Rubem, terno.

Sempre que falo de Rubem Braga soergue à minha frente o imperativo de traduzir sua relevância, em minha vida, através de algum termo singular, um nome ou adjetivo. Mas nunca consigo, por isso continuo a tentar…  No início era o estilo, claro, eu era apenas um imitador barato do autor. Depois entendi que era e é toda uma sensibilidade o que me ligava à ele. Em certo sentido já não era ele, nem era eu. Sem saber, o escolhi. Braga, portanto, não era apenas aquele a quem me fiava para tentar alguma coisa, qualquer coisa, frente ao absurdo das mulheres, isso também, mas era ele quem me dava força para seguir em minhas andanças de pensamento nos rumos de um mundo mais justo, de um cotidiano mais belo e poético. Nesse sentido Rubem Braga chegou antes de Agnes Heller ou Jacques Rancière. Fazia alguns anos que não voltava às suas palavras. A distância que apareceu entre nós nunca me pareceu uma briga, apenas  um tempo, que finalmente passou. Ao ler um pequeno texto do livro: “As boas coisas da vida” todo o sentimento de devoção e de alegria voltou.

Nesse trecho, Rubem Braga me deu um alento nos confusos, belos e fortes dias de protesto que seguem acontecendo no Brasil. Dizia ele:

“Antigamente diziam que ou o Brasil acabava com a saúva, ou a saúva acabava com o Brasil. Eu era menino, cansei de ouvir isto; o pessoal todo acreditava e ficava aflito. Eu também ficava aflito, e quando encontrava alguma saúva no jardim lá de casa matava logo para ela não acabar com o Brasil. 
Agora estou bastante velho e me lembro dessa história e vejo que continua havendo saúva e continua havendo Brasil.
Por isso é que eu digo: O PESSOAL É MUITO AFOBADO”.  

É velho Braga, o pessoal continua afobado.

Ando a ler o livro com um prazer tão intenso. Esse sentimento de  quando estamos conhecendo coisas novas, descobrindo  o mundo… que apesar de ser mais triste do que feliz ainda conserva alguma graça.

É sempre bom lembrar que a beleza e a suavidade de Braga ajudaram um rapaz feio e tímido a sofrer.

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Published in: on 27/06/2013 at 22:13  Deixe um comentário  

Cena de Cinema #3 ou Analíticas #1 – O homem que não estava lá

 

Nenhuma cena em momento algum, nunca. Nenhum outro filme mexeu tanto comigo, nenhum outro filme me colocou tanto na mira, machucou tanto meu pobre coração como a cena acima. Nada absolutamente nada. Saí do cinema com a certeza de que o perverso do François Ozon pôs a cena na tela para maltratar meu pobre coração, meus sentimentos. Até hoje, 6 ou 7 anos depois, revendo essa cena meu peito aperta, o coração bate acelerado, e em pensamento desejo um novo final para aquilo que vi na tela. Mas não. É preciso ser forte e ver e rever, sentir e (tentar) entender. Por alguns anos a cena rodeou, espreitou, deu medo. Numa noite qualquer ela voltava, sem aviso. Depois partia e restava longe por meses, às vezes anos. Mas a lembrança sempre estava por aí. Hoje me sinto mais forte para lidar com isso.

O filme francês 5X2 é lindo e forte. Um murro no ideal romântico de um amor tranquilo… Não companheiro a vida não é tranquila. Porém acho impossível falar e pensar qualquer coisa desse filme, com seus vários momentos delicados, sem me prender na cena acima. E não acho isso bom, muito pelo contrário, essa cena de quase 10 minutos é uma prisão para mim. Uma prisão completamente imaginária, na qual, percebo agora, nunca consegui mesmo escapar. Por isso, se você ainda não viu a cena volte lá e a veja, por favor, esse texto não faz sentido algum para quem não viu a cena.

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A história do filme é simples, acompanhamos cinco cenas da vida amorosa de um casal. Momentos importantes, divórcio, brigas, casamento, filho. O homem se mostra um fraco, um babaca, um homem. A mulher é forte e bela. Valente menina diria o Braga. A história está de trás para frente, começamos pelo fim do amor para chegar ao seu princípio.  Até “A” cena do casamento via o filme com gosto, um filme sensível e inteligente. Porém, enfim, sem nenhum tipo de aviso a cena quebrou tudo. Ela quebrou certa relação satisfatória, ou confortável, que mantinha comigo mesmo. Essa cena criou um medo que nunca havia tido, um sentimento mesquinho, grosseiro e vil. É ela que representa todos os meus ciúmes, minhas angústias amorosas. Revendo-a, somente agora, percebo que há ali ainda mais do quê gostaria de ver, de saber.

