Diário de Campo e cidade #5 – Feliz, jovem e despreocupado

Como já escrevi por aqui, o livro “O campo e a cidade”, do inglês Raymond Williams, tem sido não um objeto inerte ao qual recorro eventualmente, e sim um parceiro real, um amigo que me socorre nas aflições solitárias da vida em pesquisa. Nas horas que penso sobre o que venho pensando, não só em minha pesquisa, mas também sobre tudo o que vivo, sobre as possibilidades e os impedimentos da compreensão, no momento em que me boto a ver, conversar, e tomar cafezinho com pessoas que não conheço e que, aos meus olhos, vivem uma experiência aguda de transformações das relações totais de um espaço-tempo, é o Campo e a Cidade que me ajuda no desassossego.

Nesse percurso, a relação e a tensão entre o urbano e o rural aparece a toda hora com suas quinas e dobras. No entanto, esse fantasma não aparece apenas na análise dos dados, não… bem antes, na própria identificação do que penso que são dados, está além. A minha versão de Campo e Cidade está na minha constituição cognitiva, social, emotiva, determinada pela minha terra natal, a metrópole, de onde EU nunca saí.

[Com a crescente urbanização, os campos verdejantes se transformam, e com isso…]

“Para qualquer homem em particular, há também a perda de uma paisagem especificamente humana e histórica, que gera sentimentos não por ser ‘natural’, e sim por ser ‘natal’:

Terra natal que cada vez mais amo! (…) 

E tudo aquilo que pertence a ela –

Um velho mourão, ou pedra singela,

Verdes de limo – me faz desejar

Que tudo fique sempre onde está;

E dói-me ver que as coisas mais queridas

De seu lugar já foram removidas

(John Clare, the village ministrel)

Assim, a perda mais lamentada – a das ‘coisas mais queridas’ – é a perda da infância causada pela destruição da paisagem imediata:

Tudo isto não é mais, e, como o meu,

O teu orgulho de viver morreu.

É perfeitamente compreensível que isso tenha sido escrito por um garoto de dezesseis anos. Uma maneira de ver foi associada a uma fase da vida, e a associação entre felicidade e infância deu origem a toda uma convenção, na qual não apenas inocência e segurança, mas também paz e abundância, foram incorporadas de modo indelével, primeiro à paisagem, e depois, numa extrapolação poderosa, a um período específico do passado do campo, agora ligado a uma identidade perdida, a relações e certeza perdidas, na lembrança do que é denominado, em contraposição a uma consciência presente, Natureza. O sentimento primevo é tão intenso que inevitavelmente se associa a muitas outras experiências:

Cenas de infância! Ó mais doce dos sons! 

Pois não há coração, por mais sofrido,

Que não sinta brotarem emoções 

Ao pensar no torrão natal querido:

Mesmo o que pode a sebe, maltrapido, 

Mal pousa a luva num ramo orvalhado

E vem-lhe a mente, do mais fundo olvido,

A lembrança dorida de um passado

Em que ele era feliz, jovem, despreocupado.

(Raymond Williams, O campo e a cidade, Companhia das Letras, 2011. Versão de bolso, P.235-6)

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Deixa estar

“O que, por começo, corria destino para a gente, ali, era: bondosos dias. Madrugar vagaroso, vadiado, se escutando o grito a mil do pássaro rexenxão – que vinham voando, aquelas chusmas pretas, até brilhantes, amanheciam duma restinga de mato, e passavam, sem necessidade alguma, a sobre. E as malocas de bois  e vacas que se levantavam das malhadas, de acabar de dormir, suspendendo corpo sem rumor nenhum, no meio-escuro, como um açucar se derretendo no campo. Quando não ventava, o sol vinha todo forte. Todia dia se comia bom peixe novo, pescado fácil: curimatã ou dourado; cozinheiro era o Paspe – fazia pirão com fartura, e divida a cachaça alta. Também razoável se caçava. A vigiação era revezada, de irmãos e irmãs, nunca faltava tempo para à toa se permanecer. Dormi, sestas inteiras, por minha vida. Gavião dava gritos, até o dia muito se esquentar. Aí então aquelas fileiras de reses caminhavam para a beira do rio, enchiam a praia, parados ou refrescavam dentro d’água. Às vezes chegavam a nado até em cima duma ilha comprida, onde o capim era lindo verdêjo. O que é de paz, cresce por si: de ouvir boi berrando à forra, me vinha idéia de tudo só ser o passado no futuro. Imaginei esses sonhos. Me lembrei do não-saber. E eu não tinha notícia de ninguém, de coisa nenhuma deste mundo – o senhor pode raciocinar. Eu queria uma mulher, qualquer. Tem trechos em que a vida amolece a gente, tanto, que até um referver de mau desejo, no meio da quebreira, sorve como benefício”.

