India #2 / Notas doutorais #8 – Alienação, ideologia, falsa consciência: Quem disse?

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Amita Baviskar é uma pensadora vigorosa, jovem, muito sensível e forte, dessas pessoas que o que falam, precisam dizer apenas uma vez. Uma figura que me impressionou quando a conheci em Nova Déli, no início desse ano. Suas palavras e os caminhos do pensamento que essas palavras nos guiam, mostram um mundo interessante e complexo. Além do que já vinha absorvendo pelo se texto senti algo também em sua presença, no curto tempo em que estivemos juntos. É difícil explicar, mas tem a ver com a maneira simples como ela, enquanto conversávamos no jardim da Delhi University, pediu licença para mim e parabenizou o jardineiro pelas belas flores. Essa delicadeza sob a qual vislumbramos a mulher da luta. Muito elegante, em momento nenhum de nossa hora de conversa levantou a voz ou o tom, ainda que pudesse tê-lo feito, menos por uma descortesia minha e mais pelo conteúdo do diálogo. É hoje uma das vozes mais respeitadas no debate socioambiental indiano. Em torno dela articulam-se pesquisadores e pensadores que tem produzido muita coisa interessante e que tem feito o que devem sempre fazer os “pensadores”, pensar. Não repetir fórmulas, não agradar agências de fomento, não fugir das contradições da vida, do sistema, por atalhos duvidosos. Atravessar sim os vales de  crítica sem medo do que se vai encontrar, sem pensar na saída, numa resposta. Acho que a academia, e as ciências humanas e sociais em geral, devem se posicionar politicamente sim, responder afirmativamente contra a injustiça a dominação e a violência. E os movimentos sociais devem bater e criticar as políticas da universidade, em todos os campos. Não defendo, em hipótese alguma, uma ciência que acha que vive no reino encantado e brumoso da abstração, sem restar presa ao mundo real com suas contradições e problemas.  Mas dito isso, não acho que ajudamos muito ao dar a resposta que os movimentos querem escutar, dar a resposta que parece politicamente  interessante. Devemos entender o caminho que trilhamos, as implicações políticas e nossa responsabilidade. Aceitar as consequências que decorrem de nossas escolhas. Escreve Amita Baviskar: “A busca continuada por uma narrativa singular para explicar as lutas por recursos naturais é inexplicável. Tal quadro analítico, eu diria, toma como valor a simplificação da representação política que os movimentos sociais deveriam expressar  a fim de ter coerência. No entanto, esta reprodução acrítica de uma demanda política, geralmente vista como um gesto de solidariedade, ignora o difícil, criativo trabalho de construção de identidades políticas, forjamento de alianças e superação das diferenças” (Amita Baviskar , introdução – Contestested Grounds, 2008, p.5).

Em abril de 2012 fui para o meu trabalho de campo. Cheguei em Conceição do Mato Dentro, armado por um lado de uma teoria ecológica baseada na justiça ambiental e por outro numa literatura crítica de identidade política e movimentos sociais. Fui lá para entender como os moradores da região, e especialmente os jovens, vivenciam os efeitos da instalação de um grande projeto minerário por lá. Pensava em termos de movimento social, resistência, solidariedade. E vi de tudo. Vi senhores e senhoras na zona rural esperando angustiados o funcionário da Anglo American que apareceu ano passado dizendo que voltava “na semana que vem” pra resolver o problema da terra, e nunca mais voltou. Vi mulheres com medo de andar por caminhos por onde sempre andaram porque agora, nas pequenas vias, transitam centenas de homens, funcionários de dezenas de empresas. Vi gente na cidade com medo de tudo, conversei com o comandante da PM que mostrava os dados do aumento da violência. Vi pessoas acreditando em promessas da empresa e criando expectativas douradas em relação ao futuro. Conversei com vários moços que sonham tornar-se motoristas de caminhão para serem contratados por “essas firma”. Vi famílias brigando por causa de terra e dinheiro, vi gente mudando no meio da madrugada, para não dizer por quanto vendeu sua terra para o primo/vizinho com quem conviveu por mais de 20 anos. Vi também a escola noturna da cidade cheia, cheia de adultos, mulheres e homens que voltaram a estudar por conta das oportunidades de emprego. Vi um povo com mais dinheiro, meninos e meninas de roupinha e confiança novas. E vi muita gente falando que tudo na vida, como na mineração, tem um lado bom e um lado ruim.