Vamos à cena. Vemos o casamento, o casal serelepe e feliz bailando, pois a vida é bela e tudo é perfeito. Love is in the air. Logo, o casal se dirige ao quarto para a noite de núpcias. Ele claramente bêbado, trocando as pernas. Ela desejando-o. Eles vão se beijando. Ela vai tirar o vestido de noiva e se “preparar” para o marido. Ele, tonto, dorme nesse tempo. Ela ainda chega e tenta algo, mas ele dorme. A moça está feliz, olha-o com olhos ternos, mas se frustra. Coloca um jeans e sai para dar uma volta. Nada demais. Ela então, caminhando, sorri ao ver os restos do casamento, seus pais apaixonados dançando no salão. O amigo flertando com o garçom. Ela então se dirige ao lago e lá se senta. Em pouco tempo uma figura masculina chega do meio do mato. Um americano com jeito de galã. Ele chega e se senta ao seu lado. Quase não se falam, ela pressente o perigo, mas fica. Ele oferece um Malboro ela aceita, “que mal pode haver?”. Em 10 segundos ele já a encara com lascívia e ela entende tudo. Olha para ele também, mas agora vê o risco e vai embora. Ele a segura com força e pede um beijo. Ela hesita, quer ir embora, ele a segura. Ela ainda resiste, não grita, mas não quer. Ele a olha. Beija sua barriga e acaricia. Ela pensa e decide. Beija-o com calor, e se lança a ele de uma vez. Corte. Uma porta bate, ela corre, volta ao quarto do amado com pressa (teme que ele saiba? Teme que ele não esteja mais lá? Sente sua falta?). Ele dorme. Ela se aproxima e o beija. Sonolento e amorosamente ele recebe os beijos. Ela diz: “je t’aime, je t’aime, je t’aime…”.

A palavra chave aqui é identificação. Em determinada etapa da vida, quando vi esse filme, já não conseguia mais me identificar com o amante norte americano. O estrangeiro sexualizado. Seria fácil me ver nele quando era mais jovem. Pensaria aí nessa “mulherzinha gostosa dando sopa”. Mas não dá, não consigo. Só consigo me identificar com o marido, o tolo, que dorme e depois ainda recebe, de bom grado, beijos na face e alguns “je t’aime”. Não conseguiria também me identificar com a mulher, infelizmente. O melhor seria não me identificar com ninguém, posto que não tenho nada a ver com aquilo, mas isso também não é possível. Perceba, não tiro dessa cena nenhuma lição moralista, não a culpo e não culpo ninguém pelo desejo. Nada disso, acho a vida linda. E é o marido que dorme. O amante surge do meio do nada, um acaso feliz. A mulher deseja. É vida o que há nessa cena de amor, e por isso ela é uma prisão para mim, pois eu sou o homem que não está lá. O homem que dorme. E jesus, o que significa o retorno dela correndo e dizendo eu te amo? O que significa a primeira recusa e a aceitação posterior? No quê ela pensa? Não sei, mas também não é difícil saber… Mas o pior são os pequenos detalhes da cena, detalhes que remetem ao simbólico, logo à aposta, ao eterno. São esses detalhes que atormentam e voltam. Por exemplo, não poderia ela estar usando outra lingerie que não aquela, aquela escolhida para celebrar a noite de núpcias? E ela tem que voltar correndo e amorosa, não poderia andar cautelosamente, tomar um banho e deitar silenciosamente na cama?

Quando saí do cinema, depois desse filme, estava inconsolado por dentro. A virada simbólica se consolidara. Rubem Braga perdeu. Não poderia mais ser o amante bonito, leviano e sexy, mas sim o marido, ainda mais um que dorme. Já tinha a certeza, e continuo com ela, de que a cena foi projetada para maltratar nós homens neuróticos heterossexuais. François Ozon, diretor assumidamente gay, nos dá esse tapa de palma aberta, esse tapa que estala. É mais um desses golpes copernicanos. Se o sol não é o centro do mundo, se o homem não é uma espécie nada especial no reino animal, e se o sujeito já não é nem dono de sua casa, o desejo da mulher também não lhe pertence, colega. Nunca. O desejo vai pro turista, o desejo é do latin-lover, do passageiro distraído, é o vazio. O desejo é vento.

Published in: on 07/06/2013 at 04:41  Deixe um comentário  

ORAÇÃO AO AMOR

Para Rita,

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Quando encontrar uma mulher ou um homem, por quem julgues estar apaixonado.

Quando se deparar com essa outra pessoa, essa que você julga amar, e amar é apenas infinito. Embarcação que nunca chega, sem princípio. Quando julgar ter encontrado tal pessoa, faça o seguinte teste. Conjugue tua mulher/homem/amante na oração “o passado da mulher amada” de Rubem Braga. Leia a oração em voz alta olhando para seu objeto de amor. Braga, talvez sem a intenção, criou não “apenas” uma das mais belas crônicas já escritas, mas todo um complexo sistema ético-lírico-existencial que permite, objetivamente, entender se há ou não amor.

