixões no futebol, por não fazer parte disso. Talvez o romântico aqui queira que a potência da paixão futebolística alimente também nossos desejos socialistas. Que alimente nossa vontade de eliminar a desigualdade e a opressão, essa vontade cada vez mais acomodada no liberalismo tranquilo e feliz. Que a igualdade radical, que a liberdade fora das oscilações e determinações excludentes do senhor mercado também nos faça entoar hinos e canções de exaltação. Fora dos estádios.

Talvez.

Published in: on 08/04/2012 at 20:24  Deixe um comentário  

Futebol e gramática

A CRASE E O FUTEBOL NÃO FORAM INVENTADOS PARA HUMILHAR NINGUÉM.

Eustáquio José da Silva (1939-)

Famoso pai de santo, açougueiro e carnavalesco baiano.

Published in: on 05/12/2011 at 20:41  Comments (2)  

Como parei de fraquejar e passei a marcar gols!

Rubem Braga numa de suas crônicas deu uma definição maravilhosa sobre a sua própria habilidade nos campos de futebol.  Definição esta que com dois adjetivos conseguiu imprimir de maneira precisa um tipo mesmo universal de jogador de futebol. O cronista com mal-disfarçado orgulho confessa que foi um ponta direita medíocre, mas furioso. Eu por minha vez digo que se não fui assim medíocre, posto que sempre tive um trato íntimo com a pequena, nada demais, é bem verdade, também tenho que admitir que  nunca fui um apaixonado voluntarioso. Fui sempre um tanto tímido, mais esperando do que fazendo acontecer, o que atrapalha muito em relação a bola, e só um pouco em relação à mulheres. A delicadeza e o tato não cabem muito numa partida de futebol, ou numa pelada que é o tema que trato aqui. Como nos lembra o Arnaldo César Coelho, o futebol é um esporte de contato, mais ou menos como o Muay Thay.

Pois bem, de fato sempre tive visão de jogo, antecipação em relação a jogadas, sou um excelente marcador, e tenho alguma habilidade em conduzir a criança. Ainda que a preguiça tenha sempre me dominado, e por isso nunca senti que consegui realizar uma partida inteira da mesma forma como realizava algumas jogadas. Sou um jogador de lances, e mesmo que dificilmente faça alguma grande besteira, teria que dizer que minha nota ao final de cada partida seria algo como um 6,5. Acredito, como nos ensinou o poeta, que “Felicidade Não existe, O que existe na vida, são momentos felizes”, e olhe lá… Mas de tudo isso, apenas uma coisa me chateou sempre em toda a minha carreira. Nunca fui de fazer gols. Sabe, pois isso é meio que um Karma. Tem gente que você vê que não é tão bom, mas sabe fazer gol, acha o gol. Eu nunca fui desses. Passava um bom tempo sem fazer nenhum, ou então eles vinham minguados, aqui, ali. Nesse ano a coisa mudou.

Descobri, vendo o filme Harry Potter e A Ordem da Fênix, o caminho das pedras. Numa passagem do filme, Harry ensina as outras crianças da escola como fazer magias e lutar contras as forças do mal. Ele então demonstrava  aos aluno como fazer certos feitiços, e em seguida as crianças repetiam a façanha. Mas acontecia que muitas das crianças não conseguiam repetir a magia, mesmo falando e fazendo certo. Harry Potter então diz que é preciso acreditar que a magia vai funcionar, é preciso fazer aquilo funcionar, acreditando nisso. Não basta agir de forma correta, mas mecânica, não é assim que funciona. Confesso que foi a com essa grande tolice que comecei a fazer gols, e muitos. Ao chutar uma bola é preciso acreditar que ela vai ao gol, é preciso atenção a bola, ao chute e ao movimento, e dessa forma é preciso ver, sentir o lindo caminho que a bola faz do seu pé para o fundo das redes, isso quando essas existem. A dica é boba, mas funciona. E por mais boba que seja, não é nada fácil, isso de acreditar mesmo. Pois não se trata de cognição. É preciso imprimir já no ato um quantum de vontade. E é claro que nem sempre funciona, mas mesmo quando isso acontece, faz um bem danado, pois sentimos que estamos envolvidos ali por inteiro sem medo ou dúvida.