Eu não poderia, por uma incapacidade ética e existencial, partir dos meus princípios políticos para selecionar o que vi e o deixei de ver. Não poderia desconsiderar as coisas positivas, poucas, que vi e ouvi. Desconsiderar a diretora de escola dizendo que antes dos empregos chegarem, as crianças vinham com fome para aula e agora isso não acontece mais. Como fingir que isso não foi dito, também? Como também não posso deixar de me angustiar com uma senhora querendo saber se a comunidade, o distrito na qual ela sempre viveu, vai acabar ou não? Pessoas que moram looonge da mina, em terras que não são de nenhum interesse da empresa, mas que acham que a empresa vai comprar sua terras por uma bagatela. Gente que não sabe, porque não é informada sobre seus destinos. Nesse caso, pior do que uma resposta afirmativa é esse não saber. E quantos são os que acreditam na promessa difundida por estado e empresa de que o desenvolvimento tá aí, batendo na porta, e só não abre a porta quem não quer.

Enfim, voltei a pensar nessas coisas todas quando vi esse vídeo aqui debaixo com uma entrevista da Amita Baviskar, quando ela fala sobre sua pesquisa de doutorado. Neste trabalho Amita discute a resistência de moradores de uma região indígena na India contra a construção de uma grande barragem no rio Narmada. Acho importante a parte final, na qual ela questiona a política de representação deste debate, colocando uma special spicy no olho das Ongs e de certos movimentos sociais que sustentam toda a luta contra o “desenvolvimentismo” nas costas da imagem dourada do povo feliz e alegre que vive em “harmonia” com a natureza. É um alento para pararmos de protelar e enfrentar as contradições na luta política e do debate acadêmico.

http://elearning.lse.ac.uk/dart/interviews/interview.php?flvfile=baviskar_07_768Kbps.flv

Transcrevo a passagem logo no final do vídeo acima (05:05):

“So there I became interested in this question of the politics of representation. Why some movements makes claims about tribal groups, about indigenous people as embodying some ecologically noble savages? Why there is this great discrepancy between those peoples actual lifes and how those lifes are represented? And I came to believe that politics of representation has more to do with the need of these support groups and metropolitan audiences then what tribal people themselves thaugth it was important”

[Então eu me interessei pela questão da política da representação. Por que alguns movimentos afirmam que os grupos tribais, os indígenas, incorporam algum tipo de nobre selvagem do ambientalismo? Por que há uma grande discrepância entre as vidas reais dessas pessoas e a maneira como essas vidas são representadas? E eu vim a acreditar que a política da representação tem mais a ver com a necessidade dos grupos de apoio, das audiências metropolitanas, do que com o que os indígenas realmente pensam que é importante].

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Published in: on 24/05/2013 at 17:18  Deixe um comentário  

India #1

Aldeia próximo a Sambalpur, Orissa,India.

Permaneci na India por pouco menos de três meses. A experiência de realizar parte dos meus estudos de doutorado neste país transcendeu facilmente as categorias disciplinares. Depois de um bom tempo afastado desse blog recomeço essa estória com causos indianos, reflexões e sentimentos dos mais variados. Alguns contém filosofia, outros curry e lássi. Penso hoje, que eu já me encontrava na India ainda no longo processo entre aviões, aeroportos, esteiras, escada rolante. Ao descer em Mumbai, lugar no qual pegaria o último trecho aéreo fui tocado por uma cena bonita, por onde começo essa seção.

A miscelânea de cidadanias presente no vôo entre São Paulo e Dubai transformou-se, quando subi no avião para Mumbai, num mosaico colorido de estilos, longos saris, crianças, homens sizudos de dignos bigodes. No aeroporto de Mumbai seguimos para pegar as malas despachadas. No trajeto, em determinado momento, vi formar-se uma pequena confusão e uma fila na descida de uma escada rolante… Parei também sem entender, mas vi que aos poucos a pequena fila foi se desfazendo. Quando cheguei a botar o pé na escada rolante vi uma senhora parada, na frente da escada, e entendi que era ela a causa do atraso. Na hora que passei pela senhora escutei-a dizendo “I CAN”T”. Olhei para o lado e a vi, uma mulher indiana já idosa,  em trajes formais, jeito simples. Ela tentou utilizar aquele estranho aparelho, mas não conseguiu. Disse “I can’t” e na mesma hora se voltou para pegar a escada convencional, enquanto a pequena fila se desfazia…

Achei de uma banalidade comovente “tudo” isso. Eu que venho me degladiando com interpretações e conflitos em torno do processo de “modernização”, não poderia deixar passar em branco essa recusa. Senti que uma mão invisível, uma voz e um gesto poderoso que me diziam claramente. “Bem vindo Rafael, nós aqui, estamos felizes com sua presença. Suas preocupações e seu trabalho é também algo importante para nós. Bom trabalho!” No jeito intranquilo daquela senhora encontrei um primeiro vestígio do que fui buscar. Era preciso dar o próximo passo, em qualquer escada.