 Se, frente ao seu objeto de amor, consegues dizer a seguinte oração, olhando nos olhos da amada, capturando nesse momento todos os enleios provocados pelo texto, sim! Aí está o amor. Caso contrário, continue procurando. E o mais importante não desista como fazem muitos, trancando-se num quarto escuro, ou ainda deleitando-se com prazeres confortáveis e rotineiros. Busque teu infinito!

Assim diz a oração à amada:

“Benditos teu pai e tua mãe; benditos os que te amaram e os que te maltrataram; bendito o artista que te assustou e te possuiu, e o pintor que te pintou nua, e o bêbedo de rua que te assustou, e o mendigo que disse uma palavra obscena; bendita a amiga que te salvou e bendita a amiga que te traiu; e o amigo de teu pai que te fitava com concupiscência quando ainda eras menina; e a corrente do mar que te ia arrastando; e o cão que uivava a noite inteira e não te deixou dormir; e o pássaro que amanheceu cantando em tua janela, e a insensata atriz inglesa que de repente te beijou na boca; e o desconhecido que passou em um trem e te acenou adeus; e teu medo e teu remorso a primeira vez que traíste alguém; e a volúpia com que o fizeste; e a firme determinação, e o cinismo tranqüilo, e o tédio; e a mulher anônima que te vociferou insultos pelo telefone; e a conquista de ti por ti mesma, para ti mesma; e os intrigantes do bairro que tentaram te envolver em suas teias escuras; e a porta que se abriu de repente sobre o mar; e a velhinha de preto que ao te ver passar disse: “moça linda…”; bendita a chuva que tombou de súbito em teu caminho, e bendito o raio que fez saltar teu cavalo, e o mormaço que te fez inquieta e aborrecida, e a lua que te surpreendeu nos braços de um homem escuro entre as grandes árvores azuis. Bendito seja todo o teu passado, porque ele te fez como tu és e te trouxe até mim. Bendita sejas tu.”

E se passado tal momento de devoção conseguires criar uma versão singular para tal oração, colocando tuas palavras nos sentimentos de amor, dor, gozo, tédio, riso, felicidade eterna, nos sentimentos dela, dela e só dela, sem você, quando você não existia, aí sim… Aí terá superado esta barreira tão difícil. Saber que ela ou ele não é você. Mas será que você conseguirá bendizer todos os amores passados de sua grande paixão? Todas as dores, os momentos de fraqueza e vergonha? E o pior, conseguirá olhar nos olhos dela ver e agradecer pelas sacanagens ocultas em noite de delírio e entorpecimento dos sentidos, todos? Conseguirás não apenas aceitar e mais ainda, bendizer, a existência daquele rapazinho que fez seu docinho de coco, revirar os olhinhos de prazer? Ou dirás, na próxima vez que encontrar o outro, ainda que em pensamento, muito obrigado por ter amado essa mulher tanto, a ponto dela nunca mais te esquecer? Aceitará em seu coração que houve um ainda escolhido apenas por ser bonitinho, mais do que você, ou ainda aquele que você nunca vai entender o que é que ela viu nele? E o cabeludo que apareceu na rua dela antes de você? Conseguirá sentir, mais do que pensar, que fossem outros, fosse nenhum, não seria você? Foram eles também que te colocaram aqui, agora, na frente dela! Nós nos querendo, nus: desejando.

 

Published in: on 18/05/2013 at 02:08  Comments (1)  

Mulher

Não é segredo que eu gosto de mulher. Ainda que adore a patifaria da frase anterior ela expressa de modo muito simples a intensidade de uma afeição. Há um texto que li certa vez, numa “revista masculina”, que trazia uma imagem grosseira, chula, porém pertinente sobre o universo masculino. No texto a moça dizia que homens não gostam de mulher, gostam isso sim de buraco. No que, convivendo com homens mais do que gostaria, tenho que confessar a parcela de verdade. A companhia de homens, nessa vida, só me fez falta em duas situações. Por um lado, na faculdade de psicologia, naqueles dias posteriores a partidas do campeonato brasileiro quando não sabia o resultado deste ou daquele jogo. Aí me dava conta, olhando para o lado, vendo apenas moças dos 80, a falta que um engenheiro faz. A outra situação se devia e se dá, na dificuldade que sempre tive de contar aspectos mais realistas de minha autobiografia amorosa-afetivo-sexual para as amigas, em contar as coisas sem me sentir um perfeito calhorda. Há ainda uma distância propositadamente mantida em relação a esses assuntos. Há mais de 10 anos a maioria das amizades que faço é com mulheres, ainda que nesses anos tenha feito alguns grandes amigos, desses cinco que nos acompanham por toda a vida. Não vou cair na armadilha de ficar dando atributo pra esse ou praquela. A preferência pela companhia feminina foi algo que só me dei conta depois. Hoje não seria insensato dizer que abandonei uma faculdade exatamente por isso. No curso de física havia mais Rafael do que mulheres na sala.

