Domingoesespero

O samba pungente e triste tocando lá no fundo da tela, batendo lá atrás, lá naquela curva da vida, na tristeza daquele vôo dos dados…

Domingo vai se findando, aborda-se às sete horas da noite e não tem jeito, não há o que fazer… Não tem desculpa ou condição ou nada. Vem logo a vontade de levar meu corpo para o bip-bip. Às 18:37 de domingo estou sempre pensando como devo chegar no Bip, se vou andando ou de ônibus. A coisa mais linda de ter morado por um mês na lagoa, no corte do Cantagalo, foi ir e voltar a pé do recinto. Só uma coisa. Eu não acho o bip o melhor ou mais animado samba nem nenhuma adjetivação exagerada, isso de melhor, não é muito a minha praia não… O bip é só o MEU samba, com minhas belezas, contradições, medos e histórias.

Da última vez que estive lái saí triste, triste. Uma mulher, que tenho certeza absoluta, foi lá só para me fazer mal, reclamou que eu cantava muito alto, fez uns gestos meio irônicos, meio agressivos. E funcionou. Fui embora tristinho mesmo, desolado, sabe… tipo cão sem dono. Porque também pensei que ela tava certa, afinal, quem eu penso que que sou cantando alto. Ora, bolas, você não tá no palco Rafael, recolha-se, se enxerga rapaz.

O samba domingo no bip resolveu umas das equações mais complicadas da história do pensamento cartesiano ocidental moderno: Que diabos fazer no domingo à noite?

Ir pro bip.

A única solução possível. E agora resta identificar e viver os simulacros de bip pelo mundo e domingos afora.  Resta fazer como certas meninas que buscam imagens do primeiro amor nos corpos de homens estúpidos por aí.

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Published in: on 11/06/2012 at 21:25  Deixe um comentário  

Bipianas #3

Quando chego no bip fico pensando nos bons motivos para voltar lá, aos domingos.

Dessa vez lembrei que ao sair do Bip sempre fico mais reflexivo, mais dados aos mexericos da mente. Olhando distraidamente para o Alfredinho pensei que um homem, quando dá certo, dificilmente é algo mais do que a persistência de uma chatice em volta de um problema qualquer. Um homem ou uma mulher, que fique claro. O “xis” da questão é saber que problema é esse. Pode ser a revolução social. A dialética marxista. A militante comunista de outrora. Pode ser o Atlético Mineiro. Pode ser a Adidas. Pode ser a família. É o samba.

Pois é. No meu caso é o samba. Fico ao redor dele, tentando fazer sentido do resto, quem sabe dá certo…

Foi lá no Bip, há pouco mais de dois anos, que ouvi a música “A Ponte” do maravilhoso Elton Medeiros e senti algo estremecer aqui dentro do peito.

Published in: on 19/12/2011 at 02:15  Deixe um comentário  

Bipianas #2

Ironia.

Num domingos desses de samba no bip, aconteceu o seguinte. Em geral temos sempre mais cordas do que couros. Mas nesse dia a turma da percursão apareceu reforçada e o samba corria ainda mais bonito. Em determinado momento alguém puxou a maravilhosa Ilu Ayê, samba-enredo-exaltação-black-is-beautiful da Portela de 72.

Negro diz tudo, que pode dizer….

é samba, é batuque é reza, é dança, é ladainha

negro joga capoeira e faz louvação à rainha…

Negro é sensacional

é toda a festa de um povo é dona do carnaval”…

A coisa contagiou e os batuques foram assombrando. Forças ocultas se assomavam a alegria banal, gritos de hoje, gemidos de outro tempo. Um alumbramento se apossou de todos ali presentes. Conversões, absurdos e transmutações se avizinhavam ao momento… O pandeiro, o surdo e os demais  acompanhando/mandando no ritmo da alma.

Nisso, um branco com jeito de europeu, vira para os percurssionistas, a maioria de negros, e os manda diminuir o ritmo e tocar mais lentamente. Logo nessa música, meu deus. Logo nesse momento lindo de desvario. Ah, esse senhor que manda no feudo, no engenho ou só num samba em copacabana.

Os chicotes, sempre eles…

Agora vêm embutidos nas palavras.

Published in: on 11/12/2011 at 22:50  Deixe um comentário  

as canções #2

Acontece em qualquer lugar, muitas e muitas vezes.

