Despedida, com decência e melancolia.

“Como se sai do fundo do poço? A pungência não só da pergunta, mas de uma eventual resposta, ajuda a explicar o afeto de Eduardo Coutinho pelo personagem que encerra Peões – o metalúrgico Geraldo -, cuja fala, cheia de decência e melancolia, é uma lenta progressão rumo à consciência de um impasse. Geraldo viveu o período das grandes greves do ABC. Aquilo não voltará mais, as condições históricas agora são outras. Não tendo mais emprego certo, ele roda pelas fábricas do país em busca de trabalho temporário. É uma existência dura, na contramão da felicidade. Geraldo é forçado a se afastar da família para poder sustentá-la em lides que já não forjam laços duradouros de solidariedade e luta.

Esse é o quadro que descrevia quando Coutinho lhe pergunta se tem saudade da fábrica. Ele esboça um sorriso: apesar de todo o sofrimento, às vezes tem, sim. ‘Quer que teus filhos sigam a profissão?’ (a edição eliminou a pergunta de Eduardo). ‘Não, espero que eles não passem o que eu passei, não’, responde, caindo no poço. Ele desvia o rosto, seus olhos marejam. ‘Espero que não’. A câmera segue rodando, num silêncio cada vez mais pesado. Para quem assiste, a sensação é a de uma homem que se afoga.

Se Geraldo parasse aí, se não repicasse, seria a derrota. Mas então ele se salva. Triste, vira-se para Coutinho: ‘O senhor já foi peão?’ De um golpe – e é disso que se trata -, o impasse já não é só dele. Agora é também do inquisidor, responsável, involuntário por atirá-lo no buraco. É como se Geraldo dissesse: ‘Por favor, não julgue o meu silêncio porque você nunca saberá o que eu passei’. Com cinco paalvras, ele afirma a singularidade de sua vida. A desolação que se segue comove e suscita respeito, nunca piedade. Geraldo não lamenta sua vida, antes a enfrenta com uma coragem muda”.

JOÃO MOREIRA SALLES – “Morrer e nascer – duas passagens na vida de Eduardo Coutinho” (p.364-5)

Eduardo Coutinho – Milton Ohata (org.) São Paulo: Cosac Nayfy, 2013

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Published in: on 01/04/2014 at 20:03  Deixe um comentário  

América Latina #3

1968

Cidade do México

REVUELTAS

Tem um longo meio século de vida, mas a cada dia comete o delito de ser jovem. Está sempre no centro do alvoroço, disparando discursos e manifestos. José Revueltas denuncia os donos do poder no Mexico, que por irremediável ódio a tudo o que palpita, cresce e muda, acabam de assassinar trezentos estudantes em Tlatelolco:

– Os senhores do governo estão mortos. Por isso matam.

No México, o poder assimila ou aniquila, fulmina com um abraço ou com um tiro: os respondões que não se deixam meter no orçamento público são metidos na cadeia ou no túmulo. O incorrigível Revueltas vive preso. É raro que ele não durma em cela e, quando não é lá, passa as noites estendido em algum banco de praça ou num gabinete da universidade. A polícia o odeia por ser revolucionário e os dogmáticos, por ser livre; os beatos de esquerda não lhe perdoam sua tendência aos botequins. Há algum tempo, seus camaradas, puseram nele um anjo de guarda, para que salvasse Revueltas de toda tentação, mas o anjo terminou empenhando as asas para pagar as farras que faziam juntos.

(p.275)

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1969

Bogotá

OS GAMINES

Têm a rua como casa. São gatos no pulo e no bote, pardais no voo, galos valentes na briga. Vagueiam em bando, em esquadrilhas; dormem feitos cachos, grudados pelo gelo da madrugada. Comem  o que roubam ou as sobras que mendigam ou o lixo que encontram; apagam a fome e o medo aspirando gasolina ou cola. Têm dentes cinzentos e caras queimadas pelo frio.

Arturo Dueñas, da turma da Vinte e Dois, vai abandonar o bando. Está farto de dar a bunda e levar surras por ser o menor, o percevejo, o manteiga derretida; e decide que é melhor se mandar sozinho.