João Guimarães Rosa

Grande Sertão: Veredas, p. 287, ed. Nova Fronteira

Published in: on 10/02/2012 at 23:41  Deixe um comentário  

Acontecimento

Ontem, pouco antes de dormir, peguei para ler o livro “Momentos Políticos”, de autoria de Jacques Rancière. Já falei da minha devoção a esse pensador algumas postagens abaixo. Minha relação com Rancière tem muito mais de uma relação amorosa do que propriamente intelectual. As explicações, as razões vieram depois. E vieram a confirmar aquele pressentimento.

O livro é composto por intervenções do pensador em jornais, revistas, ao longo de 30 anos. São texto políticos, textos nos quais ele discute fatos, experiências, distúrbios sociais dessas última décadas. Se eu soltasse o freio de mão acadêmico me dedicava de corpo e alma a análisar panfletos políticos. Esses textos repletos de imagens metáforas, brilho e drama que buscam mais fazer agir, fazer fazer do que demonstrar como pensam bem esses nossos belos intelectuais engravetados.

Ontem a noite peguei este livro de Jacques Rancière. Li apenas um texto. O primeiro.

Dormi muito bem.

Jacques Rancière

(tradução minha desse texto em edição argentina)

Existem acontecimentos na vida intelectual?

A vida intelectual é como a vida da oficina ou da fábrica. O normal é que ali não ocorra nada: apenas o ruído das máquinas e dos motores. O acontecimento é, em cada uma dessas vidas, o que as interrompe.

Por interrupções [intelectuais] entendo essas suspensões da ficção coletiva que devolvem a cada um a sua própria aventura intelectual, estes cortes que o obriga a renunciar a escrever o que outros cem escreveram como ele ou a pensar o que seu tempo pensa ou não pensa, por si mesmo. Todos conhecemos esses acontecimentos, sempre individuais, que, de vez em quando, em um lugar ou outro, recordam a cada um o seu próprio caminho. Recordo, por exemplo, aquela tarde de maio, num tempo em que se desencadeava uma dessa batalhas intelectuais que se supunha devia fazer história. Esse dia, a bibliotecária me levou uma fina pasta com umas cartas que, em outro mês de maio, cento e cinqüenta anos atrás, haviam trocado um carpinteiro com um soldador nas quais contava seus passeios filosóficos de domingo e suas semanas de férias utópicas, e compreendi que era sobre isso o que eu tinha algo a dizer e não sobre o debate filosófico da época; que era isso o que me surgia: registrar a marca dessas férias, daquela interrupção diferente que não interessava a ninguém, que não era filosofia para filósofos, nem história para historiadores, nem política para os políticos…em suma, a nada, ou a quase nada que nos remete a todos a pergunta: tu que falas, quem és?” (p.20-1)

Published in: on 11/11/2011 at 19:23  Comments (2)  

leia UM livro (referências)

É preciso situar nossas referências, mesmo as inconscientes ou as que nos chegam posteriormente.


Published in: on 28/09/2011 at 13:34  Deixe um comentário  

leia UM livro

                Este texto surge a partir de uma querela com o meu primo, o Chico, uma das muitas que temos, graças a…

Enfim.

