Domingoesespero

O samba pungente e triste tocando lá no fundo da tela, batendo lá atrás, lá naquela curva da vida, na tristeza daquele vôo dos dados…

Domingo vai se findando, aborda-se às sete horas da noite e não tem jeito, não há o que fazer… Não tem desculpa ou condição ou nada. Vem logo a vontade de levar meu corpo para o bip-bip. Às 18:37 de domingo estou sempre pensando como devo chegar no Bip, se vou andando ou de ônibus. A coisa mais linda de ter morado por um mês na lagoa, no corte do Cantagalo, foi ir e voltar a pé do recinto. Só uma coisa. Eu não acho o bip o melhor ou mais animado samba nem nenhuma adjetivação exagerada, isso de melhor, não é muito a minha praia não… O bip é só o MEU samba, com minhas belezas, contradições, medos e histórias.

Da última vez que estive lái saí triste, triste. Uma mulher, que tenho certeza absoluta, foi lá só para me fazer mal, reclamou que eu cantava muito alto, fez uns gestos meio irônicos, meio agressivos. E funcionou. Fui embora tristinho mesmo, desolado, sabe… tipo cão sem dono. Porque também pensei que ela tava certa, afinal, quem eu penso que que sou cantando alto. Ora, bolas, você não tá no palco Rafael, recolha-se, se enxerga rapaz.

O samba domingo no bip resolveu umas das equações mais complicadas da história do pensamento cartesiano ocidental moderno: Que diabos fazer no domingo à noite?

Ir pro bip.

A única solução possível. E agora resta identificar e viver os simulacros de bip pelo mundo e domingos afora.  Resta fazer como certas meninas que buscam imagens do primeiro amor nos corpos de homens estúpidos por aí.

Published in: on 11/06/2012 at 21:25  Deixe um comentário  

Descoberta

             Volta e meia volta.

     Quando conheci o disco-show “O importante é que a nossa emoção sobreviva” de Paulo César Pinheiro, Eduardo Gudin e Márcia, fiquei uma noite e três semanas em êxtase profundo, escutando e tentando decifrar o segredo da vida. Na casa de minha mãe, enquanto meu irmão fazia uma festinha com seus amigos, eu ficara ali absorvido pelo disco que acabara de baixar. A noite foi de deslumbramento. Foi quando também me apresentei ao Sr. Roberto Ribeiro. Ouvia esses discos absurdos, “novos”, mais uma vez, mais uma vez, mais uma vez. Ah, essa boa repetição! Como também aquela outra. “Onde você estava?”, “como vivi até aqui sem te escutar?”, ou “o que havia de tão importante na escola para nunca terem me ensinado a escutar isso?”. São os pensamentos que brotam nesses momentos. É um troço doido, uma alegria maior, e maior do que a música é a própria “descoberta”, a esperança que dá de saber que esse troço bonito existe mesmo, de verdade. Nesse momento a coisa fica.

     Em Salvador, sentado num albergue no Pelourinho escutei, enquanto esperava a Rita acordar, uma voz linda e grave, cheia de charme, vindo da rua. Fui lá na loja de música, origem do som, e perguntei quem é que estava cantando. “Ederaldo Gentil”, respondeu o rapaz. Registrei o nome para mobilizar um pouco minha obsessão quando voltasse de férias. Contrariando as estatísticas, acabei esquecendo… Passaram alguns meses e, semana passada, me deparei com a voz desse sujeito nas redes sociais da vida, exatamente com a música acima. Que coisa linda.

     A descoberta desse mundo secreto não deve nada às descobertas mais lindas da vida, do amor, da poesia, das mulheres. Principalmente quando elas deixaram a companhia de Platão e vieram, de mãos dadas com o velho Marx, entoando sambas e marchinhas, a me encontrar. E tudo isso aconteceu mais ou menos no mesmo momento, no final da escola/início da faculdade. Foi quando veio o samba e que se fez presente a mulher. Essas lembranças me mandam mais uma vez à amargurinha que sinto dos meus dias de escola, de minha adolescência…. Vivi tudo aquilo como uma prisão. Não me envolvi verdadeiramente comigo mesmo nessas relações com o mundo, as artes, os problemas de meu tempo, as paixões, as moças. Errei pouco, briguei pouco, maltratei pouco… Tinha medo dos efeitos de minhas ações, tinha medo de desagradar, de deixar minha mãe triste… Tinha medo. Imaginava um godfather mafioso e bravo, lá em cima a perguntar: “E aquele magrelo esquisito ali do lado, qual é a dele?” Alguém diria, “nada chefia, esse aí é figurante, liga não.”