Lembro-me, por exemplo, sentado sozinho num pub londrino ser completamente transportado para o calor do Rio ao ouvir aquelas coisas cariocas e tristes que o Moacyr Luz faz.

Quando começa a canção acima, nos primeiros acordes, no balançar do chocalho, vou logo parar em outro lugar. Outra casa, na qual durante um mês me vi sobre um chão. Casa que vivi na companhia amiga de mulheres sensíveis, bravas e fortes (como lhes convém). Essas meninas que encaram de forma leve as dores da vida, os vazios amorosos, as dificuldades financeiras. Me vejo sempre num quarto barulhento de botafogo com “carta de poeta”. Re-vivo as sensações estranhas que certa menina produzia em mim, ali, naquele momento. Quando nada sabia do quê viríamos a ser. Quando não tinha certeza, se ela que me dizia doce que viria me visitar, se viria mesmo. Veio…

É uma viagem, sem metáfora alguma. É só uma viagem para dentro da gente, de nossos sentimentos.

E viagem é aquela coisa, né?

Tem gente que gosta e tem gente que não.

Published in: on 05/11/2011 at 20:12  Deixe um comentário  

Bipianas #1

Aprenda a chegar nos lugares. Mais do que isso, aprenda a sentir, saber se colocar e se movimentar dependendo do lugar que você está.

Desde a primeira vez que entrei no Bip-Bip senti algo bem diferente. Senti uma força de outro plano que me disse: “Vem sempre, menino!”. Senti uma necessidade de que deveria estar ali mais vezes, todas, se possível. Foi o que senti também, anos atrás, no bar Opção, do seu Ronaldo, lá em BH. Fico devendo um texto traçando as relações entre estes dois cenários, o bip e o opção, e seus donos, Alfredinho e seu Ronaldo.

Uma coisa que ambos fazem muito bem, e isso não é de forma alguma por acaso, é dar seus esporros, seus recados. E isso não é nada mais, nada menos do que o signo derradeiro, o aviso final aos desavisados. O esporro, não importando o conteúdo, diz sempre a mesma coisa: “Meu chapa, você não está em qualquer lugar. Você não está na sua casa, no seu quarto, num boteco sem dono, sem história, sem singularidade, portanto, respeite!”. Quando se chega nesses lugares se cruza uma fronteira. Há algo radicalmente estranho nesses bares. E compreendo muito bem porque várias pessoas não gostam de ir aí, já quase não chamo ninguém para me acompanhar no bip. E vejo vários problemas nesses bares, vejo coisas que não deviam acontecer e que acontecem. Mas essa experiência de viver um espaço que não é seu, que é radicalmente outro é algo muito poderoso e lindo. Dá uma tranquilidade, uma paz. Por isso vejo sempre minha relação com esses espaços no enquadre do sagrado. Saber que há transcendência, que algo não se reduz a sua percepção imediata é entender que o mundo é povoado por outras pessoas, outras regras, outras leis, outros sentimentos.  Meu amigo, sinta, não tente entender.

 

Published in: on 10/10/2011 at 02:46  Deixe um comentário  

por precisão

Há algum tempo viajo na idéia de tentar precisar o exato momento de uma mudança. O momento da transformação de um lugar estranho em algo familiar. Um lugar, uma perna de mulher, uma mesa, uma pinta. Um sorriso, a conquista de uma intimidade. Essa preocupação com a dialética estranho/familiar me surgiu pela primeira vez ainda menino,  devia ter meus 10 ou 11 anos, quando me mudei para a rua grão mogol, número 1150, em Belo Horizonte. Lembro de entrar no prédio e achar tudo aquilo esquisito. Os objetos todos ali, me levavam a trabalhar, a juntar, a costurar e fazer relações: o piso de mármore branco da entrada, a rampa de inclinação leve, o corrimão, as escadas, o grande vão, as janelas. Depois mais escadas. E lá em cima o apartamento. Grande e antigo, sem mobília. Como é triste um apartamento sem seus móveis. E passados algumas semanas aquilo foi o meu lar. Casa da minha família, lugar de travessuras, lugar de ser campeão do mundo em 94, lugar de morte do Senna, lugar de desejo e solidão. Espaço no qual vivi por cerca de 6 anos. Lugar de vontades, de jogos e peladas, que com o tempo tornam-se épicas. Principalmente as partidas das sextas-feiras ao fim da tarde.  Lugar de mais peladas nas noites quentes de verão, numa “quadra” ou o que quer que fosse comprida e fina, de piso completamente irregular. Lugar de se descobrir bom em alguma coisa na vida. Bom de bola. Tempos depois, as 6 da manhã, caminhando para pegar o ônibus em direção a faculdade, eu cantava feliz os versos de Edu Lobo: “Brasileiro tatupeba taturana bom de bola, ruim de grana, tabuada sei de cor”. Ser bom de bola, ou ter sido foi algo necessário para minha vida, e só hoje me dou conta disso. Talvez o passo necessário para levar a sério minhas vontades,  para fazer valer objetivamente meus anseios, como foi a solidão da adolescência que me fez valorizar tanto isso do amor. Antes dos 11 anos eu era um péssimo jogador, e posso dizer, sem medo que foi ali na Grão Mogol que as coisas mudaram. Devaneio. Volto ao ponto: foi nesse prédio que tive uma certa consciência explícita dessa mudança do estranho ao familiar.

