América Latina #1

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Tem sido bonito acompanhar as estórias da América Latina pela sensibilidade de Eduardo Galeano com o seu “Memórias do Fogo”. Comecei pelo último livro, “O século do Vento”, sobre o século XX.

No início do livro tem uma seção chamada: “Este livro”, que assim se explica:

É o volume final da trilogia Memórias do fogo. Não se trata de uma antologia, e sim de uma criação literária, que se apoia em bases documentadas, mas se move com inteira liberdade. O autor ignora o gênero ao qual pertence esta obra: narrativa, ensaio, poesia épica, crônica, depoimento… Talvez pertença a todos e a nenhum. O autor conta o que ocorreu, a história da América e sobretudo da América Latina; e gostaria de fazê-lo de tal maneira, que o leitor sinta que o acontecido torna a acontecer enquanto o autor conta. 

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1910 – Colônia Maurício.

TOSLTOI

Desterrado por ser pobre e judeu, Isaac Zimerman veio parar na Argentina. A primeira vez que viu um chimarrão achou que era um tinteiro, e a caneta lhe queimou a mão. Neste pampa levantou seu rancho, não longe dos ranchos de outros peregrinos também vindos dos vales do rio Dniester; e aqui teve filhos e colheitas.

Isaac e sua mulher têm muito pouco, quase nada, e o pouco que têm é tido com graça. Uns caixotes de verdura servem de mesa, mas a toalha parece sempre engomada, sempre muito branca, e sobre a toalha as flores dão cor, e as maçãs, aroma.

Uma noite, os filhos encontram Isaac sentado frente a esta mesa, com a cabeça nas mãos, derrubado. À luz da vela descobrem sua cara molhada. E ele conta. Diz a eles que por acaso, por puro acaso, acaba de ficar sabendo que lá longe, lá na outra ponta do mundo, morreu Leão Tolstoi. E explica para eles quem era esse velho amigo dos camponeses, que tão grandiosamente soube retratar seu tempo e anunciar outro.

(O século do vento – Eduardo Galeano. Tradução Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM  Pocket. pp51)

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1923, El Callao

MARIATEGUI

Depois de viver alguns anos na Europa, José Carlos Mariategui regressa ao Peru, de navio. Quando foi embora era um boêmio da noite limenha, cronista de turfe, poeta místico que sentia muito e entendia pouco. Lá na Europa descobriu a América: Mariategui encontrou o marxismo e encontrou Mariatégui, e assim soube ver, à distância, de longe, o Peru, que de perto não via.

Mariatégui acha que o marxismo integra o processo humano tão indiscutivelmente como a vacina contra a varíola ou a teoria da relatividade, mas para peruanizar o Peru é preciso por começar por peruanizar o marxismo, que não é catecismo nem cópia a carbono, e sim, a chave para entrar no país profundo. E as chaves do país profundo estão nas comunidades indígenas despojadas pelo latifúndio estéril mas invictas em suas socialistas tradições de trabalho e vida.

(O século do vento – Eduardo Galeano. Tradução Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM  Pocket. pp93)

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Published in: on 27/05/2013 at 19:36  Deixe um comentário  

leia UM livro

                Este texto surge a partir de uma querela com o meu primo, o Chico, uma das muitas que temos, graças a…

Enfim.