Mas o que veio, nesta monótona sexta-feira a me lembrar dessas coisas todas, das mulheres enquanto tais, não foram minhas amigas e companheiras de época, mas sim as senhoras que eu acompanhei, auxiliei a andar, conversei e alimentei durante o meu estágio numa casa de convivência para idosas em Belo Horizonte, no improvável ano de 2003. Hoje relembro também que foi dos meus períodos mais solitários. As velhinhas foram, então, minhas mulheres, aquelas senhoras, a Tiná e a Beta, por exemplo, as duas: Albertinas. Beta queria sempre escapar para algum lugar. Ela oscilava entre a angústia e a incompreensão, e não oscilamos todos? Tiná era das favoritas. Certo dia enquanto caminhava de braço dado a ela e a outra senhora, ela me pediu para parar, se abaixou, pegou uma flor e adornou seus cabelos (aprendam meninas). Dona Afrodite, a Didita, dona Dídima, Argentina, Clades, Cilene, Laurinha, dona Yêda, esta que havia morado em Ipanema e conservava um carioquês bastante elegante. Tiná e Didita tinham um lugar cativo no meu coração, talvez pelo leve desprezo que dispensavam a mim. Eu sabia que o desprezo era apenas de superfície. Certamente elas não eram das que eu mais conversava ou das que mais me davam atenção. Mas na palavra, no gesto, às vezes num único movimento em todo o dia, havia muita atenção e carinho. Quando eu faltava elas davam notícia, perguntavam.

Quando Tiná colocou as flores no cabelo e perguntou se estava bonita, requisitando minha opinião, não acho que ela queria uma opinião de um funcionário da casa de convivência, mas a minha.

Atenção e carinho, meninas, atenção e carinho, meninos.

Published in: on 24/11/2012 at 02:12  Comments (2)  

Aristocracia – Notas existenciais

Ao longo dos últimos anos passei a ver com outros olhos o sentido da palavra “aristocracia”. Nesse tempo convivi com pessoas extremamente aristocráticas no sentido que entendo tal termo e hoje vejo uma beleza nisso que não seria possível antes, para um sujeito que se considera “de esquerda”. Quando era pequeno acreditava que existiriam pessoas no mundo, em algum lugar, que sabiam tudo, que viam e entendiam coisas que ninguém mais entendia, , enfim, espécie de super homens. Depois de um tempo veio a visão empobrecida do homem, ser banal, engrenagem, incapaz de se fazer destino. Tudo igual, tudo ruim igual. Mas depois voltei a ver pessoas muito especiais que pensam, fazem, mudam. Não sei. Nunca acreditei ser bom em nada. Minha formação humana foi burguesa no sentido mais pobre do termo, de um esvaziamento de qualquer sentido transcendental do ser e de redução das possibilidades humanas à de base de manutenção das funções circulares e superficiais do capital. O bom era passar pela vida despercebido, pagando todas as contas, recebendo mais do que gastando. Nada de ser especial.

Mais novo gostava de pensar uma coisa besta, mas que faz muito sentido. Nem sempre fui bom em futebol. Aos 10 anos eu era horrível. A coisa mudou entre os 11 e 14 anos quando, senão passei a ser um craque, de fato melhorei bastante e cheguei a ser um dos melhores da minha idade no colégio. O fato de ter me tornado bom, quando achava que isso nunca seria possível, possibilitou e ainda hoje me permite pensar em novos horizontes. Depois passei a conviver com pessoas que ao contrário de mim sempre se acreditaram especiais e comecei a ver grande valor nisso. Essa fé na capacidade e na possibilidade de fazer o melhor, sem barganha. Aristocracia hoje para mim, tem pouco ou quase nada a ver com nobreza ou com riqueza. Tem a ver com ser e buscar não o mais útil ou mais prático e vantajoso, simplesmente o que é melhor. É trazer para esse mundinho besta a transcendência não de um Deus católico, de uma divindade externa a nós, mas a transcendência que há no infinito da ação humana. De se saber capaz de fazer um tudo que é sempre +1 do que aquilo que existe. Essa inspiração de buscar lonjuras e não se contentar com o que o sistema me dava foi surgindo, foi aparecendo. Primeiro foi o Cântico Negro com a sua impetuosidade virulenta tão distante de quase tudo o que vi-viaMuito novo senti uma verdade nisso…

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.

Eu tenho a minha Loucura!