O Chico aí de cima é um profundo admirador das potencialidades da internet em difundir textos, divulgar idéias e ampliar a capacidade de compreensão dos sujeitos sobre o mundo. O acesso a informação pela internet se diferencia, de outros meios de comunicação, pela pluralidade de perspectivas e pela liberdade da rede em relação às amarras capitalistas e centralizadoras das mídias tradicionais, como a televisão e o rádio. Um mesmo “fato”, na rede, pode ser narrado por diversos sujeitos, a partir de posições singulares. Eu não discordo de forma alguma das benesses da internet. Não sou desses que adoram jogar água fria nesse papo, soltando a baixa porcentagem de indivíduos que já acessaram alguma vez a rede ou demarcando que 85,9 % das buscas no Google se dão em torno de termos bastante educativos, como “pinto grande” ou “orgia anão Adriano Cavalo”. Nada disso é um argumento contra a potência da rede em estabelecer modos alternativos e não-hegemônicos de entendimento do que nos acontece. Obviamente, como uma pessoa que pensa, fico possesso quando leio coisas do tipo: “a revolução no Egito foi causada pelo twitter ou facebook”. Tenho gastrite também quando a internet vira sinônimo de um mundo mágico e abstrato de possibilidades infinitas dessa nossa bela globalização. Como se todos estivéssemos agora numa nova era, pois a verdade é que no mundo que habito, ainda se morre de fome e tuberculose. Os jovens negros moradores da periferia brasileira são limitados na sua circulação territorial e continuam sendo assassinados no atacado, muitas vezes pelos agentes do estado. Portanto, não se pode ir a qualquer lugar a toda hora, há limites, vivemos e viveremos sempre num mundo material marcado por condições e possibilidades finitas, mais finitas para uns e menos para outros, certamente. Ora, o ponto simples e besta é que a internet faz parte da realidade. É estúpido, mas é preciso dizer, porque há sempre os engraçadinhos que deliram feio nessa onda. Assim, antes de ser o espaço livre de piratas anárco-cibernéticos a internet é toda articulada a empresas privadas e submetida a diversas formas de controle. Boa parte dos chamados “blogueiros” são jornalistas profissionais, atravessados por contratos, publicidade, etc… Além disso, eu posso criar um blog e escrever o que quiser. Mas aí o wordpress pode discordar e querer me tirar do ar. Ou então meu provedor pode me achar bobo, feio e chato e me deletar também. Estou falando tudo isso sobre a rede, porque não é disso que quero falar. Eu não discordo do ponto levantado e sustentado pelo Chico, da possibilidade da rede em ampliar temas e formas de apreender a realidade. Discordo é claro, do seu grau etílico de otimismo. Se houvesse uma lei com o meu nome, a Lei Rafael, vamos chamá-la assim, ela diria o seguinte: “O mundo é sempre menos moderno do que se supõe. Isso mesmo, sempre”. E é só isso, as regras do mundo ainda são antigas, a religião ainda pauta a política em todas as instâncias e as mulheres continuam apanhando dos maridos.

A rede é a terra das possibilidades, das navegações e zapeadas. É o espaço da interação, da malemolência. Na internet estamos sempre com o mouse na mão. “Um” e “único” são termos difíceis de articular à rede. Buscamos múltiplas referências sobre diversos assuntos, ao mesmo tempo. E penso que isso nem sempre é bom. Mais nem sempre é melhor. Foi na rede, há coisa de dez anos, que descobri um texto do Sergio Porto, assinado com seu verdadeiro nome e não com o famoso pseudônimo, Stanislaw Ponte Preta. Foi através do site, releituras que li uma dessas coisas que nos acompanham a vida inteira, como uma espécie de oração particular.

“Se não me for dado comparecer às grandes noites de gala, que fazer? Resta-me o melhor, afinal, que é esticar de vez em quando por aí, transformando em festa uma noite que poderia ser de sono.”

