Sobre o desamor, amor ou Notas doutorais # 5 – A negação da contingência

(Dedico este texto a Julia Mesquita. Amiga incondicional com quem converso sobre os problemas da contingência e do destino há quase 10 anos.)

 

“Numa certa hora eu perguntei: ‘Mas porque você foi embora Lali?’

‘É… a vida… um equívoco! Você brigava muito comigo, queria que eu pusesse farinha, quando eu não punha farinha, se eu comprava Sissi você queria gasosa, e tal… E eu dizia: ‘Um dia eu vou embora!’. E você: ‘Vai quando quiser…’”

(Depoimento do Sr. Abel para Ecléia Bosi, no livro “Memória e Sociedade”, p.220)

“Vivo muito o presente, o futuro, só agora fiquei voltada para o passado. A vida é o presente. Depois de 1927 casei-me e casada não fui mais eu. Fui Jovina-Samuel. Minha vida foi a dele. Não posso falar das feridas recentes que ainda doem. Não posso reviver uma vida que terminou com ele.

(Depoimento de dona Jovina a Ecléia Bosi no livro “Memória e Sociedade”, p.295)

                Os dois trechos acima me marcaram muito. Quando os li senti alguma coisa que não sei nomear. Tanto devido à força das experiências de amor e desamor contida nas frases, quanto por tocar em elementos sócio-psicológicos que tenho me voltado nos últimos meses, ao pensar minha tese de doutorado. No primeiro depoimento, a memória de um casal que se separa traz isso que é tão banal, serial… Essas coisas… Esses detalhes cotidianos que espinafram, incomodam. Tolices quando vistas assim, por cima, na terceira pessoa. E tudo parece tão simples, tão fácil de resolver, mas atrás dessa simplicidade há tanta mágoa. Atrás desses detalhes o que não se esconde? Essa briga, as dezenas do “você vai quando quiser” quanta destruição não há? Mas há aí uma série, uma repetição de cenas, de coisas, de palavras. No segundo depoimento, dona Jovina, convidada a narrar sua vida só nos conta até 1927. E é dessa forma que justifica porque não falará mais. Ela não pode dizer o que se passou depois de 1927, pois a partir daí sua vida já não foi mais dela. Não há apelo, condição possível para que ela narre, pela simples construção: “Não posso reviver uma vida que terminou com ele”. Não posso, só pode implicar que não está sob meu poder. Ela não diz, “eu não quero”, diz, “não posso”. Sua vida não foi mais dela e sobre isso não há apelo.

                Quem não tenta compreender os fatos de sua vida? Quem não tenta entender a seqüência, os acontecimentos, os sentimentos? E quem dá conta de todos esses fatos? E quando é tudo duro demais, ou lindo demais, ou puro demais?

                Ora, seria tentador articular o desamor ao condicional, às circunstâncias; e o amor à pura verdade de uma revelação, sem início, processo ou causa. A tentação é forte. Mas Cartola nos previne contra isso, quando canta: “Ai se eu pudesse fingir que te amo, ai se eu pudesse, mas não posso nem devo fazê-lo, isso não acontece”. O que acontece, ou melhor, o amor que não mais acontece, está para além de circunstâncias, na mesma medida que a vida de Jovina depois de 1927 já não foi mais dela. No entanto, e isso é importante, eu não creio em misticismo, forças ocultas ou interferência divina e, portanto, houve sim uma vida de Dona Jovina pós-1927, houve segredos, pensamentos, fatos. Para o sujeito cínico e cientificista é tudo muito claro, dado que nesse caso trata-se de uma escolha da pessoa Jovina não nos contar sobre sua vida. Não há, empiricamente, nada como Jovina-Samuel. Mas isso não é tão pobre, meu amigo? Pensar assim, não é jogar fora algo tão belo e forte? Algo que leva o sujeito a demarcar, com uma potência fora do comum, que sua vida não é mais sua. Dona Jovina tem que falar, tem que se colocar para poder não se colocar mais.