Published in: on 01/05/2013 at 20:03  Deixe um comentário  

Diário de Campo e Cidade #8 – Atacado pelo mal da hipótese

Ao morar no interior de Minas Gerais em razão do trabalho de campo de minha tese de doutorado, uma mudança em relação ao tempo foi algo que mexeu comigo. Talez não a mudança e sim um desejo. Eu queria que minha permanência no interior se traduzisse em outra articulação entre meus pensamentos, intenções e ações. Ao viver ali sem internet, barulho e distração, sob a coerção dessas condições externas, pensava que naturalmente minha subjetividade não perderia tempo em suas elocubrações neuróticas, adequando-se às necessidades objetivas de meu trabalho intelectual. Esperava ler muito, escrever e ver florescer uma tese primaveril, assentada na tranquilidade do campo, longe da fragmentação do cotidiano metropolitano.  Para minha ingênua supresa, não foi isso o que aconteceu. Ainda que o tempo lá fora fosse tranquilo e calmo, aqui dentro as máquinas trabalhavam, faziam barulho e me dividiam. A experiência possível que posso ter com a experiência do tempo ao longo de minha vida foi sim moldada, e não sou, nem poderia ser, tábula rasa. A ansiedade e o ritmo frenético me acompanham e a calma e tranquilidade não podem ser nada mais nada menos do que emulações de calma e tranquilidade.

A passagem abaixo citada por Raymond Williams traduz essa impossibilidade.

‘O lazer desapareceu – desapareceu onde não há rodas de fiar, nem burros de carga, nem carroças lerdas, nem mascates vendendo pechinchas às portas em tardes ensolaradas. Talvez haja filósofos engenhosos que afirmem que o grande feito da máquina de vapor seja o de criar lazer para a humanidade. Não acreditem neles: ela cria apenas um vácuo rapidamente preenchido por pensamentos ansiosos. Até mesmo o lazer é ansioso agora –ansioso por entretenimento: propenso a passeios de trem, museus de arte. Periódicos e romances empolgantes; propensos até mesmo a teorizações científicas e olhadelas rápidas no microscópio. O velho Lazer era um personagem bem diverso: lia apenas um jornal, virgem de editoriais, e desconhecia aquela periodicidade de sensações que denominamos ‘hora do correio’. Era um cavalheiro meditabundo, um tanto corpulento, cuja digestão era excelente – cuja percepção tranquila não padecia do mal da hipótese: feliz em sua incapacidade de conhecer as causas das coisas, preferindo a ela as coisas em si’.” (Adam Bede, Georg Eliot).

O Campo e a Cidade. Raymond Williams, p.296-7

Published in: on 02/12/2012 at 15:36  Comments (1)  

Te disco toda #3 –Eduardo Gudin, Coração Marginal, 1978.

Eduardo Gudin apareceu na minha vida no intervalo de um show da banda Zé da Guiomar, reciclo-antigo, quinta-feira. Naquele tempo, eu costumava ir ao samba com o Chico, meu primo e companheiro de discussões, cervejas e, por um curto tempo, de residência. Numa dessas quintas de reciclo ouvi uma música belíssima e que não conhecia. No intervalo do show, encontrei com o violonista e cantor principal da banda e puxei papo. Perguntei a ele de quem era aquela música e como ela se chamava. Ele respondeu que a canção era do Paulinho da Viola e do Eduardo Gudin e se chamava Ainda mais. Ele falou o nome do segundo compositor do mesmo jeito que se expressara acerca do primeiro. Como se falasse de um gênio sagrado da música brasileira, tal como Chico Buarque, Cartola, Noel. Não qualificou-o, explicando de quem se tratava. Mandou na lata Eduardo Gudin. Até aquele momento eu nunca havia escutado esse nome na vida.  Ainda no intervalo do show,o cantor principal do grupo vendo minha admiração pela música me disse para mandar um email para ele que então me enviaria a música.

