De dentro do ônibus

Escutando minhas músicas, minhas melancolias ressonando nas charadas e cortes, nos gritos calados.

No metrô a caminho de Copacabana. Escutando também minhas músicas, brasileiras músicas, lembro-me de passar pelas entupidas estações, talvez Chandni Chowk, Central Secretariate ou quem sabe Kashmere Gate. Nessas estações de metrô de Nova Déli um dia parei para observara aquelas pessoas todas. Os indianos, cada um de um jeito, cada um com uma roupa e uma crença diferente. Monges budistas, mulheres tribais com roupas tão coloridas,  homens grandes e seus vistosos bigodes, esses misteriosos sikhs. Conversando com uma amiga falei que alguns Sikhs lembram tanto bandido de filme de James Bond. Ela não me achou um entnocentrista sem noção e ainda confidenciou, com graça: “É só estilo mesmo, eles são ótimos”. Dentro do vagão, olhando eles me olhando e pensando, “que bom estar aqui”. Eu, ali, quase distraído, quase banal, quase só pegando um metrô pra ir pra casa. Dentro do metrô a caminho de Copacabana me lembrei desses outros dias, desse outro metrô.

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Published in: on 29/05/2013 at 21:07  Deixe um comentário  

Músicas, ruas e amor.

Passo por uma casa de janelas escancaradas e escuto o bolero Sessão das Dez, ressoando. Na exata hora em que passava em frente à casa, Edy Star cantava: “Currtiu com meu côrrpo por mais de 10 anos e depois de tal engano, foi você que me deixou…”. Não sei porque diabos, mas imaginei um casal desses bem vagabundos, desses casais que mentem e trapaceiam e se enganam e se amam. Imaginei um casal desses que encontram outros corpos tentando encontrar amor. Imaginei um casal cujos desejos foram talhados juntos na safadeza pura. Imaginei esse casal perdido, esse casal que tanto se ama como mente honestamente, sem, contudo, se fiarem na tal fidelidade. Naquele exato momento, imaginei esse casal deitado numa cama, se amando; ele olhando para ela com olhares profundos de amor verdadeiro, ela aceitando também o olhar, sentindo que apesar dos outros e outras, é ele ali o que ela quer e gosta verdadeiramente. Virão sempre outros e outras, mas voltarão sempre a se  encontrar, brigar e amar. Essa música apaixonada soando pela rua é um belo ataque à moral e aos bons costumes.

Outro dia, andando por um pequeno e belo distrito das Minas Gerais escutei “Cama e Mesa” de Erasmo e Roberto Carlos enquanto também caminhava. Depois, noutro dia e noutra casa, escutei “Detalhes”. Na hora que passava Roberto avisava que “Se um outro cabeludo aparecer na sua rua, e isso lhe trouxer saudades minhas, a culpa é sua…”. E baixou na hora a compreensão transcendental de que aquele distrito no interior do país era o único habitat realmente natural das canções do Rei, qualquer outro lugar em que sua música toca é, certamente, carregada de impostura estética, passional e ontológica.

Andando me senti feliz por minhas escolhas e meus passos. Pelas músicas e ruas. Pelo amor.

Published in: on 11/11/2012 at 14:03  Deixe um comentário  

Descoberta

             Volta e meia volta.

     Quando conheci o disco-show “O importante é que a nossa emoção sobreviva” de Paulo César Pinheiro, Eduardo Gudin e Márcia, fiquei uma noite e três semanas em êxtase profundo, escutando e tentando decifrar o segredo da vida. Na casa de minha mãe, enquanto meu irmão fazia uma festinha com seus amigos, eu ficara ali absorvido pelo disco que acabara de baixar. A noite foi de deslumbramento. Foi quando também me apresentei ao Sr. Roberto Ribeiro. Ouvia esses discos absurdos, “novos”, mais uma vez, mais uma vez, mais uma vez. Ah, essa boa repetição! Como também aquela outra. “Onde você estava?”, “como vivi até aqui sem te escutar?”, ou “o que havia de tão importante na escola para nunca terem me ensinado a escutar isso?”. São os pensamentos que brotam nesses momentos. É um troço doido, uma alegria maior, e maior do que a música é a própria “descoberta”, a esperança que dá de saber que esse troço bonito existe mesmo, de verdade. Nesse momento a coisa fica.