O Chico aí de cima é um profundo admirador das potencialidades da internet em difundir textos, divulgar idéias e ampliar a capacidade de compreensão dos sujeitos sobre o mundo. O acesso a informação pela internet se diferencia, de outros meios de comunicação, pela pluralidade de perspectivas e pela liberdade da rede em relação às amarras capitalistas e centralizadoras das mídias tradicionais, como a televisão e o rádio. Um mesmo “fato”, na rede, pode ser narrado por diversos sujeitos, a partir de posições singulares. Eu não discordo de forma alguma das benesses da internet. Não sou desses que adoram jogar água fria nesse papo, soltando a baixa porcentagem de indivíduos que já acessaram alguma vez a rede ou demarcando que 85,9 % das buscas no Google se dão em torno de termos bastante educativos, como “pinto grande” ou “orgia anão Adriano Cavalo”. Nada disso é um argumento contra a potência da rede em estabelecer modos alternativos e não-hegemônicos de entendimento do que nos acontece. Obviamente, como uma pessoa que pensa, fico possesso quando leio coisas do tipo: “a revolução no Egito foi causada pelo twitter ou facebook”. Tenho gastrite também quando a internet vira sinônimo de um mundo mágico e abstrato de possibilidades infinitas dessa nossa bela globalização. Como se todos estivéssemos agora numa nova era, pois a verdade é que no mundo que habito, ainda se morre de fome e tuberculose. Os jovens negros moradores da periferia brasileira são limitados na sua circulação territorial e continuam sendo assassinados no atacado, muitas vezes pelos agentes do estado. Portanto, não se pode ir a qualquer lugar a toda hora, há limites, vivemos e viveremos sempre num mundo material marcado por condições e possibilidades finitas, mais finitas para uns e menos para outros, certamente. Ora, o ponto simples e besta é que a internet faz parte da realidade. É estúpido, mas é preciso dizer, porque há sempre os engraçadinhos que deliram feio nessa onda. Assim, antes de ser o espaço livre de piratas anárco-cibernéticos a internet é toda articulada a empresas privadas e submetida a diversas formas de controle. Boa parte dos chamados “blogueiros” são jornalistas profissionais, atravessados por contratos, publicidade, etc… Além disso, eu posso criar um blog e escrever o que quiser. Mas aí o wordpress pode discordar e querer me tirar do ar. Ou então meu provedor pode me achar bobo, feio e chato e me deletar também. Estou falando tudo isso sobre a rede, porque não é disso que quero falar. Eu não discordo do ponto levantado e sustentado pelo Chico, da possibilidade da rede em ampliar temas e formas de apreender a realidade. Discordo é claro, do seu grau etílico de otimismo. Se houvesse uma lei com o meu nome, a Lei Rafael, vamos chamá-la assim, ela diria o seguinte: “O mundo é sempre menos moderno do que se supõe. Isso mesmo, sempre”. E é só isso, as regras do mundo ainda são antigas, a religião ainda pauta a política em todas as instâncias e as mulheres continuam apanhando dos maridos.

A rede é a terra das possibilidades, das navegações e zapeadas. É o espaço da interação, da malemolência. Na internet estamos sempre com o mouse na mão. “Um” e “único” são termos difíceis de articular à rede. Buscamos múltiplas referências sobre diversos assuntos, ao mesmo tempo. E penso que isso nem sempre é bom. Mais nem sempre é melhor. Foi na rede, há coisa de dez anos, que descobri um texto do Sergio Porto, assinado com seu verdadeiro nome e não com o famoso pseudônimo, Stanislaw Ponte Preta. Foi através do site, releituras que li uma dessas coisas que nos acompanham a vida inteira, como uma espécie de oração particular.

“Se não me for dado comparecer às grandes noites de gala, que fazer? Resta-me o melhor, afinal, que é esticar de vez em quando por aí, transformando em festa uma noite que poderia ser de sono.”

A internet possibilitou o acesso a esse texto, que por sua vez, trouxe uma coisa linda para a minha vida. Descobri aí que o Sérgio Porto escreveu alguns livros utilizando seu verdadeiro nome, sendo que em tais obras ele falava de forma diferente da fanfarra hilária que marca o personagem Stanislaw. Sem a rede, provavelmente não saberia disso e seria uma pessoa mais infeliz ainda. A partir daí cheguei ao livro “A casa demolida”. Ora, pronto, nesse momento cessa o papel da internet nessa história. Porque daí se estabeleceu uma ligação linda entre o livro e a minha pessoa, que nada mais deve a rede. Se sou um tanto conservador, por outro lado não sou desses que contrapõe a matéria, o papel ao virtual, ao imaterial. Não é disso que se trata. A questão é a possibilidade de totalizar uma experiência. Na internet começamos procurando o Sérgio Porto, passamos para a crônica brasileira de meados do século XX, vamos a Rubem Braga, amigo do Vinicius de Moraes, poeta e também diplomata, seguimos pelas relações internacionais do Brasil e logo, logo chegamos a segunda guerra mundial… Não há fim.

