Despedida, com decência e melancolia.

“Como se sai do fundo do poço? A pungência não só da pergunta, mas de uma eventual resposta, ajuda a explicar o afeto de Eduardo Coutinho pelo personagem que encerra Peões – o metalúrgico Geraldo -, cuja fala, cheia de decência e melancolia, é uma lenta progressão rumo à consciência de um impasse. Geraldo viveu o período das grandes greves do ABC. Aquilo não voltará mais, as condições históricas agora são outras. Não tendo mais emprego certo, ele roda pelas fábricas do país em busca de trabalho temporário. É uma existência dura, na contramão da felicidade. Geraldo é forçado a se afastar da família para poder sustentá-la em lides que já não forjam laços duradouros de solidariedade e luta.

Esse é o quadro que descrevia quando Coutinho lhe pergunta se tem saudade da fábrica. Ele esboça um sorriso: apesar de todo o sofrimento, às vezes tem, sim. ‘Quer que teus filhos sigam a profissão?’ (a edição eliminou a pergunta de Eduardo). ‘Não, espero que eles não passem o que eu passei, não’, responde, caindo no poço. Ele desvia o rosto, seus olhos marejam. ‘Espero que não’. A câmera segue rodando, num silêncio cada vez mais pesado. Para quem assiste, a sensação é a de uma homem que se afoga.

Se Geraldo parasse aí, se não repicasse, seria a derrota. Mas então ele se salva. Triste, vira-se para Coutinho: ‘O senhor já foi peão?’ De um golpe – e é disso que se trata -, o impasse já não é só dele. Agora é também do inquisidor, responsável, involuntário por atirá-lo no buraco. É como se Geraldo dissesse: ‘Por favor, não julgue o meu silêncio porque você nunca saberá o que eu passei’. Com cinco paalvras, ele afirma a singularidade de sua vida. A desolação que se segue comove e suscita respeito, nunca piedade. Geraldo não lamenta sua vida, antes a enfrenta com uma coragem muda”.

JOÃO MOREIRA SALLES – “Morrer e nascer – duas passagens na vida de Eduardo Coutinho” (p.364-5)

Eduardo Coutinho – Milton Ohata (org.) São Paulo: Cosac Nayfy, 2013

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Published in: on 01/04/2014 at 20:03  Deixe um comentário  

ANTÍTESES, EMBARAÇOS, DÚVIDAS, ANTAGONISMOS, PREGUIÇAS E DESVARIOS DO DEBATE SOCIOAMBIENTAL: REFLEXÕES PÓS-CÚ-PULA DOS POVOS

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Ao me interessar analiticamente e politicamente pelo movimento ambiental, passei a ser perseguido incansavelmente pelos termos do título acima. A questão ambiental, ou socioambiental, ou ecológica (dependendo tanto do foco, do caráter ou da posição ideológica de quem escreve) é um campo marcado pela exuberante diversidade de confusão. Não pretendo esgotar tais confusões (ó terrível pretensão), apenas queria tentar escaramuçá-las a partir dos debates que presenciei na recém-findada cúpula dos povos, evento “oficial paralelo” ao encontro oficial da ONU para discutir a questão do meio ambiente, a RIO + 20. Baseio-me também em conversas com amigos antenados, ou não, neste debate. Meu problema é menos com o tema em si, e mais em relação à maneira como as pessoas se inserem neste debate, como se todas as escolhas fossem possíveis e intercambiáveis, ao gosto do freguês, numa esquizofrenia hibridizada. Tipo assim: “Eu quero….         é      …        calma aí. Ah, já sei, me vê vida moderna urbaninha confortável – neon – mais IPADS – menos hidrelétricas  e carvão (que nojo!) – sem energia nuclear – energia de vento, sol, essas coisas – mais direitos socais – mais mantra ligações de harmonia e paz entre todos – menos pobreza – sem violência – menos cidades interioranas e mais metrópoles – mais tecnologia, luzes, trecos e tal – menos fundamentalismo religioso e menos trabalho também, quem gosta, né?