     Em Salvador, sentado num albergue no Pelourinho escutei, enquanto esperava a Rita acordar, uma voz linda e grave, cheia de charme, vindo da rua. Fui lá na loja de música, origem do som, e perguntei quem é que estava cantando. “Ederaldo Gentil”, respondeu o rapaz. Registrei o nome para mobilizar um pouco minha obsessão quando voltasse de férias. Contrariando as estatísticas, acabei esquecendo… Passaram alguns meses e, semana passada, me deparei com a voz desse sujeito nas redes sociais da vida, exatamente com a música acima. Que coisa linda.

     A descoberta desse mundo secreto não deve nada às descobertas mais lindas da vida, do amor, da poesia, das mulheres. Principalmente quando elas deixaram a companhia de Platão e vieram, de mãos dadas com o velho Marx, entoando sambas e marchinhas, a me encontrar. E tudo isso aconteceu mais ou menos no mesmo momento, no final da escola/início da faculdade. Foi quando veio o samba e que se fez presente a mulher. Essas lembranças me mandam mais uma vez à amargurinha que sinto dos meus dias de escola, de minha adolescência…. Vivi tudo aquilo como uma prisão. Não me envolvi verdadeiramente comigo mesmo nessas relações com o mundo, as artes, os problemas de meu tempo, as paixões, as moças. Errei pouco, briguei pouco, maltratei pouco… Tinha medo dos efeitos de minhas ações, tinha medo de desagradar, de deixar minha mãe triste… Tinha medo. Imaginava um godfather mafioso e bravo, lá em cima a perguntar: “E aquele magrelo esquisito ali do lado, qual é a dele?” Alguém diria, “nada chefia, esse aí é figurante, liga não.”

     Descobrir as mulheres continuou no descobrir músicas, cantores, suas histórias, e a história que há por trás disso tudo. Saber que a letra de Regra Três foi, na verdade, uma segunda versão feita por Vinícius de Moraes, atacando pessoalmente Toquinho que não havia gostado da primeira versão, é algo bonito. Mas mais bonito ainda é entender que o ataque está nisso aqui, no: “tantas vocês fez que ela cansou / porque você rapaz, abusou da regra três / onde menos vale mais”. A letra é toda um puxão de orelha do poeta no parceiro que andava ludibriando sua amada de então, uma pobre e bela donzela indefesa, procurando outras e sempre mais, quando Vinícius lhe ensinava que menos vale mais.

     Foi nessa toada de solidão e descoberta, que pouco antes do Carnaval de 2005 me debrucei na vida de Noel Rosa. Já não sei o quê tanto me intimava para comparecer a Noel. Talvez apenas uma curiosidade mórbida, que naquele momento me assombrava. Perguntava-me como um sujeito que morreu tuberculoso aos 26 anos conseguiu compor tanta música (mais de 300) e viver uma vida tão intensa. Aos 22 anos sem sinal de tubérculos ou intensidade, andava assombrado pela possibilidade da solidão e da incapacidade de deixar marca alguma na terra. Passei aquele carnaval longe da música alta e dos desejos e carícias, trancado em casa lendo a volumosa biografia do compositor carioca, safado e bem-humorado da Vila. Noel compôs Gago Apaixonado pra sacanear seu vizinho que sempre cantava as músicas que ele gravava. “Canta essa agora meu chapa, canta?”. Ah como fui feliz naquele carnaval. Por um lado ficava ansioso com a ausência das mulheres reais, lembrando sempre do imperativo moral do filósofo Rubem Braga que dizia enquanto estou escrevendo, lá fora, na rua, passam mulheres. Minha obrigação era descer as escadas e ir vê-las”. Eu que nem escrevia, apenas lia, por outro lado, já suspeitava que os afagos não dados, mas bem guardados na estufa da imaginação, iriam se proliferar e se converteriam em beijos e olhares ainda mais bonitos e exuberantes, tempos depois.