Uma noite dessas, noite como qualquer outra noite, Arturo desliza debaixo de uma mesa de restaurante, agarra uma coxa de galinha e erguendo-a como estandarte foge pelas ruelas. Quando encontra um canto escuro, senta-se e janta. Um cãozinho olha para ele e lambe os beiços. Várias vezes Arturo o expulsa e o cachorrinho volta. Se olham: são iguaizinhos os dois, filhos de ninguém, surrados, puro osso e sujeira. Arturo se resigna e oferece.

Desde então andar juntos, caminhaalegres, dividindo as sortes e os azares. Arturo, que nunca falou com ninguém, conta suas coisas. O cachorrinho dorme acocorado a seus pés.

Em uma maldita tarde a polícia agarra Arturo roubando pão, arrasto-o para a Quinta Delegacia e ali lhe dão uma tremenda de uma sova. Tempos depois Arturo volta à rua, todo maltratado. O cachorrinho não aparece. Arturo corre e percorre, busca e rebusca, nada. Muito pergunta e nada. Muito chama, e nada. Ninguém no mundo está tão sozinho como este menino de sete anos que está sozinho nas ruas da cidade de Bogotá, rouco de tanto gritar.

(p.277-8 )

(O século do vento – Eduardo Galeano. Tradução Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM  Pocket)

Published in: on 18/06/2013 at 16:48  Deixe um comentário  

América Latina #2

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(Vendo as imagens da violência policial contra os manifestantes em São Paulo, nos últimos dias, lembrei-me dessa passagem abaixo desse belo livro do Eduardo Galeano, sobre a historia da América Latina. Os donos do poder são sempre os mesmos, estão sempre atrelados ao grande capital e estão sempre perpetuando uma violência inimaginável)

1968

CIDADE DO MÉXICO

Os Estudantes

invadem as ruas. Manifestações assim, no México, jamais foram vistas, tão imensas e alegres, todos de braços dados, cantando e rindo. Os estudantes gritam contra o presidente Díaz Ordaz e seus ministros, múmias com bandagens  e tudo, e contra os demais usurpadores daquela revolução de Zapata e Pancho Villa.

Em Tlatelolco, praça que já foi matadouro de índios e conquistadores, acontece a cilada. O exército bloqueia todas as saídas com tanques e metraladoras. No curral, prontos para o sacrifício, os estudantes se apertam. Fecha a armadilha um muro contínuo de fuzis com baioneta calada.

Os focos luminosos, um verde, outro vermelho, dão o sinal.

Horas depois, uma mulher busca o filho. Os sapatos deixam pegadas de sangue no chão.

(299 e 347).

p.273

(O século do vento – Eduardo Galeano. Tradução Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM  Pocket)

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Published in: on 14/06/2013 at 11:15  Deixe um comentário  

América Latina #1

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Tem sido bonito acompanhar as estórias da América Latina pela sensibilidade de Eduardo Galeano com o seu “Memórias do Fogo”. Comecei pelo último livro, “O século do Vento”, sobre o século XX.

No início do livro tem uma seção chamada: “Este livro”, que assim se explica:

É o volume final da trilogia Memórias do fogo. Não se trata de uma antologia, e sim de uma criação literária, que se apoia em bases documentadas, mas se move com inteira liberdade. O autor ignora o gênero ao qual pertence esta obra: narrativa, ensaio, poesia épica, crônica, depoimento… Talvez pertença a todos e a nenhum. O autor conta o que ocorreu, a história da América e sobretudo da América Latina; e gostaria de fazê-lo de tal maneira, que o leitor sinta que o acontecido torna a acontecer enquanto o autor conta. 

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1910 – Colônia Maurício.

TOSLTOI

Desterrado por ser pobre e judeu, Isaac Zimerman veio parar na Argentina. A primeira vez que viu um chimarrão achou que era um tinteiro, e a caneta lhe queimou a mão. Neste pampa levantou seu rancho, não longe dos ranchos de outros peregrinos também vindos dos vales do rio Dniester; e aqui teve filhos e colheitas.

Isaac e sua mulher têm muito pouco, quase nada, e o pouco que têm é tido com graça. Uns caixotes de verdura servem de mesa, mas a toalha parece sempre engomada, sempre muito branca, e sobre a toalha as flores dão cor, e as maçãs, aroma.

