UM BRINDE AO CASAL QUE SE PEGA

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Sexta-feira, bar do Gomez, Santa Teresa, Rio de Janeiro. Meados de maio.

Indivíduo apresentável conversa com dama, certamente não menos apresentável do que este. Após uns dez minutos, indivíduos supracitados se atracam e é mão subindo e descendo, zueira linda e doida. Juvenil. Ao mesmo tempo que a pegação é digna, pela incontinência passional, parece-me fora de lugar. Ou estou eu fora do lugar, pois sinto-me invadindo a sempre sagrada intimidade da paixão. Mas, enfim, nossos efebos seguem apaixonados e atracados. Adolescentes. 22 anos, no máximo.

Não resisto, guiado pelo comandante geral da CIA que manda sua mensagem pela cerveja que bebo, escuto tudo o que conversam. E é genial. Antes, porém, contudo, todavia, devo confessar meus traumas. Enquanto adolescente fui um fracasso to-tal. O trauminha de mal-amado erigiu-se então em minh’alma. Até tempos atrás dava minhas surtadas perversas ao ver casaizinhos bem jovens e muito felizes com essa carinha de noite bem durmida. Tinha vontade de esfregar na cara deles algo triste, ruim e/ou vil, pelos quais seriam culpados. Tipo a fome no mundo.

Volto à tal sexta-feira. Como não me divertir com a moça que ficava insistindo em dizer de um tal ex, que foi para a Alemanha, um grande amor. Diz ela, sua única paixão. Foram 2 namorados, 3, corrige, mas re-corrige dizendo que um não conta. Vontade de dizer ao intrépido rapaz, “é esse, é esse que conta”. Camarada, papai Freud tá por aí lembrando que conta quem a gente não conta. Mas nada digo, posto que o carioca alvissareiro não parece precisar da ajuda de um mineiro neurótico.

Escutando esse jovem casal penso na vida, nas coisas boas da vida, no encontro, aquele fatal. E acho lindo que a moça fale tanto de ex-namorado, e ela fala muito. Escuto claro o seu recado, melhor, os dois: 1.“Presta atenção, pô não tô de brincadeira”. 2. “Eu não sou tão menina, como parece, tenho um grande amor no currículo”. É batata, a moça ou moço, falou de ex ou falou de família, pai, mãe, tá querendo algo sério, anota. Ou tá querendo parecer que quer algo sério, o que não dá no mesmo. E daí pulei para o texto que evito por tanto tempo em escrever e que haverá de se chamar:  “O dia em que o apaixonado Vinicius de Moraes matou o cínico Rubem Braga”. Explico.

Rubem Braga, que completaria cem anos em 2013 foi meu grande ídolo. Foi com ele, em suas crônicas, que passei a admirar e me apaixonar pela mulher. Foi por sua poesia. “As outras coisas que continuam me comovendo são as mulheres que vejo passar na rua. É inacreditável como qualquer mulher que passa me desperta turbilhões de pensamentos: sinto-me inteligente, fremente, e ao mesmo tempo estúpido. Como todas as artes são frágeis perante essa simples coisa natural!” (Carta a Moacyr Werneck de Castro, Livro: Rubem Braga – Um cigano fazendeiro do ar, p.294-5).  Foi com o velho Braga que, primeiro criei um certo ideal de homem namorador. Quase em paralelo fui lendo e escutando Vinícius de Moraes. E ao longo dos últimos 15 anos as diferenças entre eles foram se depurando. Vinícius, todos sabem, se casou 9 vezes e dizia “Que seja infinito enquanto dure”. Braga, solteirão convicto mantinha em sua residência uma placa “Aqui, vive um solteiro feliz”. Outra dele que merece menção honrosa, é que ele dizia preferir “namorar” mulheres casadas, pois estas nunca pretendiam dormir em sua casa.