     Descobrir as mulheres continuou no descobrir músicas, cantores, suas histórias, e a história que há por trás disso tudo. Saber que a letra de Regra Três foi, na verdade, uma segunda versão feita por Vinícius de Moraes, atacando pessoalmente Toquinho que não havia gostado da primeira versão, é algo bonito. Mas mais bonito ainda é entender que o ataque está nisso aqui, no: “tantas vocês fez que ela cansou / porque você rapaz, abusou da regra três / onde menos vale mais”. A letra é toda um puxão de orelha do poeta no parceiro que andava ludibriando sua amada de então, uma pobre e bela donzela indefesa, procurando outras e sempre mais, quando Vinícius lhe ensinava que menos vale mais.

     Foi nessa toada de solidão e descoberta, que pouco antes do Carnaval de 2005 me debrucei na vida de Noel Rosa. Já não sei o quê tanto me intimava para comparecer a Noel. Talvez apenas uma curiosidade mórbida, que naquele momento me assombrava. Perguntava-me como um sujeito que morreu tuberculoso aos 26 anos conseguiu compor tanta música (mais de 300) e viver uma vida tão intensa. Aos 22 anos sem sinal de tubérculos ou intensidade, andava assombrado pela possibilidade da solidão e da incapacidade de deixar marca alguma na terra. Passei aquele carnaval longe da música alta e dos desejos e carícias, trancado em casa lendo a volumosa biografia do compositor carioca, safado e bem-humorado da Vila. Noel compôs Gago Apaixonado pra sacanear seu vizinho que sempre cantava as músicas que ele gravava. “Canta essa agora meu chapa, canta?”. Ah como fui feliz naquele carnaval. Por um lado ficava ansioso com a ausência das mulheres reais, lembrando sempre do imperativo moral do filósofo Rubem Braga que dizia enquanto estou escrevendo, lá fora, na rua, passam mulheres. Minha obrigação era descer as escadas e ir vê-las”. Eu que nem escrevia, apenas lia, por outro lado, já suspeitava que os afagos não dados, mas bem guardados na estufa da imaginação, iriam se proliferar e se converteriam em beijos e olhares ainda mais bonitos e exuberantes, tempos depois.

     Noel Rosa e Mário Lago disputaram bravamente o coração de Ceci. Foi para Ceci que Noel compôs “Ultimo Desejo”. Ceci dizia sobre os dois amantes uma coisa interessante. Mário Lago, comunista de carteirinha do partidão, fazia longos discursos contra a opressão do capitalismo, mas vestia as melhores roupas e freqüentava os ambientes mais privilegiados, burgueses, daquele Rio dos anos 30. Já Noel, por sua vez, dizia a moça, nada dizia, mas andava sempre entre os pobres, vivendo com o povo, fazendo samba e não discurso. Em outro momento, ouvimos outra história. A esposa de Noel (sim, ele foi casado) desconfiando de suas saídas noturnas perguntou ao poeta aonde ele ia. Ele então sugeriu que ela o acompanhasse. Noel seguiu para a central do Brasil, entrou nesses trens que seguem para o subúrbio e lá, vendo o povo, compôs música. Era o que ele fazia. E era também o que fazia Odair José, sentado nas rodoviárias, nos cantos pobres da cidade, conversando com o povo e escrevendo música. Como psicólogo social, o que sou, não posso deixar de me encantar com isso tudo. Um dia ainda constará numa ementa de um curso de metodologia em psicologia social, um trecho da biografia do Noel e alguma coisa sobre Odair.

       Ah, e mais uma coisa, antes que me esqueça. Noel morou em Belo Horizonte, minha terra. Não agüentou, queria voltar para o Rio, para suas orgias, para seus sambas. Seu médico lhe aconselhou que ficasse em BH. No que o mestre disse: “Melhor um mês no Rio do que 10 anos em Belo Horizonte”. Se o seu julgamento foi justo ou não é coisa que não me cabe julgar, mas que ele acabou correto no seu dizer, isso sim, pois morreu pouco depois, no Rio de Janeiro.