Uma noite, os filhos encontram Isaac sentado frente a esta mesa, com a cabeça nas mãos, derrubado. À luz da vela descobrem sua cara molhada. E ele conta. Diz a eles que por acaso, por puro acaso, acaba de ficar sabendo que lá longe, lá na outra ponta do mundo, morreu Leão Tolstoi. E explica para eles quem era esse velho amigo dos camponeses, que tão grandiosamente soube retratar seu tempo e anunciar outro.

(O século do vento – Eduardo Galeano. Tradução Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM  Pocket. pp51)

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1923, El Callao

MARIATEGUI

Depois de viver alguns anos na Europa, José Carlos Mariategui regressa ao Peru, de navio. Quando foi embora era um boêmio da noite limenha, cronista de turfe, poeta místico que sentia muito e entendia pouco. Lá na Europa descobriu a América: Mariategui encontrou o marxismo e encontrou Mariatégui, e assim soube ver, à distância, de longe, o Peru, que de perto não via.

Mariatégui acha que o marxismo integra o processo humano tão indiscutivelmente como a vacina contra a varíola ou a teoria da relatividade, mas para peruanizar o Peru é preciso por começar por peruanizar o marxismo, que não é catecismo nem cópia a carbono, e sim, a chave para entrar no país profundo. E as chaves do país profundo estão nas comunidades indígenas despojadas pelo latifúndio estéril mas invictas em suas socialistas tradições de trabalho e vida.

(O século do vento – Eduardo Galeano. Tradução Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM  Pocket. pp93)

Published in: on 27/05/2013 at 19:36  Deixe um comentário  

Diário estratégico-digestivo-ideológico de campo #6

Um dos textos que mais me impressionou nos anos de faculdade de psicologia foi o texto “Estratégias discursivas ideológicas”, de autoria da psicóloga social Maritza Montero. O texto não é absolutamente genial, mas é foda. A autora analisa os discursos de candidatos políticos demonstrando como uma frase simples está repleta de conteúdo ideológico. O bom marxismo de botequim. Por exemplo, aquele candidato de oposição que profere uma sentença simples como: “agora, vamos trabalhar!”, na verdade está dizendo ispsis literis que o candidato da situação não fez absolutamente nada fez em seu mandato. A autora lista formas ideológicas do discurso e seus recursos estratégicos. O que gosto do texto é exatamente seu caráter simples, sintético, a determinação positiva do elemento ideológico de uma sentença. O texto inclusive é lindo para ser lido em época eleitoral. Foi o caráter sintético do texto o que mais me chamou atenção quando comecei a namorar a srta.psicologia social, que a tudo “problematizava”, sem no entanto me dar nenhuma certezazinha para emendar os rasgos que fazia na minha maneira de ver a vida.

Esse texto me veio a mente há uns 2 meses aqui em Conceição do Mato Dentro. Na semana do meio ambiente, foi realizada uma série de  oficinas, debates e teatrinhos sobre o tema. Pelo que entendi muitos desses eventos foram patrocinados pela Anglo American, empresa responsável pela mineração aqui na região da Serra da Ferrugem, e por suas sub-contratadas.A programação da semana não foi divulgada com antecedência e com isso não consegui saber dos conteúdos e proponentes do debate. Só fiquei sabendo no dia que tinha uma viagem marcada. Sendo assim dei um jeito de ir ao local para ver o que acontecia. Queria ver como estava organizada a semana e quem promovia os debates. Cheguei na hora que começaria uma apresentação sobre biodiversidade. Um punhado de crianças barulhentas de 8, 9 e 10 anos preenchiam o espaço. Na frente das crianças, uma mulher carioca com uniforme da Anglo começaria dali a pouco a apresentar alguns slides mal ajambrados, falando sobre a natureza e a ecologia. Fotos do planeta, da vegetação do cerrado e da mata atlântica, dos animais, das flores e até mesmo uma famigerada composição na qual ela dizia que existem pessoas que trabalham pela preservação da biodiversidade, ilustrando tal passagem com a foto de um funcionário da Anglo American. Fiquei ali reparando nos meninos. Eles não prestavam atenção. A apresentação era cuidadosamente mal feita, produzida às pressas, certamente feita para um público mais velho e adaptada praqueles meninos. Num momento de balbúrdia mais intensa a moça usou um artifício belíssimo. Ela disse que depois da apresentação “teria teatrinho e depois lanche, refrigerante e pipoca, (senão me engano), mas só haveria lanche para aqueles que ficassem quietinhos”.