Depois, ou antes, não importa, veio o Ouro de Tolo, que lançou o avisou de que “Há algo de muito errado no mundo”. E eu que não tinha emprego, não sabia do que se tratava ser cidadão e sabia que o Corcel 73 era um carro, entendi tudo o que Raul falava, quando cantava:

Eu devia estar contente 
Porque eu tenho um emprego 
Sou um dito cidadão respeitável 
E ganho quatro mil cruzeiros 
Por mês 
Eu devia agradecer ao Senhor 
Por ter tido sucesso na vida como artista 
Eu devia estar feliz 

Porque consegui comprar um Corcel 73

O dano estava instalado. Nietzsche e Matrix acabaram de polir esse mundo errado no qual fui, certamente contra minha vontade, inserido. Era precisava então lutar por outra coisa, não ir por ali. É aí que toda essa crítica me jogava num mundo de loucura, de irrealidade. Encontrar ao final da juventude uma sadia aristocracia,  voltar a um mundo pré-burguês e pré-funcional soou um grande achado. Encontrar o ponto de Arquimedes numa vida bela, forte, verdadeira. Ora, é no desfiladeiro da loucura e da morte que rondamos, sempre. E o que fazer? Poderia, partindo dos dados da experiência empobrecida da burguesia funcionalista, da compulsão ao consumo, juntar-me a alguma seita fatalista, engrossar o caldo das religiões neopentecostais, buscar disco voador, ou, pior ainda me reunir com aqueles que buscam refundar os valores da família, da pátria, da propriedade. Esse é o risco das críticas demasiadas à fraqueza do mundo burguês. Houve algo contra o qual a burguesia lutou e que vale a pena lutar. Alguma coisa de liberdade e igualdade.

Por isso o amor a Agnes Heller que cunhou a expressão Aristocracia de Esquerda. A defesa incondicional a esses valores, a defesa sem barganha. Na longa entrevista reunida no livro com o título auto-ajudístico de “Para mudar vida” há uma passagem no qual a pensadora discute porque, apesar de nossa vida ser dominada por rituais burocráticos, judicializados, nós, ocidentais, gostamos tanto dos filmes de faroeste no qual a justiça é feita à bala. Ela propõe o seguinte:

“…nossa vida cotidiana é realmente cinzenta, mesquinha, e então inventamos um mito que fala de uma vida que não é mesquinha, que é grandiosa e que, talvez, não tenha nunca existido. Inventamos o faroeste, mas talvez um faroeste que jamais existiu. Inventamos contos medievais que nada tem a ver com o que a idade média realmente foi, como se os servos da gleba que aravam a terra da manhã à noite tivessem vivido uma vida mais justa, mas heróica, mais completa do que a nossa.

Esse romantismo é invenção nossa. Só pode haver para ele um tipo de remédio: tornar mais ‘grandiosa’ a própria vida tal como é, desenvolver as formas de grandeza humana nas circunstâncias existentes, transformar a vida prosaica em poesia. Só assim não teremos mais necessidade de mitos” (P.194-5).”

 Não sei se algum dia deixaremos de ter necessidade de mitos. Sei que a grandiosidade, ainda que ilusória, deve nos acompanhar dando sentido à pobreza da vida. E isso pode ser bom. É essa procura por mitos que nos coloquem em marcha desfazendo os nós da dominação e da injustiça.

Published in: on 18/11/2012 at 20:48  Deixe um comentário  

Te disco toda #3 –Eduardo Gudin, Coração Marginal, 1978.

Eduardo Gudin apareceu na minha vida no intervalo de um show da banda Zé da Guiomar, reciclo-antigo, quinta-feira. Naquele tempo, eu costumava ir ao samba com o Chico, meu primo e companheiro de discussões, cervejas e, por um curto tempo, de residência. Numa dessas quintas de reciclo ouvi uma música belíssima e que não conhecia. No intervalo do show, encontrei com o violonista e cantor principal da banda e puxei papo. Perguntei a ele de quem era aquela música e como ela se chamava. Ele respondeu que a canção era do Paulinho da Viola e do Eduardo Gudin e se chamava Ainda mais. Ele falou o nome do segundo compositor do mesmo jeito que se expressara acerca do primeiro. Como se falasse de um gênio sagrado da música brasileira, tal como Chico Buarque, Cartola, Noel. Não qualificou-o, explicando de quem se tratava. Mandou na lata Eduardo Gudin. Até aquele momento eu nunca havia escutado esse nome na vida.  Ainda no intervalo do show,o cantor principal do grupo vendo minha admiração pela música me disse para mandar um email para ele que então me enviaria a música.

Naquele dia devo ter chegado em casa por volta de duas da manhã, acompanhado daquele sensação boa de leve entorpecimento. Mandei o email na mesma hora. Foi com surpresa que vi a resposta curta e simpática logo na manhã seguinte, com a música anexada. Eu definitivamente não acredito que a genialidade seja obra do acaso. Uma música, um verso, um traço de gênio implica o gênio completo e total. A partir de Ainda Mais passei a buscar as músicas e discos de Eduardo Gudin. Lembro que o O importante é que a emoção sobreviva, foi dos primeiros, o disco me atropelou e continua a me atropelar e ressoar no meu jeito todo sempre que o escuto. Daí passei para o seu primeiro disco em ordem cronológica, o de 73, repleto de parcerias com o meste kung-fu da letra brasileira, Paulo César Pinheiro. E aí passamos a nos relacionar com mais frequência.