Naquele dia devo ter chegado em casa por volta de duas da manhã, acompanhado daquele sensação boa de leve entorpecimento. Mandei o email na mesma hora. Foi com surpresa que vi a resposta curta e simpática logo na manhã seguinte, com a música anexada. Eu definitivamente não acredito que a genialidade seja obra do acaso. Uma música, um verso, um traço de gênio implica o gênio completo e total. A partir de Ainda Mais passei a buscar as músicas e discos de Eduardo Gudin. Lembro que o O importante é que a emoção sobreviva, foi dos primeiros, o disco me atropelou e continua a me atropelar e ressoar no meu jeito todo sempre que o escuto. Daí passei para o seu primeiro disco em ordem cronológica, o de 73, repleto de parcerias com o meste kung-fu da letra brasileira, Paulo César Pinheiro. E aí passamos a nos relacionar com mais frequência.

Esse cortejo, esse enamorar, começou há uns 8 anos. Tenho-me mantido fiel. Num primeiro momento, nesse ménage musical, encantei-me mais pela prosa aveludada de PC Pinheiro. Não sou homem da música, sou muito mais das palavras, da prosa. O amor pelas melodias de Gudin foram se fortalecendo sem que eu mesmo percebesse. Dei-me conta disso quando passei a preferir algumas de suas músicas tocadas sem letra, como Águas Passadas e Alma.

Coração Marginal foi o último disco que “descobri” do Gudin. Talvez não seja o meu preferido. Mas ele, até mesmo pelo título, fica no caminho entre o terra-arrasada, Eduardo Gudin, de 1975 e o exuberante e belo Fogo Calmo das Velas, de 1981. Não vou aqui fazer elogios biográficos ao artista. Ele tem um belo site onde há muita coisa interessante. Passemos ao que interessa.

Velho ateu é uma das músicas que mais gosto de ouvir e cantar nos domingos de Bip. Adoro o “bêbadocantor…poétaaa”. Samba em parceria com Roberto Riberti, letrista principal desse disco, traz essa figura do louco, em sua grandeza exuberante. A segunda canção, Mente é dessas músicas feitas pra exorcizar dor de cotovelo daquele amor nosso que era, infelizmente, de mão única, só ia, nada voltava. O apaixonado clama “Menteee…, ainda é uma saída, é uma hipótese de vida, mente, sai dizendo que me ama…” esperando, quem sabe, que um dia a mentira se faça verdade. A música tem uma gravação linda da Clara Nunes. Outro dia me peguei cantarolando Falta de cortesia, apesar dessa canção ter doído um pouco no peito quando passei a atinar para a letra. A canção fala dessa situação, tão comum e banal, sobretudo nos dias que correm, do amante de ocasião, do caso inconsequente, do rolo, daquele que é mais que amigo. Essa pessoa que a gente gosta, mas não muito, e que depois de um tempo de luxúria e prazer a gente parte pra outra. Mas e aí, quando se esbarra com o parceiro ou parceira de antigas rodas, nos sambas da vida? Ele, com ironia no mundo de Gudin, cantaria: “Que falta de cortesia até me pareceu que nem me conhecia / Que eu nunca fui consolo para suas noites vazias”. Samba leve, com letra também do Gudin. Fiquei ainda mais feliz de saber que letra e música são dele, pois venho insistindo na tese da sensibilidade extremamente expandida desse artista para os assuntos do coração. Nem réu nem juiz é mais uma bela canção de amor, ou do fim do amor, naquelas tentativas que são sempre patéticas de dar uma resposta do tipo “e foi bem melhor para você e para mim” que acompanham o abismo do fim.

Navegador é uma música bonita, profunda, diferente dos sambinhas que viemos escutando até então. É bonito o modo com a instrumentalidade entra e compõem seus discos. Isso acaba me seduzindo, eu que como falei, sou mais afeito à poesia do que as construções melódicas de uma canção. Longe de casa é parceria com Paulo Vanzolini, compositor paulistano de sambas, famoso pela clássica Ronda, mas que tem uma produção muito mais diversificada e belíssima. Eu amo esses versos iniciais de um desespero que salta da garganta, a tristeza danada de ruim de quem tá fora do seu chão.“Longe de casa eu choro e não quero nada”. Lendo uma entrevista do Vanzolini ele diz que fez essa letra enquanto fazia seu doutorado nos Estados Unidos, tentando rememorar sua casa, o vento da rua, os barulhos do cotidiano. Águas passadas é mais uma canção cujo tema nos remete à separação, às intempéries que se seguem no prosseguimento da vida, nos calos que provoca uma paixão. E é uma das músicas do Gudin que eu gosto muito mais da melodia do que da letra, apesar dela ser muito bonita também. Mas não sei, gosto muito dessa música, e gosto muito dela tocada por esse cidadão aqui debaixo.