Published in: on 14/03/2012 at 12:22  Comments (1)  

TE DISCO TODA# 2 – Canto por um novo dia

    

      Não sou fã da Beth Carvalho. Reconheço seus méritos como cantora e a admiro por sua militância cultural. Acho bonito seu modo de cantar e seu repertório, mas na verdade não me derreto de paixão por ela. Não tenho nenhum orgulho disso, não porto-bandeira dos meus desgostos. Beth é reconhecida por iluminar outros artistas a partir de sua posição, gênios da antiga, como Cartola e Nelson Cavaquinho, mas também artistas que ela ajudou a lapidar como Zeca Pagodinho e o pessoal do Fundo de Quintal. Mas mesmo assim tenho que confessar que sinto algo estranho pela cantora. Um desconforto. Talvez tome por “Beth Carvalho” sua última versão. E aí já não gosto tanto de sua voz, do seu repertório e do modo como canta. Por isso amo tanto o disco Canto por um novo dia, de 1973. Ainda não temos a Beth de Coisinha do pai ou a de “Chora não vou deixar…chegou a hora, laiá laiá”.

      O disco é triste, lírico um tanto grave com sutis toques de graça. E é um disco, coisa rara. Por isso falo dele aqui. Escuto-o todo, de cabo a rabo, muitas e muitas vezes.  Como já falei, a idéia dessa seção é falar sobre alguns discos que me deixam felizes por existir. Discos que soam como uma obra, na qual até aquilo que é estranho parece ter sido cuidadosamente colocado ali. Foi só me preparando para escrever esse texto que vi o grupo da pesada que toca com a madrinha do samba. Não sabia, mas os arranjos são de Cesar Camargo Mariano. No violão Dino 7 Cordas, Geraldo Vespar e Nelson Cavaquinho (em Folhas Secas), na percussão Mestre Marçal, dentre outros. Mas o que mais gosto é a maneira como Beth canta. Tem vida, tem dor, uma voz mais grave que aquela que acostumamos. Coisa linda. Escute, vai.

      O início é retumbante. A primeira música é das que eu mais gosto no disco, Hora de chorar. “Com licença… está na minha hora de chorar…”. É nesse tom, melancólico e profundo, já anunciado na primeira frase que o disco segue. Na letra e na melodia. A próxima canção que dá nome ao disco Canto para um novo dia parte da dor da música anterior para nos dizer que: “a tristeza que chora é a mesma que ri / vou morrendo agora, mas esta dor terá fim…”.É um desses sambas que gosto tanto, ps levanta-defunto, os sambas “sacode, levanta a poeira e dá volta por cima”. Essas músicas de esperança e de vida, porque a tristeza e a dor, bebê, estão sempre aí.

      Em Se é pecado sambar Beth nos brinda com outro gênero de samba que amo, o meta-samba. no estilo “o samba é o meu dom” do Wilson Batista e PC. Pinheiro ou o “eu canto samba” do mestre Paulinho. É uma dessas músicas que a gente fica cantando e se deliciando com a doce sacanagem explícita do samba. A malícia, o requebro do pandeiro, do cavaco. E aí com a próxima perdemos um pouco o rumo, pois  para surpresa geral, chega um frevo, e dos crássicos: Evocação n.1. Nessa versão o arranjo cheio de estilo dá uma sublimada nos calorsh do frevo. Na sequência vem essa música triste e tão bonita. De autoria do Gudin e do PC. Pinheiro, com a interpretação feminina, necessária nesse caso, para a Velhice da Porta-Bandeira . A música pede um andamento lento, uma tristeza que aparece de uma dia para o outro, uma dor impossível que se instala quando tudo parecia só beleza.

“Ela se emocionou / perto dela ela ouviu /
alguém gritou / Viva a porta-bandeira!! /
sou eu, ela pensou / mas foi a outra quem se curvou…”

     Ai, como isso dói. Até hoje, quando escuto esses versos fico com uma pena daquela que já não é mais a porta-bandeira. Fico pensando se não teria jeito das coisas serem diferentes, mas não, não tem, não tem jeito… a vida é isso mesmo. O tempo passa e há sempre outra porta-bandeira a espreitar. A próxima música é dessas gravações que consolidaram o lugar especial da Beth Carvalho no nosso imaginário. A clássica Folhas secas de Nelson Cavaquinho. Adoro os bordões do violão do Nelson quando ele toca, os tom tom tom, marca única do mestre. E a música seguinte vem anexada à sacanagem carioca, uns sorrisos no meio dos versos. Salve a preguiça meu pai. “Com meus pés não vou, venha me buscar / mas só vou…. de colo, para não me cansar”.