Isso me voltou uns dias atrás quando passei na rua General Polidoro. Ali ando vivendo a experiência dupla, estranho-familiar e depois familiar-estranho, novamente. Do espaço estranho que vira familiar e que depois volta à desatenção saudável dos prédios pelos quais se passa. Ali, nessa rua, que tantas vezes passei, por alguns anos a caminho da faculdade e de casa, foi ali que morei durante um mês. O prédio situado à frente da banca que parava, nesse outro tempo, para ler notícias, que parava para ver e rir ou chorar com a manchete do Meia. Ali, morei durante um mês. Um mês lindo, lírico. Um mês de pausa e trabalho. Um mês no qual reconstruí um mundo, um tanto devastado. Um mês no qual fiz daquele espaço uma casa e também um ninho, o mais bonito. Com segurança posso dizer que apenas no primeiro dia estranhei o ambiente. No segundo já me familiarizei com suas maravilhosas e vivas moradoras, com suas as quinas e móveis. E agora, passo mais uma vez na porta dessa casa que agora volta, lentamente, a ser espaço de passagem. Lembro de chegar a janela e pensar como é bonito morar e ter uma janela de frente para a rua, e na primeiro noite perceber como também é barulhento isso. E aí descobrir o quanto sou sensível ao barulho. Ainda descobriremos coisas assim, óbvias, pela vida a fora.

O olhar cotidiano daqueles prédios, daquelas construções banais, o olhar bêbado, pela manhã, ou sóbrio pela madrugada, de dias sozinho ou acompanhado, adquiriu sentimentos agudos e lembranças. Foi um mundo que se forjou nesse mês. E esse mês segue transposto ao infinito. Dentro de dezenas de anos, envelhecido e mais chato, quando um garoto me disser que mora na rua General Polidoro, eu lhe direi com graça: “Garoto, eu já morei na rua General Polidoro, em Botafogo, próximo ao cemitério, né?”. Agora, esse estado de coisas retorna a um certo desconhecimento, a coisa blasé tão bem colocada por Simmel no seu clássico sobre a metrópole e a vida mental. Eu sigo, e volto a passar por lá, agora com desatenção e pressa.

Volto, passo na frente do prédio e apenas olho as manchetes do Meia.

Published in: on 30/09/2011 at 13:53  Comments (2)  

B de Bip-Bip

“Eu chego lá, parece que cheguei em casa. Cheguei na maravilha, cheguei no céu, cheguei aonde eu queria chegar.”

 

Published in: on 30/08/2011 at 21:05  Deixe um comentário  

A. de Alfa

“Os melhores de todos serão aqueles que têm apenas uma única certeza: independentemente dos fatos que aconteçam enquanto vivemos, estaremos condenados a viver conosco mesmos”. Hannah Arendt

