Enquanto Freud explica, o diabo fica dando uns toques #1

Se estiveres muito feliz, tome cuidado quando houver pessoas ao seu redor.

Pois elas podem não estar.

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Published in: on 31/10/2011 at 02:05  Deixe um comentário  

 Fui buscar meus trastes, meus rasgos, minhas poeiras… E assim cheguei mais uma vez ao meu primeiro blog, “A vida tem sempre a razão”.

Engraçado… Essa frase da letra de Vinicius,  sua reverberação, sua potência sutil e displicente num samba redondinho do Toquinho contém toda uma filosofia, uma epistemologia complexa, que primeiro chegou de forma pré-reflexiva e tempos  depois foi adquirindo consistência teórica. Às vezes acho que é isso…. Filosofia, ciência é o que a gente faz com nossas intuições mais verdadeiras… As verdades que nos habitam.  Vinícius conseguia colocar em sua música princípios abstratos e fundamentais de forma tão sintética, que uma simples frase dariam sei lá quantas teses de doutorado. Como aquela outra da mesma música que diz que a hora do sim é um descuido do não. Vê se a gente não consegue tirar uns Heideggers, Bergsons e Derridas de frases assim? Ou então o que dizer de “Ah, não existe coisa mais triste que ter paz, e se arrepender, e se conformar, e se proteger, de um amor a mais…/ Que não seja meu o mundo em que o amor morreu.

Bom, mas não é disso que queria escrever.

Ao voltar aos meus textos antigos encontrei esse aqui, sobre meu pai, nossos reencontros, sobre a dor.

Nossos momentos

Lembro com muito carinho desses nossos momentos. São para mim os momentos mais doces ao seu lado. Pelo menos os momentos mais lindos de que me lembro. Dele comigo, ele: meu pai. Com certeza houve outros momentos de mais mistério e encanto, momentos de mais amor e carinho, de pura surpresa, de meninice, momentos de aprender a andar e de sorrir. Mas não me lembro desses dias, dessa meninice minha. Você deve se lembrar, talvez não, quem sabe. De minha memória tenho esses dias, há poucos anos, que nós sentávamos em um bar, cada um com sua respectiva tristeza, que talvez fosse a mesma, a angústia de existir, a saudade, a solidão, nada mesmo nunca foge muito disso. Sentávamos em um bar que prezava em continuar vazio, ficávamos nós e os garçons a beber cerveja, nós bebíamos e eles nos serviam. Ora ou outra, eles pediam uma música, ou contavam uma piada. Mas no mais era eu, você, o Lú e o violão. Éramos tristes alegres. Você se recolhia humildemente no bar todo dia depois de tais horas, não havia muita diferença de domingo e quarta-feira. Nós íamos quando dava pra ir. Tomávamos cerveja e você cantava todas as músicas que o universo te permitia cantar. Samba, rock’roll, tangos e boleros, sem ordem alguma, ou mesmo pudor, e tudo com a mesma paixão. A cerveja, a música, o clima que só um bom bar tem. A brisa do bar.
Às vezes tínhamos companhia, o Flavio, o Chico, o Bruno e o Lulu. Esses todos irmãos, todos sempre alegres e apaixonados pelo som da viola. Eu sem vergonha nem nada te pedia um “Ultimo Desejo”, mas que era sempre o primeiro, e depois pedia “Across the Universe”, sem a menor coerência. Na primeira música sempre cantávamos com paixão: “…e às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que o meu lar é um botequiiimmm!!!”
Cantávamos com tamanha ênfase nesse “botequim” que os mais desavisado deviam achar que de fato morávamos no botequim. Noel, Buarque, Beatles, Vinicius e Toquinho, The Doors, Cartola, e tinha sempre aquela música do Djavan que você não lembrava nunca, e o que eu achava uma pena. Era uma cantoria alegre e feliz, apesar de saber que estávamos ali, mais tristes e meio abandonados do que de fato felizes; sei que agora você anda mais feliz do que “naquele tempo”, mas eu, eu sinto meu “peito vazio”, sinto saudade de suas “cordas de aço”, que bem a tempo, sempre foram de nylon. Um violão, cerveja (mesmo que meio contada, ou talvez por isso), um carinho no ar, uma reunião, uma união, uma comunhão tal que, infelizmente só ocorria no bar. E foi assim que depois de 19, 20 anos eu comecei a conhecer meu pai. Sua incapacidade de terminar uma música, as suas manias, o copo sempre cheio (reclamando muito quando abaixava um dedo que fosse), sempre meio apressado, meio intranqüilo, querendo agradar às mesas simpáticas ao redor, e claramente desagradar a quem ali não gostasse do que fazia, falando alto, cantando alto, sem cobrar nada, uma grande figura. Foram nossos melhores momentos. A distancia nossa sempre foi encurtada pelo caminho da cerveja e do violão.

Published in: on 19/05/2011 at 12:20  Comments (3)  

Em casa…

Confesso que gosto de um bar. Gosto da conversa de bar. Gosto da cerveja do bar (que é bem diferente as outras). Gosto de garçom bem humorado, e mais dos mal-humorados. Gosto do barulho de gente falando. Gosto do cheiro do bar.

E as conversas que começam nesse bar e terminam em qualquer outro. Ou as que nunca terminam. As conversas e os bares que lembraremos eternamente. E há ainda conversas e pessoas que esqueceremos amanhã.

Aprendi a gostar de bar odiando. Ia criança com meu pai, meus irmãos também crianças, e o violão. Odiava a cerveja, o bar, o violão. Mas como diz a Psicanalhise, o tempo passa e a gente ressignifica as cosas. E passei a entender a beleza daquilo.

Ah… e quando eu e meu pai, já em outra época, cantávamos juntos “Último Desejo” do Noel confesso que cantava com a paixão maior da vida os versos:

“às pessoas que eu detesto,

diga sempre que eu não presto,

QUE O MEU LAR É UM BOTEQUIM..”

Foi nessa época que descobri que meu pai brincava com seu nome, Bacelar, virava Barseular…

E eu que sou mais conhecido pelo nome de minha mãe, Prosdocimi, que até gosto mais, fui entender que devo muito dessa alegria, do brilho, do amor pela noite com suas pessoas bonitas que a gente vê por aí, ao barrigudo (de cerveja) do meu pai.

Então é isso. É o que veremos por aqui. Relatos da vida, das coisas bonitas. Os delírios e devaneios tolos ou não. Também falarei das coisas que vão contra o bar. Que atentam contra essa nossa alegria pública.

Published in: on 12/12/2008 at 20:48  Comments (1)