                Já há algum tempo venho me debruçando sobre os problemas da contingência, essa condição na qual o que é poderia muito bem não ter acontecido. Essas coisas que não são nem impossíveis, nem determinadas. Foi através de um pequeno texto de Agnes Heller que me deparei com este problema que me acompanha há tanto tempo. A filósofa húngara, ao tratar do problema da insatisfação na vida moderna, demarca que a insatisfação é resultado de uma vida contingente, na qual podemos ser qualquer coisa, mas ainda não somos nada. Ela diz que só saímos da contingência de uma vida de condições abertas quando fazemos nossas, as palavras de Martin Lutero: “Estou aqui e não poderia agir de outro modo”. É quando, nos termos dela, transformamos nossa contingência em destino. Um destino que não foi dado de antemão, a despeito de nossas experiências, mas sim afirmado sobre estas experiências.

                Se por um lado fiquei deslumbrado com a fórmula elegante e retumbante do “estou aqui e não posso”, por outro sempre me seduziu os delírios e aberturas da contingência. Afinal, para o neurótico, ela fornece uma desculpa para não ser, ainda não, posto que pode-se ser ainda, depois. Justificam-se adiamentos e esperas. Ainda que tudo isso recheado de angústia. A verdade é que no bojo da contingência, há uma promessa de redenção final, a promessa de um momento no qual saberemos sim o que fazer e como decidir, de forma mágica, automaticamente, sem mágoa.

                Mas isso é pura ilusão. O momento de decidir é sempre impossível e é sempre agora. Ficar delirando na contingência como condição intrínseca ao nosso tempo simplesmente afasta o que importa, a decisão e suas conseqüências. Que é quando vivemos, sempre. Vivemos sempre decidindo, querendo perceber isso ou não. E não há escolha certa, pronta, dada, e sim a decisão que acarreta responsabilidade. É aí que jaz a beleza da resposta “estou aqui e não posso agir de outro modo”. Ora, pois é claro que você poderia. Sim, formalmente não há dúvida alguma. Pois se a decisão já estivesse pronta, não haveria de fato contingência, poderia haver deconhecimento. Mas será que alguém é tão decidido assim, será que vivemos respondendo “eu não posso agir de outro modo”? E não será que ao gastar essa fórmula não fugimos das decisões jogando a responsabilidade para outros lugares que não nós mesmos?

                Os dois depoimentos acima falam do desamor, amor, mas acho que toda essa discussão trata de muito mais, diz da relação existencial, constitutiva dos sujeitos com o mundo. Observe que não se trata de construir mitos, super sujeitos. Pois o sujeito pode falar que não pode agir de outra forma e, logo em seguida, o fazer. E não há problema, porque haveria? O que é bonito não é a certeza e sim a carga de energia, de emoção, de vontade implicada em colocar as coisas dessa forma. De ser tomado por algo que não nos damos conta. Talvez por isso seja mais fácil articular o amor a pura afirmação e o desamor a banalidades e acúmulo de circunstâncias. No primeiro caso somos invadidos impiedosamente por outra pessoa, coisa que mesmo desejando não damos conta porque já não somos donos de nossa casa. No segundo caso, tentamos limpar a casa, expulsar os demônios e conviver apenas conosco.

                Como decidir as coisas em nossa vida? Como nos colocamos para decidir nossa profissão? Um trabalho? A pessoa com quem passaremos nossa vida? Pensamos seriamente em ajudar ou não aquele velho caído no chão, bêbado e fétido? Se juntar a um protesto contra a morte de três jovens no morro da providência? Decidir em quem votar nas eleições? Criticar publicamente um amigo homofóbico ou racista?

                Saber que as coisas não estão dadas desde sempre é libertário. Por isso a contingência nesse sentido deve permanecer sempre presente. Mas isso não pode nos fazer esquecer da nossa responsabilidade pelo que o mundo é, pelo o que fazemos no mundo, pelo o que fazemos com nossa vida. É preciso não fugir da determinação, do que é, do que queremos que seja. Isso tudo nos remete a como vivemos nossa vida e como nos relacionamos com o mundo que nos cerca. Como nos posicionamos frente a tudo isso que acontece, que nos acontece e que fazemos acontecer?