Apesar do nome deste blog tenho falado pouco, ou quase nada dos bares. E é talvez um descuido. Não descuido com os bares, mas um descuido comigo mesmo. Porque os bares são parte de mim, são meus “lares”, se me permitem a infâmia. Mas é isso aí, quando entro num bar, barulhento, confuso, com garçons berrando pedidos, gente fazendo caras e bocas, aí sim… Aí sim, me sinto em casa. Não sei dizer sobre o meu conforto nessa bagunça, mas que las hay, las hay.  Em Belo Horizonte nenhum lugar, nada me fez e me faz mais feliz do que o Opção. Ali eu encontrei, em matéria e devaneio, tudo o que se precisa para viver. Ao seu Ronaldo e a todos da casa serei eternamente grato. Mas o Opção sempre foi um lugar do delírio, não tanto isso do bar-lar, dessa relação próxima e cotidiana, quando, por exemplo, sem ir ao bar ele vai a você na figura de um garçom que atravessa a rua na sua frente. Em BH senti algo assim pelo Bar do Paulinho, apesar do dono do recinto ser dado a desaforos. Mas enfim lá também foi um bar de infância/adolescência/mulecagem. Assim, nenhum bar em minha vida se equivale ao Alfa, aqui no rio, ao lado da casa onde morei e fui feliz por mais de 3 anos. Chego agora de lá, fui tomar uma cerveja e comer uma pizza de carne seca com catupiry para descansar da escrita do meu projeto de tese. E sentado no bar não impedi as lembranças. Ali, entre paredes de um azulejo de muito mau gosto recordei histórias, momentos, pessoas. Sentado numa cadeira que é grande demais para o tamanho da mesa, percebi que ali me senti sempre em casa. Não seria exagero dizer que a escolha da casa onde morei, a 20 metros do bar, se deu em larga medida pela presença desse bar. Num domingo, nos idos de 2008, eu e Gabriela passamos na porta a caminho do apartamento que iríamos olhar. Ao passar na porta do bar, no seu clima peculiar de domingo, cadeiras na rua, conversas animadas, um preparo dos clientes para o futebol de mais tarde, senti ali algo bom. Essa coisa que a gente sente e diz quando encontra o lugar da gente, no mundo, na existência ou mesmo em Botafogo. Foi no Alfa que, ainda na primeira semana de mudança, sentamos para almoçar e esperar o fogão que chegaria da loja naquele dia. Na dúvida, comi logo uma feijoada, ainda que de início tenha refugado, pensando que talvez não poderia dar uma dormida depois do almoço. Disso não lembro, mas é provável que não tenha resistido a siesta. Poucas semanas depois resolvi almoçar lá por volta das 5 da tarde. Corri pro Alfa e perguntei para o garçom, o Neto, se ainda havia almoço. Ele, zombeteiro me disse: “Rapaiz, aqui quando acaba o café da manhã, começa o almoço e quando termina o almoço já é a janta” Tem como não se apaixonar por um lugar onde se ouve isso?

O Alfa fecha por volta das 3, 4 da manhã e abre antes das 7, nos dias de semana. Nos fins de semana ele abre por volta das 9, com isso poucas vezes vi o bar fechado. E é possível que denunciasse mais o fim do mundo ver o Alfa fechado do que não ver o sol. Mas foi quando quando terminava minha dissertação de mestrado, ansioso e angustiado, que nós dois mais nos aproximamos. Enquanto achava que nada daria certo, que não conseguiria terminar nem o capítulo 2, quiçá a dissertação, corria para o alfa e lá tomava, invariavalmente, uma cerveja e comia ou uma pizza ou um belo PF, que às 3 da manhã, é muito mais PF. Voltava para casa repleto de idéias e bem mais tranqulo. Os turistas que chegam ao rio logo querem conhecer o Pão de Açúcar, o Cristo e essas coisas, Ipanema, Lapa. Mas só hoje me dei conta de que nunca deixei de levar um amigo para conhecer o Alfa. Alguns compartilhavam dessa minha alegria esfuziante pelo recinto, enquanto outros apenas prezavam muito minha amizade. Não me importava o que achavam, importava que conhecessem o “meu” bar. Mais do que um bar o Alfa foi um tempo. Que passou. Mas o Alfa continua lá, firme, nos lembrando como diz um dos velhos entrevistados por Ecléia Bosi, que não é o tempo que passa, é a gente que passa por ele.

Published in: on 21/07/2011 at 12:41  Comments (5)  

Ainda temos Chico Buarque de Hollanda

“Vim reiterar meu apoio a essa mulher de fibra (Dilma), que já passou por tudo, e não tem medo de nada. Vai herdar um governo que não corteja os poderosos de sempre. O Brasil é um país que é ouvido em toda parte porque fala de igual para igual com todos. Não fala fino com Washington, nem fala grosso com a Bolívia e o Paraguai”. (Chico Buarque)

Depois da declaração do Chico ontem, lembrei-me de um texto do Vinicius de Moraes escrito para o cronista e compositor Antonio Maria, amigo intimo do poetinha. O texto é delicioso, mas os dois últimos parágrafos são de arrepiar.