      Em seguida a gente escuta Mariana da gente, outro samba filho mais da tristeza do que da alegria. Tem uma passagem que o Cartola, já mais velho, comenta que o seu samba  já não serve para animar carnaval e escola de samba, que seu samba agora é triste, melancólico, e é esse samba que tanto me toca. A autoria de Mariana é do João Nogueira, o que me surpreende, pois não parece coisa do João não. Adoro a passagem: “Em um lindo apartamento, de mármores negros, do lado do vento, de frente pro mar / Nova mulher, nova beleza, um olhar só de tristeza, com um sorriso de agradar…”. É das minhas favoritas. Ô Mariana, menina, volta para Piedade. Copacabana não é seu lugar, que a gente tem saudade…

      A partir daqui, em minha opinião o disco perde força. O melhor já passou. Talvez Beth tenha exagerado tanto no início que o quoficiente de lirismo atinge seu limite com MarianaFim de reinado é um samba bonito, mas não é dos meus preferidos. Clementina de Jesus, a 11ª primeira canção, é um samba de autoria de Gisa Nogueira para homenagear a folclórica Clementina. A lendária cantora que integrou o conjunto Rosa de Ouro e só foi ser reconhecida publicamente já bem velha. Em Memórias de um Compositor Beth rasga o verbo para elogiar a sua escola do coração, a Mangueira. A última versão é um pout-pourri composto por Flor de Laranjeira/Sereia/São Jorge Protetor. São músicas antigas que ressoam nessa emoção do povo que canta no fundo de quintal, nos churrascos da periferia. Sambas que procuram fazer a gente cantar, sem rebuscamento, para simplesmente fazer festa. rir, sem pretensão estéticas. É assim que Beth termina o disco. Sai um pouco do tom “Cesar Camargo Mariano”, na sua elegância para chegar a esse elemento povo. É sempre bom se despedir dizendo para onde se vai.
Cacique de Ramos, Fundo de Quintal, Cartola, Nelson Cavaquinho.

    É Zé, é nóis.

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Para escutar:

    http://umquetenha.org/uqt/?p=1146

Mais informações sobre Beth e o disco:

    http://www.samba-choro.com.br/artistas/bethcarvalho

    http://loronix.blogspot.com/2008/06/beth-carvalho-canto-para-um-novo-dia.html

    http://veja.abril.com.br/blog/passarela/figuracas/beth-carvalho-2/

Published in: on 29/01/2012 at 18:49  Deixe um comentário  

Bipianas #3

Quando chego no bip fico pensando nos bons motivos para voltar lá, aos domingos.

Dessa vez lembrei que ao sair do Bip sempre fico mais reflexivo, mais dados aos mexericos da mente. Olhando distraidamente para o Alfredinho pensei que um homem, quando dá certo, dificilmente é algo mais do que a persistência de uma chatice em volta de um problema qualquer. Um homem ou uma mulher, que fique claro. O “xis” da questão é saber que problema é esse. Pode ser a revolução social. A dialética marxista. A militante comunista de outrora. Pode ser o Atlético Mineiro. Pode ser a Adidas. Pode ser a família. É o samba.

Pois é. No meu caso é o samba. Fico ao redor dele, tentando fazer sentido do resto, quem sabe dá certo…

Foi lá no Bip, há pouco mais de dois anos, que ouvi a música “A Ponte” do maravilhoso Elton Medeiros e senti algo estremecer aqui dentro do peito.

Published in: on 19/12/2011 at 02:15  Deixe um comentário  

Bipianas #2

Ironia.

Num domingos desses de samba no bip, aconteceu o seguinte. Em geral temos sempre mais cordas do que couros. Mas nesse dia a turma da percursão apareceu reforçada e o samba corria ainda mais bonito. Em determinado momento alguém puxou a maravilhosa Ilu Ayê, samba-enredo-exaltação-black-is-beautiful da Portela de 72.

Negro diz tudo, que pode dizer….

é samba, é batuque é reza, é dança, é ladainha

negro joga capoeira e faz louvação à rainha…

Negro é sensacional

é toda a festa de um povo é dona do carnaval”…

A coisa contagiou e os batuques foram assombrando. Forças ocultas se assomavam a alegria banal, gritos de hoje, gemidos de outro tempo. Um alumbramento se apossou de todos ali presentes. Conversões, absurdos e transmutações se avizinhavam ao momento… O pandeiro, o surdo e os demais  acompanhando/mandando no ritmo da alma.