O sujeito quer sim um mundo diferente, pero no mucho. Ele acredita mesmo, e nisso em geral há mais romantismo do que cinismo, que a expansão das qualidades advindas com a com a modernidade, a expansão do ideal burguês de vida, sofá, televisão, ar condicionado, liberdades individiduais, séries americanas, pode ser desconectadas de seus malefícios, da competição, ganância, da poluição, dos genocídios sociais. A idéia é que  futuro é igual ao presente subtraído os elementos negativos. Assim, vivo num susto atrás do outro. Ontem (já faz uns meses) vi um comentarista do jornal da noite do SBT justificar que a fragilidade dos acordos estabelecidos na Rio + 20 estaria no fato de que atualmente estamos vivendo uma terrível crise econômica. Arremata ele, como se dissesse algo digno de ser falado, que a preocupação com a economia impera e, por isso, os países não tem tempo para a questão do meio ambiente, ou coisa que o valha… Ora bolas, é o fim do mundo. Foi só por afirmações como esta que me interessei pelo debate ambiental. Aí está em estado bruto a imagem fetiche bibelô do meio ambiente como uma preocupação estética da classe média bacana. O marxistão Istvan Meszáros em uma citação genial diz que as instituições de proteção ambiental deveriam ser chamadas de “ministérios de proteção das amenidades da classe média”. A questão ambiental diz dos fluxos de energia, dos ciclos de transformação da matéria, as cadeias de interação entre a atividade humana e o ambiente, seus efeitos, danos, consequências.

Certamente quem pensa que em tempos de crise econômica não dá para se preocupar com meio ambiente, deveria parar de beber água, defecar e recarregar a bateria do seu Ipad. Na rede Globo, no jornal da noite, ao falar do fim da cúpula dos povos o jornalista entrevistava um gari que disse que ao limpar o aterro do flamengo, onde deveria haver apenas pessoas “conscientes” e mi mi mis, foram encontradas muitas guimbas de cigarro jogadas no chão, guimbas que demoram alguns 2000 anos para se decompor. O jornalista, William Waack, o iluminado, poderia ter completado seu raciocínio deveras radiante da seguinte maneira: “Esses maconheiros bicho-grilo vem para cá, com dinheiro do governo, sujam tudo, ficam falando bla bla bla para pegar mulherzinha, mas continuam poluindo com as pessoas “normais”, então para quê vieram?”.

Fui a algumas palestras e andei muito pelo aterro do flamengo nesses dias de encontro. Impressiona a diversidade de posturas, de modos de ver as coisas e de se posicionar neste debate. Enquanto vemos o Sebrae com 16 barulhentos geradores movidos a combustível para manter o ar refrigerado no seu interior, temos tribos indígenas vendendo autênticas pinturas de seus povos por 3 R$. Não me incomodo nenhum pouco com o fato dos indígenas venderem pinturinhas de corpo, o que me tirou do sério foi o fato do alojamento das tribos indígenas ter sido no sambódromo, em péssimas condições de instalação e higiene. Mas o que mais me incomodou no evento é a incapacidade e a fraqueza de se colocar em discussão as questões chaves, de trazer as situações concretas para o debate. Se o meio ambiente NÃO é um problema fetiche, mas sim uma questão central na manutenção da vida, posto que não há vida sem água, ar, terra, então toda forma social de vida está intrinsecamente ligada a este debate. Então se você aí, “da poltrona” acha lindo viver em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Londres, Nova York, Belo Horizonte, Conceição do Mato Dentro, e ainda mais, acha que todos devemos viver assim, deveria pensar muito bem no quê isso significa. Porque se há “crise” ambiental, há causalidade na ação humana, ação que se dá num contexto cultural  e político. Se a pessoa vem para um debate, se ela abre a boca pra falar “meio ambiente”, é porque considera que há causação humana. Havendo essa relação causal, fico pensando que construção narrativa se passa na cabecinha de cada um desses ambientalistas moderninhos que ficam falando de Seattles e Chiapas. Não tenho dúvida que imaginam Hippies vivendo em “Blade Runner”. É como se sociedade e pessoa fossem coisas desconectadas. Muita solidariedade entre os povos, uma gotinha de “Avatar” aqui, vai, muitas máquinas, pouca dominação, etc… O mito de que o homem vai dominar todos os efeitos, vai controlar tudo e continuar sendo um cara legal está aí, deitado na cama, morto, pronto para ser exumado. Acho esse tipo de mentalidade fascinante. Fascinante sim. A dissociação completa e total de sujeito e história, de pessoa e sociedade. A realização completa do homem do iluminismo sob o manto abençoado do primitivismo solidário. O sujeito crê que a sua identificação imaginária com a causa rompe todos os grilhões da opressão social e ambiental real que permitem a ele ter água, comida, ar, um MAC, um Iphone. Não vê que ele é parte do problema. Não vê problema. Não companheiro, não precisa se charafundar na lama da culpa burguesa. Mas por favor, menos cinismo, menos certeza. Ao menos ajude a encaminhar as coisas de outo jeito, pensa rapaz, se aprume!  Acho que aqueles que só conseguem imaginar uma vida do modo como temos nas grandes cidades deveriam pensar um pouco mais, só um pouco.