É preciso ouvir o poeta.

Oração Para Antônio Maria, Pecador e Mártir
– de Vinícius de Moraes- 1968

Nós saíamos os dois do Vogue, e depois de deixar Aracy no táxi que a levava ao seu subúrbio, seguíamos de carro até o Leblon, às vezes acompanhando a matilha madrugadora de vira-latas a transitar entre as calçadas do Jardim de Alá; havia sempre um que parava para fazer pipi, o que provocava o reflexo dos outros, e era aquela mijação feliz – que eu nunca vi raça de bicho mais contente da vida que vira-lata carioca ao nascer do sol. Parecia, mal comparando, uma fileira de lingüíças semoventes, uma a cheirar o rabinho da outra.
Você ria uma grande gargalhada, contente com o seu Cadillac velho, com a explosão da aurora no mar, com os vira-latas transeuntes e com seu novo amigo e poeta. E depois de passar pela casa de Caymmi, para ver se o baiano ainda relentava a noite, acabávamos nos Pescadores, enfrentando um filé com fritas, ou uns ovos com presunto, os melhores de Copacabana, porque eram feitos para a nossa grande fome. O pão era fresco, a cerveja bem gelada. Depois você me deixava em casa, eu dilacerado de saudades de tudo: de você, das conversas na boate amiga, onde dois barões, Von Schiller e Von Stuckart, disputavam em carinho e gentileza. E sobretudo da mulher amada ainda não tida. Você, maciste ao volante, cantava a marcha que tinha feito para a minha infinita dor-de-corno:

É muito Tarde para esperar por ela
Ela não vem ouvir a tua voz
Esquece, amigo, porque a vida é bela
A noite é grande e cabe a todos nós…

Um elo forte e viril se fizera entre nossas almas, e nós passamos a ser imprescindíveis um ao outro. A noite  – que esperança! – não era grande, era pequena para a nossa gula de vivê-la em toda a sua plenitude. Tudo passava tão rápido, nós olhávamos as moças dançando. Aracy cantava, surgia a figura amiga de Fernando Ferreira, de repente a porta da boate deixava filtrar a luz da manhã. “Ele”, como dizia Américo Marques da Costa, tinha despontado. Mais um dia, mais uma morte. Muitas mortes morremos nós, meu Maria, antes que a sua acontecesse para deixar-me mais só vivendo as minhas.
Tantos já se foram, atraídos pela Grande Noite… Evaldo Rui, Bicudo, Stuckart, Waldemarzinho, Louis Cole, Alzirinha, Mauro, Dolores, Ozorinho, Ismael Filho, Ari… Mas em compensação aí estão Paulinho Soledade, Carlos Niemeyer, respirando por um fole só, mas cada dia fazendo mais viração; Verinha, esse amor de Verinha, uma graça total; a nossa boa Araça, rainha das vagotônicas, e o querido Rinaldinho, que neste particular nada lhe fica a dever, ele e sua gargalhada que o rádio silenciou. E de vez em quando ainda acontece uma grávida, em geral moça do Norte. Porque a verdade, meu Maria, é que depois da pílula, moça carioca quase não muda de silhueta.
Às Vezes eu fico pensando. Não sei se você gostaria de estar vivo agora, meu Maria, depois de 1964. Tudo piorou muito, o governo, o meu caráter, a música. Agora só se faz música para Festival e perdeu-se aquela criatividade boa e gratuita da década de 50. Todo mundo faz música com objetivo: comprar apartamento, ter um carrinho, ganhar popularidade, dobrar o cachê, vencer Festival, namorar as moças, bater papo furado. Isso não quer dizer que os caras sejam ótimos compositores: eles o são. Mas tudo é feito com espírito muito toma-lá-dá-cá, cada-um-por-si-e-Deus-por-todos. Assim, a meu ver, perde a graça. Aliás, não é culpa deles, em absoluto. É “o esquema”, como está na moda falar. Eles têm que estar na onda, senão não tem apartamento, não tem carro, não tem cachê, não tem Festival, o papo micha e as moças não dão. Ficam, por assim dizer, marginalizados, e aí nem o Globo nem a Record querem nada com os infelizes. Em resumo, meu Maria, não se perdeu a música; perdeu-se a sua dignidade.
Mas por um motivo eu sei que você gostaria de estar vivo: as moças. Elas estão, meu Maria, cada dia mais lindas e esportivas, havendo mesmo uns espécimes de se espetar na parede com alfinete. E acho que você iria gostar do Antônio’s, um restaurante novo do Leblon onde todo mundo vai, e tem de certo modo o espírito do velho Maxim’s dos anos 51/53.
De vivo mesmo, meu bom Maria, há Oscar Niemeyer e Di Cavalcanti, certamente os dois maiores homens do atual Brasil. Di está, nos seus setenta, a coisa mais jovem, trêfega, inteligente e lírica do mundo, pintando cada dia mais lindo e batendo o melhor papo da República. E Oscar então, desse nem se fala. Elevou-se muito acima de todos, pelo gênio, pela consciência política, pela compreensão humana, pela simplicidade autêntica.
E há os estudantes. Estão maravilhosos, e dando lição de cultura aos pais e professores. Saem à rua como um fogo que se alastra, fazendo comícios relâmpagos, topando as paradas com a polícia e conseguindo unir todas as camadas da população, com exceção dos milicos. Outro dia nós saímos em passeata cívica, e éramos 100 mil na Avenida Rio Branco: estudantes, intelectuais, clero, donas de casa, protegidos por um extraordinário esquema de segurança bolado pelos próprios garotos. Uma beleza. Se alguma coisa de bom tem que sair deste país, vai ser à base do novo movimento estudantil.
E, naturalmente, Chico Buarque de Hollanda