     Noel Rosa e Mário Lago disputaram bravamente o coração de Ceci. Foi para Ceci que Noel compôs “Ultimo Desejo”. Ceci dizia sobre os dois amantes uma coisa interessante. Mário Lago, comunista de carteirinha do partidão, fazia longos discursos contra a opressão do capitalismo, mas vestia as melhores roupas e freqüentava os ambientes mais privilegiados, burgueses, daquele Rio dos anos 30. Já Noel, por sua vez, dizia a moça, nada dizia, mas andava sempre entre os pobres, vivendo com o povo, fazendo samba e não discurso. Em outro momento, ouvimos outra história. A esposa de Noel (sim, ele foi casado) desconfiando de suas saídas noturnas perguntou ao poeta aonde ele ia. Ele então sugeriu que ela o acompanhasse. Noel seguiu para a central do Brasil, entrou nesses trens que seguem para o subúrbio e lá, vendo o povo, compôs música. Era o que ele fazia. E era também o que fazia Odair José, sentado nas rodoviárias, nos cantos pobres da cidade, conversando com o povo e escrevendo música. Como psicólogo social, o que sou, não posso deixar de me encantar com isso tudo. Um dia ainda constará numa ementa de um curso de metodologia em psicologia social, um trecho da biografia do Noel e alguma coisa sobre Odair.

       Ah, e mais uma coisa, antes que me esqueça. Noel morou em Belo Horizonte, minha terra. Não agüentou, queria voltar para o Rio, para suas orgias, para seus sambas. Seu médico lhe aconselhou que ficasse em BH. No que o mestre disse: “Melhor um mês no Rio do que 10 anos em Belo Horizonte”. Se o seu julgamento foi justo ou não é coisa que não me cabe julgar, mas que ele acabou correto no seu dizer, isso sim, pois morreu pouco depois, no Rio de Janeiro.

Published in: on 14/03/2012 at 12:22  Comments (1)  

Bipianas # 4 – Um ser de luz

Sempre se canta no bip. Tem dias que me emociono mais, em outros só me emociono.

Sempre me lembro dessa história. Sempre me lembro da interpretação, se rasgando, do João Nogueira.

Dizer que é uma música é pouco. É outra coisa.

UM SER DE LUZ

“Me casei com Clara em 1975, e ela morreu aos quarenta anos, no auge de sua carreira e vitalidade, em 1983. De uma morte, fruto de uma negligência médica jamais provada. O Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro estava sob intevenção federal e foi designado um médico da Bahia para sindicância, e possível processo. Nada ocorreu, com de costume, com a blindagem protetora da corporação, que vulgarmente é chamada de Máfia de Branco.

Numa simples cirurgia de varizes na perna houve um choque anafilático, com consequências irreversíveis de lesão cerebral. Foi mais de um mês de um coma cruel, afetando toda a população do país. Uma das maiores e mais populares cantoras brasileiras. Clara era queridíssima pelos amigos e pelo imenso público, nação afora, gerando comoção e sandice. O pátio da Clínica São Vicente, na Gávea, bairro da zona sul do Rio, transformou-se num grande circo místico. Passei por maus pedaços tentando administrar o sanatório geral. Até o CTI quiseram invadir, com toda espécie de reza, simpatia, medicina popular alternativa, imagem de santo, água benta do Jordão, chá de raspa de madeira sagrada de Jerusalém, sarça do Sinai, acupuntura chinesa, garrafada africana, corrente espírita de oração em torno do leito, entortador de garfo, paranormais, médico alemão incorporado, o diabo a quatro. Foi uma maratona em que quase não se dormia ou comia. Eu chegava no hospital às seis e pouco da manhã, embicando o carro por uma porta lateral, pois não se podia passar em meio à multidão que se formou na entrada, numa vigília intermitente, e voltava pra casa quase a meia-noite. Alguns amigos mais próximos me ajudaram a segurar a barra durante a longa agonia de espera pela hora final. Dori Caymmi foi um deles e Danilo Rocha, meu advogado, o outro, fora claro, meus familiares e os da Clara.

O enterro foi dos mais emocionantes que essa cidade já teve desde sua fundação. O cortejo, saído da Portela, em Madureira, até o São João Batista, em Botafogo, atravessou diversos bairros. Por onde passou, o povo se aglomerou nas calçadas, com lenços brancos de despedida e aplausos sentidos. A massa parou e foi pras ruas homenagear seu ídolo. Todos choravam, alguns compulsivamente. Imaginem vocês como eu me encontrava…

O tempo passou. A vida voltou a seu curso. O cotidiano se impôs pra todos. Menos pra mim. Tudo estava revirado. Tudo mudara. E eu também. Pra onde eu ia ninguém me deixava esquecer. Não tive mais sossego. Me enclausurei. Pouco saía.