As coisas são simples. Uma pessoa é simples. E o livro é um mundo inteiro que se abre, um mundo que se abre e que também se fecha, ao se finalizar o livro. A rede é de fato um universo, mas nós não somos seres intergalácticos, nunca seremos, pela Lei Rafael. É no mundo finito que vivemos. É numa cidade, às vezes, num bairro que circulamos e que nos familiarizamos. O velho Braga escreveu: “Dizem que o mundo está cada dia menor. É tão perto do Rio a Paris! Assim é na verdade, mas acontece que raramente vamos sequer a Niterói”. Ler “um” livro é viver a cidade, é a possibilidade de viver o mundo na sua totalidade. É aqui que percebemos o problema da rede, não há totalidade passível de se fazer disso, pois tudo nos escapa. Há sempre um mais, um dado a ser complementado. E no delírio de buscar tudo vamos somando, somando, somando… Rapaz, a conta não fecha. Que o mundo seja mais do que nós mesmos isso é coisa necessária para não cair no delírio paranóico. No entanto penso que é necessário totalizar nossa relação com as coisas do mundo. E essa é, ao meu ver, a boa luta. Ora, na rede, quase sempre estamos conectados demais a coisas demais. É tudo fragmento. Vejo que poderia ler apenas “Anna Kariênina” do Tolstói a minha vida inteira. E sinto que saberia mais sobre a vida, a mulher, a morte, a política que alguém que ficasse lendo todos os blogs sobre economia, política, sociedade, história, psicologia, ciência. Leria e releria o mesmo livro, aquele que na sua singularidade é um mundo inteiro. Talvez não viria a obter mais informações, mas acredito que viria ao cabo do processo ser uma pessoa, e não um banco de dados. Ler “um” livro, amar “uma” mulher, ter “um” amigo. Amar uma pessoa é amar todas, porque ali você está completo. Tudo está ali, nada falta. Ao ler “o” livro, amar “a” mulher, lutar “a” luta sente-se uma coisa estranha… Não há mais tempo, não há espaço, não resta nada, nada lá fora.  Tudo, absolutamente tudo que te constitui se faz presente. Lendo, meio sem querer, o livro de Pierre Clastres, “A sociedade contra o estado” deparei-me com a citação abaixo. Ela sintetiza de forma maravilhosa o que penso sobre o tema.

“…a linguagem não é um simples instrumento, que o homem pode caminhar com ela, e que o Ocidente moderno perde o sentido de seu valor pelo excesso de uso que a submete. A linguagem do homem civilizado tornou-se completamente exterior a ele, pois é para ele apenas um puro meio de comunicação e informação. A qualidade do sentido e a quantidade dos signos variam em sentido inverso. As culturas primitivas, ao contrário, mais preocupadas em celebrar a linguagem do que em servir-se dela, souberam manter com ela essa relação interior que é já em si mesma aliança com o sagrado.” (Pierre Clastres. “O arco e o cesto”. Em: A sociedade contra o estado, 2003, p.143, Ed. Cosac Naify)

É curioso, mas o que sinto é que para abandonar as pretensões de saber todas as línguas, de amar todas as mulheres e ler todos os livros, o que basta é se fiar nisso de ler apenas uma mulher. De amar um livro. De lutar uma luta. E fazer disso o caminho da vida, coisa que os bytes nunca entenderiam. No meu caso, foi “Anna”, mas, e aí está a beleza, cada um faz um mundo do livro, da mulher, ou da luta que quiser.

Published in: on 25/08/2011 at 03:01  Comments (8)  

O amor

“- Espere – disse, sentando-se à mesa. – Eu queria, há muito tempo, lhe perguntar uma coisa.
Fitou-a de frente, nos olhos meigos, embora assutados.
– Por favor, pergunte.
– Veja, disse Liévin e escreveu as letras iniciais: q, a, s, m, r, n, p, s, q, d, n, o n, m? Essas letras significavam: “Quando a senhora me respondeu não pode ser queria dizer nunca ou naquele momento?”. Não havia a menor probabilidade de que ela conseguisse entender essa frase complexa; mas Liévin fitou-a com tal expressão que sua vida parecia depender da compreensão daquelas palavras.
Ela olhou para ele com ar sério, depois apoiou na mão a testa franzida e começou a ler. De vez em quando, dirigia os olhos para Liévin, interrogava-o com o olhar: “Será o que estou pensando?”.
– Compreendi – disse Kitty, ruborizada.
– Que palavra é esta? perguntou ele, apontando para o N, que significava a palavra nunca.
– Significa a palavra nunca – respondeu. – Mas não é verdade!
Liévin rapidamente apagou as letras, entregou a ela o giz e levantou-se. Ela escreveu: n, m, e, n p, d, o, r.
Dolly já estava inteiramente consolada do desgosto causado pela conversa com Aleksiei Aléksandrovitch quando viu estas duas figuras: Kitty, com o giz nas mãos e com um sorriso tímido e feliz, que olhava para Liévin, acima dela, e a bela figura de Liévin, curvado sobre a mesa, com os olhos ardentes de atenção dirigidos ora para a mesa, ora para Kitty. De repente, ele se tornou radiante: compreende. Significava: “Naquele momento, eu não podia dar outra resposta”.
Fitou-a de modo interrogativo, tímido.
– Só naquele momento?
– Sim – respondeu o sorriso dela.
– E a…E agora? – Perguntou Liévin
– Pois bem, leia aqui. Direi o que eu gostaria. E gostaria muito! – Escreveu as letras iniciais: q, o, s, p, e, p, o, q, a. Significava: “Que o senhor possa esquecer e perdoar o que aconteceu”.
Ele tomou um giz com os dedos tensos, trêmulos e, depois de parti-lo ao meio, escreveu as letras iniciais do seguinte: “Nada tenho para esquecer ou perdoar, eu nunca deixei de amar a senhora”.
Kitty olhou para ele com um sorriso indelével.
– Compreendi – respondeu num sussurro.
Liévin sentou-se e escreveu uma frase comprida. Kitty compreendeu tudo e, sem lhe perguntar: é isto?, pegou o giz e respondeu de imediato.
Por longo tempo, Liévin não conseguiu compreender o que ela havia escrito e mirou os olhos de Kitty muitas vezes. Um estupor de felicidade o havia dominado. Não conseguia de forma alguma restituir as palavras que ela deixara subtendidas; mas nos olhos encantadores de Kitty, que reluziam de felicidade, Liévin compreendeu tudo aquilo que precisava saber. E escreveu três letras. Mas ele não havia ainda terminado de escrever e Kitty já lia ao mesmo tempo que a mão dele escrevia, e ela mesmo terminou, e escreveu a resposta: sim.”