Published in: on 19/10/2010 at 15:04  Comments (2)  

Rio de Janeiro: Violência, Medo e Execução

Ao passar por uma banca não resisto e sempre confiro as primeiras páginas dos jornais, sobretudo dos mais vagabundos. Aqui no Rio sempre encontramos na capa desses jornais algo sobre o flamengo, a violência e mulher gostosa. Uma capa exemplar é a de hoje, 3 de novembro de 2009 do jornal Meia-Hora, no qual as coisas foram ainda mais facilitadas, pois juntou-se mulher e flamengo, num novo caso do jogador Adriano:

capinha

E não estou aqui criticando estes jornais, pois acho que eles conseguem captar e sustentar figuras que se encontram nas palavras e visões dos cariocas, ou pelo menos de parte deles. E dessa forma,  acabam trazendo a tona, em cores berrantes, coisas que nunca estariam estampadas nas páginas aristocráticas e frígidas dos globos e folhas de são paulo da vida. De fato, o que me incomoda sim, sobretudo nas capas do ‘Meia-Hora” é a defesa irrevogável das ações da polícia, mesmo de suas ações mais cruéis, e a completa ausência de qualquer reflexão sobre isso tudo. O tema e o tratamento dos criminosos continuamente aparecem associados a  “pragas” e “insetos” da vida social.

bopecida

E é nessa mesma onda, que prolifera entre a nossa “grande” mídia e nossos políticos o termo “bandido”, e “vagabundo”. Termos que não caracterizam nenhum tipo de prática ou ação, como “traficante”, “assassino”, ou “ladrão”. Ao subsumir todos na classe “bandido” constrói-se, por um lado uma indiferença entre estes sujeitos e suas ações, e por outro crias-se uma diferenciação brutal em relação aos trabalhadores, nós, as “pessoas normais” como outro dia disse o presidente Lula. Assim, não resta nada que valha qualquer coisa do lado de lá, no lado dos anormais, dos bandidos.

O último marxista vivo, Istvan Mészaros escreveu há algum tempo uma frase que podemos usar como código para interpretar as questões sociais no país: “Quando os conflitos já não podem ser ocultados, são tratados meramente como efeitos dissociados de suas causas (A Necessidade de Controle Social, p.33)”. Nada que acontece no Rio parece ter causa. A violência urbana emerge como um grande enigma da humanidade, mas  ninguém parece tentar decifrar esse enigma. Assim, um problema histórico e recorrente aparece sempre como algo novo e inédito, sobre o qual pouco entendemos. O que se quer é sempre alguma resposta rápida e nervosa por parte do estado. Mortes, muitas mortes cabem bem nessa equação.