Esse cortejo, esse enamorar, começou há uns 8 anos. Tenho-me mantido fiel. Num primeiro momento, nesse ménage musical, encantei-me mais pela prosa aveludada de PC Pinheiro. Não sou homem da música, sou muito mais das palavras, da prosa. O amor pelas melodias de Gudin foram se fortalecendo sem que eu mesmo percebesse. Dei-me conta disso quando passei a preferir algumas de suas músicas tocadas sem letra, como Águas Passadas e Alma.

Coração Marginal foi o último disco que “descobri” do Gudin. Talvez não seja o meu preferido. Mas ele, até mesmo pelo título, fica no caminho entre o terra-arrasada, Eduardo Gudin, de 1975 e o exuberante e belo Fogo Calmo das Velas, de 1981. Não vou aqui fazer elogios biográficos ao artista. Ele tem um belo site onde há muita coisa interessante. Passemos ao que interessa.

Velho ateu é uma das músicas que mais gosto de ouvir e cantar nos domingos de Bip. Adoro o “bêbadocantor…poétaaa”. Samba em parceria com Roberto Riberti, letrista principal desse disco, traz essa figura do louco, em sua grandeza exuberante. A segunda canção, Mente é dessas músicas feitas pra exorcizar dor de cotovelo daquele amor nosso que era, infelizmente, de mão única, só ia, nada voltava. O apaixonado clama “Menteee…, ainda é uma saída, é uma hipótese de vida, mente, sai dizendo que me ama…” esperando, quem sabe, que um dia a mentira se faça verdade. A música tem uma gravação linda da Clara Nunes. Outro dia me peguei cantarolando Falta de cortesia, apesar dessa canção ter doído um pouco no peito quando passei a atinar para a letra. A canção fala dessa situação, tão comum e banal, sobretudo nos dias que correm, do amante de ocasião, do caso inconsequente, do rolo, daquele que é mais que amigo. Essa pessoa que a gente gosta, mas não muito, e que depois de um tempo de luxúria e prazer a gente parte pra outra. Mas e aí, quando se esbarra com o parceiro ou parceira de antigas rodas, nos sambas da vida? Ele, com ironia no mundo de Gudin, cantaria: “Que falta de cortesia até me pareceu que nem me conhecia / Que eu nunca fui consolo para suas noites vazias”. Samba leve, com letra também do Gudin. Fiquei ainda mais feliz de saber que letra e música são dele, pois venho insistindo na tese da sensibilidade extremamente expandida desse artista para os assuntos do coração. Nem réu nem juiz é mais uma bela canção de amor, ou do fim do amor, naquelas tentativas que são sempre patéticas de dar uma resposta do tipo “e foi bem melhor para você e para mim” que acompanham o abismo do fim.

Navegador é uma música bonita, profunda, diferente dos sambinhas que viemos escutando até então. É bonito o modo com a instrumentalidade entra e compõem seus discos. Isso acaba me seduzindo, eu que como falei, sou mais afeito à poesia do que as construções melódicas de uma canção. Longe de casa é parceria com Paulo Vanzolini, compositor paulistano de sambas, famoso pela clássica Ronda, mas que tem uma produção muito mais diversificada e belíssima. Eu amo esses versos iniciais de um desespero que salta da garganta, a tristeza danada de ruim de quem tá fora do seu chão.“Longe de casa eu choro e não quero nada”. Lendo uma entrevista do Vanzolini ele diz que fez essa letra enquanto fazia seu doutorado nos Estados Unidos, tentando rememorar sua casa, o vento da rua, os barulhos do cotidiano. Águas passadas é mais uma canção cujo tema nos remete à separação, às intempéries que se seguem no prosseguimento da vida, nos calos que provoca uma paixão. E é uma das músicas do Gudin que eu gosto muito mais da melodia do que da letra, apesar dela ser muito bonita também. Mas não sei, gosto muito dessa música, e gosto muito dela tocada por esse cidadão aqui debaixo.

É interessante a sequência das três próximas canções. O importante é que a emoção sobreviva foi um espetáculo que tinha como subtexto a ditadura militar brasileira, a censura, a perseguição. Mas, aos meus olhos, a preocupação política parecia muito mais coisa do PC Pinheiro do que particularmente do Gudin, talvez pela força que emana da letra de músicas como Pesadelo ou Mordaça. As músicas Notícia popular, Como tantos e Maria Fernanda de Sá têm como tema as questões sociais e políticas. Na primeira, o relato de uma família destroçada pela miséria, pelo desarranjo, pelo alcoolismo, contrasta com um samba bem animado. “Mostrei a situação /Meu pai sem emprego se pôs a beber / Minha mãe, sem muita esperança não quis entender”. Em Como tantos, Marília Medalha canta a história de seu homem banal, um homem, como tantos, que é torturado, “bem aos poucos” e morto. A alusão evidente aos mortos e desaparecidos pela ditadura militar brasileira. A música é linda também e o arranjo complexo reforça o drama da letra. A penúltima música do disco parece se referir, mais uma vez, aos desaparecidos políticos. Única música do disco em parceria com o PC Pinheiro, gosto da seguinte construção: “Eu já me cansei de esperar, cadê Fernanda / Pode estar em qualquer lugar, cadê Fernanda / O jornal vai noticiar, cadê Fernanda /Era de família exemplar, cadê Fernanda / Desapareceu na hora H, todo mundo ficou no ar / Maria Fernanda de Sá, pulseira, sandália e colar”.