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Published in: on 08/08/2011 at 13:40  Comments (2)  

No tempo da delicadeza

Algumas lembranças insistem em voltar. Momentos, fragmentos de um tempo. E são coisas tolas mesmo, detalhes perdidos no cotidiano, esse tempo sem evento, de quase pura repetição. Há alguns anos, ainda estudante de psicologia, fiz um estágio numa clínica particular para idosos. Um espaço de convivência, “como se diz”, para senhores e senhoras da elite belorizontina. Chamavam-nos de estagiários, mas não havia nada de estágio, éramos funcionários de baixo custo e muita disposição. Nós, estudantes de psicologia,  realizávamos atividades recreativas e educativas com os idosos. Foi um tempo difícil, pois é duro conviver com esse limite do corpo, com almas quebradas pela vida, mulheres silenciadas e, muitas vezes, marcadas pela violência passada e presente.

A instituição se especializou em receber idosos acometidos por diferentes tipos de demências. Alguns passavam o dia na instituição e ao fim da tarde voltavam para suas residências, enquanto outros dormiam em casas mantidas pela mesma instituição, com fins lucrativos, e bem lucrativos, eu diria. A maior parte das senhoras me tratavam muito bem. Foi um tempo de uma rotina marcada pelo inusitado, pela graça, e também pela dificuldade. Num dia a Beta estava confusa, sem saber onde estava, querendo sair para comprar um remédio na farmácia da esquina de sua casa, em Juiz de Fora. No outro, Rosa contava suas histórias, quando professora de piano em Valença. Esta também apimentava as coisas contando semi-safadezas, que provavelmente nunca fez. Eram coisas pueris, para os dias de hoje, mas que ela achava graça, pois deixava as outras senhoras ruborizadas. Com o passar do tempo fui conhecendo parcialmente as histórias. Entendendo o jeito de cada uma. E assim, o estágio, no qual não havia nenhum aprendizado explícito, dado que a supervisão se configurava mais num quadro de recados orais do que na discussão de problemas e casos, mostrou-se um momento de puro aprendizado. Momento de aprender a ver, entender sentimentos, pensar lógicas de ação e reação. Quantas não foram as vias pelas quais busquei o entendimento do quê movia, o quê queria, aquela senhora ali, agitada e agressiva, murmurando coisas incompreensíveis. Como proceder e intervir em relação àquele senhor que, à meia tarde de um dia qualquer, simulava uma masturbação, na mesma hora que jovens senhoras conheciam a casa e se decidiam sobre deixar seus entes queridos ali ou não? Este mesmo senhor que teve uma loja no mercado central, e que, sempre rabugento, implicava com meus cabelos cacheados, num misto de deboche e desprezo. E ainda este mesmo senhor que todo dia me contava do melhor time do Atlético de todos os tempos: “Perigoso, Chiquinho e Binga; Cordeiro, Brant e Ivo; Dalmi, Said (um turco brigador), Jairo, Mario de Castro (o melhor jogador da época) e Cunha”. No meu primeiro dia fui logo apresentado a Dona Argentina. Uma senhora doce, doce. Dizia torcer para o São Paulo e que gostava do Raí, que era bonitão. Daí em diante, de 20 em 20 minutos, ela me perguntava se o Raí ainda jogava futebol. Eu, com toda a paciência, dizia que não, que o Raí já havia se aposentado, naqueles idos de 2003. O bom é ver que, mesmo lentamente, as coisas mudam. Alguns meses depois ela passou a perguntar pelo Kaká e não falou mais no Raí.