E assim de tudo o que já se falou e escreveu sobre o assassinato do coordenador de projetos do Afroreggae, da participação da polícia no latrocínio, do descaso com a vítima agonizando no chão, e da liberação dos mesmos. De todas essas coisas que ampliam nossa úlcera e neurose cotidiana, uma que me chamou atenção foi a fala do diretor executivo do Afroreggae, José Junior, que logo após a divulgação das imagens do carro de polícia passando, segundos após o assassinato, declarou que o mais importante naquele momento era ir atrás dos assassinos.  Assim, ele minorou a importância e envolvimento da polícia nisso tudo. Ora, aquilo me pareceu tão estranho. Não porque não se deve procurar e prender os  culpados (o que ocorreu durante a última semana), mas porque não se deve minorar as ações dos policiais. É preciso colocar muita luz nesse caso. Não para tratar tais policiais como os únicos responsáveis por tudo isso,  mas como pontes que nos levam a pensar o que é a polícia, suas práticas e sua cultura. É preciso parar de eliminar ou expulsar os sujeitos como se tudo se tratasse de problemas individuais. Pois o que acontece com o Capitão Bizzaro, e o tenente Vinícius Ghidetti (do caso do morro da Providência), é o  mesmo processo que sustenta as práticas de extermínio. A dissociação dos indivíduos com seus lugares e práticas sociais. E é aí que entra o mote do Mészaros, trata-se conflitos como se fossem coisas isoladas, sem causas. A magia das comunicações e dos homens de poder é conseguir sustentar isso ao longo do tempo, quando a repetição de atos violentos (assim como da confluência de instituições legais e criminosas, nesse caso) deveria estabelecer uma sólida ponte entre tais questões. Morando no Rio há um ano e meio fica bem claro que o tráfico de droga, o crime e a violência estão entranhados na cidade. Mas a cada nova “onda” de violência parecemos esquecer que as ondas são causadas pela dinâmica do mar, da praia, da água.

E assim seguimos. Há algumas semanas um helicóptero fora derrubado numa favela carioca. O que vimos se seguir disso foi uma série de ações da polícia,   de invasão, prisão e morte em favelas e periferias que parecem não precisar de nenhuma explicação. Um problema grave nesse caso é que boa parte da sociedade civil considera necessária, ou ainda normal, tal tipo de ação. Como se para fazer omeletes tivéssemos sempre que quebrar os ovos,  não  mesmo o que se diz. O problema é que não estamos fazendo omelete nenhum, e que os ovos são pessoas, vidas e sonhos.

Não vi o filme “Salve Geral”, sobre os ataques e as consequências das ações do PCC em São Paulo em 2006. Mas mais do que o filme propriamente dito, essa notícia me impressionou muito mais. Ainda mais porque não me considero desinformado, e busco sempre ler outras fontes de informação além da monovisão propalada por nossa grande mídia. Fiquei bastante impressionado com o número de assassinatos que se seguiram aos ataques do PCC em São Paulo, em maio de 2006. Mais de 400 pessoas morreram. Eles eram, em sua maioria, jovens pobres e negros. O que sei e lembro com clareza dessa época é a forma relativamente simples que se construiu um bloco, uma aliança simbólica no qual algumas práticas e ações passaram a ser “necessárias” para defender a nossa vida social. Ou seja afetos, sentidos de responsabilidade e moral foram ativados frente a esse inimigo terrível e muito presente, o PCC. Na época morava numa cidade do interior de minas e só acompanhava tais notícias via Globo, Band, Record e Sbt. E ainda que nenhum desses canais trouxesse tais reflexões, era claro para mim que estávamos frente uma maneira diferente de ação criminosa. Queimavam-se ônibus, sem pessoas dentro, os ataques se dirigiam a grande Bancos e policiais, no trabalho e a paisana. Sobretudo o ataque a bancos e a policiais me pareceu bastante significativo de uma intencionalidade, um objetivo, e logo de alguma visão e raciocínio. Mas não, logo se propagou o medo generalizado de que o Brasil iria explodir a qualquer momento, e que qualquer pessoa poderia ser atacada na rua. E é esse medo que alimenta a nossa cegueira frente a morte dos mais de 400 jovens…e não só em 2006.

E é por isso que a manifestação das mães dos executados em São Paulo, na ocasião do filme “Salve Geral” é algo de extrema importância. Pois mais do que coisas isoladas, já podemos ver nesse passado, cenas de um futuro/presente bem próximo. E sabemos que a história sempre se repete como farsa. Acredito que é isso o que veremos no rio por muito tempo ainda, essa farsa que tanto acaba com a vida, com o sonho e com a beleza.

Published in: on 03/11/2009 at 19:00  Comments (1)