(Liev Tolstói em Anna Kariênina, p. 394-5)

Published in: on 01/07/2011 at 14:24  Comments (2)  

Sim.

Ainda não estou levando muito a sério o blog no ano que segue, como talvez não esteja levando mesmo todas as minhas obrigações e responsabilidades. E o ano segue valente para o seu final. Depois de um começo belo e pretensioso, ele segue indiferente e preguiçoso. Ele ou eu. Ele e eu. E só a idéia da Copa, no seu poder, é que segura a angústia e a dissolve em pura e besta expectativa. Como a Copa acontece de quatro em quatro anos, como nela ocorrem feitos extraordinários que nunca se repetem, há contida na idéia da Copa uma dimensão extra-temporal que transcende todo e qualquer evento terreno e que não tem nenhuma relação com futebol. De fato o que mais me lembro quando penso em Copa do Mundo são em certos momentos passados de minha vida, momentos de outras copas, nos quais sempre imaginava como estaria minha vida numa próxima Copa. Em 1994 aos 11 anos pensava como seria viver em 1998 quando estaria então com 15 anos de idade. No tempo e na vida incerta só havia a certeza de uma próxima copa. Em 2002 estaria então com 19 anos e toda a minha vida estaria clara e definida. Os 19 anos ficaram para trás já há 8 e essas perambulações imaginativas perderam a graça há muito mais tempo.

E agora depois de um início de ano virulento e apressado, marcado por grandes acontecimentos sobreveio o marasmo das coisas. O que não seria de se estranhar para quem há tanto ouve e tenta decifrar o segredo daquela música dos senhores Gudin e Pinheiro que diz: “Dia de muito é véspera de nada”. É preciso, antes mesmo da Copa que nunca trouxe nada além de uma alegria boba, espantar o diabo do marasmo. Trazer de volta a vida, bela, extraordinária e encantadora. Num texto curto que coloquei logo aqui embaixo do Rubem Braga ele sintetiza isso de uma forma linda quando agradece a todos os infortúnios, acasos, graças e violências que aconteceram na vida de sua amada, pois tudo isso a trouxe aos seus braços. É essa força que preciso, é dessa afirmação que quero me alimentar. É preciso afastar o medo de estar certo, é preciso excluir os talvezes, os nãos, e dizer sim, sim, sim! E mesmo sabendo que todo sim está contaminado com o erro, é preciso então viver o erro, reconhecer o erro e falar sim para outras coisas que possam então surgir.

             Sim, aí está a Vida. Por uma onto-teologia Tolstoiana.

Em 2009 coisas belas e tristes ocorreram. Foi um ano forte, um ano de envelhecimento. Foi um ano no qual perdi um grande amigo. Ano que ganhei uma sobrinha linda e esperta que continuou esta tradição feminina em minha família. Foi o ano em que conheci Anna Karienina do Tolstoi. Numa determinada passagem do livro ao conhecer e conversar com a extraordinária e bela Anna, Liévin, um dos personagens principais, pensa:

 ‘Sim, sim, aí está uma mulher!’, pensou Liévin, esquecido de si mesmo e fitando o belo rosto vivaz de Anna, que agora se modificara completamente. Liévin não escutava o que ela estava falando, inclinada na direção do irmão, mas estava impressionado com a mudança da sua expressão. Antes tão lindo em sua serenidade, o rosto de Anna passou, de repente, a exprimir uma estranha curiosidade, além de raiva e orgulho.
(…) O sorrido de Anna, o seu olhar, tudo lhe dizia que ela dirigia aquelas palavras apenas a ele, com pela sua opinião e, ao mesmo tempo, ciente de antemão de que os dois se compreendiam um ao outro.” (Anna Kariênina, p.684-7)”.