Um dia cruzei com Mauro Duarte e João Nogueira e parei pra tomar um gole, que era o que eu mais tinha gosto de fazer. Achei um absurdo quando João me propôs, num momento como aquele, compor um samba pra Clara, um samba de adeus. Mauro Bolacha já tinha o pedaço do que parecia um refrão, e João, o início da música. Recusei, quase encrespando com os dois. Não tinha cabeça pra pensar nisso. Nogueira, então, muito habilmente, me convenceu com o seguinte argumento.

– Paulinho, só você tem autoridade pra fazer esse samba. Se não fizer, vai pintar uma enxurrada de samba ruim sobre o assunto, e você vai ter que aturar, pra sempre, papo e melodia de merda no teu ouvido, onde quer que vá. E muitas. Se você topar, exorciza seus demônios, ao mesmo tempo que cala a voz dos oportunistas de plantão. Pensa nisso com mais calma. Sei que  o poeta ainda está sob o efeito da porrada. Mas vai valer é tua alma, companheiro. Ninguém vai se atever a arriscar um samba depois do teu.

João tinha razão. A melodia foi feita e eu criei os versos mais definitivos que pude do acontecimento. Ninguém ousou fazer outro, nunca mais. Porém foi de dilacerar o coração, e eu jamais consegui cantá-lo.

O nome é o título de uma crônica do meu querido amigo Arthur da Távola, escrita pra O Globo , feita naqueles momentos de agonia do coma.

UM SER DE LUZ

Um dia

um ser de luz nasceu

Numa cidade do interior

E o menino Deus lhe abençoou,

De manto branco ao se batizar

Se transformou num sabiá,

Dona dos versos de um trovador

E a rainha do seu lugar

Sua voz então

A se espalhar

Corria o chão

Cruzava o mar

Levada pelo ar

Onde chegava espantava a dor

Com a força do seu cantar

Mas aconteceu um dia

Foi quando o Menino Deus chamou

E ela foi pra cantar

Para além do luar

Onde moram as estrelas

E a gente fica a lembrar

Vendo o céu clarear

Na esperança de vê-la, sabiá!

Sabiá,

que falta faz sua alegria,

Meu canto agora é só melancolia

Canta meu sabiá

Voa meu sabiá

Adeus meu sabiá

Até um dia!

(Paulo César Pinheiro,História das minhas canções – São Paulo: Leya, 2010.

Um ser de Luz – p.194-198)

Published in: on 12/03/2012 at 04:13  Comments (1)  

Bipianas #2

Ironia.

Num domingos desses de samba no bip, aconteceu o seguinte. Em geral temos sempre mais cordas do que couros. Mas nesse dia a turma da percursão apareceu reforçada e o samba corria ainda mais bonito. Em determinado momento alguém puxou a maravilhosa Ilu Ayê, samba-enredo-exaltação-black-is-beautiful da Portela de 72.

Negro diz tudo, que pode dizer….

é samba, é batuque é reza, é dança, é ladainha

negro joga capoeira e faz louvação à rainha…

Negro é sensacional

é toda a festa de um povo é dona do carnaval”…

A coisa contagiou e os batuques foram assombrando. Forças ocultas se assomavam a alegria banal, gritos de hoje, gemidos de outro tempo. Um alumbramento se apossou de todos ali presentes. Conversões, absurdos e transmutações se avizinhavam ao momento… O pandeiro, o surdo e os demais  acompanhando/mandando no ritmo da alma.

Nisso, um branco com jeito de europeu, vira para os percurssionistas, a maioria de negros, e os manda diminuir o ritmo e tocar mais lentamente. Logo nessa música, meu deus. Logo nesse momento lindo de desvario. Ah, esse senhor que manda no feudo, no engenho ou só num samba em copacabana.

Os chicotes, sempre eles…

Agora vêm embutidos nas palavras.

Published in: on 11/12/2011 at 22:50  Deixe um comentário  

Dia do Samba

Um dos encontros mais fortes de minha vida foi com o samba. Nós sempre estivemos por aí sem entender muito da força desse encontro. Não me lembro direito quando entendi, ou ao menos vislumbrei o que tinha acontecido. O samba, uma reza, uma oração, uma visão de mundo, um desejo, um olhar… Síntese do Brasil, com todos os problemas e exclusões de qualquer síntese.