Nisso, um branco com jeito de europeu, vira para os percurssionistas, a maioria de negros, e os manda diminuir o ritmo e tocar mais lentamente. Logo nessa música, meu deus. Logo nesse momento lindo de desvario. Ah, esse senhor que manda no feudo, no engenho ou só num samba em copacabana.

Os chicotes, sempre eles…

Agora vêm embutidos nas palavras.

Published in: on 11/12/2011 at 22:50  Deixe um comentário  

Dia do Samba

Um dos encontros mais fortes de minha vida foi com o samba. Nós sempre estivemos por aí sem entender muito da força desse encontro. Não me lembro direito quando entendi, ou ao menos vislumbrei o que tinha acontecido. O samba, uma reza, uma oração, uma visão de mundo, um desejo, um olhar… Síntese do Brasil, com todos os problemas e exclusões de qualquer síntese.

“Não, ninguém faz samba só porque prefere” Paulinho e João, nem mesmo escuta, toca ou canta.

No último fim de semana peguei o trem do samba para Oswaldo Cruz. Chegando lá me senti tão bem, tão feliz. Foi como chegar em casa.

Pois não é que Roberto Ribeiro me esperava.

Published in: on 05/12/2011 at 13:03  Deixe um comentário  

B de Bip-Bip

“Eu chego lá, parece que cheguei em casa. Cheguei na maravilha, cheguei no céu, cheguei aonde eu queria chegar.”

 

Published in: on 30/08/2011 at 21:05  Deixe um comentário  

Folga: Enquanto a vida não me escala…

Espero conseguir dar um tempo aqui nesse blog. Tenho que ir ali e terminar um mestrado, depois volto. Todas essas palavras digitais acabam me distraindo e por isso importa dar um tempo. Mas, às vezes, não escolho mesmo escrever um texto, é ele quem me escolhe. Como nesse agora que segue aqui embaixo. Pretendo mesmo esquecer da vida (que me deixou ferida, diria o pagodeiro) e partir para a análise e escrita acadêmica.

Mas caso a dor sobrevenha e estoure um texto, bom aí não terei mesmo escolha…

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Deus Protege a Quem Chora.

Foi numa noite de tristeza e solidão. Foi ao final do dia ao me descer o cansaço; no limiar da enunciação, de uma explosão ou de um grito; de um choro, agora incontido. Num não saber o quê, porque e quando me coloquei para fora de casa. Andaria para onde quer que fosse. Choraria, bailaria, falaria. Quem sabe um delíriozinho qualquer. Buscava que da solidão unida a angústia brotasse um gesto de amor. Ser mineiro no Rio de Janeiro nos traz a experiência culminante desse “ser mineiro”. Na diferença com o calor, a vida e o riso das pessoas, entendo um pouco mais quem sou.

Foi no meio disso e à falta de companhia que me dirigi ao Bip-Bip em Copacabana. Bar famoso pela boa música. Não fui atrás de som e sim de redenção. De um pouco de paz. Ao chegar lá tudo estranhei. Sozinho, sentia que me olhavam… Não há mesa e ficam todos em pé na rua, exceto pela roda de músicos que tocam e cantam, sentados nas únicas duas mesas dentro do recinto. De início fiquei incomodado. Mal sabia onde por meus pés e mãos. E aí resolvi ir embora, passear pela praia de Copacabana desistindo, temporariamente, de encontrar ali minha paz. Era domingo e o calçadão estava cheio. Putas, turistas, tias gordas e sebentas. Meninas e meninos feios. Depois de um tempo resolvi voltar ao bar, última chance… Dali iria embora enterrar minha dor na cama, chorar até sobrevir o soluço vazio, a secura da lágrima, o silêncio de quando a palavra acaba…