Nos últimos anos nada me impressionou tanto do que essa primeira expressão, que mais do que descritiva é antes de tudo performativa. Ela constitui aquilo que enuncia. O poder simbólico para Pierre Bourdieu é esse poder de construir o dado pela enunciação. Ao dizer “sim, aí está uma mulher” Liévin constrói uma mulher e também um mundo inteiro de relações. Este momento é o momento de verdade. Por isso é também teológico, funda o início das coisas e instaura um domínio do eterno, do transcendente. Por isso continua Tolstoi e diz que Liévin estava esquecido de si mesmo, e que ali tudo o que ocorria era destinado a ele, todos os movimentos aconteciam apenas para que ele os percebesse. O livro me marcou tanto, pois é uma obra que traz a tona toda a angústia, a solidão e o vazio, mas que consegue sair desse sofrer através de uma filosofia afirmativa, viva, exuberante, voltada para as pessoas, para fora. É linda e exuberante a afirmação, “sim, aí está uma mulher.” No último parágrafo do livro temos o vislumbre de toda a potência do pensamento de Liévin, ou de Tolstoi:

 “Continuarei a me irritar com o cocheiro Ivan, continuarei a discutir, continuarei a expressar minhas idéias fora de hora, continuará a existir um muro entre as coisas mais sagradas da minha alma e as outras pessoas, mesmo a minha esposa, e continuarei a culpá-la do meu medo e a me arrepender disso, continuarei a não entender por meio da razão porque eu rezo, e rezarei, mas minha vida, agora, toda a minha vida, a despeito de tudo o que possa vir a me acontecer, e cada minuto seu, não só não será absurda, como era antes, como terá também o incontestável sentido do bem, que cabe a mim infundir a ela” (p.801).

Sim, aí está um livro. Sim, aí está uma filosofia que vale ser vivida. Sim, aí está uma música. Sim, aí está uma mãe. Sim, aí está um pai. Sim, aí está um amigo. Sim, aí está uma decisão. Sim, aí está o meu caminho. Sim, aí está um amor. Sim, aí está um sorriso. Sim, aí está uma noite boa. Sim, aí está minha casa. Entre o ver, o sentir e o afirmar infundir em todas as coisas uma idéia infinita de bem. Passe impossível e necessário para um viver, para afirmação de uma vida. Fazer da relação com as coisas, mesmo as mais bestas, mas também as mais sagradas, momentos de afirmação da beleza, da verdade e da bondade.

Published in: on 05/06/2010 at 16:50  Comments (3)  

Mestrado #3 / Ei, Tolstói vai tomá no Cu#7

O título duplo justifica-se porque se, por um lado, mostro mais uma vez a genialidade do escritor russo Tolstói, por outro, nesta passagem o autor traz uma bela definição de subjetividade, a qual de alguma forma tenho me atado nos meus estudos de mestrado.

E é bonito realmente quando coisas assim aparentemente desconexas se juntam e fundem.

A passagem completa do texto é brilhante. Nela vemos a emergência da angústia de um homem cético e racional que tenta buscar alguma fundamentação ética para a vida e o ser. Nela vemos a tentativa de fundamento, de certeza ser sempre abalada por uma dúvida. Não é possível estar certo sobre como viver e como ser. Trouxe apenas um trechinho no qual vemos o culminar de tudo isso…

“Durante toda a primavera, Liévin andou transtornado e padeceu momentos terríveis.
‘É impossível viver sem saber o que sou e para que estou aqui’, disse Liévin consigo.
‘No tempo infinito, na matéria infinita, no espaço infinito, surge um organismo-bolha, e então essa bolha se aguenta um pouco, rebenta e essa bolha sou eu’ “. (Anna Kariênina, Liev Tolstoi, p.774)

Published in: on 26/10/2009 at 15:55  Comments (2)  

Ei Tolstói, Vai tomá no Cu#6

ou:

Coleção Primeiros Passos:

“O Que é Sedução”