A internet possibilitou o acesso a esse texto, que por sua vez, trouxe uma coisa linda para a minha vida. Descobri aí que o Sérgio Porto escreveu alguns livros utilizando seu verdadeiro nome, sendo que em tais obras ele falava de forma diferente da fanfarra hilária que marca o personagem Stanislaw. Sem a rede, provavelmente não saberia disso e seria uma pessoa mais infeliz ainda. A partir daí cheguei ao livro “A casa demolida”. Ora, pronto, nesse momento cessa o papel da internet nessa história. Porque daí se estabeleceu uma ligação linda entre o livro e a minha pessoa, que nada mais deve a rede. Se sou um tanto conservador, por outro lado não sou desses que contrapõe a matéria, o papel ao virtual, ao imaterial. Não é disso que se trata. A questão é a possibilidade de totalizar uma experiência. Na internet começamos procurando o Sérgio Porto, passamos para a crônica brasileira de meados do século XX, vamos a Rubem Braga, amigo do Vinicius de Moraes, poeta e também diplomata, seguimos pelas relações internacionais do Brasil e logo, logo chegamos a segunda guerra mundial… Não há fim.

As coisas são simples. Uma pessoa é simples. E o livro é um mundo inteiro que se abre, um mundo que se abre e que também se fecha, ao se finalizar o livro. A rede é de fato um universo, mas nós não somos seres intergalácticos, nunca seremos, pela Lei Rafael. É no mundo finito que vivemos. É numa cidade, às vezes, num bairro que circulamos e que nos familiarizamos. O velho Braga escreveu: “Dizem que o mundo está cada dia menor. É tão perto do Rio a Paris! Assim é na verdade, mas acontece que raramente vamos sequer a Niterói”. Ler “um” livro é viver a cidade, é a possibilidade de viver o mundo na sua totalidade. É aqui que percebemos o problema da rede, não há totalidade passível de se fazer disso, pois tudo nos escapa. Há sempre um mais, um dado a ser complementado. E no delírio de buscar tudo vamos somando, somando, somando… Rapaz, a conta não fecha. Que o mundo seja mais do que nós mesmos isso é coisa necessária para não cair no delírio paranóico. No entanto penso que é necessário totalizar nossa relação com as coisas do mundo. E essa é, ao meu ver, a boa luta. Ora, na rede, quase sempre estamos conectados demais a coisas demais. É tudo fragmento. Vejo que poderia ler apenas “Anna Kariênina” do Tolstói a minha vida inteira. E sinto que saberia mais sobre a vida, a mulher, a morte, a política que alguém que ficasse lendo todos os blogs sobre economia, política, sociedade, história, psicologia, ciência. Leria e releria o mesmo livro, aquele que na sua singularidade é um mundo inteiro. Talvez não viria a obter mais informações, mas acredito que viria ao cabo do processo ser uma pessoa, e não um banco de dados. Ler “um” livro, amar “uma” mulher, ter “um” amigo. Amar uma pessoa é amar todas, porque ali você está completo. Tudo está ali, nada falta. Ao ler “o” livro, amar “a” mulher, lutar “a” luta sente-se uma coisa estranha… Não há mais tempo, não há espaço, não resta nada, nada lá fora.  Tudo, absolutamente tudo que te constitui se faz presente. Lendo, meio sem querer, o livro de Pierre Clastres, “A sociedade contra o estado” deparei-me com a citação abaixo. Ela sintetiza de forma maravilhosa o que penso sobre o tema.

“…a linguagem não é um simples instrumento, que o homem pode caminhar com ela, e que o Ocidente moderno perde o sentido de seu valor pelo excesso de uso que a submete. A linguagem do homem civilizado tornou-se completamente exterior a ele, pois é para ele apenas um puro meio de comunicação e informação. A qualidade do sentido e a quantidade dos signos variam em sentido inverso. As culturas primitivas, ao contrário, mais preocupadas em celebrar a linguagem do que em servir-se dela, souberam manter com ela essa relação interior que é já em si mesma aliança com o sagrado.” (Pierre Clastres. “O arco e o cesto”. Em: A sociedade contra o estado, 2003, p.143, Ed. Cosac Naify)

É curioso, mas o que sinto é que para abandonar as pretensões de saber todas as línguas, de amar todas as mulheres e ler todos os livros, o que basta é se fiar nisso de ler apenas uma mulher. De amar um livro. De lutar uma luta. E fazer disso o caminho da vida, coisa que os bytes nunca entenderiam. No meu caso, foi “Anna”, mas, e aí está a beleza, cada um faz um mundo do livro, da mulher, ou da luta que quiser.