Published in: on 22/07/2010 at 01:46  Comments (6)  

“Todo mundo que gosta de futebol se emocionou”

Achei simples, bonito e muito verdadeiro o que Mano Menezes, técnico do Corinthians, falou sobre o gol do Ronaldinho no último fim de semana (08/03/2009). Para quem viu a entrevista ficou nítido que o técnico se colocava ali como amante do futebol e o fato do jogador em questão ser de seu time era apenas um detalhe. Eu, que definitivamente não sou corintiano, também transbordei de uma alegria que nem sei bem de onde veio. Nem diria uma alegria, assim um alegrião, foi mais um êxtase quase religioso mesmo de estar ali vivendo este momento lindo, como diria o rei. Já faz um ano que tentei pela última vez escrever sobre futebol, no embriagar da minha nova (naquele tempo) casa no rio de janeiro embalado pela campanha felizmente frustrante do flamengo na libertadores, pelos belos jogos do fluminense e é claro por uma cerveja solitária, porém honesta. A verdade é que torcer para o Atlético Mineiro tem se mostrado difícil para quem de fato vê o futebol menos como esporte e mais magia , mais arte do que guerra. Ou ainda sim Guerra, mas daquelas que lemos nos grandes épicos, cercadas de mitos e história maravilhosas. E foi assim que acompanhava atento ao caminhar do fluminense, assim como das declarações e posições do Renato Gaúcho, técnico da quase-glória do tricolor carioca.

O Renato tem realmente o dom da palavra, cerca-a de uma força difícil de se ver em jogadores de futebol. Veja o Pelé. Sem nenhuma dúvida para absolutamente ninguém na terra ele é o grande deus dos gramados, mas incapaz de falar qualquer coisa que chegue aos seus pés. Literalmente. Como diz o Romário (esse sim sabe de tudo mesmo), “O Pelé calado é um poeta”. O Renato com suas declarações tanto como jogador ou técnico abala corações e fígados de qualquer um. Sente-se algo desde graça a raiva. E eu vinha acompanhando com esperança esse personagem maravilhoso e o belo futebol que seu time vinha demonstrando. Acho que nunca em minha vida vi um time jogar tanto e tão bonito como o fluminense no jogo contra o Arsenal da Argentina. 6 a 0 foi pouco aquele dia.

Para mim, no entanto, o que mais diferenciava o Fluminense estava fora de campo. Sentado no banco. O Romário foi o último dos moicanos dos jogadores-fanfarrões que se sustentam por si, que conseguem se impor como personagens que de alguma forma estruturam nossa relação com a bola e mais ainda com a vida. bobo. muito chato, tipo Muricy Ramalho, mas que em geral onagem quando interessante s Quem mais poderia ter dito isso, que tem força de bruxaria: “Quando eu nasci, papai do céu apontou o dedo e disse: esse é o cara”…Será que poderia ser O Kaká? O Ronaldinho Gaucho? Não, a assessoria de imprensa destes certamente ficaria preocupada com possíveis manifestações religiosas o que poderia afastar alguns patrocinadores e suas fans. Assim como o Romário o Renato é também pródigo nessas manifestações estético-canalhas, e além disso trouxe essa fanfarronagen futebolística para fora do campo, para o técnico de futebol, personagem que em geral só é interessante quando muito chato, tipo Muricy Ramalho. bobo. muito chato, tipo Muricy Ramalho, mas que em geral onagem quando interessante s

O Renato, Romário, Zidane são personagens que deixam muito claro, para quem quiser entender, que o futebol não tem nada a ver com esporte ou negócios. É mais como um teatro mesmo. Ou melhor, é a própria vida recriada nas palavras e nos gestos de quem não é máquina. Pois é isso que esses caras falam quando criam personagens para si. Vejam o caso do Túlio Maravilha. Ano passado ele foi o artilheiro da série b do campeonato brasileiro e foi eleito vereador. O cara ta aí desprezado por todo mundo, mas fazendo muito gol, a La Dadá Maravilha, já faz uns 20 anos. Mas e o Ronaldo com tudo isso? È claro que ele não tem o carisma desses outros, mas não dá pra negar que o cara é foda. Ou melhor, chega a ter carisma do tanto que ele é foda. Melhor jogador do mundo, apaga na copa, fode mesmo o joelho, todo mundo fala que já era, volta, campeão do mundo e artilheiro da copa, badalado de novo, várias contusões, muita grana, gordo na copa, ostracismo, fode o outro joelho, todo mundo fala que já era, gordo e velho, três travestis, o cara me entra em campo e faz chover, bola na trave e gol feio, mas gol. E aí é bonito ver que o futebol e os jogadores têm história, tem ódio, tem estrela. Querem mais do que apenas trabalhar. Querem fazer chover. Sinceramente quem entende o que o Romário fez na copa de 94? E o Zidane em 2006 que jogou metade da copa machucado, e ainda assim levou uma frança bastante limitada a final da copa, terminando sua linda carreira nos gramados de forma bastante trágica, porém original.

E o Ronaldinho é desses últimos com tal poder. E por isso o êxtase coletivo dos últimos dias é muito sincero.

Published in: on 12/03/2009 at 12:30  Comments (1)