Não que a “culpa” da poluição seja exclusivamente da manutenção das metrópoles ou algo do gênero. Pego esse exemplo, por algumas razões. Muitos dos grupos ambientalistas e dos ativistas moram e vivem nesses grandes centros. O local de moradia de uma pessoa, de uma cultura, de um povo é fato indissociável de sua relação com os recursos naturais, seja uma tribo do Xingu, uma população ribeirinha do interior do país, ou um grupo de jovens amigos libertários de uma megalópole.

Se a crise ambiental decorre do padrão de produção e de consumo de bens de uso como então mudar tais padrões? Quais são as condições determinantes da vida moderna, quais são as ligações essenciais entre modernização e injustiça social, ambiental? É possível ter crescimento econômico nos moldes que temos vista com uma maior igualdade entre povos, considerando que cada cultura e povo entra nessa dança de um jeito?

Nesses dias de Rio + 20, entre cervejas no fim da noite, um grande amigo, o Patrão me contou uma coisa. Ele disse que em suas palestras joga para o público um gráfico no qual apresenta vários países a partir de dois eixos. No primeiro temos índices sociais relativos à saúde, educação, trabalho, e no outro, o nível de destruição e degradação do meio ambiente. Ele então me disse que apenas um país apresenta elevado índice tanto de indicadores sociais como de baixíssima degradação ambiental.

Em tom de charada que é impossível descobrir, ele me perguntou qual era este país. Claro que eu errei.

Published in: on 19/12/2012 at 18:09  Comments (1)  

Diário estratégico-digestivo-ideológico de campo #6

Um dos textos que mais me impressionou nos anos de faculdade de psicologia foi o texto “Estratégias discursivas ideológicas”, de autoria da psicóloga social Maritza Montero. O texto não é absolutamente genial, mas é foda. A autora analisa os discursos de candidatos políticos demonstrando como uma frase simples está repleta de conteúdo ideológico. O bom marxismo de botequim. Por exemplo, aquele candidato de oposição que profere uma sentença simples como: “agora, vamos trabalhar!”, na verdade está dizendo ispsis literis que o candidato da situação não fez absolutamente nada fez em seu mandato. A autora lista formas ideológicas do discurso e seus recursos estratégicos. O que gosto do texto é exatamente seu caráter simples, sintético, a determinação positiva do elemento ideológico de uma sentença. O texto inclusive é lindo para ser lido em época eleitoral. Foi o caráter sintético do texto o que mais me chamou atenção quando comecei a namorar a srta.psicologia social, que a tudo “problematizava”, sem no entanto me dar nenhuma certezazinha para emendar os rasgos que fazia na minha maneira de ver a vida.

Esse texto me veio a mente há uns 2 meses aqui em Conceição do Mato Dentro. Na semana do meio ambiente, foi realizada uma série de  oficinas, debates e teatrinhos sobre o tema. Pelo que entendi muitos desses eventos foram patrocinados pela Anglo American, empresa responsável pela mineração aqui na região da Serra da Ferrugem, e por suas sub-contratadas.A programação da semana não foi divulgada com antecedência e com isso não consegui saber dos conteúdos e proponentes do debate. Só fiquei sabendo no dia que tinha uma viagem marcada. Sendo assim dei um jeito de ir ao local para ver o que acontecia. Queria ver como estava organizada a semana e quem promovia os debates. Cheguei na hora que começaria uma apresentação sobre biodiversidade. Um punhado de crianças barulhentas de 8, 9 e 10 anos preenchiam o espaço. Na frente das crianças, uma mulher carioca com uniforme da Anglo começaria dali a pouco a apresentar alguns slides mal ajambrados, falando sobre a natureza e a ecologia. Fotos do planeta, da vegetação do cerrado e da mata atlântica, dos animais, das flores e até mesmo uma famigerada composição na qual ela dizia que existem pessoas que trabalham pela preservação da biodiversidade, ilustrando tal passagem com a foto de um funcionário da Anglo American. Fiquei ali reparando nos meninos. Eles não prestavam atenção. A apresentação era cuidadosamente mal feita, produzida às pressas, certamente feita para um público mais velho e adaptada praqueles meninos. Num momento de balbúrdia mais intensa a moça usou um artifício belíssimo. Ela disse que depois da apresentação “teria teatrinho e depois lanche, refrigerante e pipoca, (senão me engano), mas só haveria lanche para aqueles que ficassem quietinhos”.