Nessa hora embarquei direto para a minha 6ª série no colégio Santa Dorotéia, em Belo Horizonte. Naquele ano fomos com o professor de Geografia conhecer o processo de extração do minério de ferro. Fomos para a antiga MBR ali em Nova Lima (hoje Vale). Fiquei bastante espantado com o tamanho das rodas de alguns caminhões, mas o que mais me lembro desse dia foi que no refeitório havia uma máquina de refrigerante. E o mais importante: a gente podia pegar o tanto de refrigerante que quisesse!

Eis aí a estratégica ideológica digestiva.

Essa promessa de abundância, de infinito, onde mais a veria? Em que outro lugar do mundo poderia tomar quanto refrigerante quisesse?

Interessante a aposta das grandes corporações em ganhar crianças na base de balas, doce, teatro, mentira e refrigerante.E aí me pergunto, por que dão tanta importância para esse público?

É preciso enfrentar essas estratégias digestivas. Não sei como. Há coisas tristes e importantes acontecendo, coisas que não se come e que NÃO deveriam poder repetir.

Diário histórico-político-reflexivo de campo #4

O livro “O Campo e a Cidade” do inglês Raymond Williams tem sido uma fonte de diálogo constante entre e o meu campo de pesquisa e mim mesmo. No livro, venho encontrando avisos sobre armadilhas conceituais, uma crítica do problema do fetiche que embasa nossa visão acerca do que é o “campo”e “a cidade”. Como atribuimos valor e significado a estes espaços sociais de individualismo ou coletivismo, da intensidade produtiva ou da subsistência, do passado e do futuro. Dessa forma, o livro funciona como um alarme que me avisa para não ir por ali, para não seguir tal ou qual caminho.No entanto, o longo trecho que transcrevo abaixo tem uma função diferente.

A função é menos anti-fetichista, destrutiva de idéias pré-concebidas e mais performativa, romântica, criadora. Associei tal passagem a coisas que tenho visto e ouvido nas conversas com os moradores das áreas rurais do entorno do projeto Minas-Rio. Alguns desses moradores que vivem em áreas diretamente atingidas pelo projeto minerário, que terão que sair de suas terras e que aguardam muito tempo por uma solução final. Acordos são firmados e vem sendo descumpridos, postergados, pela empresa mineradora. Senhores e senhoras que param de plantar e de cuidar do gado, pois assim devem proceder segundo a empresa. A desonestidade escancarada, o engodo. Alguns resistem e tentam levar uma vida normal. Outros acreditam que são impedidos de fazer qualquer roça e vão vivendo na base da espera. Além de muitos outros problemas, há a qualificação de moradores como “emergenciais”, aqueles que devem ter suas negociações e reassentamento priorizados. Mas a estúpida gramática nos engana. A emergência não se refere aos problemas reais que vivem pessoas e comunidades no meio de áreas degradadas, pessoas que viviam cercadas de rios corpulentos e agora vivem no meio de veios de lama. A emergência se dá pelo risco de atraso para a obra, pelo risco de diminuição do lucro, do faturamento dos investidores.

“Porém o imperialismo político sempre foi apenas uma etapa. Foi precedido por controles econômicos e comerciais, quando necessário, apoiados pela força. Foi sucedido por controles econômicos, monetários e comerciais que mais uma vez, sempre que encontram resistências, são imediatamente apoiados pela intervenção política, cultural e militar. Nesse sentido, as relações dominantes continuam sendo do tipo cidade-campo, e a exploração é levada ao ponto máximo.