Voltei nesse enredo por conta do jovem casal se pegando. Achei digno e bonito por parte dela querer dizer de ex- e falar de paixão antiga. Fosse eu o ele, ficaria cansado e a acharia besta… É bem chato assim de início ficar escutando papo de ex (é sempre chato). O colega em frente à dama, performatizava no estilo blasé, “È mesmo? Nossa…que coisa? É mesmo”. Enrolando, enrolando… Foi aí que me lembrei de Vinícius e Rubem. Confesso que o meu eu ideal foi por bom tempo o do velho Braga, o do carioca charmoso, porém fútil e útil. Daquele que no fundo não está aberto para nada, pois está aberto para qualquer coisa. E foi aí que percebi que, tendo ficado triste e sozinho boa parte da minha vida, não consigo mesmo entender o que leva uma pessoa a abnegar desse risco da paixão e do amor. O risco Vinícius. Não consigo deixar de achar medíocre aquele que trata a dama da noite como coisa posta, dada, codificando palavra, olhar e gesto em categoriazinhas cerradas. Fugindo do infinito do olhar e do toque, isso da ordem da coisa, os incategorizável. Esse povo foge mesmo é do delírio e do desejo. A paixão Braga é linda, lírica, poética, gostosa. Mas óbvia e conhecida. A paixão Vinícius é aposta sem crédito. É jogo sem regra, é um infinito de metáfora barata. E quem foge disso, por motivo quer que seja, foge da vida, cumpadi… Foge, e num adianta vir dizer que foge por medo, porque todo mundo tem medo, sempre, como me disse a bela cigana.

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Published in: on 01/10/2013 at 14:28  Comments (4)  

R.B. e as mulheres #3

“Meu pensamento lento, da preguiça do calor, ficou fixado naquela cor do lombo curvo da cutia, cor talvez de coco queimado, o que me lembra, sei… São certas moças como há em Ipanema, com a pele bem queimada do sol da praia, a pele escura e dourada, e os cabelos louros com trechos escuros , de mel. Dessa raça de moça nunca tive nenhuma; nem vou ter, pensei com humildade, e é pena”.

Crônica: “Era na praça da república” – Rubem Braga no livro As boas coisas da vida.

Published in: on 07/07/2013 at 14:19  Deixe um comentário  

Mulher

Não é segredo que eu gosto de mulher. Ainda que adore a patifaria da frase anterior ela expressa de modo muito simples a intensidade de uma afeição. Há um texto que li certa vez, numa “revista masculina”, que trazia uma imagem grosseira, chula, porém pertinente sobre o universo masculino. No texto a moça dizia que homens não gostam de mulher, gostam isso sim de buraco. No que, convivendo com homens mais do que gostaria, tenho que confessar a parcela de verdade. A companhia de homens, nessa vida, só me fez falta em duas situações. Por um lado, na faculdade de psicologia, naqueles dias posteriores a partidas do campeonato brasileiro quando não sabia o resultado deste ou daquele jogo. Aí me dava conta, olhando para o lado, vendo apenas moças dos 80, a falta que um engenheiro faz. A outra situação se devia e se dá, na dificuldade que sempre tive de contar aspectos mais realistas de minha autobiografia amorosa-afetivo-sexual para as amigas, em contar as coisas sem me sentir um perfeito calhorda. Há ainda uma distância propositadamente mantida em relação a esses assuntos. Há mais de 10 anos a maioria das amizades que faço é com mulheres, ainda que nesses anos tenha feito alguns grandes amigos, desses cinco que nos acompanham por toda a vida. Não vou cair na armadilha de ficar dando atributo pra esse ou praquela. A preferência pela companhia feminina foi algo que só me dei conta depois. Hoje não seria insensato dizer que abandonei uma faculdade exatamente por isso. No curso de física havia mais Rafael do que mulheres na sala.