Nessa hora embarquei direto para a minha 6ª série no colégio Santa Dorotéia, em Belo Horizonte. Naquele ano fomos com o professor de Geografia conhecer o processo de extração do minério de ferro. Fomos para a antiga MBR ali em Nova Lima (hoje Vale). Fiquei bastante espantado com o tamanho das rodas de alguns caminhões, mas o que mais me lembro desse dia foi que no refeitório havia uma máquina de refrigerante. E o mais importante: a gente podia pegar o tanto de refrigerante que quisesse!

Eis aí a estratégica ideológica digestiva.

Essa promessa de abundância, de infinito, onde mais a veria? Em que outro lugar do mundo poderia tomar quanto refrigerante quisesse?

Interessante a aposta das grandes corporações em ganhar crianças na base de balas, doce, teatro, mentira e refrigerante.E aí me pergunto, por que dão tanta importância para esse público?

É preciso enfrentar essas estratégias digestivas. Não sei como. Há coisas tristes e importantes acontecendo, coisas que não se come e que NÃO deveriam poder repetir.

Diário de Campo e cidade #5 – Feliz, jovem e despreocupado

Como já escrevi por aqui, o livro “O campo e a cidade”, do inglês Raymond Williams, tem sido não um objeto inerte ao qual recorro eventualmente, e sim um parceiro real, um amigo que me socorre nas aflições solitárias da vida em pesquisa. Nas horas que penso sobre o que venho pensando, não só em minha pesquisa, mas também sobre tudo o que vivo, sobre as possibilidades e os impedimentos da compreensão, no momento em que me boto a ver, conversar, e tomar cafezinho com pessoas que não conheço e que, aos meus olhos, vivem uma experiência aguda de transformações das relações totais de um espaço-tempo, é o Campo e a Cidade que me ajuda no desassossego.

Nesse percurso, a relação e a tensão entre o urbano e o rural aparece a toda hora com suas quinas e dobras. No entanto, esse fantasma não aparece apenas na análise dos dados, não… bem antes, na própria identificação do que penso que são dados, está além. A minha versão de Campo e Cidade está na minha constituição cognitiva, social, emotiva, determinada pela minha terra natal, a metrópole, de onde EU nunca saí.

[Com a crescente urbanização, os campos verdejantes se transformam, e com isso…]

“Para qualquer homem em particular, há também a perda de uma paisagem especificamente humana e histórica, que gera sentimentos não por ser ‘natural’, e sim por ser ‘natal’:

Terra natal que cada vez mais amo! (…) 

E tudo aquilo que pertence a ela –

Um velho mourão, ou pedra singela,

Verdes de limo – me faz desejar

Que tudo fique sempre onde está;

E dói-me ver que as coisas mais queridas

De seu lugar já foram removidas

(John Clare, the village ministrel)

Assim, a perda mais lamentada – a das ‘coisas mais queridas’ – é a perda da infância causada pela destruição da paisagem imediata:

Tudo isto não é mais, e, como o meu,

O teu orgulho de viver morreu.

É perfeitamente compreensível que isso tenha sido escrito por um garoto de dezesseis anos. Uma maneira de ver foi associada a uma fase da vida, e a associação entre felicidade e infância deu origem a toda uma convenção, na qual não apenas inocência e segurança, mas também paz e abundância, foram incorporadas de modo indelével, primeiro à paisagem, e depois, numa extrapolação poderosa, a um período específico do passado do campo, agora ligado a uma identidade perdida, a relações e certeza perdidas, na lembrança do que é denominado, em contraposição a uma consciência presente, Natureza. O sentimento primevo é tão intenso que inevitavelmente se associa a muitas outras experiências:

Cenas de infância! Ó mais doce dos sons! 

Pois não há coração, por mais sofrido,

Que não sinta brotarem emoções 

Ao pensar no torrão natal querido:

Mesmo o que pode a sebe, maltrapido, 

Mal pousa a luva num ramo orvalhado

E vem-lhe a mente, do mais fundo olvido,

A lembrança dorida de um passado

Em que ele era feliz, jovem, despreocupado.