“Não, ninguém faz samba só porque prefere” Paulinho e João, nem mesmo escuta, toca ou canta.

No último fim de semana peguei o trem do samba para Oswaldo Cruz. Chegando lá me senti tão bem, tão feliz. Foi como chegar em casa.

Pois não é que Roberto Ribeiro me esperava.

Published in: on 05/12/2011 at 13:03  Deixe um comentário  

as canções #2

Acontece em qualquer lugar, muitas e muitas vezes.

Lembro-me, por exemplo, sentado sozinho num pub londrino ser completamente transportado para o calor do Rio ao ouvir aquelas coisas cariocas e tristes que o Moacyr Luz faz.

Quando começa a canção acima, nos primeiros acordes, no balançar do chocalho, vou logo parar em outro lugar. Outra casa, na qual durante um mês me vi sobre um chão. Casa que vivi na companhia amiga de mulheres sensíveis, bravas e fortes (como lhes convém). Essas meninas que encaram de forma leve as dores da vida, os vazios amorosos, as dificuldades financeiras. Me vejo sempre num quarto barulhento de botafogo com “carta de poeta”. Re-vivo as sensações estranhas que certa menina produzia em mim, ali, naquele momento. Quando nada sabia do quê viríamos a ser. Quando não tinha certeza, se ela que me dizia doce que viria me visitar, se viria mesmo. Veio…

É uma viagem, sem metáfora alguma. É só uma viagem para dentro da gente, de nossos sentimentos.

E viagem é aquela coisa, né?

Tem gente que gosta e tem gente que não.

Published in: on 05/11/2011 at 20:12  Deixe um comentário  

As canções #1

Fui embalado num estado de excitação delirante e lindo, desde o primeiro momento em que soube do mote do novo filme do Eduardo Coutinho, “As canções”. O mais bonito foi ter entendido, de antemão, que eu poderia criar toda a expectativa da vida, que eu poderia imaginar o filme mais lindo já feito na história da humanidade, que o filme ainda assim seria melhor do que o implícito nestas palavras vãs.

E na primeira cena do fime, tive certeza disso. Quantas vezes na vida, nossas experiências superam as expectativas germinadas em tanto carinho, emoção e zelo?

Desde então, em diversos momentos me pego pensando em músicas das minha vida. Músicas de mudança, músicas de fim, músicas de início. Músicas de infância. Música de aprender as nuances do amor, sem amar. Música de criar expectativa para quando o amor chegar. Música para escutar e admirar violeiro. Músicas de rir. Música para viajar por um Brasil outro, de relações, de sentimentos profundos, de dor e tragédia.

Ao escutar “casa de caboclo”, achando-a sem querer neste blog, absurdamente genial, veio uma tormenta de lembranças e sentimentos.

Os termos rurais, o linguajar simples do “vancê tá vendo, essa casinha simplisinha”, que “véve no abandono”. A sensibilidade pura do amor, que em três linhas diz tudo. “Quando Gazela viu Siá Rita, tão bonita, pôs a mão no coração… Ela pegou não disse nada, deu risada, pondo os óinho no chão”. Não seria exagero dizer que, essa mulher, que não diz nada, dá risada e põe os óinho no chão, foi A mulher que busquei em todas essas outras imaginárias que transitam por aí. E ainda o triste fim do amor, culminando no pessimismo, na solidão própria ao romantismo que tanto me embriagou nos anos primeiros, os anos solitários que vivi na imaginação de um mundo.

Foi ali, nas rodas de viola, nos olhares, no canto, nas músicas antigas. Foi na companhia dos velhos. Foi ali que fiz meu mundo torto. Não indicaria esse caminho para os moços, tenha paciência, vá errar mais e imaginar menos. Cada coisa ao seu tempo, calma, calma…

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.