Mas o que veio, nesta monótona sexta-feira a me lembrar dessas coisas todas, das mulheres enquanto tais, não foram minhas amigas e companheiras de época, mas sim as senhoras que eu acompanhei, auxiliei a andar, conversei e alimentei durante o meu estágio numa casa de convivência para idosas em Belo Horizonte, no improvável ano de 2003. Hoje relembro também que foi dos meus períodos mais solitários. As velhinhas foram, então, minhas mulheres, aquelas senhoras, a Tiná e a Beta, por exemplo, as duas: Albertinas. Beta queria sempre escapar para algum lugar. Ela oscilava entre a angústia e a incompreensão, e não oscilamos todos? Tiná era das favoritas. Certo dia enquanto caminhava de braço dado a ela e a outra senhora, ela me pediu para parar, se abaixou, pegou uma flor e adornou seus cabelos (aprendam meninas). Dona Afrodite, a Didita, dona Dídima, Argentina, Clades, Cilene, Laurinha, dona Yêda, esta que havia morado em Ipanema e conservava um carioquês bastante elegante. Tiná e Didita tinham um lugar cativo no meu coração, talvez pelo leve desprezo que dispensavam a mim. Eu sabia que o desprezo era apenas de superfície. Certamente elas não eram das que eu mais conversava ou das que mais me davam atenção. Mas na palavra, no gesto, às vezes num único movimento em todo o dia, havia muita atenção e carinho. Quando eu faltava elas davam notícia, perguntavam.

Quando Tiná colocou as flores no cabelo e perguntou se estava bonita, requisitando minha opinião, não acho que ela queria uma opinião de um funcionário da casa de convivência, mas a minha.

Atenção e carinho, meninas, atenção e carinho, meninos.

Published in: on 24/11/2012 at 02:12  Comments (2)  

As canções #1

Fui embalado num estado de excitação delirante e lindo, desde o primeiro momento em que soube do mote do novo filme do Eduardo Coutinho, “As canções”. O mais bonito foi ter entendido, de antemão, que eu poderia criar toda a expectativa da vida, que eu poderia imaginar o filme mais lindo já feito na história da humanidade, que o filme ainda assim seria melhor do que o implícito nestas palavras vãs.

E na primeira cena do fime, tive certeza disso. Quantas vezes na vida, nossas experiências superam as expectativas germinadas em tanto carinho, emoção e zelo?

Desde então, em diversos momentos me pego pensando em músicas das minha vida. Músicas de mudança, músicas de fim, músicas de início. Músicas de infância. Música de aprender as nuances do amor, sem amar. Música de criar expectativa para quando o amor chegar. Música para escutar e admirar violeiro. Músicas de rir. Música para viajar por um Brasil outro, de relações, de sentimentos profundos, de dor e tragédia.

Ao escutar “casa de caboclo”, achando-a sem querer neste blog, absurdamente genial, veio uma tormenta de lembranças e sentimentos.

Os termos rurais, o linguajar simples do “vancê tá vendo, essa casinha simplisinha”, que “véve no abandono”. A sensibilidade pura do amor, que em três linhas diz tudo. “Quando Gazela viu Siá Rita, tão bonita, pôs a mão no coração… Ela pegou não disse nada, deu risada, pondo os óinho no chão”. Não seria exagero dizer que, essa mulher, que não diz nada, dá risada e põe os óinho no chão, foi A mulher que busquei em todas essas outras imaginárias que transitam por aí. E ainda o triste fim do amor, culminando no pessimismo, na solidão própria ao romantismo que tanto me embriagou nos anos primeiros, os anos solitários que vivi na imaginação de um mundo.

Foi ali, nas rodas de viola, nos olhares, no canto, nas músicas antigas. Foi na companhia dos velhos. Foi ali que fiz meu mundo torto. Não indicaria esse caminho para os moços, tenha paciência, vá errar mais e imaginar menos. Cada coisa ao seu tempo, calma, calma…

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Calma…

Published in: on 29/10/2011 at 09:51  Deixe um comentário  

RB e as mulheres #2

Essa é de uma outra carta do mestre Rubem Braga ao poeta Manuel Bandeira. Ele começa  a carta canalha e termina lírico, inversamente ao que em geral fazem os homens com seus amores.