(Raymond Williams, O campo e a cidade, Companhia das Letras, 2011. Versão de bolso, P.235-6)

CENA DE CINEMA #2 – AOS 13

Acho que nunca vi este filme do início ao fim, peguei lá pela metade e fui seguindo, sem muita atenção. E a beleza e a força da cena que descrevo logo abaixo se dá, mais por razões psicossociais, do que propriamente cinematográficas. Um dia, passando banalmente de canal para canal, vi que começava esse filme sobre adolescentes perdidas (aqui), tipo releitura norte-americana contemporânea de uma Cristiane F. Meninas bem jovens que se envolvem com drogas, sexo e violência. As meninas passam a se relacionar com traficantes e a coisa, obviamente, vai ficando cada vez pior. A mãe de uma delas, interpretada pela atriz Holly Hunter já não sabe o que fazer vendo a filha partindo aos poucos, aos 13. Na cena poderosa, a filha passa em casa por algum motivo e já vaipartir, o desespero já toma conta de mãe e também da filha. A sensação de que não há mais nada a fazer. No momento que a filha passa pela mãe, esta pula em cima de sua filha e a abraça, aagarra junto de si, sem deixar qualquer espaço, qualquer tempo ou movimento para a filha, sem deixar ela sair. As duas rolam por cima da cama e caem no chão, chorando. Depois disso a menina parece que leva jeito e as coisas melhoram.

Quantos abandonos, quanto sofrimento sujo poderia ser evitado com um gesto qualquer que deixe claro, sem sombra de dúvida que há amor! Que a coisa mais importante é esta ou aquela pessoa. Não acho que isso resolve tudo, que é solução geral,e nem que o problema ou a solução seja da mãe. Isolo o gesto louco de amor, de proteção e também de violência do ato que invade e desfaz a tese, bastante imaginária, de que vivemos sós, de que somos independentes e solitários.

Published in: on 19/07/2012 at 15:10  Deixe um comentário  

O inimigo

                Minha convocação começou naqueles anos de FAFICH, naqueles primeiros períodos na faculdade de psicologia. Aos vinte e dois anos já via que minha existência, meu interesse profissional, teórico e político, eram todos eles o mesmo. Compreender como as redes de injustiça e opressão circulam em nossa sociedade, mais ainda, como se enraízam na vida, nos pensamentos, no suor das pessoas. Como identificar, na lágrima, raiva, solidariedade, igualdade, liberdade, preconceito, misoginia, amor. Infelizmente sou mais daqueles que contemplam do que daqueles que agem… infelizmente. Agnes Heller, como o Chico, o Vinícius e também seu Rubem, é uma apaixonada pelo cotidiano e muito me ajudou a dar citação e nota de rodapé para as coisas banais que acontecem na vida de todo mundo, que tem a maior importância, apesar de ninguém notar.

                Foi no impacto do encontro, de descobrir outro mundo dentro desse, de me ver em outro lugar, um lugar no qual eu podia alguma coisa, que aconteceu essa história. Foi numa roda de violão, coisa que gosto muito, há uns 8 anos que isso aconteceu. Era numa casa de uma família amiga. A casa estava repleta de senhores e senhoras. A nata da burguesia mineira. Os senhores com calça jeans e camisa Polo, as mulheres, de botox. E eu que crescera naquele meio, que me fiz no meio daquelas comidinhas e daqueles sorrisos, me vi de repente, como um inimigo não declarado, um espião. Colocado ali para observar, anotar, entender. Encontrara meu campo de trabalho, meu projeto, meu canto na vida. O descompasso que sentia nesse momento entre o que vivia e fazia, e o que gostaria de fazer não produzia em mim nenhum ressentimento. Na verdade eu gostava dessas rodas de violão, daquelas pessoas, gostava dessa burguesia leve. Nesse dia, havia um sujeito, de quem não lembro o nome, que me chamou atenção. Nunca havia o visto, mas sempre o encontrei. Era “o” próprio burguês, sem nome. Falava nada, mas dizia alto, como se alguém se interessasse. A sua esposa, claramente infeliz, restava do seu lado. Ela carregava alguma tristeza insondável aos olhos dele, que se acostumou desde cedo a olhar apenas para si.  “A majestade, o indivíduo”. Olhava para ele com desdém e asco. “É esse merdinha aí, o meu inimigo?”. No alto dos meus vinte e dois anos, jovem-jovem, acreditava que era mole mudar as coisas. As conexões lógicas se faziam sozinhas em minha cabeça e preenchiam os espaços vazios.