A última canção é a minha preferida no disco. Talvez…não sei. Alma me remete ao disco O Fogo Calmo das Velas que apareceu de uma forma bonita em minha vida, que me invadiu, me acendeu, que colocou uma doçura sem tamanho, uma certeza em meu olhar, nas minhas mãos. Já gostava dessa música e também de sua letra partir do outro disco, em Fogo Calmo das Velas, Alma antecede o forró Mais de um esse hino particular do amor e do encontro. A alma diz: “Sei que eu não vou te convencer / E nem você vai me mudar / Mas mesmo assim a gente vive querendo provar e comprovar / Seja como fôr, que deu certo o nosso amor”.

Published in: on 07/08/2012 at 21:08  Comments (3)  

CENA DE CINEMA #2 – AOS 13

Acho que nunca vi este filme do início ao fim, peguei lá pela metade e fui seguindo, sem muita atenção. E a beleza e a força da cena que descrevo logo abaixo se dá, mais por razões psicossociais, do que propriamente cinematográficas. Um dia, passando banalmente de canal para canal, vi que começava esse filme sobre adolescentes perdidas (aqui), tipo releitura norte-americana contemporânea de uma Cristiane F. Meninas bem jovens que se envolvem com drogas, sexo e violência. As meninas passam a se relacionar com traficantes e a coisa, obviamente, vai ficando cada vez pior. A mãe de uma delas, interpretada pela atriz Holly Hunter já não sabe o que fazer vendo a filha partindo aos poucos, aos 13. Na cena poderosa, a filha passa em casa por algum motivo e já vaipartir, o desespero já toma conta de mãe e também da filha. A sensação de que não há mais nada a fazer. No momento que a filha passa pela mãe, esta pula em cima de sua filha e a abraça, aagarra junto de si, sem deixar qualquer espaço, qualquer tempo ou movimento para a filha, sem deixar ela sair. As duas rolam por cima da cama e caem no chão, chorando. Depois disso a menina parece que leva jeito e as coisas melhoram.

Quantos abandonos, quanto sofrimento sujo poderia ser evitado com um gesto qualquer que deixe claro, sem sombra de dúvida que há amor! Que a coisa mais importante é esta ou aquela pessoa. Não acho que isso resolve tudo, que é solução geral,e nem que o problema ou a solução seja da mãe. Isolo o gesto louco de amor, de proteção e também de violência do ato que invade e desfaz a tese, bastante imaginária, de que vivemos sós, de que somos independentes e solitários.

Published in: on 19/07/2012 at 15:10  Deixe um comentário  

Diário histórico-político-reflexivo de campo #4

O livro “O Campo e a Cidade” do inglês Raymond Williams tem sido uma fonte de diálogo constante entre e o meu campo de pesquisa e mim mesmo. No livro, venho encontrando avisos sobre armadilhas conceituais, uma crítica do problema do fetiche que embasa nossa visão acerca do que é o “campo”e “a cidade”. Como atribuimos valor e significado a estes espaços sociais de individualismo ou coletivismo, da intensidade produtiva ou da subsistência, do passado e do futuro. Dessa forma, o livro funciona como um alarme que me avisa para não ir por ali, para não seguir tal ou qual caminho.No entanto, o longo trecho que transcrevo abaixo tem uma função diferente.

A função é menos anti-fetichista, destrutiva de idéias pré-concebidas e mais performativa, romântica, criadora. Associei tal passagem a coisas que tenho visto e ouvido nas conversas com os moradores das áreas rurais do entorno do projeto Minas-Rio. Alguns desses moradores que vivem em áreas diretamente atingidas pelo projeto minerário, que terão que sair de suas terras e que aguardam muito tempo por uma solução final. Acordos são firmados e vem sendo descumpridos, postergados, pela empresa mineradora. Senhores e senhoras que param de plantar e de cuidar do gado, pois assim devem proceder segundo a empresa. A desonestidade escancarada, o engodo. Alguns resistem e tentam levar uma vida normal. Outros acreditam que são impedidos de fazer qualquer roça e vão vivendo na base da espera. Além de muitos outros problemas, há a qualificação de moradores como “emergenciais”, aqueles que devem ter suas negociações e reassentamento priorizados. Mas a estúpida gramática nos engana. A emergência não se refere aos problemas reais que vivem pessoas e comunidades no meio de áreas degradadas, pessoas que viviam cercadas de rios corpulentos e agora vivem no meio de veios de lama. A emergência se dá pelo risco de atraso para a obra, pelo risco de diminuição do lucro, do faturamento dos investidores.