No meio disso tudo, com o passar dos dias e meses, é claro que passei a ter minhas preferidas. Uma delas era a Didita, dona Afrodite. Uma senhora magrinha, que ficava mascando um chiclete imaginário o dia todo. Ela falava de forma seca e direta, sempre. Não gostava de mim de início, como convém às pessoas desconfiadas. Mas com o tempo ela foi se tornando carinhosa. Não era essa coisa explícita não, era um carinho velado, mas nem por isso menos profundo e sincero. A outra senhora é sobre quem queria contar uma pequena história. Dona Tiná foi o meu xodó (ela se chamava Albertina, havia outra senhora com o mesmo nome que chamávamos de Beta). Tiná era era muito calma, de fala baixa, gestos delicados, sempre elegante. A cabeça boa, observadora. Ficava sentada olhando tudo e todos e vez ou outra se aproximava buscando saber alguma coisa, ou querendo compartilhar uma impressão que lhe causara os fatos do dia. Ela não gostava das atividades que propúnhamos. Preferia ficar quieta, sentada, conversando com uma ou outra senhora. Às vezes subia para escutar música. Ela era casada e diziam que seu marido era um senhor elegante que aos fins de semana a buscava para um passeio. Ela dormia durante os dias da semana numa das casas mantidas pela instituição e no fim de semana ia para sua casa. Em determinada tarde o carro que levaria as senhoras para suas casas atrasou muito. As gerentes da casa, então, pediram para que alguns de nós, estagiários e funcionários, levássemos as idosas que conseguiam andar para a casa mantida pela instituição, na qual estas pernoitavam e que ficava a três quarteirões de onde estávamos. Eu fui de braços dados com duas senhoras que caminhavam relativamente bem. Uma era a Cilene, uma senhora esperta e ágil que ficava o dia todo lendo e que não se envolvia com nenhuma atividade. Parecia gostar de pontuar que não era da mesma categoria daquelas senhoras demenciadas. E a outra era a Tiná.

Andávamos lentamente. Eu sempre observando o caminho, preocupado com possíveis quedas. Segui ao meio das duas senhoras de braços dados. Caminhávamos e conversávamos. Eram três quarteirões que, sozinho, percorreria em 5 minutos. Nesse dia demoramos uns 20 minutos. Na presença das duas senhoras provenientes de um tempo de outras relações, me fiz um fidalgo perdido no corpo de um jovem estudante de psicologia. Tiná parecia gostar muito de andar de braço dado comigo e eu, levianamente, imaginava evocar ali uma outra presença masculina. Um rapaz de outro tempo, de outros carinhos e destinos. Tiná parecia mais leve, talvez até mesmo por sair à rua, coisa que a vida regrada das instituições, mesmo essas pagas e caras, não permitia. Em determinado momento ela me pediu para parar. Agachou-se um pouco e lentamente pegou uma flor vermelha, num quintal qualquer. Colocou a flor na orelha, olhou para mim e perguntou: “Está bonito?” Eu, respeitosamente, disse que sim. Ela sorriu e continuamos a caminhar, mas agora a calçada que jazia à nossa frente não estava cravejada de buracos, também não ouvíamos buzinas, nem víamos carros. Havia, em volta, um tanto mais de gentileza, e tudo, tudo parecia lento. Minhas roupas também se transformaram. De súbito envelheci um pouco, talvez menos na idade e mais nos trejeitos e no vernáculo. Tiná, ao contrário, estava mais jovem. O olhar profundo e a elegância permaneciam as mesmas. Seguimos andando, um ao lado do outro, talvez no tempo da delicadeza, sem nunca chegar a lugar algum.

Published in: on 05/07/2011 at 19:18  Comments (6)  

Notas doutorais #1

 

