De dentro do ônibus

Escutando minhas músicas, minhas melancolias ressonando nas charadas e cortes, nos gritos calados.

No metrô a caminho de Copacabana. Escutando também minhas músicas, brasileiras músicas, lembro-me de passar pelas entupidas estações, talvez Chandni Chowk, Central Secretariate ou quem sabe Kashmere Gate. Nessas estações de metrô de Nova Déli um dia parei para observara aquelas pessoas todas. Os indianos, cada um de um jeito, cada um com uma roupa e uma crença diferente. Monges budistas, mulheres tribais com roupas tão coloridas,  homens grandes e seus vistosos bigodes, esses misteriosos sikhs. Conversando com uma amiga falei que alguns Sikhs lembram tanto bandido de filme de James Bond. Ela não me achou um entnocentrista sem noção e ainda confidenciou, com graça: “É só estilo mesmo, eles são ótimos”. Dentro do vagão, olhando eles me olhando e pensando, “que bom estar aqui”. Eu, ali, quase distraído, quase banal, quase só pegando um metrô pra ir pra casa. Dentro do metrô a caminho de Copacabana me lembrei desses outros dias, desse outro metrô.

Published in: on 29/05/2013 at 21:07  Deixe um comentário  

India #1

Aldeia próximo a Sambalpur, Orissa,India.

Permaneci na India por pouco menos de três meses. A experiência de realizar parte dos meus estudos de doutorado neste país transcendeu facilmente as categorias disciplinares. Depois de um bom tempo afastado desse blog recomeço essa estória com causos indianos, reflexões e sentimentos dos mais variados. Alguns contém filosofia, outros curry e lássi. Penso hoje, que eu já me encontrava na India ainda no longo processo entre aviões, aeroportos, esteiras, escada rolante. Ao descer em Mumbai, lugar no qual pegaria o último trecho aéreo fui tocado por uma cena bonita, por onde começo essa seção.

A miscelânea de cidadanias presente no vôo entre São Paulo e Dubai transformou-se, quando subi no avião para Mumbai, num mosaico colorido de estilos, longos saris, crianças, homens sizudos de dignos bigodes. No aeroporto de Mumbai seguimos para pegar as malas despachadas. No trajeto, em determinado momento, vi formar-se uma pequena confusão e uma fila na descida de uma escada rolante… Parei também sem entender, mas vi que aos poucos a pequena fila foi se desfazendo. Quando cheguei a botar o pé na escada rolante vi uma senhora parada, na frente da escada, e entendi que era ela a causa do atraso. Na hora que passei pela senhora escutei-a dizendo “I CAN”T”. Olhei para o lado e a vi, uma mulher indiana já idosa,  em trajes formais, jeito simples. Ela tentou utilizar aquele estranho aparelho, mas não conseguiu. Disse “I can’t” e na mesma hora se voltou para pegar a escada convencional, enquanto a pequena fila se desfazia…

Achei de uma banalidade comovente “tudo” isso. Eu que venho me degladiando com interpretações e conflitos em torno do processo de “modernização”, não poderia deixar passar em branco essa recusa. Senti que uma mão invisível, uma voz e um gesto poderoso que me diziam claramente. “Bem vindo Rafael, nós aqui, estamos felizes com sua presença. Suas preocupações e seu trabalho é também algo importante para nós. Bom trabalho!” No jeito intranquilo daquela senhora encontrei um primeiro vestígio do que fui buscar. Era preciso dar o próximo passo, em qualquer escada.

Published in: on 01/05/2013 at 20:03  Deixe um comentário