                Em determinado momento fui pegar uma cerveja, enquanto próximo a mim o burguês enchia um copinho de cachaça. Travamos uma conversa banal. Ele se dirigiu para o fogão, tirou a tampa de uma panela grande de pedra, pegou uma colher e tirou lá de dentro um naco grande de carne assada, bem cheirosa. Eu que nada dizia, mas observava a cena e pensava com grande interesse e atenção: “Como ele comeria a carne e a cachaça? Qual viria primeiro? Iriam juntas…Mas o pedaço de carne com molho era grande, como?…”. Ele viu que eu observava e que fazia minhas conjecturas, mesmo sem verbalizar. Então antes de dar prosseguimento à ação, ele me pediu uma ajuda, já com a carne numa mão e a cachaça na outra. Pediu que eu segurasse a tampa da panela de pedra. Fui, benevolente, pegar a tampa da panela com uma mão, no entanto vi que ela era muito pesada. Fui então com as duas mãos levantar aquela tampa… Levantei a tampo e me voltei para o burguês. E não é que já não havia nem cachaça e nem carne. Havia um sorriso maroto, de quem marcou um belo gol irregular. A tampa da panela era a distração que ele precisava. E depois ainda, esse filhadaputa me disse alguma coisa assim: “A gente sempre tem alguma coisa a ensinar aos mais jovens”. Não sei se ele escutava meus pensamentos. Não sei se ele sentia meu olhar de desdém e asco. Não sei. Acho que não. Sei que ele me deu uma rasteira e ainda riu no final. Eu nunca soube como ele tinha feito aquilo. Ele sabia que eu precisaria das duas mãos para levantar aquele objeto.

                Aprendi ali a não desprezar o inimigo por mais tolo que ele possa parecer.

                Lendo e estudando coisas do meu campo de pesquisa, lembrei dessa história.

Published in: on 22/03/2012 at 20:09  Comments (1)  

Notas doutorais #7 – Tomar para si a responsabilidade

Uma das coisas que mais me intriga, me angustia e por isso me convoca a realizar minha pesquisa de doutorado é saber porque diabos as pessoas resolvem se responsabilizar pelo quê acontece no mundo. Quando é cada vez mais fácil culpar o Eike Batista, a globalização, a rede Globo, o estado brasileiro, a ganancia dos mega-especuladores ou a baixa qualidade da educação no país. Por que algumas pessoas resistem a jogar a capacidade de ação nestes atores e se colocam a criar um espaço possível de ação, de fala, de articulação, de política? Essa questão aparece sempre em qualquer luta social e política. Pode se dar quando uma mulher na rua presencia um homicídio perpetrado pela própria polícia e faz alguma coisa com isso; quando as pessoas passam a não aceitar mais a violência cotidiana contra determinadas populações, negros, homossexuais, mulheres e se mobilizam para mudar leis, para colocar a boca no trombone. Pode também se dar quando populações resistem a ser esmagadas pelo capital que pega o que vê pela frente, histórias, pensamentos, tradições, árvores e pedras e lançam num alto forno. O posicionamento crítico do sujeito sobre sua realidade, sua força para agir, isso que para mim não tem nada de heroísmo. Odeio essa referência que só que só nos faz desconsiderar a realidade que vivemos e suas determinações olhando apenas para capacidade única de alguns tipos privilegiados de sujeitos, moldando mitos que se dissociam completamente da vida, essa besta. Há banalidade nos atos mais “heroicos”. Há que se recuperar essa banalidade.

Ao ver o filme acima uma fala me chamou atenção, por fazer eco com coisas que venho estudando. Um senhor de barbas brancas, indignado e com raiva, quando vê que está sendo expulso da sua própria terra por uma grande empresa, diz:

“Eu saindo daqui não preciso viver mais. Daqui dessa terra que eu nasci e criei meus pais, meus avós…”

É o filho que cria os pais. E os avós. É ele que toma para si o cuidado com o mundo que foi, que é. É ele que restitui e defende a eterna continuidade das coisas. Mesmo que as coisas devam continuar diferentes.

O velho fala dos seus pais falando também para seus filhos.  E ele diz:

“Não se esqueçam!”