E na volta senti algo diferente. Nos sambas antigos, nos versos floreados, aos poucos me achei. Nas cabeças brancas de violeiros impacientes, refiz um passado. Na roda embalada pelo compartilhamento da emoção me vi menino… Vi outras noites, outras pessoas, alguém que fôra eu…
“João, são muitas as noites antigas que me prendem no meio desta noite. Pobres as noites sob as lâmpadas da redação, mesquinhas as noites de trabalho insincero, tristes noites sem ternura noturna”…
Tristes noites sem ternura noturna. Nos versos do velho e fundamental Braga, recapitulei noites antigas dentro desta. Vivi mais uma vez outras noites entre homens velhos e brancos, com as mesmas caras rosadas, barrigas salientes e a pose de quem tudo entende da vida. O ar desses homens que enunciavam que eles tinham sim, e um dia eu também teria, todas as respostas. Nos gestos dominadores desses machos-alfa revi ilusões. Mas no meio da música, do samba, do chico, do cartola, do elton, ah… No meio dessas canções e do amor nos olhos desses homens e mulheres já atravessados pelo tempo, vi as coisas mais lindas da vida, de minha vida. Lembrei uma noite específica, na qual estava numa outra roda como essa. Roda de velhos e de música. E lá, nessa noite passada, eu encontrava uma paz tão verdadeira e estranha aos meus vinte anos que tudo isso me desarranjou muito. E em determinado momento nesta noite, na qual  me preparava para deixar a roda e a música, e daí partir com amigos jovens a caçar mulheres, meninas, bocas e, talvez, seios, pensei uma coisa. Algo que baixou com todo peso e brutalidade de uma benção, ou maldição. No meio disso tudo, na dúvida se partiria para a “night”, pensei: “Para onde posso eu ir depois de estar aqui e viver essa maravilha, essa beleza, essa música? Como sair daqui e me dirigir a uma boate, a uma palavra sem sentido, a um gesto que nada traz de beleza?”. É claro que não parti e fiquei ali com os velhos e o violão. E nunca, nunca me arrependi dessa escolha. Talvez me arrependa simplesmente de não ter escolhido mais isso, em outros momentos da vida. O caminho da beleza. O caminho do infinito, independente de tecidos e intumescências…

Isso veio a mim, e restaurou uma paz. Parcial, mas ainda sim uma paz. A vida faz sentido. Há algo que valha uma lágrima. Há princípio no acordar. Coisas assim, muito afirmativas. E aí vivi minhas muitas noites, minhas noites de música e beleza, minhas noites de solidão, de abandono, de silêncio e vazio. De choro. E no meio disso, esses velhos  sagazes ao ver a lágrima descer logo escalaram o Elton e o Paulinho Pinheiro a me socorrer:

“Choraaa… Põe o coração na mesa.
Choraaa, sua secular tristeza
Tiiiira… o teu coração da lama
E chora a…dor santa e a dor profana
Que….
Deus Protege a quem chora”…

Published in: on 14/11/2009 at 03:30  Comments (7)  

Certas Companhias #4

No carnaval de alguns anos atrás, troquei meus amigos, esperanças de beijos velozes e vazios, ressaca e bebedeira infinda; caso, briga e riso, pelos amores e desvarios de Noel Rosa em sua Rio da década de 20, entre putas  e mangues, marinheiros, bordéis e Mario Lagos… Na escola de música da UFMG encontrei o calhamaço da biografia do compositor carioca que morreu aos 26 anos de idade. Enfim, foi o desejo de chegar perto e conhecer. Aí, talvez resida min’alma. Chego mais pelos livros, músicas… E estes momentos, livros, músicas e histórias têm feito minhas tardes menos vazias, na falta de um papo, ou de um telefonema, e assim alimentam uma conversa em outra hora, uma noite de bar…coisas essenciais.

Assim, minhas duas últimas companhias, aos quais tenho me agarrado com ardor são Tom Zé e Paulo Vanzolini. E é sobre o último que me concentro agora. Talvez esse movimento de buscar, desenterrar histórias de música brasileira tenha começado mesmo com o livro do Noel, escrito por João Máximo e Carlos Didier. Foi aí, por exemplo, que fiquei sabendo que Noel e Cartola foram grandes amigos. E mais ainda soube de uma das histórias mais lindas que já escutei, de como Cartola conheceu e se apaixonou por sua primeira esposa. E assim, secretei a mim mesmo este projeto que é  o de caçar essas histórias de compositores, cantores e encontros na música brasileira,  sobretudo no samba.