“Pretendo desde rapazinho escrever uma longa coisa que nunca tive coragem de escrever a respeito da beleza das mulheres. Atrapalhadamente minha tese é isso: uma repulsa por tudo o que o cristianismo fez com as mulheres bonitas. Minha tese era declarar pateticamente a benemerência pública e universal da mulher bonita, pelo bem enorme, inapreciável que ela faz. Sustentaria essa tese com argumentos e evidências de toda espécie, inclusive esse de que na vida diária, na rua, a visão de uma mulher bonita desconhecida, a simples e passageira visão que ela nos oferece nos faz um bem tão grande e tão grátis que é um absurdo feroz não conceder a uma pessoa assim todas as espécies de privilégios neste mundo e no outro. Já me aconteceu estar desesperado, atormentado com problemas às vezes (não estou dramatizando, você pode acreditar) bem cruéis, duros, urgentes, insolúveis e nesse estado a simples visão de uma mulher bonita me dar um ânimo tão grande, um perdão tão completo para toda a estupidez da vida que em certa época eu talvez tivesse me matado se não fosse isso. Agora que estou pacato, com problemas menos horríveis e prementes, em geral apenas crônicos, com crises de agudez suportáveis, tenho tempo para pensar nesse benemerência que estupidamente o cristianismo desconhece. A mais boa mulher feia não pode fazer tanto bem como a mais ruim mulher bonita. Não é humano, mas sim desumano querer dar uma espécie de preferência moral à mulher feia, como faz o cristianismo, que sempre está em guarda contra a beleza (…) Você deve estar chateado e rindo dessa minha dissertação confusa sobre mulher bonita, mas o que eu queria dizer é que experimento pelos poetas como você uma gratidão semelhante. Quanta gente você não ajuda, não enriquece com a sua simples poesia. Que bem faz! Digo por mim, que lhe devo mil coisas, mil serviços íntimos” (Carta a Manuel Bandeira, , Livro: Rubem Braga – Um cigano fazendeiro do ar, p.298-9 )

Published in: on 20/01/2011 at 16:36  Comments (1)  

Tudo mais jogo num verso…

Engraçado. A gente faz psicologia e foge do drama e da clínica, coisa de mulher.
Aí na esquina séria da psicologia social com a filosofia política dá de cara com uma psicanálise de chapéu e bigodinho falso. Daí vamos  para o bar tomar uma cerveja e conversar. E daí a gente gosta e leva para a vida. Por um tempo tudo vai bem. Por um tempo, a gente acha que isso vai dar certo. Fica lá falando dos grandes problemas, das grandes questões da vida social e política e da história do mundo.
E daí lendo alguma coisa sobre hegemonia, lógica da equivalência e da diferença começa a pensar em coisas, dessas das quais se fogia lá na primeira linha. E daí a gente fica preso nisso tudo que se chama vida. E nem se trata de angústia assim simplesmente. É coisa boa, triste e necessária para levar os dias.
Será que esses filósofos virtuoses acreditavam mesmo que poderiam brincar com a safa da senhora psicanalhise (Brigado Elisa), e depois simplesmente voltar para casa, sentar no sofá e ligar a TV?!. Não meus senhores, nada disso. É sempre a gente aí na reta das coisas, da vida, dos problemas do mundo. Se aqui há um tom de remorso, de retorno aos dramas e sofrimentos de “verdade”, das coisas do psiquismo, ou o que seja, desculpem-me, mas são apenas firulas retóricas. O caminho tem sido perigoso, bonito e vasto. Permaneço nele.
O engraçado são essas coisas que a gente lembra assim sem mais, sentado na frente de uma mesa com um texto na mão. Lembrei do livro “Ela e outras mulheres”, do sacana do Rubem Fonseca. O livro, aparentemente é uma série de contos sobre desventuras amorosas com ela e também com as outras. E a gente vai lendo, lendo…Acha uma história legal, outra chata, outra nojenta. Mas tem uma hora que a gente saca. Não é ela, nem a outra, nem nada disso. O segredo está na passagem de uma para a outra. E a gente fica aí nesse meio, entre Guiomares e Helenas… O livro é tudo menos uma série de contos. “Ela” é a própria vida, seja a nossa ou a do Rubem Fonseca.

