ORAÇÃO AO AMOR

Para Rita,

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Quando encontrar uma mulher ou um homem, por quem julgues estar apaixonado.

Quando se deparar com essa outra pessoa, essa que você julga amar, e amar é apenas infinito. Embarcação que nunca chega, sem princípio. Quando julgar ter encontrado tal pessoa, faça o seguinte teste. Conjugue tua mulher/homem/amante na oração “o passado da mulher amada” de Rubem Braga. Leia a oração em voz alta olhando para seu objeto de amor. Braga, talvez sem a intenção, criou não “apenas” uma das mais belas crônicas já escritas, mas todo um complexo sistema ético-lírico-existencial que permite, objetivamente, entender se há ou não amor.

 Se, frente ao seu objeto de amor, consegues dizer a seguinte oração, olhando nos olhos da amada, capturando nesse momento todos os enleios provocados pelo texto, sim! Aí está o amor. Caso contrário, continue procurando. E o mais importante não desista como fazem muitos, trancando-se num quarto escuro, ou ainda deleitando-se com prazeres confortáveis e rotineiros. Busque teu infinito!

Assim diz a oração à amada:

“Benditos teu pai e tua mãe; benditos os que te amaram e os que te maltrataram; bendito o artista que te assustou e te possuiu, e o pintor que te pintou nua, e o bêbedo de rua que te assustou, e o mendigo que disse uma palavra obscena; bendita a amiga que te salvou e bendita a amiga que te traiu; e o amigo de teu pai que te fitava com concupiscência quando ainda eras menina; e a corrente do mar que te ia arrastando; e o cão que uivava a noite inteira e não te deixou dormir; e o pássaro que amanheceu cantando em tua janela, e a insensata atriz inglesa que de repente te beijou na boca; e o desconhecido que passou em um trem e te acenou adeus; e teu medo e teu remorso a primeira vez que traíste alguém; e a volúpia com que o fizeste; e a firme determinação, e o cinismo tranqüilo, e o tédio; e a mulher anônima que te vociferou insultos pelo telefone; e a conquista de ti por ti mesma, para ti mesma; e os intrigantes do bairro que tentaram te envolver em suas teias escuras; e a porta que se abriu de repente sobre o mar; e a velhinha de preto que ao te ver passar disse: “moça linda…”; bendita a chuva que tombou de súbito em teu caminho, e bendito o raio que fez saltar teu cavalo, e o mormaço que te fez inquieta e aborrecida, e a lua que te surpreendeu nos braços de um homem escuro entre as grandes árvores azuis. Bendito seja todo o teu passado, porque ele te fez como tu és e te trouxe até mim. Bendita sejas tu.”

E se passado tal momento de devoção conseguires criar uma versão singular para tal oração, colocando tuas palavras nos sentimentos de amor, dor, gozo, tédio, riso, felicidade eterna, nos sentimentos dela, dela e só dela, sem você, quando você não existia, aí sim… Aí terá superado esta barreira tão difícil. Saber que ela ou ele não é você. Mas será que você conseguirá bendizer todos os amores passados de sua grande paixão? Todas as dores, os momentos de fraqueza e vergonha? E o pior, conseguirá olhar nos olhos dela ver e agradecer pelas sacanagens ocultas em noite de delírio e entorpecimento dos sentidos, todos? Conseguirás não apenas aceitar e mais ainda, bendizer, a existência daquele rapazinho que fez seu docinho de coco, revirar os olhinhos de prazer? Ou dirás, na próxima vez que encontrar o outro, ainda que em pensamento, muito obrigado por ter amado essa mulher tanto, a ponto dela nunca mais te esquecer? Aceitará em seu coração que houve um ainda escolhido apenas por ser bonitinho, mais do que você, ou ainda aquele que você nunca vai entender o que é que ela viu nele? E o cabeludo que apareceu na rua dela antes de você? Conseguirá sentir, mais do que pensar, que fossem outros, fosse nenhum, não seria você? Foram eles também que te colocaram aqui, agora, na frente dela! Nós nos querendo, nus: desejando.

 

Published in: on 18/05/2013 at 02:08  Comments (1)  

Deixa estar

“O que, por começo, corria destino para a gente, ali, era: bondosos dias. Madrugar vagaroso, vadiado, se escutando o grito a mil do pássaro rexenxão – que vinham voando, aquelas chusmas pretas, até brilhantes, amanheciam duma restinga de mato, e passavam, sem necessidade alguma, a sobre. E as malocas de bois  e vacas que se levantavam das malhadas, de acabar de dormir, suspendendo corpo sem rumor nenhum, no meio-escuro, como um açucar se derretendo no campo. Quando não ventava, o sol vinha todo forte. Todia dia se comia bom peixe novo, pescado fácil: curimatã ou dourado; cozinheiro era o Paspe – fazia pirão com fartura, e divida a cachaça alta. Também razoável se caçava. A vigiação era revezada, de irmãos e irmãs, nunca faltava tempo para à toa se permanecer. Dormi, sestas inteiras, por minha vida. Gavião dava gritos, até o dia muito se esquentar. Aí então aquelas fileiras de reses caminhavam para a beira do rio, enchiam a praia, parados ou refrescavam dentro d’água. Às vezes chegavam a nado até em cima duma ilha comprida, onde o capim era lindo verdêjo. O que é de paz, cresce por si: de ouvir boi berrando à forra, me vinha idéia de tudo só ser o passado no futuro. Imaginei esses sonhos. Me lembrei do não-saber. E eu não tinha notícia de ninguém, de coisa nenhuma deste mundo – o senhor pode raciocinar. Eu queria uma mulher, qualquer. Tem trechos em que a vida amolece a gente, tanto, que até um referver de mau desejo, no meio da quebreira, sorve como benefício”.

João Guimarães Rosa

Grande Sertão: Veredas, p. 287, ed. Nova Fronteira

Published in: on 10/02/2012 at 23:41  Deixe um comentário  

Entre

Olho a porta entre aberta. Nus barulhos da casa, visão alguma dela. Mais uma vez entre. Antes entre o banheiro e o quarto. Antes entre o pecado e a afirmação. Antes entre a ingenuidade e o cinismo. Agora entre o calornaval. Ah, esse segundo duas semanas entre o desespero e o encontro, entre angústia-incerteza e felicidade-besta, estúpida e bovina. Quase mesmo criminosa, aflitiva e também culpada. Nada de flores, nada. Uma intranquilidade sombria. Um desespero mesmo por tudo aquilo que agora não é, não está, não tem. Ou tem, mas acabou, ou está em falta. Olhando a porta entre-aberta, lembrando de outras portas de outros lugares de outros. Entre. O barulho do banheiro que não é. Que lembra a espera daquela não aquela. É outra. A porta aberta, ela vem e acaba entre. Acaba na hora. Ela chega, acaba. Um entre que é o fim. A porta entre-aberta, quantos anos a porta entre-aberta, quantos minutos. Quantas vezes do banheiro para o quarto, quantos minutos, 2. Escova, água, fecha torneira, água, descarga, água. Sons de ela já vem. Ainda não, ainda entre.

Published in: on 06/02/2012 at 16:25  Comments (2)