“Anna falava com desembaraço e sem pressa, de quando em quando, desviava seu olhar de Liévin para o irmão, e Liévin percebia que a impressão que causava era boa e logo se sentiu a vontade, espontâneo e alegre, ao lado de Anna, como se a conhecesse desde criança”.
(…)
– Não é mesmo de uma beleza extraordinária? Perguntou Stiepan Arcáditch, ao notar que Liévin dirigia os olhos para o quadro. [de Anna]
– Nunca vi um retrato melhor que este.
– E e extraordinariamente parecido não é verdade? – Perguntou Vorkúiev.
Liévin voltou os olhos do retrato para o original.Um brilho especial iluminou o rosto de Anna, no momento em que ela sentiu sobre si o olhar de Liévin. Ele ruborizou-se e, afim de esconder sua perturbação, quis perguntar se não fazia muito que ela vira Dária Aleksándrovna; mas, nesse mesmo instante, Anna pôs-se a falar:

(…)

Dessa vez, Liévin já não falava, em absoluto, da maneira mecânica como havia conversado naquela manhã. Na conversa com Anna, cada palavra adquiria um sentido especial. Falar com ela era agradável, e ouvi-la, mais ainda.
Anna falava não só de modo natural e inteligente, mas também inteligente e despretensioso, sem atribuir nenhum valor às próprias idéias, mas dando o máximo valor às idéias de seu interlocutor.
A conversa enveredou por uma nova tendência da arte as novas ilustrações da Bíblia feitas por um artista francês. Vorkúiev recriminou o artista pela realismo que chegara à grosseria. Liévin disse que os franceses haviam levado o convencionalismo na arte mais longe do que ninguém e, por isso, viam um mérito especial no retorno ao realismo. No fato de já não mentirem, eles encontram poesia.
Nunca algo inteligente dito por Liévin lhe proporcionou tanta satisfação quanto essas palavras. O rosto de Anna iluminou-se, de súbito, quando reconheceu de um golpe o valor daquele pensamento. Ela riu.
– Estou rindo – explicou Anna – como rimos quando vemos um retrato muito parecido conosco. O que o senhor disse caracteriza com perfeição a arte francesa atual, a pintura e até a literatura: Zola, Daudet. Mas talvez seja sempre assim, os artistas elaboram suas conceptions a partir de figuras inventadas e convencionais e, depois de fazer todas as combinaisons, as figuras inventadas cansam e eles passam a imaginar figuras mais naturais, mais fidedignas.
(…)
Sim, sim, aí está uma mulher!“, pensou Liévin, esquecido de si mesmo e fitando o belo rosto vivaz de Anna, que agora se modificara completamente. Liévin não escutava o que ela estava falando, inclinada na direção do irmão, mas estava impressionado com a mudança da sua expressão. Antes tão lindo em sua serenidade, o rosto de Anna passou, de repente, a exprimir uma estranha curiosidade, além de raiva e orgulho. Mas isso durou apenas um minuto. Ela semicerrou os olhos, como que recordando algo.
(…)
E olhou de novo para Liévin. O sorrido de Anna, o seu olhar, tudo lhe dizia que ela dirigia aquelas palavras apenas a ele, com pela sua opinião e, ao mesmo tempo, ciente de antemão de que os dois se compreendiam um ao outro.” (Tolstói, Anna Kariênina, p.684-7)

Published in: on 08/10/2009 at 17:23  Deixe um comentário  

Ei, Tolstoi, vái tomá no cu#5!!

No livro “Pensamento e Linguagem“, o genial pensador russo Lev Vygotsky utiliza exemplos da literatura de seu país para demonstrar aspectos chaves na conexão entre o pensamento e a palavra. E todos esses exemplos, além de casar intimamente com os pressupostos teóricos em questão, eram profundos em si mesmos, contendo a capacidade mágica de produzir uma expansão sem fim em nosso ser. Como se através de cada um deles entendêssemos não só algo específico, mas tudo sobre a natureza humana.

Ainda que já admirasse a literatura russa, não seria honesto senão dissesse que foi a leitura do ultimo capítulo desse livro que despertou em mim a ação de pegar “Anna Kariênina”…

Pois um desses exemplos em “Pensamento e Linguagem” é este trecho abaixo, sem dúvida das coisas imateriais mais bonitas que já passaram por meus olhos. Além da beleza ingênua, traz uma questão fundamental da compreensão, e portanto, da incompreensão na relação humana.

Se nosso casal abaixo tudo entende a partir de quase nada, quantas pessoas nunca vão entender nada, apesar de palavras e sentenças completas, inflexões, explicações, tratados e manuais práticos.