Eu escutei de um professor uma vez essa historinha e achei muito boa. Althusser questionou a Lacan se a psicanálise poderia ajudar na revolução do proletariado. E Lacan retrucou que o marxismo é que deveria fazer algo pela psicanálise.

Published in: on 16/12/2009 at 01:02  Comments (1)  

Certas Companhias #4

No carnaval de alguns anos atrás, troquei meus amigos, esperanças de beijos velozes e vazios, ressaca e bebedeira infinda; caso, briga e riso, pelos amores e desvarios de Noel Rosa em sua Rio da década de 20, entre putas  e mangues, marinheiros, bordéis e Mario Lagos… Na escola de música da UFMG encontrei o calhamaço da biografia do compositor carioca que morreu aos 26 anos de idade. Enfim, foi o desejo de chegar perto e conhecer. Aí, talvez resida min’alma. Chego mais pelos livros, músicas… E estes momentos, livros, músicas e histórias têm feito minhas tardes menos vazias, na falta de um papo, ou de um telefonema, e assim alimentam uma conversa em outra hora, uma noite de bar…coisas essenciais.

Assim, minhas duas últimas companhias, aos quais tenho me agarrado com ardor são Tom Zé e Paulo Vanzolini. E é sobre o último que me concentro agora. Talvez esse movimento de buscar, desenterrar histórias de música brasileira tenha começado mesmo com o livro do Noel, escrito por João Máximo e Carlos Didier. Foi aí, por exemplo, que fiquei sabendo que Noel e Cartola foram grandes amigos. E mais ainda soube de uma das histórias mais lindas que já escutei, de como Cartola conheceu e se apaixonou por sua primeira esposa. E assim, secretei a mim mesmo este projeto que é  o de caçar essas histórias de compositores, cantores e encontros na música brasileira,  sobretudo no samba.

E foi através de uma coleção maravilhosa, que é “A Música Brasileira Deste Século por Seus Autores e Intérpretes”, que encontrei um belo caminho.  A idéia da coletânea é que os autores e cantores comentem histórias de música, do que acontecia na época, essas coisas. São palavras,  frases que esquentam o corpo, os sentidos. Enfim, que dizem assim: “Olha, a vida vale a pena, ela é bela…” Numa das faixas de Paulo Vanzolini, na qual ele comenta sobre um amigo seu, ele diz o seguinte:

[Fiori]… “Era como Adoniran (Barbosa) assim, indivíduos que tem o traço do caricaturista, um risco , uma frase … Nós tava conversando isso hoje… um exemplo que eu gosto muito de dar, quando o Adoniran fala assim ‘Inês, saiu pra comprar pavio pro Lampião’. Você pode escrever dez volumes sobre periferia, você não define tão bem, quanto uma mulher sair de casa pra comprar pavio de Lampião em São Paulo, né…”

Tom zé escreveu algo que tem se tornado meu mantra, e que até coloquei logo aqui embaixo, em outro textinho, mas como convém no caso dos mantras, vale a pena repetir…

“Quando essas sintonias se fundem e difundem, precisamos ouvir nossa alma, uma desatendida, que tanto fala à toa.” – TOM ZÉ

Bom, aí é massacre. Vanzolini, Adoniran, Inês, (que afirmo, agora sem medo,  ainda que entre parênteses, ser o nome feminino mais bonito  da língua portuguesa) isso tudo junto… Haja sintonia, ressonância, beleza…

Published in: on 21/10/2009 at 22:28  Comments (2)  