Após um ano de início do meu doutorado, só agora sinto que começo a trabalhar em minha tese. O aprendizado, a experiência no mestrado, concluído também a coisa de um ano me mostrou muitos dos problemas que carrego comigo e que preciso enfrentar. Aquilo tudo que esperava de mim e que não aconteceu, veio pedir o troco. Veio mobilizando meus nervos, meus dedos, deixando minha retina inquieta. Essa distância entre “expectativa e experiência” como diz o historiador Koselleck, marca certa virada subjetiva que vejo entre a dissertação e a tese. Explico daqui a pouco isso aí. No mestrado vivi certo estado de alienação. Alienação, palavra difícil. Sempre me lembro de uma seleção para professor no departamento de psicologia da UFMG, na qual uma candidata abusava do termo ao dar a aula, como parte do processo. Toda hora aparecia a tal da “alienação”. Depois da aula, um professor da banca pergunta, “Mas o que você entende por alienação?” E a moça restou agitada em peripécias gestuais. Nós ficamos sem resposta. A pergunta foi essencial, simples, precisa. É preciso saber do quê se fala, de que o espaço comum da palavra, do boteco, do blog, da vida, é diferente sim do conceito, do pensamento filosófico, do fazer científico. É preciso manter o lugar da autoria e o cuidado com a definição. A candidata poderia recorrer ao que quer que fosse para explicar o que entendia por alienação. Se me bem me lembro, alienação em Marx tem sentidos diferentes, dos quais destaco dois que são ligados entre si. O trabalhador está alienado do seu trabalho, pois não toma parte nos resultados deste. A burguesia ao dividir o trabalho em atividades fragmentadas impossibilita que se restitua ao trabalhar o sentido da totalidade.  Num segundo sentido, a alienação é o estranhamento entre a atividade produtiva e a dimensão subjetiva, o que Marx chama nos Manuscritos, de estranhamento. O sujeito não se sente naquilo que faz, sua atividade não é parte de seu ser. Jacques Rancière, em sua tese de doutorado que virou o livro, “As noites dos Proletários”, traz o poema de um operário que exemplifica o segundo sentido. “Eu não tenho vocação para bater martelo”. A atividade é dissociada do sentido do ser humano, do ser eu, do ser. No mestrado vivi por vezes essa dissociação, quando via que meus propósitos se desencontravam daquilo que fazia. E aqui algo curioso e importante se mostra, pois estava alienado de mim mesmo em mim mesmo. Não batia martelo, ninguém me obrigava a fazer o que não queria. Caminhava como desejava. Escolhia meu percurso baseando-me nas minhas preocupações teóricas, nas possibilidades práticas do meu contexto, na minha percepção sobre as questões candentes do momento, buscando nessa costura instituir uma construção autoral. E aqui foi o erro, pois fiquei com essa visão dividida, levei a cabo este projeto fragmentado e nele me realizei, de certa forma. Ou seja, juntei o segundo sentido com o primeiro da alienação aqui de cima, realizei-me no fragmento. Em nenhum momento fiz um todo desses momentos. E a noite “convencia as paredes do quarto e dormia tranquilo”. Daí é claro que o trabalho ficou como um todo bastante irregular. Relendo-o vejo momentos interessantes, percursos e autores complexos bem talhados. Mas também me deparo com afirmações ingênuas e mal-pensadas que, certamente, minam o todo. O impressionante é que repensando no quê aconteceu, ao me deparar com a irregularidade da dissertação, ao invés de marcar posição no front fraco, fiz o contrário, reforcei ainda mais a parte boa. Enfim, questões para análise e para a tese.

A atividade acadêmica deve partir sempre de convicções, de movimentos afirmativos, ainda que estes se mostrem equivocados. O que importa é não manter as indecisões no caminho. A questão não é tanto ser categórico ou não, mas sim acreditar de todo o coração naquilo que se faz. Frente ás leituras de Ernesto Laclau, Jacques Rancière Chantal Mouffe, autores combativos que se equivalem na luta contra o poder hegemônico do capitalismo liberal, do consensualismo e da “ordem” tive eu também que me rebeler contra esses rebeldes. O termo contingência, que alarguei fazendo tudo caber, mostrava que eu não queria escolher um caminho, queria restar à sombra da encruzilhada, da angústia, mas ainda sim à sombra. Quando na verdade o trabalho do sujeito, como já me lembrava Aletta Norval é saber agir e decidir quando se chega a uma situação na qual “Eu não sei por onde ir”.