O que se propõe enquanto ideia para ocultar essa exploração é uma versão moderna da velha ideia de ‘melhoramento’: uma hierarquização das sociedades humanas culminando, teoricamente, com uma industrialização universal. Todo o ‘campo’ haverá de se transformar em ‘cidade’: eis aí a lógica desse desenvolvimento: uma simples escala linear, ao longo da qual podem-se assinalar graus de ‘desenvolvimento’ e ‘subdesenvolvimento’. Mas a realidade é bem diversa. Muitas das sociedades ‘subdesenvolvidas’ foram desenvolvidas justamente a fim de satisfazer as necessidades dos países ‘metropolitanos’. Povos que praticavam a agricultura de subsistência foram transformados, através da força econômica e política, em economias centradas em grandes fazendas, na mineração, ou na monocultura. (…) O investimento concentrado nesse tipo de oferta, e na infraestrutura político-econômica que ela pede, traz a essas áreas ‘rurais’ especializadas um fluxo constante de riquezas, que por sua vez tem o efeito de acentuar ainda mais as inter-relações de dominação. A situação é essencialmente a mesma, seja o produto em questão café ou cobre, borracha ou estanho, cacau, algodão ou petróleo. E a chamada ‘ajuda’ concedida aos países pobres é, com raras exceções, uma acentuação desse processo: o desenvolvimento de suas economias de modo a se adaptarem às necessidade da metrópole; a preservação de mercados e esferas de influência; ou a perpetuação do controle político indireto, mantendo no poder um regime dócil; opondo, pela intervenção militar se necessário, todo e qualquer processo que vise proporcionar a essas sociedades um desenvolvimento independente, basicamente voltado para os interesses locais (…) A esse conflito sobrepõe-se uma camada ideológica: o conceito abstrato de ‘desenvolvimento’, segundo o qual o país pobre está caminhando no sentido de tornar-se um país rico, do mesmo modo como, na Inglaterra industrial do século XIX, o homem pobre era encarado como alguém que, se tivesse a mentalidade correta e se esforçasse, poderia caminhar no sentido de tornar-se um homem rico, mas no momento ainda estava numa etapa inicial de seu desenvolvimento. O fato, porém, é que o abismo entre nações ricas e nações pobres está aumentando, com consequências tão importantes que estão determinando o futuro do mundo”.

(Raymond Williams, O campo e a cidade, Companhia das Letras, 2011. Versão de bolso, P.463-4)

Futebol e Política

“O político pode absorver sua energia dos mais variados campos humanos, do religioso, econômico, moral e de outras antíteses. Ele não descreve a sua própria substância, mas apenas a intensidade de uma associação ou dissociação dos seres humanos, cujos motivos podem ser religiosos, nacionais, econômicos ou de qualquer outro tipo e pode afetar em diferentes tempos, diferentes coalizações e separações”         

(Carl Schmitt)

“Minha política é o Flamengo!”

(Rubem Braga)

O torcedor do Galo chama o torcedor do Cruzeiro de “Maria”. O cruzeirense, por sua vez, refere-se, carinhosamente, ao atleticano como “cachorrada”. No Rio, o Flamengo é o time do povo, dos pobres e analfabetos, assim como o Corinthians, em São Paulo. Já os tricolores paulista e carioca representam a elite, a aristocracia branca.

O futebol se alimenta e retroalimenta preconceitos sociais. Atributos pessoais deste ou daquele jogador se espalham e passam a representar toda uma torcida. Os conflitos no futebol, dificilmente tratam de futebol, há sempre algo externo ao campo.

Há pouco mais de dois meses, no Egito, as torcidas presentes numa partida de futebol partiram para a luta corporal, após o fim do jogo. Muito se falou, neste caso, sobre a influência do clima político do país, o impacto das revoltas contra o governo e da “instabilidade política” sobre o comportamento dos torcedores. 73 pessoas morreram nos gramados.

Amo o futebol. Acho transcendente. O homem/mulher, a bola voando, a espera, o momento mágico de um drible, o gol. A possibilidade de criar diferença, de inventar. É clichê, mas o futebol é uma grande metáfora da vida. Amo muito mais o jogo em si, do que tenho prazer em torcer e ver o meu time ganhar. Futebol é o Zidane caminhando em campo, levando a bola. É isso o que me emociona. Mas sei que sou minoria, minha apreensão do jogo, ainda que movida pelo amor, é quase fria, um tanto distante, pois pouco me interesso pelo resultado, ainda que possa estar mentindo um pouco.

A maioria torce e sofre e comemora, só quer ver seu time ganhar e não importa como. Vão aos estádios, falam disso a semana inteira, entoam hinos a favor do seu time, xingam os adversários e provocam. Independente de time, classe, gênero, ou raça. Quantos já não perderam o emprego nas segundas feiras, nas quintas depois de desvarios futebolísticos. A famosa invasão corintiana em 76 ou mesmo a notícia de que 10 mil torcedores do Internacional foram para o Japão em 2010 para torcer no mundial interclubes, nos lembram do poderoso verso gremista:

“Até a pé nós iremos / para o que der e vier / mas o certo é que nós estaremos com o Grêmio onde o Grêmio estiver”

Para Carl Schmitt, jurista e pensador alemão, o caráter político de uma relação se dá pela instauração de uma relação do tipo amigo-inimigo. O político não tem a ver, a priori, com o estado ou o governo. A dimensão estética envolve o belo e o feio; a moral, o bem e o mal. Seria a intensidade do antagonismo numa relação coletiva o que qualificaria o político. Ele se dá pelo fortalecimento do caráter conflitivo numa relação tipo nós contra eles.