Na rua, repare naquela senhorita, sendo ela bela ou não, jovem ou já empenada pelo balanço das horas. Com a única condição de conter em si algo de verde e viçoso. Aí não tem erro. No momento que passar por esta mulher repare em certos movimentos bem precisos.
A 7 segundos do contato com você, nossa rapariga, em primeiro lugar, irá reparar se você está a reparar nela. A partir daí veremos como tudo acontece. Há quatro passos de distância, ela lentamente abaixa os olhos… Em seus olhos divulga o pensamento de dúvida se você estaria ainda concentrado em seus movimentos. Mas é tudo isso um truque, pois lá no primeiro instante ela já tinha essa resposta.
Ainda com a cabeça baixa, agora há pouco mais de dois passos de você, ela passa a mão no cabelo ou em alguma outra parte de seu corpo, como se estivesse a ajeitar algo que se encontrasse desarranjado. Por exemplo, puxa a blusa um pouco para baixo, ou ainda ajeita com delicadeza alguma outra peça de roupa. Em geral importa pouco porque nada tem ela a arrumar, o que deseja simplesmente é chamar sua atenção para alguma parte de seu corpo, seus ombros, barriga ou seu colo.  Ela então passa e vai, satisfeita consigo mesmo, leve e imperturbada. E você segue a resolver suas coisas também porque de fato nada aconteceu.

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Published in: on 11/10/2009 at 16:25  Deixe um comentário  

Ei Tolstói, Vai tomá no Cu#6

ou:

Coleção Primeiros Passos:

“O Que é Sedução”

“Anna falava com desembaraço e sem pressa, de quando em quando, desviava seu olhar de Liévin para o irmão, e Liévin percebia que a impressão que causava era boa e logo se sentiu a vontade, espontâneo e alegre, ao lado de Anna, como se a conhecesse desde criança”.
(…)
– Não é mesmo de uma beleza extraordinária? Perguntou Stiepan Arcáditch, ao notar que Liévin dirigia os olhos para o quadro. [de Anna]
– Nunca vi um retrato melhor que este.
– E e extraordinariamente parecido não é verdade? – Perguntou Vorkúiev.
Liévin voltou os olhos do retrato para o original.Um brilho especial iluminou o rosto de Anna, no momento em que ela sentiu sobre si o olhar de Liévin. Ele ruborizou-se e, afim de esconder sua perturbação, quis perguntar se não fazia muito que ela vira Dária Aleksándrovna; mas, nesse mesmo instante, Anna pôs-se a falar:

(…)

Dessa vez, Liévin já não falava, em absoluto, da maneira mecânica como havia conversado naquela manhã. Na conversa com Anna, cada palavra adquiria um sentido especial. Falar com ela era agradável, e ouvi-la, mais ainda.
Anna falava não só de modo natural e inteligente, mas também inteligente e despretensioso, sem atribuir nenhum valor às próprias idéias, mas dando o máximo valor às idéias de seu interlocutor.
A conversa enveredou por uma nova tendência da arte as novas ilustrações da Bíblia feitas por um artista francês. Vorkúiev recriminou o artista pela realismo que chegara à grosseria. Liévin disse que os franceses haviam levado o convencionalismo na arte mais longe do que ninguém e, por isso, viam um mérito especial no retorno ao realismo. No fato de já não mentirem, eles encontram poesia.
Nunca algo inteligente dito por Liévin lhe proporcionou tanta satisfação quanto essas palavras. O rosto de Anna iluminou-se, de súbito, quando reconheceu de um golpe o valor daquele pensamento. Ela riu.
– Estou rindo – explicou Anna – como rimos quando vemos um retrato muito parecido conosco. O que o senhor disse caracteriza com perfeição a arte francesa atual, a pintura e até a literatura: Zola, Daudet. Mas talvez seja sempre assim, os artistas elaboram suas conceptions a partir de figuras inventadas e convencionais e, depois de fazer todas as combinaisons, as figuras inventadas cansam e eles passam a imaginar figuras mais naturais, mais fidedignas.
(…)
Sim, sim, aí está uma mulher!“, pensou Liévin, esquecido de si mesmo e fitando o belo rosto vivaz de Anna, que agora se modificara completamente. Liévin não escutava o que ela estava falando, inclinada na direção do irmão, mas estava impressionado com a mudança da sua expressão. Antes tão lindo em sua serenidade, o rosto de Anna passou, de repente, a exprimir uma estranha curiosidade, além de raiva e orgulho. Mas isso durou apenas um minuto. Ela semicerrou os olhos, como que recordando algo.
(…)
E olhou de novo para Liévin. O sorrido de Anna, o seu olhar, tudo lhe dizia que ela dirigia aquelas palavras apenas a ele, com pela sua opinião e, ao mesmo tempo, ciente de antemão de que os dois se compreendiam um ao outro.” (Tolstói, Anna Kariênina, p.684-7)