No doutorado sinto que tenho um problema de pesquisa que me agarra, que me mobiliza. E que me coloca contra dada versão e prática da psicologia social, que fiz minha, esse saber que parece às vezes tomar como “inimigo” a própria psicologia. Uma psicologia social que buscava se firmar no limbo das “grandes ciências humanas”, do qual a psicologia não teria parte, por ser demasiado burguesa, individualista e cientificista. Voltei-me contra essa convicção de que a psicologia social era mais do que a psicologia, e de que por puro acaso (ou melhor, contingência) estava eu no meio de psicólogos, psicólogas, na verdade. Agora quero afirmar a validade da vida subjetiva, do pensamento, do afeto, da singularidade doeu. O que não significa defender a psicologia clínica, pelamoderdedeus. Menos estreiteza… Pretendo encarar essa coisa da “subjetividade” na vida das pessoas, sem medo nem vergonha. Minha busca, que se inicia, é apreender como as pessoas ao se deparar com possibilidades e caminhos as reduzem a uma decisão, em específico a escolhas que jazem sobre o mundo público, sobre questões políticas. O que faz uma pessoa marcada por papéis múltiplos, pai, trabalhador e bicha, amigo e picareta, ou flamenguista escolher votar no PSDB, mudar-se para o Haiti, virar comuna, ou reciclar o lixo? O que este diz para si e para os outros sobre sua decisão? E o que isto tem a ver com a relação que nós estabelecemos com nós mesmos. Agora resolvi… Quero ouvir lorotas. Dessa que a gente usa para justificar a vida que a gente leva, que a gente busca para entender a gente mesmo, quando simplesmente, as coisas não têm muito sentido.

Published in: on 14/02/2011 at 18:26  Comments (4)  

Mas aqui, me diz uma coisa: Essa tal “Psicologia Social” serve para o quê mesmo?#1

Ao longo dos últimos anos tenho escutado, com frequência,  a pergunta acima que se direciona a disciplina científica, a área das ciências humanas que escolhi como o meu campo de trabalho e pesquisa. Para o meu espanto, passado, presente e (possivelmente) futuro, a maioria das pessoas não sabe,   não quer saber, e algumas simplesmente desprezam o que quer que psicologia social signifique. Talvez enxerguem nessa tal psicologia social  um simples entreposto entre áreas como a psicologia ou a sociologia. Assim, venho preparando-me ao longo desses quase 10 anos para responder a essa perguntinha. Pergunta que vem das mais variadas pessoas, de esquerda, da direita, pela frente, dos amigos, tanto dos ingênuos como dos preparados.

Estudo, trabalho e penso tudo na minha vida a partir desse algo que se chama psicologia social. Sim, sou completamente monotemático, e acho que (quase) tudo na vida está inter-ligado e faz sentido. No meio de minha vida classe média zona sul belohorizontina,  com família e amigos não muito afeitos ao cotidiano acadêmico, muitas vezes se fez e ainda se faz necessário explicar as coisas e os problemas dessa área.  O que acredito ser necessário mesmo não seja algo fácil, e isso não ocorre por culpa deles. Pois mesmo entre intelectuais, doutores e professores universitários é recorrente a emissão da pergunta lá de cima. E aí os mais  respeitosos  e cordiais fazem a questão movidos, por certo, por uma curiosidade interessada. Outros não tem nenhum problema em deixar transparecer um mix de  desprezo e desinteresse.