Published in: on 13/02/2012 at 18:40  Deixe um comentário  

Aberto para balanço lírico-existencial

Todos nós temos nossos pontos fracos, nossas falhas, aspectos que denunciam nossa demasiada humanidade e que preferimos esconder dos olhos e bocas alheios. São aquelas marcas que, quando apontadas por outros, nos deixam entre chateados e raivosos, indecisos entre reconhecer as falhas e se magoar com o metido a espertinho.  Lembro de uma menina bonita, que me disse certa vez, “você acha que é muito diferente de todo mundo, mas não é, você é igual a todos…”. Isto foi dito de forma banal e besta no interior do cotidiano de um carona e me abalou um bocado. A palavra que toca nessa região sensível pode vir displicente, sem intenção de dor, mas fere, como dói qualquer toque numa região já machucada, por mais sutil. O que é um tanto doido é como, por vezes, nos fechamos resolutamente num mundo próprio, trancando coisas que julgamos muito sérias nos nosso porões. Fazemos disso tudo o segredo maior, quando num tempo depois descobrimos que tudo não passava de absolutamente nada. Esse é talvez o grande segredo da adolescência: “Aquela tormenta toda, todo aquele sofriomento, não vale nada, ou quando muito, muito pouco”. Quanto não sofremos para se aproximar de uma moça? Quantas séries não se passaram entre o desejo, a ação e o fracasso? Algumas vezes já nem estimamos mais tal senhorita e a aproximação segue mais por uma fidelidade às noites em claro e aos suspiros derramados no silêncio e na solidão, do que orientada pela realidade presente. Enfim, eu e o Abdias, dentre alguns outros, gastamos um precioso o tempo nos protegendo da vida, quando esta, quase nunca oferece grandes perigos. Oferece, isso sim, beleza, graça e aventura ou apenas um leve vazio que nos mostra o quanto somos desimportantes de fato.

Mamãe sempre reclamou que eu nunca suportei que falassem de mim. Ainda reclama. Naquele tempo, ao adentrar a sala e ouvir meu nome, para o bem ou para o mal, logo me punha para o lado de fora. Mais avesso às criticas, lógico, sempre retruquei contra o que ela dizia que eu, supostamente, fazia. “Rafael” você é muito chato com a sua irmã, quê isso mãe, ela é que fica me enchendo o saco… E por aí vai. Não suportava ouvir meu nome na boca e no julgamento dela e dos outros. Não só os momentos de crítica é que me repeliam, mas também os elogios. Não é fácil ouvir elogios. Agradecer no tom certo, prestar atenção ao que a pessoa elogia, mas sem com isso se achar um Jece Valadão, um Sigmund Freud. Foi lentamente, e nos últimos anos que passei a tentar mudar o panorama, me deixar envolver pelas críticas e elogios. Agradecer por ambos, ouvir, julgar, tentar mudar. Isso é coisa para não se esquecer. “Traz o peito aberto que a dor só lhe diz verdades” como canta Roberto Ribeiro. As palavras dos outros, pungentes, belas e graciosas também trazem verdades. Estar sob juízo do outro não é fácil. E por isso sempre tive dificuldade de me submeter à apreciação daqueles tão significativos para mim, como lidar, como proceder depois de receber juízos e pareceres. Por um bom tempo fugi dessa possibilidade.

Há alguns anos minha mãe passou para um amigo do trabalho, um senhor já idoso, arquiteto e também escritor, um artigo meu, para que este fizesse uma revisão. O texto havia sido premiado num concurso de artigos em psicologia social. Ele então leu, sugeriu pequenas e pertinentes alterações e me mandou uma pequena carta. Sem jeito eu nunca agradeci pessoalmente, nunca comentei ou discuti os pormenores de suas colocações ou algo do gênero. Devo ter pedido a minha mãe para agradecer a ele de forma informal, ou no máximo, ligado para ele no trabalho e trocado breves palavras. Enfim, me escondi. Fico um tanto triste, pois o senhor morreu há uns dois anos e não consegui agradecer como gostaria por suas palavras que, naquele momento, foram importantes para mim. Talvez porque elas juntavam o que eu insistia em separar, o gosto pela letra e a minha escolha pela psicologia social.

                Trancrevo abaixo a carta do Marcus Vinícius

“Rafael,

Sua mãe passou-me o seu texto premiado.

Fico feliz ao constatar que nem todos os jovens estão sofrendo de ‘miopia redacional’ ou seja, não sabem escrever.

Sua escrita é densa, tem conteúdo e, no aspecto formal, é muito especial, pois espelha uma personalidade forte. Você é bom no ofício.

Concluo isso por ver que você usa a primeira pessoa no singular com muita segurança. Como a dizer: ‘sou EU que estou escrevendo’.

Mas, tenho um vício que muitos consideram chato; espero que você não ache assim: intrometo-me em textos alheios e intervenho (ainda que minimamente) baseado na ‘licença de idoso’ que eu mesmo me concedi.

Fiz isto no seu texto e você pode adotar ou não minhas observações; foram feitas no sentido de dar uns ‘retoques’ para reforçar a elegância que você imprimiu no que ousei chamar de ‘ensaio’ (e não artigo, como você queria)

Um abraço do,

Marcus Vinicíus

27/10/2006” 

 

Mal sabia ele que, na minha timidez, buscava interventores.