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“- Espere – disse, sentando-se à mesa. – Eu queria, há muito tempo, lhe perguntar uma coisa.
Fitou-a de frente, nos olhos meigos, embora assutados.
– Por favor, pergunte.
– Veja, disse Liévin e escreveu as letras iniciais: q, a, s, m, r, n, p, s, q, d, n, o n, m? Essas letras significavam: “Quando a senhora me respondeu não pode ser queria dizer nunca ou naquele momento?”. Não havia a menor probabilidade de que ela conseguisse entender essa frase complexa; mas Liévin fitou-a com tal expressão que sua vida parecia depender da compreensão daquelas palavras.
Ela olhou para ele com ar sério, depois apoiou na mão a testa franzida e começou a ler. De vez em quando, dirigia os olhos para Liévin, interrogava-o com o olhar: “Será o que estou pensando?”.
– Compreendi – disse Kitty, ruborizada.
– Que palavra é esta? perguntou ele, apontando para o N, que significava a palavra nunca.
– Significa a palavra nunca – respondeu. – Mas não é verdade!
Liévin rapidamente apagou as letras, entregou a ela o giz e levantou-se. Ela escreveu: n, m, e, n p, d, o, r.
Dolly já estava inteiramente consolada do desgosto causado pela conversa com Aleksiei Aléksandrovitch quando viu estas duas figuras: Kitty, com o giz nas mãos e com um sorriso tímido e feliz, que olhava para Liévin, acima dela, e a bela figura de Liévin, curvado sobre a mesa, com os olhos ardentes de atenção dirigidos ora para a mesa, ora para Kitty. De repente, ele se tornou radiante: compreende. Significava: “Naquele momento, eu não podia dar outra resposta”.
Fitou-a de modo interrogativo, tímido.
– Só naquele momento?
– Sim – respondeu o sorriso dela.
– E a…E agora? – Perguntou Liévin
– Pois bem, leia aqui. Direi o que eu gostaria. E gostaria muito! – Escreveu as letras iniciais: q, o, s, p, e, p, o, q, a. Significava: “Que o senhor possa esquecer e perdoar o que aconteceu”.
Ele tomou um giz com os dedos tensos, trêmulos e, depois de parti-lo ao meio, escreveu as letras iniciais do seguinte: “Nada tenho para esquecer ou perdoar, eu nunca deixei de amar a senhora”.
Kitty olhou para ele com um sorriso indelével.
– Compreendi – respondeu num sussurro.
Liévin sentou-se e escreveu uma frase comprida. Kitty compreendeu tudo e, sem lhe perguntar: é isto?, pegou o giz e respondeu de imediato.
Por longo tempo, Liévin não conseguiu compreender o que ela havia escrito e mirou os olhos de Kitty muitas vezes. Um estupor de felicidade o havia dominado. Não conseguia de forma alguma restituir as palavras que ela deixara subtendidas; mas nos olhos encantadores de Kitty, que reluziam de felicidade, Liévin compreendeu tudo aquilo que precisava saber. E escreveu três letras. Mas ele não havia ainda terminado de escrever e Kitty já lia ao mesmo tempo que a mão dele escrevia, e ela mesmo terminou, e escreveu a resposta: sim.” (Anna Kariênina, p. 394-5)

Published in: on 04/07/2009 at 21:13  Deixe um comentário  

Ei, Tolstói Vai tomá no Cu #4

Talvez isso ainda seja novidade para alguém, mas a verdade é que estou encantado pelo Tolstói. Tem sido difícil precisar a natureza específica dessa admiração, exemplo evidente de sedução generalizada. Porém, nas últimas páginas dois aspectos que já vinham se delineando emergiram com clareza. Um é a forma impressionante de caracterização dos personagens. O segundo ponto é a abordagem da heterogeneidade política e social da Rússia que costura toda a trama (o livro foi escrito por volta de 30 anos antes da revolução). No primeiro ponto ressalto a capacidade do autor em usar bem os adjetivos. De conseguir extrair uma imagem clara e profunda dos personagens, mostrando bem contradições e paradoxos. Não há nada óbvio. E assim a história permite um fluxo bem descontínuo, dependente da identificação de cada um (eu, por exemplo, acho a Anna Kariênina bem chatinha…tipo Marie Claire do final do século XIX). Cada sujeito que aparece na história, por duas páginas que seja, poderia tranquilamente ser o protagonista do livro. O que é maravilhoso, como se percebe na seguinte apresentação de um desses personagens totalmente marginais…