A rivalidade é marca tradicional do futebol. Os grandes clássicos e o clima épico que criam, sublinhados pela violência recorrente, que o digam. Podemos dizer, então, que a disputa entre Flamengo e Vasco é um fenômeno político? E para quê isso tudo? Talvez eu esteja exagerando, vai… O torcedor vai ao estádio entoar as canções de amor e louvor ao seu time querido, e muitos nunca chamam ninguém de “cachorro” ou de “maria”. Torcer é pura festa e magia, exaltação do sublime amor e não de ódio. O Marshall Sahlins me atacaria por outro lado e me diria, como um psicanalista de botequim, que é essa minha obssessão Nietzsche-foucaut-gramsciana que me faz ver política em tudo, lançando disparates por todo o lado. Não discordo dos argumentos. Não quero reduzir o futebol aos conflitos políticos/sociais, ainda me sinta tentado à tal empreitada. Mas não posso, como a maioria faz, deixar de pensar na tensão social implicada no futebol,  como se isso fosse algo natural, ou o resultado da sociopatia de uns poucos trogloditas que acabam com a festa da maioria que só quer “paz” nos estádios, sem entender as entranhas desse bagulho.

Considerar o futebol e a relação entre as torcidas a partir da noção de amigo-inimigo de Schmitt, ou seja, enquanto questão política coloca algumas questões. Penso em dois caminhos. Por um lado, acho essa postulação perigosa, por reduzir o fenômeno amplo do jogo e do amor ao time à essa dimensão antagônica/política. E aí, vejo que o Sahlins está certo. Por outro lado, essa consideração traz o futebol e sua relação de amor para a vida social de nosso país. Pois não se trata “simplesmente” de um jogo. Esse segundo ponto pode nos ajudar a entender a dinâmica de amor e paixão que envolve o brasileiro, considerando a centralidade constitutiva da peleja para nosotros. Dessa forma, importa menos o conflito esportivo em si, as brigas, a pancadaria e as mortes, e muito mais entender como essa paixão se explicita no ato de torcer, no falar disso, nos  discursos e significações. Ou seja, como torcer se articula com questões sociais, quaisquer que sejam, como o racismo ou a homofobia.

Tudo isso traria a discussão do amor, da paixão, do ódio dos torcedores, para fora das estapafúrdias mesas-redondas com seus jornalistas esportivos, quase sempre obtusos, para outros espaços de debate e formação de opinião.

Talvez paixão, luta e ódio andam sempre juntas. Talvez o filósofo aqui esteja querendo dominar as paixões no futebol, por não fazer parte disso. Talvez o romântico aqui queira que a potência da paixão futebolística alimente também nossos desejos socialistas. Que alimente nossa vontade de eliminar a desigualdade e a opressão, essa vontade cada vez mais acomodada no liberalismo tranquilo e feliz. Que a igualdade radical, que a liberdade fora das oscilações e determinações excludentes do senhor mercado também nos faça entoar hinos e canções de exaltação. Fora dos estádios.

Talvez.

Published in: on 08/04/2012 at 20:24  Deixe um comentário  

O inimigo

                Minha convocação começou naqueles anos de FAFICH, naqueles primeiros períodos na faculdade de psicologia. Aos vinte e dois anos já via que minha existência, meu interesse profissional, teórico e político, eram todos eles o mesmo. Compreender como as redes de injustiça e opressão circulam em nossa sociedade, mais ainda, como se enraízam na vida, nos pensamentos, no suor das pessoas. Como identificar, na lágrima, raiva, solidariedade, igualdade, liberdade, preconceito, misoginia, amor. Infelizmente sou mais daqueles que contemplam do que daqueles que agem… infelizmente. Agnes Heller, como o Chico, o Vinícius e também seu Rubem, é uma apaixonada pelo cotidiano e muito me ajudou a dar citação e nota de rodapé para as coisas banais que acontecem na vida de todo mundo, que tem a maior importância, apesar de ninguém notar.