Mas tenho também que reconhecer que antes de entrar no curso de Psicologia, e durante todo o primeiro ano da faculdade, não fazia a menor idéia do que diabos tratava esse termo composto “Psicologia + Social”.  Foi apenas no terceiro semestre, após a realização do curso de “Psicologia Social  I” ( ministrada pela  professora Cláudia Mayorga) que tudo mudou. Posso dizer que a minha vida nunca mais foi a mesma. E esse momento, ou esses momentos nos quais a gente fala “a minha vida nunca mais foi a mesma” em geral se transformam em mantras, em cantos de afirmação e de explicação, que seguem eternamente, ou pelo menos até  o surgimento de um outro desses momentos.  Eternos enquanto durem no fraseado do poeta. São casos de revelação, quando uma verdade se apodera de todas as nossas faculdades presentes, organiza a massa disforme, constitui um destino e dá sentido a história. Algo que eu já sentia, algo que me acompanhava há  um bom tempo, uma busca que não tinha nome subitamente passou a se chamar “psicologia social“. Era o algo que me levava a ler “1984″ e “Admirável Mundo Novo” procurando desvelar  as conexões entre os pensamentos e ações dos personagens e os modos de organização daquele espaço fictício de vida,  interesse além (para alguns, aquém) da coisa literária. Era algo que me deixava besta ao ver que a beleza de Matrix, nos idos de 1999, não estava nos efeitos especiais.  Algo que já havia começado a  teoricamente experienciar quando, no primeiro semestre da faculdade, li o livro mais importante da minha formação acadêmica: o clássico de Peter Berger e Thomas Luckmann, “A Construção Social da Realidade”, na disciplina Sociologia I. E assim seguia atrás de pistas, atrás disso que me  orientava, ainda nebuloso, porque sem nome. Ora, como as pessoas pensam o que pensam sobre as coisas? Como pensariam diferente? O homem pensa igual a mulher? Porque os velhos acham que sabem mais do que os novos, e falam como se de fato soubessem? Porque às 6 da madrugada,  no centro da cidade, há em geral mais negros do que brancos andando pelas ruas? Por que num país com uma população tão miscigenada como a nossa vemos tão poucos negros ocupando profissões centrais na sociedade, como médicos, professores universitários ou empresários?  E por que frente a isso as pessoas acham, de verdade,  que o Brasil não é um país racista? Por que durante boa parte da minha vida convivi, sem maiores problemas, com pessoas que pensam que  os EUA representam o melhor dos mundo possíveis? E como achei isso normal, por tanto tempo?  (Na verdade, honestamente, deveria perguntar quando e por que parei  eu também de pensar assim?)

São essas perguntas que circulam o que eu chamo de psicologia social. E há outras, muitas outras. A idéia simples é que a  nossa vida, os nossos sentimentos e pensamentos são feitos nas nossas ligações com o mundo. É a vida nas suas relações e nas trocas o que anima, estrutura e colore nossa subjetividade.  A psicologia social é talvez mais do que tudo uma recusa de determinada partição entre as áreas do saber, e a implosão de mecanismos históricos de poder e dos conceitos que se seguem a isso. E por isso  a psicologia social representa, ao meu ver, o desejo e a necessidade de uma nova partilha teórica-disciplinar, uma nova redefinição de objetos, métodos e explicações. Historicamente, no caso brasileiro, a psicologia social se definiu em comunhão/diferenciação com a psicologia, ou seja, como uma filha, ainda que bastarda desta. Mas isso não deveria significar que ela não altere,  nem se alimente e que possa efetivamente contribuir com outras áreas das ciências humanas.

Se normalmente respondi a pergunta lá do título com boa vontade e disposição, acreditando na ingenuidade do interlocutor venho a cada momento assumindo uma posição diferente, cínica, desafiadora e exuberante. Do quê a psicologia social não trata, meu amigo? Essa seria a pergunta final que começo aqui esboçando, com dose necessária de  orgulho. Pretendo nessa seção do boteco discutir casos, exemplos de possíveis interrogações e contribuições específicas da psicologia social para os problemas que nos cercam. Alguns vão dizer que a psicologia ou a sociologia já trabalham com isso ou aquilo, e que, portanto, ficar aqui criando mais uma disciplina não vai levar a nada. Muito pelo contrário, o procedimento de fazer valer uma psicologia social a partir de uma ou de outra dessas áreas empobreceu e muito a própria psicologia social, pois o termo novo herdou  as divisórias conceituais, as manias e afetamentos daquelas senhoras velhas.

Para começar, é preciso dizer que não pretendo ser exaustivo, mas apenas trazer a tona exemplos da vida cotidiana nos quais a psicologia social possa nos ajudar a pensar. E que por outro lado, esses exemplos possam também ajudar a dar forma a esse objeto confuso e pouco propenso a substantivos do qual trata a tal Psicologia Social.

(Peguei isso aqui, no BarcoBebado)

Então, depois de ver o filme abaixo, o que diabos será que determina a ação e a escolha dessas crianças?

Olha, sinceramente, eu não faço a menor idéia. O que talvez, seja um bom começo…

pois o termo novo herdou todos os empecilhos e badulaques daquelas senhoras velhas.
Published in: on 08/08/2010 at 01:52  Comments (3)