É interessante a sequência das três próximas canções. O importante é que a emoção sobreviva foi um espetáculo que tinha como subtexto a ditadura militar brasileira, a censura, a perseguição. Mas, aos meus olhos, a preocupação política parecia muito mais coisa do PC Pinheiro do que particularmente do Gudin, talvez pela força que emana da letra de músicas como Pesadelo ou Mordaça. As músicas Notícia popular, Como tantos e Maria Fernanda de Sá têm como tema as questões sociais e políticas. Na primeira, o relato de uma família destroçada pela miséria, pelo desarranjo, pelo alcoolismo, contrasta com um samba bem animado. “Mostrei a situação /Meu pai sem emprego se pôs a beber / Minha mãe, sem muita esperança não quis entender”. Em Como tantos, Marília Medalha canta a história de seu homem banal, um homem, como tantos, que é torturado, “bem aos poucos” e morto. A alusão evidente aos mortos e desaparecidos pela ditadura militar brasileira. A música é linda também e o arranjo complexo reforça o drama da letra. A penúltima música do disco parece se referir, mais uma vez, aos desaparecidos políticos. Única música do disco em parceria com o PC Pinheiro, gosto da seguinte construção: “Eu já me cansei de esperar, cadê Fernanda / Pode estar em qualquer lugar, cadê Fernanda / O jornal vai noticiar, cadê Fernanda /Era de família exemplar, cadê Fernanda / Desapareceu na hora H, todo mundo ficou no ar / Maria Fernanda de Sá, pulseira, sandália e colar”.

A última canção é a minha preferida no disco. Talvez…não sei. Alma me remete ao disco O Fogo Calmo das Velas que apareceu de uma forma bonita em minha vida, que me invadiu, me acendeu, que colocou uma doçura sem tamanho, uma certeza em meu olhar, nas minhas mãos. Já gostava dessa música e também de sua letra partir do outro disco, em Fogo Calmo das Velas, Alma antecede o forró Mais de um esse hino particular do amor e do encontro. A alma diz: “Sei que eu não vou te convencer / E nem você vai me mudar / Mas mesmo assim a gente vive querendo provar e comprovar / Seja como fôr, que deu certo o nosso amor”.

Published in: on 07/08/2012 at 21:08  Comments (3)  

Futebol e Política

“O político pode absorver sua energia dos mais variados campos humanos, do religioso, econômico, moral e de outras antíteses. Ele não descreve a sua própria substância, mas apenas a intensidade de uma associação ou dissociação dos seres humanos, cujos motivos podem ser religiosos, nacionais, econômicos ou de qualquer outro tipo e pode afetar em diferentes tempos, diferentes coalizações e separações”         

(Carl Schmitt)

“Minha política é o Flamengo!”

(Rubem Braga)

O torcedor do Galo chama o torcedor do Cruzeiro de “Maria”. O cruzeirense, por sua vez, refere-se, carinhosamente, ao atleticano como “cachorrada”. No Rio, o Flamengo é o time do povo, dos pobres e analfabetos, assim como o Corinthians, em São Paulo. Já os tricolores paulista e carioca representam a elite, a aristocracia branca.

O futebol se alimenta e retroalimenta preconceitos sociais. Atributos pessoais deste ou daquele jogador se espalham e passam a representar toda uma torcida. Os conflitos no futebol, dificilmente tratam de futebol, há sempre algo externo ao campo.

Há pouco mais de dois meses, no Egito, as torcidas presentes numa partida de futebol partiram para a luta corporal, após o fim do jogo. Muito se falou, neste caso, sobre a influência do clima político do país, o impacto das revoltas contra o governo e da “instabilidade política” sobre o comportamento dos torcedores. 73 pessoas morreram nos gramados.

Amo o futebol. Acho transcendente. O homem/mulher, a bola voando, a espera, o momento mágico de um drible, o gol. A possibilidade de criar diferença, de inventar. É clichê, mas o futebol é uma grande metáfora da vida. Amo muito mais o jogo em si, do que tenho prazer em torcer e ver o meu time ganhar. Futebol é o Zidane caminhando em campo, levando a bola. É isso o que me emociona. Mas sei que sou minoria, minha apreensão do jogo, ainda que movida pelo amor, é quase fria, um tanto distante, pois pouco me interesso pelo resultado, ainda que possa estar mentindo um pouco.