                Foi no impacto do encontro, de descobrir outro mundo dentro desse, de me ver em outro lugar, um lugar no qual eu podia alguma coisa, que aconteceu essa história. Foi numa roda de violão, coisa que gosto muito, há uns 8 anos que isso aconteceu. Era numa casa de uma família amiga. A casa estava repleta de senhores e senhoras. A nata da burguesia mineira. Os senhores com calça jeans e camisa Polo, as mulheres, de botox. E eu que crescera naquele meio, que me fiz no meio daquelas comidinhas e daqueles sorrisos, me vi de repente, como um inimigo não declarado, um espião. Colocado ali para observar, anotar, entender. Encontrara meu campo de trabalho, meu projeto, meu canto na vida. O descompasso que sentia nesse momento entre o que vivia e fazia, e o que gostaria de fazer não produzia em mim nenhum ressentimento. Na verdade eu gostava dessas rodas de violão, daquelas pessoas, gostava dessa burguesia leve. Nesse dia, havia um sujeito, de quem não lembro o nome, que me chamou atenção. Nunca havia o visto, mas sempre o encontrei. Era “o” próprio burguês, sem nome. Falava nada, mas dizia alto, como se alguém se interessasse. A sua esposa, claramente infeliz, restava do seu lado. Ela carregava alguma tristeza insondável aos olhos dele, que se acostumou desde cedo a olhar apenas para si.  “A majestade, o indivíduo”. Olhava para ele com desdém e asco. “É esse merdinha aí, o meu inimigo?”. No alto dos meus vinte e dois anos, jovem-jovem, acreditava que era mole mudar as coisas. As conexões lógicas se faziam sozinhas em minha cabeça e preenchiam os espaços vazios.

                Em determinado momento fui pegar uma cerveja, enquanto próximo a mim o burguês enchia um copinho de cachaça. Travamos uma conversa banal. Ele se dirigiu para o fogão, tirou a tampa de uma panela grande de pedra, pegou uma colher e tirou lá de dentro um naco grande de carne assada, bem cheirosa. Eu que nada dizia, mas observava a cena e pensava com grande interesse e atenção: “Como ele comeria a carne e a cachaça? Qual viria primeiro? Iriam juntas…Mas o pedaço de carne com molho era grande, como?…”. Ele viu que eu observava e que fazia minhas conjecturas, mesmo sem verbalizar. Então antes de dar prosseguimento à ação, ele me pediu uma ajuda, já com a carne numa mão e a cachaça na outra. Pediu que eu segurasse a tampa da panela de pedra. Fui, benevolente, pegar a tampa da panela com uma mão, no entanto vi que ela era muito pesada. Fui então com as duas mãos levantar aquela tampa… Levantei a tampo e me voltei para o burguês. E não é que já não havia nem cachaça e nem carne. Havia um sorriso maroto, de quem marcou um belo gol irregular. A tampa da panela era a distração que ele precisava. E depois ainda, esse filhadaputa me disse alguma coisa assim: “A gente sempre tem alguma coisa a ensinar aos mais jovens”. Não sei se ele escutava meus pensamentos. Não sei se ele sentia meu olhar de desdém e asco. Não sei. Acho que não. Sei que ele me deu uma rasteira e ainda riu no final. Eu nunca soube como ele tinha feito aquilo. Ele sabia que eu precisaria das duas mãos para levantar aquele objeto.

                Aprendi ali a não desprezar o inimigo por mais tolo que ele possa parecer.

                Lendo e estudando coisas do meu campo de pesquisa, lembrei dessa história.

Published in: on 22/03/2012 at 20:09  Comments (1)  