E foi através de uma coleção maravilhosa, que é “A Música Brasileira Deste Século por Seus Autores e Intérpretes”, que encontrei um belo caminho.  A idéia da coletânea é que os autores e cantores comentem histórias de música, do que acontecia na época, essas coisas. São palavras,  frases que esquentam o corpo, os sentidos. Enfim, que dizem assim: “Olha, a vida vale a pena, ela é bela…” Numa das faixas de Paulo Vanzolini, na qual ele comenta sobre um amigo seu, ele diz o seguinte:

[Fiori]… “Era como Adoniran (Barbosa) assim, indivíduos que tem o traço do caricaturista, um risco , uma frase … Nós tava conversando isso hoje… um exemplo que eu gosto muito de dar, quando o Adoniran fala assim ‘Inês, saiu pra comprar pavio pro Lampião’. Você pode escrever dez volumes sobre periferia, você não define tão bem, quanto uma mulher sair de casa pra comprar pavio de Lampião em São Paulo, né…”

Tom zé escreveu algo que tem se tornado meu mantra, e que até coloquei logo aqui embaixo, em outro textinho, mas como convém no caso dos mantras, vale a pena repetir…

“Quando essas sintonias se fundem e difundem, precisamos ouvir nossa alma, uma desatendida, que tanto fala à toa.” – TOM ZÉ

Bom, aí é massacre. Vanzolini, Adoniran, Inês, (que afirmo, agora sem medo,  ainda que entre parênteses, ser o nome feminino mais bonito  da língua portuguesa) isso tudo junto… Haja sintonia, ressonância, beleza…

Published in: on 21/10/2009 at 22:28  Comments (2)  

Um Deus Possível

“Eu só poderia acreditar em um deus que soubesse dançar” – NIETZSCHE

Andei pensando numa coisa que pode até mesmo ser simples, mas que não é tola.

O mistério das coisas e das pessoas, dos lugares mágicos, místicos, estranhos e belos. O mistério do bar, da singularidade daquele bar, do garçom ou da música, ou ainda daquela menina que se perdeu da gente na passagem de uma madrugada para um triste amanhecer, naquele bar de mesas e espírito de plástico que nunca fecha. A certeza da humanidade universal no sempre deixar a colherzinha suja e sozinha no meio da pia, depois de toda louça lavar. A beleza de achar a coisa mais linda ver e ouvir João Nogueira cantando “Mineira”. O sentimento profundo de entender que através de uma pessoa chamada Rubem Braga foram enunciadas as grandes verdades da vida. A certeza da beleza das coisas e do mundo numa menina magra e bela dirigindo um carro a sorrir sem conseguir se controlar, despertada por palavras e gestos bobos de um “rapaz novo encantado com vinte anos de amor” e uma intenção bem sapeca, ainda que desprovida de razão ou motivo concreto. O mistério de entender que aquela pessoa ali, em tudo diferente de você, é bem possível de fazer qualquer coisa, inclusive te entender. Ou te fazer entender que aquilo que você achava saber era pura fantasia classe média besta e porca. E ainda o sempre sentir algo grande e cerimonioso se misturar com a gente no meio de um samba bom, a alegria a nos atravessar e transformar. Achar a si mesmo ali onde você não se estava.

Uma coisa central para a vida, o amor, a política, a amizade, a arte. O que quer que seja, é esse algo do transcendente, de uma compreensão que nos atravessa e nos encontra. O sentir e entender que o que chegamos a pensar ser só nosso é muito mais, está no mundo, atravessa pessoas e corações. A passeata, a cama, o bar, o samba. Não interessa onde, pois há sempre essa dimensão no qual o agir mais individual, o pensar mais concreto e sólido abraça e abrange vários, muitos, sem deixar de ser o que sempre fora.
Quando Rubem Braga intimamente diz que já foi acusado de amar mulheres tristes, quantos, eu pergunto, quantos culpados não circulam por aí protegidos pela luz natural e pela dissimulação, quantos?

Algo sério a se estudar. Projeto, não de doutorado (que pena…), mas de vida. Focar nesse mistério das proximidades entre diferentes. Da compreensão do universal no mais concreto. Da passagem do fechado para o espírito sempre aberto. Dizendo que falo da compreensão, do entendimento, estaria preso a dimensão da razão. Focando no transcendente haveria sempre esse ranço do divino. Mas… e aqui arrisco, talvez a expressão do divino contenha antes mesmo da idéia de um terceiro, Deus, uma maneira de expressar esse desejo de comunhão, de união. Não consigo deixar de associar este estar num samba ouvindo e sendo ouvindo, cantando e gritando à condição daquele que reza e acredita.
Depois que se entende que o sexo é sempre um fracasso, a gente passa a dar mais valor as pessoas, a vida, a conversa. Ponto mais belo da vida.

Published in: on 04/09/2009 at 03:59  Comments (1)