Published in: on 25/08/2011 at 03:01  Comments (8)  

George, sublime #2

“Em defesa da Lareira”

8 de dezembro de 1945

(…)

“A primeira grande virtude de uma lareira a carvão é que, como só aquece de um lado da sala, força as pessoas a se agrupar de uma forma sociável. Nessa noite, enquanto escrevo, o mesmo padrão se reproduz em centenas de milhares de lares britânicos.

De um lado da lareira está sentado papai, lendo o vespertino. Do outro lado, está mamãe, fazendo seu tricô. No tapete diante do fogo estão as crianças, com um jogo de tabuleiro. Junto ao guarda-fogo, fazendo assado de si mesmo, jaz o cachorro. É um padrão gracioso, um bom pano de fundo para nossas lembranças, e a sobrevivência da família, como instituição talvez dependa mais dele do que percebemos.

Depois há o fascínio, inexaurível para uma criança, do próprio fogo. Um fogo nunca é o mesmo por dois minutos seguidos, pode-se olhar o coração vermelho das brasas e ver cavernas, rostos ou salamandras, conforme a imaginação de cada um; você pode até, se seus pais deixarem, se divertir esquentando o atiçador de brasas até ficar candente e vergá-lo entre as barras da grade protetora, ou polvilhar sal nas chamas para que fiquem verdes.

(…)

Se, como eu sustento, uma lareira propicia a sociabilidade e tem um atrativo estético particularmente importante para crianças pequenas, então ela vale o trabalho que acarreta.

Não há como negar que ela é causa de desperdício, bagunça e trabalho evitável: tudo isso poderia ser dito de um bebê.”

(George Orwell, em “Como morrem os pobres e outros ensaios”, p.368-70)

Published in: on 04/08/2011 at 15:33  Comments (2)  

Abdias e nossa solidão

O Abdias é meu amigo, muito mais do que um livro. É aquele amigo que chega no momento certo, aquele da dor ou da alegria. Ele chega diz e escuta. Presta atenção nas minhas dores e me traz às suas. Fico triste por ver que ele repete a sua história, mas talvez ache ele que eu também repita a minha, não sei. Em alguns momentos vejo o tanto que somos parecidos, no olhar, nos devaneios. Mas também, com os dias passando, vejo com mais clareza nossas diferenças. E as diferenças entre belo horizonte de fins dos anos 30 e a belo horizonte do século XXI. Nas última semanas nós tocamos num problema fundamental em nossas vidas, a solidão. Ele me disse:

“João Carlos é amigo, mas sua rudeza afasta confidências. Monsenhor Matias é uma criatura fora do mundo e Sizenando nunca teve bom senso. Como somos forçados a nos fechar dentro de nós mesmos!

Carlota consolava-me de minha mediocridade. Brincava muito, era irônica e, mesmo, um pouco mordaz, mas pressentia quando eu necessitava dela e mostrava-se, então, carinhosa e séria.

Há sofrimentos que, por patentearem uma fragilidade que queremos ocultar, se tornam incomunicáveis. A humilhação sofrida secretamente; a decepção que tenhamos tido com o amigo dileto, que supúnhamos nos estimasse na medida em que o estimamos e, no entanto, nos falha; o malogro de um plano literário; o conhecimento das limitações de nossa inteligência e das deficiências de nossa cultura…esses pequenos sofrimentos de cada dia, suscitados por uma introspecção que não pode deixar de ser mórbida, castigam-nos talvez mais do que as grandes dores da alma.

Quantas noites não passamos em claro, com a sensibilidade ferida por uma afronta imaginária, simples produto de nossa desconfiança?”