“Porém o imperialismo político sempre foi apenas uma etapa. Foi precedido por controles econômicos e comerciais, quando necessário, apoiados pela força. Foi sucedido por controles econômicos, monetários e comerciais que mais uma vez, sempre que encontram resistências, são imediatamente apoiados pela intervenção política, cultural e militar. Nesse sentido, as relações dominantes continuam sendo do tipo cidade-campo, e a exploração é levada ao ponto máximo.

O que se propõe enquanto ideia para ocultar essa exploração é uma versão moderna da velha ideia de ‘melhoramento’: uma hierarquização das sociedades humanas culminando, teoricamente, com uma industrialização universal. Todo o ‘campo’ haverá de se transformar em ‘cidade’: eis aí a lógica desse desenvolvimento: uma simples escala linear, ao longo da qual podem-se assinalar graus de ‘desenvolvimento’ e ‘subdesenvolvimento’. Mas a realidade é bem diversa. Muitas das sociedades ‘subdesenvolvidas’ foram desenvolvidas justamente a fim de satisfazer as necessidades dos países ‘metropolitanos’. Povos que praticavam a agricultura de subsistência foram transformados, através da força econômica e política, em economias centradas em grandes fazendas, na mineração, ou na monocultura. (…) O investimento concentrado nesse tipo de oferta, e na infraestrutura político-econômica que ela pede, traz a essas áreas ‘rurais’ especializadas um fluxo constante de riquezas, que por sua vez tem o efeito de acentuar ainda mais as inter-relações de dominação. A situação é essencialmente a mesma, seja o produto em questão café ou cobre, borracha ou estanho, cacau, algodão ou petróleo. E a chamada ‘ajuda’ concedida aos países pobres é, com raras exceções, uma acentuação desse processo: o desenvolvimento de suas economias de modo a se adaptarem às necessidade da metrópole; a preservação de mercados e esferas de influência; ou a perpetuação do controle político indireto, mantendo no poder um regime dócil; opondo, pela intervenção militar se necessário, todo e qualquer processo que vise proporcionar a essas sociedades um desenvolvimento independente, basicamente voltado para os interesses locais (…) A esse conflito sobrepõe-se uma camada ideológica: o conceito abstrato de ‘desenvolvimento’, segundo o qual o país pobre está caminhando no sentido de tornar-se um país rico, do mesmo modo como, na Inglaterra industrial do século XIX, o homem pobre era encarado como alguém que, se tivesse a mentalidade correta e se esforçasse, poderia caminhar no sentido de tornar-se um homem rico, mas no momento ainda estava numa etapa inicial de seu desenvolvimento. O fato, porém, é que o abismo entre nações ricas e nações pobres está aumentando, com consequências tão importantes que estão determinando o futuro do mundo”.

(Raymond Williams, O campo e a cidade, Companhia das Letras, 2011. Versão de bolso, P.463-4)

Diário emotivo-reflexivo de campo #2

o frio

Comemorei esse fabuloso 2 de maio brindando à vida e o frio com uma Bhrama bem gelada. Brindei a chegada do outono, a chegada tão esperada desse vento cortante, clima que combina com o entre-montanhas, casarões e silêncios que me encontro. Pois saiba o senhor que certamente fui forjado no frio, disso não há dúvida. Chego em casa levado pelo frio. Há coisa de 10 anos vinha elaborando uma teoria sofisticada sobre a intimidade que tenho com o inverno, esse nosso, o brasileiro, naturalmente. Nessa teoria sempre me remetia aos últimos anos de escola, pois quando chegava o frio, nós, meninos e meninas, nos juntávamos ao redor das mesas de mármore de jogo de dama do colégio santa dorotéia nos abraçando bem proximos e procurando um raiozinho de sol. Senti saudade desse frio por tanto tempo. Agora vejo que o sentimento vem de muito longe. Vem de tempos antigos. Talvez uma festa junina aqui ou um rodeio ali. Aquela exposição, se não me engano, em Sete Lagoas, quando o Biziu nos levou para o evento, no qual ele vendia pão de queijo com linguiça. Sei não, sei não. Ah, mas é uma felicidade. Penso melhor, respiro melhor. Hoje o dia foi tão belo. E até quando dói esse frio me faz bem. Esse roçamento das pernas embaixo das cobertas, esse nó que a gente dá nas colchas. O nó que a gente dá em quem a gente ama. E nesse entre serras que me encontro, no meio dessas montanhas o frio é mais bonito.

Published in: on 16/05/2012 at 19:17  Deixe um comentário  

Mudanças, ou não.

A luz, o café e o gosto pelos estudos permanecem.

A vontade de nadar tem voltado.

A xícara,

essa se quebrou.

A mesa também.

A caneta alguém roubou, sempre.

E com o copo d’água ninguém se importa,

porque é de plástico.

Published in: on 04/04/2012 at 13:44  Deixe um comentário