Published in: on 18/09/2011 at 20:07  Comments (2)  

George, sin pierder la ternura # 3

Algumas reflexões sobre o sapo comum (p.381-5)

“Antes da andorinha, antes do narciso e não muito depois do galanto, o sapo comum saúda a chegada da primavera à sua maneira, que é emergir de um buraco no solo, onde permaneceu enterrado desde o outono anterior, e rasteja até a mais próxima porção de água apropriada.

(…)

Nesse período, depois de seu longo jejum, o sapo tem um aspecto muito espiritual, como um anglo-católico rígido perto do final da Quaresma. Seus movimentos são languidos, mas resolutos, seu corpo está encolhido e, por contraste, seus olhos parecem anormalmente grandes. Isso nos permite notar – o que talvez não víssemos em outra época – que o sapo talvez tenha o olho mais bonito do que qualquer criatura viva.

(…)

Menciono a desova dos sapos porque é um dos fenômenos da primavera que mais profundamente me atraem, e porque o sapo, ao contrário da cotovia e da prímula, jamais ganhou muita força dos poetas. Mas estou consciente de que muita gente não gosta de répteis ou anfíbios e não estou sugerindo que para desfrutar da primavera seja preciso se interessar por sapos. Temos também o açafrão, o cucu, o brunheiro e outros. O importante é que os prazeres da primavera estão disponíveis a todos e não custam nada.

(…)

É um pecado sentir prazer na primavera e em outras mudanças sazonais? Para dizer com mais exatidão, é politicamente repreensível quando estamos todos gemendo – ou ao menos deveríamos estar gemendo – sob os grilhões do sistema capitalista, salientar que, com freqüência, vale mais a pena viver por causa do canto de um melro, de um olmo amarelo em outubro, ou de algum outro fenômeno natural que não custa dinheiro e não tem aquilo que os editores de jornais de esquerda chamam de ângulo de classe?

(…)

Com certeza, devemos estar descontentes, não devemos simplesmente encontrar maneiras de fazer o melhor de um emprego ruim, mas se matarmos todo o prazer no processo concreto da vida, que espécie de futuro estamos preparando para nós mesmos? Se um homem não pode apreciar o retorno da primavera, por que deveria ficar feliz numa utopia que economizasse trabalho?” De qualquer modo, a primavera chegou, até no centro de Londres, e eles não podem impedir você de desfrutá-la. Eis uma reflexão gratificante. Quantas vezes fiquei vendo os sapos se acasalarem, ou um par de lebres disputando uma luta de boxe no campo de trigo, e pensem em todas as pessoas importantes que me impediriam de apreciar isso se pudessem. Mas felizmente não podem. Enquanto você não estiver de fato doente, faminto ou assustado ou enclausurado numa prisão ou num campo de férias, a primavera ainda será primavera. As bombas atômicas estão se empilhando nas fábricas, a polícia está rondando pelas cidades, as mentiras jorram dos altos falantes, mas a Terra ainda gira em torno do Sol, e nem os ditadores ou burocratas, por mais que desaprovem o processo, são capazes de impedi-lo.”

George Orwell, em “Como morrem os pobres e outros ensaios” p.381-5, Companhia das Letras, 2011

Published in: on 09/08/2011 at 12:41  Comments (1)  

George, cru #1

“Enquanto passavam, um negro muito jovem e alto se virou e cruzou seu olhar com o meu. Mas o olhar que me deu não era de de forma alguma o tipo de olhar que se poderia esperar. Não hostil, não insolente, não taciturno, nem mesmo inquisitivo. Era o olhar negro tímido e arregalado que é, na verdade, um olhar de profundo respeito. Eu vi como era. Aquele infeliz, que é um cidadão francês e, portanto, foi arrancado da floresta para esfregar chãos e pegar sífilis numa praça forte, tem sentimentos de reverência perante uma pele branca. Ensinaram-lhe que os de raça branca são seus senhores e ele ainda acredita nisso.

Mas há um pensamento que todo homem branco (e nesse sentido, não importa nada se ele se diz socialista) tem quando vê um exército negro passando. ‘Por quanto tempo ainda poderemos continuar enganando essa gente? Por quanto tempo, até que eles virem suas armas na outra direção’?” (George Orwell, Marrakesh, Natal de 1939. Em “Como morrem os pobres e outros ensaios. p.366”)

Published in: on 03/08/2011 at 04:17  Deixe um comentário