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Calma…

Published in: on 29/10/2011 at 09:51  Deixe um comentário  

por precisão

Há algum tempo viajo na idéia de tentar precisar o exato momento de uma mudança. O momento da transformação de um lugar estranho em algo familiar. Um lugar, uma perna de mulher, uma mesa, uma pinta. Um sorriso, a conquista de uma intimidade. Essa preocupação com a dialética estranho/familiar me surgiu pela primeira vez ainda menino,  devia ter meus 10 ou 11 anos, quando me mudei para a rua grão mogol, número 1150, em Belo Horizonte. Lembro de entrar no prédio e achar tudo aquilo esquisito. Os objetos todos ali, me levavam a trabalhar, a juntar, a costurar e fazer relações: o piso de mármore branco da entrada, a rampa de inclinação leve, o corrimão, as escadas, o grande vão, as janelas. Depois mais escadas. E lá em cima o apartamento. Grande e antigo, sem mobília. Como é triste um apartamento sem seus móveis. E passados algumas semanas aquilo foi o meu lar. Casa da minha família, lugar de travessuras, lugar de ser campeão do mundo em 94, lugar de morte do Senna, lugar de desejo e solidão. Espaço no qual vivi por cerca de 6 anos. Lugar de vontades, de jogos e peladas, que com o tempo tornam-se épicas. Principalmente as partidas das sextas-feiras ao fim da tarde.  Lugar de mais peladas nas noites quentes de verão, numa “quadra” ou o que quer que fosse comprida e fina, de piso completamente irregular. Lugar de se descobrir bom em alguma coisa na vida. Bom de bola. Tempos depois, as 6 da manhã, caminhando para pegar o ônibus em direção a faculdade, eu cantava feliz os versos de Edu Lobo: “Brasileiro tatupeba taturana bom de bola, ruim de grana, tabuada sei de cor”. Ser bom de bola, ou ter sido foi algo necessário para minha vida, e só hoje me dou conta disso. Talvez o passo necessário para levar a sério minhas vontades,  para fazer valer objetivamente meus anseios, como foi a solidão da adolescência que me fez valorizar tanto isso do amor. Antes dos 11 anos eu era um péssimo jogador, e posso dizer, sem medo que foi ali na Grão Mogol que as coisas mudaram. Devaneio. Volto ao ponto: foi nesse prédio que tive uma certa consciência explícita dessa mudança do estranho ao familiar.

Isso me voltou uns dias atrás quando passei na rua General Polidoro. Ali ando vivendo a experiência dupla, estranho-familiar e depois familiar-estranho, novamente. Do espaço estranho que vira familiar e que depois volta à desatenção saudável dos prédios pelos quais se passa. Ali, nessa rua, que tantas vezes passei, por alguns anos a caminho da faculdade e de casa, foi ali que morei durante um mês. O prédio situado à frente da banca que parava, nesse outro tempo, para ler notícias, que parava para ver e rir ou chorar com a manchete do Meia. Ali, morei durante um mês. Um mês lindo, lírico. Um mês de pausa e trabalho. Um mês no qual reconstruí um mundo, um tanto devastado. Um mês no qual fiz daquele espaço uma casa e também um ninho, o mais bonito. Com segurança posso dizer que apenas no primeiro dia estranhei o ambiente. No segundo já me familiarizei com suas maravilhosas e vivas moradoras, com suas as quinas e móveis. E agora, passo mais uma vez na porta dessa casa que agora volta, lentamente, a ser espaço de passagem. Lembro de chegar a janela e pensar como é bonito morar e ter uma janela de frente para a rua, e na primeiro noite perceber como também é barulhento isso. E aí descobrir o quanto sou sensível ao barulho. Ainda descobriremos coisas assim, óbvias, pela vida a fora.

O olhar cotidiano daqueles prédios, daquelas construções banais, o olhar bêbado, pela manhã, ou sóbrio pela madrugada, de dias sozinho ou acompanhado, adquiriu sentimentos agudos e lembranças. Foi um mundo que se forjou nesse mês. E esse mês segue transposto ao infinito. Dentro de dezenas de anos, envelhecido e mais chato, quando um garoto me disser que mora na rua General Polidoro, eu lhe direi com graça: “Garoto, eu já morei na rua General Polidoro, em Botafogo, próximo ao cemitério, né?”. Agora, esse estado de coisas retorna a um certo desconhecimento, a coisa blasé tão bem colocada por Simmel no seu clássico sobre a metrópole e a vida mental. Eu sigo, e volto a passar por lá, agora com desatenção e pressa.

Volto, passo na frente do prédio e apenas olho as manchetes do Meia.

Published in: on 30/09/2011 at 13:53  Comments (2)  

B de Bip-Bip

“Eu chego lá, parece que cheguei em casa. Cheguei na maravilha, cheguei no céu, cheguei aonde eu queria chegar.”

 

Published in: on 30/08/2011 at 21:05  Deixe um comentário