Published in: on 08/10/2009 at 17:23  Deixe um comentário  

Um Deus Possível

“Eu só poderia acreditar em um deus que soubesse dançar” – NIETZSCHE

Andei pensando numa coisa que pode até mesmo ser simples, mas que não é tola.

O mistério das coisas e das pessoas, dos lugares mágicos, místicos, estranhos e belos. O mistério do bar, da singularidade daquele bar, do garçom ou da música, ou ainda daquela menina que se perdeu da gente na passagem de uma madrugada para um triste amanhecer, naquele bar de mesas e espírito de plástico que nunca fecha. A certeza da humanidade universal no sempre deixar a colherzinha suja e sozinha no meio da pia, depois de toda louça lavar. A beleza de achar a coisa mais linda ver e ouvir João Nogueira cantando “Mineira”. O sentimento profundo de entender que através de uma pessoa chamada Rubem Braga foram enunciadas as grandes verdades da vida. A certeza da beleza das coisas e do mundo numa menina magra e bela dirigindo um carro a sorrir sem conseguir se controlar, despertada por palavras e gestos bobos de um “rapaz novo encantado com vinte anos de amor” e uma intenção bem sapeca, ainda que desprovida de razão ou motivo concreto. O mistério de entender que aquela pessoa ali, em tudo diferente de você, é bem possível de fazer qualquer coisa, inclusive te entender. Ou te fazer entender que aquilo que você achava saber era pura fantasia classe média besta e porca. E ainda o sempre sentir algo grande e cerimonioso se misturar com a gente no meio de um samba bom, a alegria a nos atravessar e transformar. Achar a si mesmo ali onde você não se estava.

Uma coisa central para a vida, o amor, a política, a amizade, a arte. O que quer que seja, é esse algo do transcendente, de uma compreensão que nos atravessa e nos encontra. O sentir e entender que o que chegamos a pensar ser só nosso é muito mais, está no mundo, atravessa pessoas e corações. A passeata, a cama, o bar, o samba. Não interessa onde, pois há sempre essa dimensão no qual o agir mais individual, o pensar mais concreto e sólido abraça e abrange vários, muitos, sem deixar de ser o que sempre fora.
Quando Rubem Braga intimamente diz que já foi acusado de amar mulheres tristes, quantos, eu pergunto, quantos culpados não circulam por aí protegidos pela luz natural e pela dissimulação, quantos?

Algo sério a se estudar. Projeto, não de doutorado (que pena…), mas de vida. Focar nesse mistério das proximidades entre diferentes. Da compreensão do universal no mais concreto. Da passagem do fechado para o espírito sempre aberto. Dizendo que falo da compreensão, do entendimento, estaria preso a dimensão da razão. Focando no transcendente haveria sempre esse ranço do divino. Mas… e aqui arrisco, talvez a expressão do divino contenha antes mesmo da idéia de um terceiro, Deus, uma maneira de expressar esse desejo de comunhão, de união. Não consigo deixar de associar este estar num samba ouvindo e sendo ouvindo, cantando e gritando à condição daquele que reza e acredita.
Depois que se entende que o sexo é sempre um fracasso, a gente passa a dar mais valor as pessoas, a vida, a conversa. Ponto mais belo da vida.

Published in: on 04/09/2009 at 03:59  Comments (1)