“Sviájski era uma dessas pessoas, sempre surpreendentes para Liévin, cujo raciocínio, muito lógico, embora nem sempre pessoal, seguia um caminho próprio, enquanto sua vida, extraordinariamente resoluta e firme em seu rumo, seguia um caminho próprio, de modo totalmente independente e quase sempre em desacordo com o seu raciocínio. Sviájski era um homem extremamente liberal. Desprezava a nobreza e considerava a maioria dos nobres secretamente partidário da escravidão, o que só por medo não declaravam. Considerava a Rússia um país perdido, a exemplo da Turquia, e julgava o governo russo tão ruim que nunca se permitia sequer criticar a sério as suas medidas, e ao mesmo tempo era funcionário do governo e um perfeito dirigente da nobreza e, em viagem, sempre usava a insígnia oficial e a fita vermelha no quepe. Acreditava que a vida humana só era possível no exterior, e para onde viajava a qualquer oportunidade, e ao mesmo tempo na Rússia uma propriedade rural muito complexa e modernizada e acompanhava tudo com enorme interesse e sabia de tudo o que se fazia na Russia. Considerava que o mujique russo, quanto a evolução, se situava num grau intermediário entre o macaco e o homem e, ao mesmo tempo, nas eleições do ziemstvo, ninguém apertava as mãos dos mujiques e ouvia suas opiniões com mais boa vontade do que Sviájski… Não acreditava nem em Deus nem no Diabo, mas se preocupava muito com a questão da melhoria das condições de vida do clero e com a redução das suas receitas, além disso se empenhava de modo especial para que a igreja permanecesse em sua aldeia. (…) ” (p.325-6)

A relevância da complexidade de forças em jogo naquele momento, os paradoxos do desenvolvimento russo transparecem nas atitudes e pensamentos dos diferentes personagens. Tal questão me interessa, pois toca num ponto central dos meus estudos que é a noção de contingência como fundamento cultural e político de dada época. Como os destinos emergem a partir de processos indeterminados, sem nenhum vínculo de certeza com o passado. A questão não é que Tolstoi teria sacado que uma revolução estaria por vir, mas sim que ele apontava a singularidade e a complexidade das forças políticas e sociais naquele momento…

“…Liévin sabia que na casa de Sviájski encontraria os senhores de terra vizinhos e tinha agora especial interesse em conversar, em participar daquelas conversas sobre agricultura, colheitas, trabalhadores assalariados, e tudo o mais que, Liévin sabia, era de bom-tom considerar como algo muito rasteiro, mas que agora lhe parecia o único assunto importante. ‘Talvez não fosse o mais importante no tempo da servidão, nem seria importante na Inglaterra. Em ambos os casos as condições estavam perfeitamente estabelecidas; mas entre nós, na Rússia, agora, quando tudo se pôs em desordem e apenas se esboça uma organização, a única questão importante é como esses condições irão se reconfigurar’, pensava Liévin”. (P.327)

Published in: on 07/04/2009 at 20:11  Deixe um comentário  

Ei Tolstói vai tomá no Cu# 3

“Konstanti Liévin encarava o irmão como um homen de enorme inteligência e cultura, um homem nobre, no sentido mais elevado da palavra, e dotado da capacidade de agir em prol do bem comum. No entanto, no fundo de sua alma, quanto mais envelhecia e quanto mais intimamente conhecia o irmão, vinha-lhe  ao pensamento, de modo cada vez mais frequente, que essa capacidade de agir em prol do bem comum, da qual se sentia completamente privado, talvez não fosse uma virtude, mas sim, a contrário, a falta de alguma coisa – não uma falta de gostos e desejos bons, honrados e nobres, mas uma falta de força vital, daquilo que chamam de coração, daquela aspiração que obriga a pessoa a escolher, entre todos inumeráveis caminhos que se apresentam na vida, somente um e desejar apenas esse. Quanto mais conhecia o irmão, mais notava que Serguei Ivanovitch e muitos outros que agiam em prol do bem comum não eram levados pelo coração a esse amor ao bem comum, mas sim concluíam por força da razão que era bom incumbir-se disso e apenas por esse motivo o faziam. A hipótese de Liévin era também confirmado pela observação de que as questões do bem comum e da imortalidade da alma não entusiasmavam seu irmão mais do que uma partida de xadrez ou do que a construção engenhosa de uma nova máquina”. (Anna Kariênina, p.243)

Published in: on 23/03/2009 at 00:44  Comments (1)  

Ei Tolstói, Vai tomá no Cu#2

“Já ouvira dizer que as mulheres, muitas vezes, amavam homens feios e comuns, mas não acreditava, porque julgava os outros por si mesmo e ele só seria capaz de amar mulheres belas, misteriosas e fora do comum”

“Anna Kariênina”, p.328

Ed Cosacnaify, Tradução Rubens Figueiredo

Published in: on 15/02/2009 at 18:03  Comments (1)