A maioria torce e sofre e comemora, só quer ver seu time ganhar e não importa como. Vão aos estádios, falam disso a semana inteira, entoam hinos a favor do seu time, xingam os adversários e provocam. Independente de time, classe, gênero, ou raça. Quantos já não perderam o emprego nas segundas feiras, nas quintas depois de desvarios futebolísticos. A famosa invasão corintiana em 76 ou mesmo a notícia de que 10 mil torcedores do Internacional foram para o Japão em 2010 para torcer no mundial interclubes, nos lembram do poderoso verso gremista:

“Até a pé nós iremos / para o que der e vier / mas o certo é que nós estaremos com o Grêmio onde o Grêmio estiver”

Para Carl Schmitt, jurista e pensador alemão, o caráter político de uma relação se dá pela instauração de uma relação do tipo amigo-inimigo. O político não tem a ver, a priori, com o estado ou o governo. A dimensão estética envolve o belo e o feio; a moral, o bem e o mal. Seria a intensidade do antagonismo numa relação coletiva o que qualificaria o político. Ele se dá pelo fortalecimento do caráter conflitivo numa relação tipo nós contra eles.

A rivalidade é marca tradicional do futebol. Os grandes clássicos e o clima épico que criam, sublinhados pela violência recorrente, que o digam. Podemos dizer, então, que a disputa entre Flamengo e Vasco é um fenômeno político? E para quê isso tudo? Talvez eu esteja exagerando, vai… O torcedor vai ao estádio entoar as canções de amor e louvor ao seu time querido, e muitos nunca chamam ninguém de “cachorro” ou de “maria”. Torcer é pura festa e magia, exaltação do sublime amor e não de ódio. O Marshall Sahlins me atacaria por outro lado e me diria, como um psicanalista de botequim, que é essa minha obssessão Nietzsche-foucaut-gramsciana que me faz ver política em tudo, lançando disparates por todo o lado. Não discordo dos argumentos. Não quero reduzir o futebol aos conflitos políticos/sociais, ainda me sinta tentado à tal empreitada. Mas não posso, como a maioria faz, deixar de pensar na tensão social implicada no futebol,  como se isso fosse algo natural, ou o resultado da sociopatia de uns poucos trogloditas que acabam com a festa da maioria que só quer “paz” nos estádios, sem entender as entranhas desse bagulho.

Considerar o futebol e a relação entre as torcidas a partir da noção de amigo-inimigo de Schmitt, ou seja, enquanto questão política coloca algumas questões. Penso em dois caminhos. Por um lado, acho essa postulação perigosa, por reduzir o fenômeno amplo do jogo e do amor ao time à essa dimensão antagônica/política. E aí, vejo que o Sahlins está certo. Por outro lado, essa consideração traz o futebol e sua relação de amor para a vida social de nosso país. Pois não se trata “simplesmente” de um jogo. Esse segundo ponto pode nos ajudar a entender a dinâmica de amor e paixão que envolve o brasileiro, considerando a centralidade constitutiva da peleja para nosotros. Dessa forma, importa menos o conflito esportivo em si, as brigas, a pancadaria e as mortes, e muito mais entender como essa paixão se explicita no ato de torcer, no falar disso, nos  discursos e significações. Ou seja, como torcer se articula com questões sociais, quaisquer que sejam, como o racismo ou a homofobia.

Tudo isso traria a discussão do amor, da paixão, do ódio dos torcedores, para fora das estapafúrdias mesas-redondas com seus jornalistas esportivos, quase sempre obtusos, para outros espaços de debate e formação de opinião.

Talvez paixão, luta e ódio andam sempre juntas. Talvez o filósofo aqui esteja querendo dominar as paixões no futebol, por não fazer parte disso. Talvez o romântico aqui queira que a potência da paixão futebolística alimente também nossos desejos socialistas. Que alimente nossa vontade de eliminar a desigualdade e a opressão, essa vontade cada vez mais acomodada no liberalismo tranquilo e feliz. Que a igualdade radical, que a liberdade fora das oscilações e determinações excludentes do senhor mercado também nos faça entoar hinos e canções de exaltação. Fora dos estádios.

Talvez.