Notas doutorais #7 – Tomar para si a responsabilidade

Uma das coisas que mais me intriga, me angustia e por isso me convoca a realizar minha pesquisa de doutorado é saber porque diabos as pessoas resolvem se responsabilizar pelo quê acontece no mundo. Quando é cada vez mais fácil culpar o Eike Batista, a globalização, a rede Globo, o estado brasileiro, a ganancia dos mega-especuladores ou a baixa qualidade da educação no país. Por que algumas pessoas resistem a jogar a capacidade de ação nestes atores e se colocam a criar um espaço possível de ação, de fala, de articulação, de política? Essa questão aparece sempre em qualquer luta social e política. Pode se dar quando uma mulher na rua presencia um homicídio perpetrado pela própria polícia e faz alguma coisa com isso; quando as pessoas passam a não aceitar mais a violência cotidiana contra determinadas populações, negros, homossexuais, mulheres e se mobilizam para mudar leis, para colocar a boca no trombone. Pode também se dar quando populações resistem a ser esmagadas pelo capital que pega o que vê pela frente, histórias, pensamentos, tradições, árvores e pedras e lançam num alto forno. O posicionamento crítico do sujeito sobre sua realidade, sua força para agir, isso que para mim não tem nada de heroísmo. Odeio essa referência que só que só nos faz desconsiderar a realidade que vivemos e suas determinações olhando apenas para capacidade única de alguns tipos privilegiados de sujeitos, moldando mitos que se dissociam completamente da vida, essa besta. Há banalidade nos atos mais “heroicos”. Há que se recuperar essa banalidade.

Ao ver o filme acima uma fala me chamou atenção, por fazer eco com coisas que venho estudando. Um senhor de barbas brancas, indignado e com raiva, quando vê que está sendo expulso da sua própria terra por uma grande empresa, diz:

“Eu saindo daqui não preciso viver mais. Daqui dessa terra que eu nasci e criei meus pais, meus avós…”

É o filho que cria os pais. E os avós. É ele que toma para si o cuidado com o mundo que foi, que é. É ele que restitui e defende a eterna continuidade das coisas. Mesmo que as coisas devam continuar diferentes.

O velho fala dos seus pais falando também para seus filhos.  E ele diz:

“Não se esqueçam!”

Published in: on 13/02/2012 at 18:40  Deixe um comentário  

Acontecimento

Ontem, pouco antes de dormir, peguei para ler o livro “Momentos Políticos”, de autoria de Jacques Rancière. Já falei da minha devoção a esse pensador algumas postagens abaixo. Minha relação com Rancière tem muito mais de uma relação amorosa do que propriamente intelectual. As explicações, as razões vieram depois. E vieram a confirmar aquele pressentimento.

O livro é composto por intervenções do pensador em jornais, revistas, ao longo de 30 anos. São texto políticos, textos nos quais ele discute fatos, experiências, distúrbios sociais dessas última décadas. Se eu soltasse o freio de mão acadêmico me dedicava de corpo e alma a análisar panfletos políticos. Esses textos repletos de imagens metáforas, brilho e drama que buscam mais fazer agir, fazer fazer do que demonstrar como pensam bem esses nossos belos intelectuais engravetados.

Ontem a noite peguei este livro de Jacques Rancière. Li apenas um texto. O primeiro.

Dormi muito bem.

Jacques Rancière

(tradução minha desse texto em edição argentina)

Existem acontecimentos na vida intelectual?

A vida intelectual é como a vida da oficina ou da fábrica. O normal é que ali não ocorra nada: apenas o ruído das máquinas e dos motores. O acontecimento é, em cada uma dessas vidas, o que as interrompe.

Por interrupções [intelectuais] entendo essas suspensões da ficção coletiva que devolvem a cada um a sua própria aventura intelectual, estes cortes que o obriga a renunciar a escrever o que outros cem escreveram como ele ou a pensar o que seu tempo pensa ou não pensa, por si mesmo. Todos conhecemos esses acontecimentos, sempre individuais, que, de vez em quando, em um lugar ou outro, recordam a cada um o seu próprio caminho. Recordo, por exemplo, aquela tarde de maio, num tempo em que se desencadeava uma dessa batalhas intelectuais que se supunha devia fazer história. Esse dia, a bibliotecária me levou uma fina pasta com umas cartas que, em outro mês de maio, cento e cinqüenta anos atrás, haviam trocado um carpinteiro com um soldador nas quais contava seus passeios filosóficos de domingo e suas semanas de férias utópicas, e compreendi que era sobre isso o que eu tinha algo a dizer e não sobre o debate filosófico da época; que era isso o que me surgia: registrar a marca dessas férias, daquela interrupção diferente que não interessava a ninguém, que não era filosofia para filósofos, nem história para historiadores, nem política para os políticos…em suma, a nada, ou a quase nada que nos remete a todos a pergunta: tu que falas, quem és?” (p.20-1)

Published in: on 11/11/2011 at 19:23  Comments (2)