Published in: on 31/07/2011 at 17:37  Deixe um comentário  

Ler é um negócio muito perigoso

Isso começou há alguns anos, num início de tarde qualquer, quando voltava para casa da UFMG. Saí da FAFICH a caminho da avenida Antônio Carlos onde pegaria o meu ônibus (o famoso 2004). No caminho parei na biblioteca da Faculdade de Letras para pegar um livro do Rubem Braga. Eu já acreditava, como continuo acreditando, que a vida é uma missão, e naquele momento  uma de minhas missões consistia em ler todos os livros do velho Braga. Algum tempo depois ficou só uma tristeza, alguma coisa de fracasso e desânimo, quando descobri que Rubem teria escrito mais de 15.000 crônicas, e pouco mais de  quinhentas haviam sido publicadas em livro. Aí desisti do projeto, pois a cada crônica lida pensaria nas 29 que ficaram perdidas no tempo, mortas na história. Pensaria nesses filhos abortados. Um asno, esse Rafael. Não sabia ainda que a obra do escritor está toda contida numa única crônica, qualquer uma. Qualquer crônica de Rubem Braga contém tudo o que o mestre escreveu (Arrisco a dizer que é isso que define o gênio, um traço reflete seu mundo. Drummond diz exatamente isso quando escreveu que “difícil não é fazer mil gols como Pele. Difícil é fazer um gol como Pele”).

Bom, voltando a história. Subi no ônibus e com água na boca passei a folhear o livro, “O Homem Rouco”. E aí, já na primeira crônica , “Sobre o amor, etc.”,  li as seguintes palavras:

“Dizem que o mundo está cada dia menor.

É tão perto do Rio a Paris! Assim é na verdade, mas acontece que raramente vamos sequer a Niterói. (…) Antigamente era fácil pensar que a vida era algo de muito móvel, e oferecia uma perspectiva infinita e nos sentíamos contentes achando que um belo dia estaríamos todos reunidos em volta de uma farta mesa e nos abraçaríamos e muitos se poriam a cantar e a beber então tudo seria bom. Agora começamos a aprender o que há de irremisível nas separações. Agora sabemos que jamais voltaremos a estar juntos; pois quando estivermos juntos perceberemos que já somos outros e estamos separados pelo tempo perdido na distância. Cada um de nós terá incorporado a si mesmo o tempo da ausência. Poderemos falar, falar, para nos correspondermos por cima dessa muralha dupla; mas não estaremos juntos; seremos duas outras pessoas, talvez por este motivo, melancólicas; talvez nem isso.

Chamem de louco e tolo ao apaixonado que sente ciúmes quando ouve sua amada dizer que na véspera de tarde o céu estava uma coisa lindíssima, com mil pequenas nuvens de leve púrpura sobre um azul de sonho. Se ela diz ‘nunca vi um céu tão bonito assim’ estará dando, certamente, sua impressão de momento; há centenas de céus extraordinários e esquecemos da maneira mais torpe os mais fantásticos crepúsculos que nos emocionaram. Ele porém, na véspera, estava dentro de uma sala qualquer e não viu céu nenhum. Se acaso tivesse chegado à janela e visto, agora seria feliz em saber que em outro ponto da cidade ela também vira. Mas isso não aconteceu, e ele tem ciúmes.”

Frente a esses versos fechei o livro. Senti uma coisa estranha, pois isso era muito bonito para ler assim, distraidamente, dentro de um ônibus quente e barulhento. Isso me aconteceu mais algumas vezes, a vida insistindo em aparecer no meio de letras.  Lembro que nesse dia, com cuidado, guardei o livro na mochila e deixei um sorriso de retardado no rosto pelo resto da viagem.

Outro dia na rodoviária do Rio de Janeiro fui invadido mais uma vez por esse sentimento, ao ler um complicado Henri Bergson:

Ora, o que não faz nada não é nada. No entanto, eu me dizia, o tempo é algo. Então ele age. O que poderia ele fazer? O simples bom senso respondia: o tempo é aquilo que impede que tudo seja dado de um só golpe. Ele retarda ou, melhor, ele é retardamento. Ele deve portanto ser elaboração.Não seria ele então veículo de criação e de escolha? A existência do tempo não provaria que há indeterminação nas coisas?”

Senti coisas poderosas, o trecho na hora entrou em ressonância com frases,  com músicas e filosofias. Na hora lembrei-me da música “Se ela quisesse” de Vinicius e Toquinho, que diz: “Que o tempo insiste, porque existe um tempo que há de vir…”. Na rodoviária, ao ler o trecho de Bergson acima, parei e mais uma vez guardei o livro. Era preciso parar e pensar sobre isso… Como tem sido dificil perceber o que é importante nesse mar de informações que nos arrasta e acaba com nossas retinas. Precisamos ler melhor e não mais. Porque ler não é brincadeira. É viver.