Published in: on 08/04/2012 at 20:24  Deixe um comentário  

Entre

Olho a porta entre aberta. Nus barulhos da casa, visão alguma dela. Mais uma vez entre. Antes entre o banheiro e o quarto. Antes entre o pecado e a afirmação. Antes entre a ingenuidade e o cinismo. Agora entre o calornaval. Ah, esse segundo duas semanas entre o desespero e o encontro, entre angústia-incerteza e felicidade-besta, estúpida e bovina. Quase mesmo criminosa, aflitiva e também culpada. Nada de flores, nada. Uma intranquilidade sombria. Um desespero mesmo por tudo aquilo que agora não é, não está, não tem. Ou tem, mas acabou, ou está em falta. Olhando a porta entre-aberta, lembrando de outras portas de outros lugares de outros. Entre. O barulho do banheiro que não é. Que lembra a espera daquela não aquela. É outra. A porta aberta, ela vem e acaba entre. Acaba na hora. Ela chega, acaba. Um entre que é o fim. A porta entre-aberta, quantos anos a porta entre-aberta, quantos minutos. Quantas vezes do banheiro para o quarto, quantos minutos, 2. Escova, água, fecha torneira, água, descarga, água. Sons de ela já vem. Ainda não, ainda entre.

Published in: on 06/02/2012 at 16:25  Comments (2)  

Bipianas #3

Quando chego no bip fico pensando nos bons motivos para voltar lá, aos domingos.

Dessa vez lembrei que ao sair do Bip sempre fico mais reflexivo, mais dados aos mexericos da mente. Olhando distraidamente para o Alfredinho pensei que um homem, quando dá certo, dificilmente é algo mais do que a persistência de uma chatice em volta de um problema qualquer. Um homem ou uma mulher, que fique claro. O “xis” da questão é saber que problema é esse. Pode ser a revolução social. A dialética marxista. A militante comunista de outrora. Pode ser o Atlético Mineiro. Pode ser a Adidas. Pode ser a família. É o samba.

Pois é. No meu caso é o samba. Fico ao redor dele, tentando fazer sentido do resto, quem sabe dá certo…

Foi lá no Bip, há pouco mais de dois anos, que ouvi a música “A Ponte” do maravilhoso Elton Medeiros e senti algo estremecer aqui dentro do peito.

Published in: on 19/12/2011 at 02:15  Deixe um comentário  

por precisão

Há algum tempo viajo na idéia de tentar precisar o exato momento de uma mudança. O momento da transformação de um lugar estranho em algo familiar. Um lugar, uma perna de mulher, uma mesa, uma pinta. Um sorriso, a conquista de uma intimidade. Essa preocupação com a dialética estranho/familiar me surgiu pela primeira vez ainda menino,  devia ter meus 10 ou 11 anos, quando me mudei para a rua grão mogol, número 1150, em Belo Horizonte. Lembro de entrar no prédio e achar tudo aquilo esquisito. Os objetos todos ali, me levavam a trabalhar, a juntar, a costurar e fazer relações: o piso de mármore branco da entrada, a rampa de inclinação leve, o corrimão, as escadas, o grande vão, as janelas. Depois mais escadas. E lá em cima o apartamento. Grande e antigo, sem mobília. Como é triste um apartamento sem seus móveis. E passados algumas semanas aquilo foi o meu lar. Casa da minha família, lugar de travessuras, lugar de ser campeão do mundo em 94, lugar de morte do Senna, lugar de desejo e solidão. Espaço no qual vivi por cerca de 6 anos. Lugar de vontades, de jogos e peladas, que com o tempo tornam-se épicas. Principalmente as partidas das sextas-feiras ao fim da tarde.  Lugar de mais peladas nas noites quentes de verão, numa “quadra” ou o que quer que fosse comprida e fina, de piso completamente irregular. Lugar de se descobrir bom em alguma coisa na vida. Bom de bola. Tempos depois, as 6 da manhã, caminhando para pegar o ônibus em direção a faculdade, eu cantava feliz os versos de Edu Lobo: “Brasileiro tatupeba taturana bom de bola, ruim de grana, tabuada sei de cor”. Ser bom de bola, ou ter sido foi algo necessário para minha vida, e só hoje me dou conta disso. Talvez o passo necessário para levar a sério minhas vontades,  para fazer valer objetivamente meus anseios, como foi a solidão da adolescência que me fez valorizar tanto isso do amor. Antes dos 11 anos eu era um péssimo jogador, e posso dizer, sem medo que foi ali na Grão Mogol que as coisas mudaram. Devaneio. Volto ao ponto: foi nesse prédio que tive uma certa consciência explícita dessa mudança do estranho ao familiar.

Isso me voltou uns dias atrás quando passei na rua General Polidoro. Ali ando vivendo a experiência dupla, estranho-familiar e depois familiar-estranho, novamente. Do espaço estranho que vira familiar e que depois volta à desatenção saudável dos prédios pelos quais se passa. Ali, nessa rua, que tantas vezes passei, por alguns anos a caminho da faculdade e de casa, foi ali que morei durante um mês. O prédio situado à frente da banca que parava, nesse outro tempo, para ler notícias, que parava para ver e rir ou chorar com a manchete do Meia. Ali, morei durante um mês. Um mês lindo, lírico. Um mês de pausa e trabalho. Um mês no qual reconstruí um mundo, um tanto devastado. Um mês no qual fiz daquele espaço uma casa e também um ninho, o mais bonito. Com segurança posso dizer que apenas no primeiro dia estranhei o ambiente. No segundo já me familiarizei com suas maravilhosas e vivas moradoras, com suas as quinas e móveis. E agora, passo mais uma vez na porta dessa casa que agora volta, lentamente, a ser espaço de passagem. Lembro de chegar a janela e pensar como é bonito morar e ter uma janela de frente para a rua, e na primeiro noite perceber como também é barulhento isso. E aí descobrir o quanto sou sensível ao barulho. Ainda descobriremos coisas assim, óbvias, pela vida a fora.

O olhar cotidiano daqueles prédios, daquelas construções banais, o olhar bêbado, pela manhã, ou sóbrio pela madrugada, de dias sozinho ou acompanhado, adquiriu sentimentos agudos e lembranças. Foi um mundo que se forjou nesse mês. E esse mês segue transposto ao infinito. Dentro de dezenas de anos, envelhecido e mais chato, quando um garoto me disser que mora na rua General Polidoro, eu lhe direi com graça: “Garoto, eu já morei na rua General Polidoro, em Botafogo, próximo ao cemitério, né?”. Agora, esse estado de coisas retorna a um certo desconhecimento, a coisa blasé tão bem colocada por Simmel no seu clássico sobre a metrópole e a vida mental. Eu sigo, e volto a passar por lá, agora com desatenção e pressa.

Volto, passo na frente do prédio e apenas olho as manchetes do Meia.

Published in: on 30/09/2011 at 13:53  Comments (2)  

George, cru #1

“Enquanto passavam, um negro muito jovem e alto se virou e cruzou seu olhar com o meu. Mas o olhar que me deu não era de de forma alguma o tipo de olhar que se poderia esperar. Não hostil, não insolente, não taciturno, nem mesmo inquisitivo. Era o olhar negro tímido e arregalado que é, na verdade, um olhar de profundo respeito. Eu vi como era. Aquele infeliz, que é um cidadão francês e, portanto, foi arrancado da floresta para esfregar chãos e pegar sífilis numa praça forte, tem sentimentos de reverência perante uma pele branca. Ensinaram-lhe que os de raça branca são seus senhores e ele ainda acredita nisso.

Mas há um pensamento que todo homem branco (e nesse sentido, não importa nada se ele se diz socialista) tem quando vê um exército negro passando. ‘Por quanto tempo ainda poderemos continuar enganando essa gente? Por quanto tempo, até que eles virem suas armas na outra direção’?” (George Orwell, Marrakesh, Natal de 1939. Em “Como morrem os pobres e outros ensaios. p.366”)

Published in: on 03/08/2011 at 04:17  Deixe um comentário  

Pequeno diálogo meta-filosófico-político-solipsista

Ora, as vezes sinto-me um paradoxo caminhante.

Pois não é que descobri a primazia da ação a partir da contemplação. Percebi que  deveria fazer algo contra a injustiça do mundo a partir de textos e ensaios, literários e políticos. Foi ao ler coisas como “1984” e “Admirável Mundo Novo” e textos marxistas que me pus a pensar que é preciso agir sim, e não ficar apenas aí se deleitando com teorias e formulações “elegantes”.

Assim, descobri que era precisa agir lendo, ou seja, através da contemplação cheguei propriamente a ação.

– Ah é mesmo, senhor Rafael? E esse blog aí, como é que a gente fica com isso, hein? Me diga “sr. revolucionário”…

-Bem, é uma tentativa de elaborar…é… Quer dizer, um esboço, né.

-Por favor, não gagueje, você é patético. “Descobri a ação pela contemplação, bla bla bla”, puta que pariu…Me poupe desse papinho. Sai, me deixa em paz. Pelo amor de Deus que patético… ai…

-Bem, então desculpa aí qualquer coisa…

Published in: on 18/07/2011 at 15:29  Comments (1)