E viver, como diria o poeta, é muito perigoso.

Published in: on 08/11/2010 at 10:07  Comments (5)  

Ei Tolstói, Vai tomá no Cu#6

ou:

Coleção Primeiros Passos:

“O Que é Sedução”

“Anna falava com desembaraço e sem pressa, de quando em quando, desviava seu olhar de Liévin para o irmão, e Liévin percebia que a impressão que causava era boa e logo se sentiu a vontade, espontâneo e alegre, ao lado de Anna, como se a conhecesse desde criança”.
(…)
– Não é mesmo de uma beleza extraordinária? Perguntou Stiepan Arcáditch, ao notar que Liévin dirigia os olhos para o quadro. [de Anna]
– Nunca vi um retrato melhor que este.
– E e extraordinariamente parecido não é verdade? – Perguntou Vorkúiev.
Liévin voltou os olhos do retrato para o original.Um brilho especial iluminou o rosto de Anna, no momento em que ela sentiu sobre si o olhar de Liévin. Ele ruborizou-se e, afim de esconder sua perturbação, quis perguntar se não fazia muito que ela vira Dária Aleksándrovna; mas, nesse mesmo instante, Anna pôs-se a falar:

(…)

Dessa vez, Liévin já não falava, em absoluto, da maneira mecânica como havia conversado naquela manhã. Na conversa com Anna, cada palavra adquiria um sentido especial. Falar com ela era agradável, e ouvi-la, mais ainda.
Anna falava não só de modo natural e inteligente, mas também inteligente e despretensioso, sem atribuir nenhum valor às próprias idéias, mas dando o máximo valor às idéias de seu interlocutor.
A conversa enveredou por uma nova tendência da arte as novas ilustrações da Bíblia feitas por um artista francês. Vorkúiev recriminou o artista pela realismo que chegara à grosseria. Liévin disse que os franceses haviam levado o convencionalismo na arte mais longe do que ninguém e, por isso, viam um mérito especial no retorno ao realismo. No fato de já não mentirem, eles encontram poesia.
Nunca algo inteligente dito por Liévin lhe proporcionou tanta satisfação quanto essas palavras. O rosto de Anna iluminou-se, de súbito, quando reconheceu de um golpe o valor daquele pensamento. Ela riu.
– Estou rindo – explicou Anna – como rimos quando vemos um retrato muito parecido conosco. O que o senhor disse caracteriza com perfeição a arte francesa atual, a pintura e até a literatura: Zola, Daudet. Mas talvez seja sempre assim, os artistas elaboram suas conceptions a partir de figuras inventadas e convencionais e, depois de fazer todas as combinaisons, as figuras inventadas cansam e eles passam a imaginar figuras mais naturais, mais fidedignas.
(…)
Sim, sim, aí está uma mulher!“, pensou Liévin, esquecido de si mesmo e fitando o belo rosto vivaz de Anna, que agora se modificara completamente. Liévin não escutava o que ela estava falando, inclinada na direção do irmão, mas estava impressionado com a mudança da sua expressão. Antes tão lindo em sua serenidade, o rosto de Anna passou, de repente, a exprimir uma estranha curiosidade, além de raiva e orgulho. Mas isso durou apenas um minuto. Ela semicerrou os olhos, como que recordando algo.
(…)
E olhou de novo para Liévin. O sorrido de Anna, o seu olhar, tudo lhe dizia que ela dirigia aquelas palavras apenas a ele, com pela sua opinião e, ao mesmo tempo, ciente de antemão de que os dois se compreendiam um ao outro.” (Tolstói, Anna Kariênina, p.684-7)

Published in: on 08/10/2009 at 17:23  Deixe um comentário  

Ei, Tolstoi, vái tomá no cu#5!!

No livro “Pensamento e Linguagem“, o genial pensador russo Lev Vygotsky utiliza exemplos da literatura de seu país para demonstrar aspectos chaves na conexão entre o pensamento e a palavra. E todos esses exemplos, além de casar intimamente com os pressupostos teóricos em questão, eram profundos em si mesmos, contendo a capacidade mágica de produzir uma expansão sem fim em nosso ser. Como se através de cada um deles entendêssemos não só algo específico, mas tudo sobre a natureza humana.

Ainda que já admirasse a literatura russa, não seria honesto senão dissesse que foi a leitura do ultimo capítulo desse livro que despertou em mim a ação de pegar “Anna Kariênina”…

Pois um desses exemplos em “Pensamento e Linguagem” é este trecho abaixo, sem dúvida das coisas imateriais mais bonitas que já passaram por meus olhos. Além da beleza ingênua, traz uma questão fundamental da compreensão, e portanto, da incompreensão na relação humana.

Se nosso casal abaixo tudo entende a partir de quase nada, quantas pessoas nunca vão entender nada, apesar de palavras e sentenças completas, inflexões, explicações, tratados e manuais práticos.

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“- Espere – disse, sentando-se à mesa. – Eu queria, há muito tempo, lhe perguntar uma coisa.
Fitou-a de frente, nos olhos meigos, embora assutados.
– Por favor, pergunte.
– Veja, disse Liévin e escreveu as letras iniciais: q, a, s, m, r, n, p, s, q, d, n, o n, m? Essas letras significavam: “Quando a senhora me respondeu não pode ser queria dizer nunca ou naquele momento?”. Não havia a menor probabilidade de que ela conseguisse entender essa frase complexa; mas Liévin fitou-a com tal expressão que sua vida parecia depender da compreensão daquelas palavras.
Ela olhou para ele com ar sério, depois apoiou na mão a testa franzida e começou a ler. De vez em quando, dirigia os olhos para Liévin, interrogava-o com o olhar: “Será o que estou pensando?”.
– Compreendi – disse Kitty, ruborizada.
– Que palavra é esta? perguntou ele, apontando para o N, que significava a palavra nunca.
– Significa a palavra nunca – respondeu. – Mas não é verdade!
Liévin rapidamente apagou as letras, entregou a ela o giz e levantou-se. Ela escreveu: n, m, e, n p, d, o, r.
Dolly já estava inteiramente consolada do desgosto causado pela conversa com Aleksiei Aléksandrovitch quando viu estas duas figuras: Kitty, com o giz nas mãos e com um sorriso tímido e feliz, que olhava para Liévin, acima dela, e a bela figura de Liévin, curvado sobre a mesa, com os olhos ardentes de atenção dirigidos ora para a mesa, ora para Kitty. De repente, ele se tornou radiante: compreende. Significava: “Naquele momento, eu não podia dar outra resposta”.
Fitou-a de modo interrogativo, tímido.
– Só naquele momento?
– Sim – respondeu o sorriso dela.
– E a…E agora? – Perguntou Liévin
– Pois bem, leia aqui. Direi o que eu gostaria. E gostaria muito! – Escreveu as letras iniciais: q, o, s, p, e, p, o, q, a. Significava: “Que o senhor possa esquecer e perdoar o que aconteceu”.
Ele tomou um giz com os dedos tensos, trêmulos e, depois de parti-lo ao meio, escreveu as letras iniciais do seguinte: “Nada tenho para esquecer ou perdoar, eu nunca deixei de amar a senhora”.
Kitty olhou para ele com um sorriso indelével.
– Compreendi – respondeu num sussurro.
Liévin sentou-se e escreveu uma frase comprida. Kitty compreendeu tudo e, sem lhe perguntar: é isto?, pegou o giz e respondeu de imediato.
Por longo tempo, Liévin não conseguiu compreender o que ela havia escrito e mirou os olhos de Kitty muitas vezes. Um estupor de felicidade o havia dominado. Não conseguia de forma alguma restituir as palavras que ela deixara subtendidas; mas nos olhos encantadores de Kitty, que reluziam de felicidade, Liévin compreendeu tudo aquilo que precisava saber. E escreveu três letras. Mas ele não havia ainda terminado de escrever e Kitty já lia ao mesmo tempo que a mão dele escrevia, e ela mesmo terminou, e escreveu a resposta: sim.” (Anna Kariênina, p. 394-5)

Published in: on 04/07/2009 at 21:13  Deixe um comentário