Caderno de viagem – o neurótico de férias

Minha tensão precisa se manter sempre em estado constante. Não consigo assim relaxar por completo, nunca.

Por exemplo, agora, enquanto viajo e a vida é só calmaria, belezas e exuberâncias, logo logo chegam meus meus sonhos para dar uma atormentadinha e manter meu nervosismo no seu estado natural. Hoje a noite sonhei 3 vezes que o despertador tocava e eu não acordava para o café da manhã do albergue. No sonho via nitidamente o meu relógio e às horas, e apesar de estar atrasado nunca levantava e daí o sonho se repetia. Além disso sonhei também com um filósofo que gosto muito, o Jacques Ranciere. No sonho ele não parava de falar e não deixava ninguém argumentar, autoritário, dizia que só ele sabia o que a igualdade era, de verdade.

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Published in: on 11/01/2012 at 13:05  Comments (4)  

Rubem Braga #1

Published in: on 17/11/2011 at 10:30  Deixe um comentário  

Medo de avião

(Esse texto, infelizmente vai soar muito Rubem Alves, mas não há o que fazer…)

Eu já tive medo de avião, hoje não tenho mais. O problema do avião é o mesmo problema do amor.

Logo quando o avião levanta do chão, o que a gente sempre acha que não vai ocorrer, saímos do mundo habitual, do nosso conforto ,  do  nosso cobertor quentinho. Esse mundo que conhecemos bem, no qual sabemos compreender palavras, sons, que um estímulo aqui significa aquilo lá. Isso não ocorre no avião, a gente não sabe como aquilo funciona e o que devemos fazer. Voar num avião é se submeter de forma completa e total ao desconhecido.

A sensação primeira é de impotência… e isso gera medo. Logo depois, se você assim quiser, verá com clareza e luminescência que essa impotência é a origem de uma grande tranquilidade. Caindo o avião, morre-se. Ponto. E você não precisa (nem pode) fazer nada.

Escrevo esse texto preparando-me para mais um vôo. Confesso que nunca achei que seria dessas pessoas que voam muito…sei lá, gosto muito de chão.

Um belo espécime de obssessivo que sou, venho, ao longo do tempo, tentando traçar as regras que me conduzem na vida e que me possibilitam saber o que é, o que foi e o que será. Essas coisas. No entanto, no avião… nada disso. Desisto.  Um exemplo bem simples disso é o seguinte: para nossos órgãos percepetivos, dois ou três minutos depois que o avião decola parece que ele está caindo. Isso porque nesse momento há uma desaceleração na subida, o avião que subia de forma mais acentuada diminui sua inclinação e achamos de fato que ele agora está deixando de subir, ou seja, caindo. Não, meu amigo, ele agora só sobe com uma inclinação menor.

A única coisa a fazer no avião é confiar.

É preciso pensar que o piloto gosta da vida, que é feliz. Que ele sabe para onde estamos indo. É preciso confiar nos pontos de origem e de destino, que essas cidades continuarão lá embaixo quando subimos e descemos. É preciso se submeter completamente a essa transcedência que é o amor, o avião.

Uma dica, para você que se desespera. Presta atenção nos comissários. Pois caso eles estejam com medo, aí sim, comece a se preocupar. Eles já conhecem o avião, o piloto, os estímulos…

Published in: on 13/11/2011 at 05:31  Deixe um comentário  

as canções #2

Acontece em qualquer lugar, muitas e muitas vezes.

Lembro-me, por exemplo, sentado sozinho num pub londrino ser completamente transportado para o calor do Rio ao ouvir aquelas coisas cariocas e tristes que o Moacyr Luz faz.

Quando começa a canção acima, nos primeiros acordes, no balançar do chocalho, vou logo parar em outro lugar. Outra casa, na qual durante um mês me vi sobre um chão. Casa que vivi na companhia amiga de mulheres sensíveis, bravas e fortes (como lhes convém). Essas meninas que encaram de forma leve as dores da vida, os vazios amorosos, as dificuldades financeiras. Me vejo sempre num quarto barulhento de botafogo com “carta de poeta”. Re-vivo as sensações estranhas que certa menina produzia em mim, ali, naquele momento. Quando nada sabia do quê viríamos a ser. Quando não tinha certeza, se ela que me dizia doce que viria me visitar, se viria mesmo. Veio…

É uma viagem, sem metáfora alguma. É só uma viagem para dentro da gente, de nossos sentimentos.

E viagem é aquela coisa, né?

Tem gente que gosta e tem gente que não.

Published in: on 05/11/2011 at 20:12  Deixe um comentário  

Onde os taxistas safados não tem vez!

Adão

Adão

Confesso que tinha uma impressão meio difusa e abstrata de Recife. Sabia que o Chico Science era de lá, da existência do Manguebeat, de uma história que tinha algo a ver com holandeses, do Joaquim Nabuco, mas tudo de forma bem desfigurada. Sabia também que ali havia uma forte pluralidade cultural que poderia sim mexer e trazer vida as coisas moribundas da arte. Coisa difícil entre nosotros que celebramos tão avidamente o usado e o abusado (Para quem duvida, vá a Lapa no Rio, onde parece que sempre se toca a mesma música). Confesso que sou destes que só gostam do passado gasto e que deu certo, Cartola, João Nogueira, Paulo Cesar Pinheiro, Chico Buarque. Gente que se não está morta, está velha e pouco tem feito de novo. Então também tenho que confessar que sempre que me volto para esse velho samba que tanto gosto e prezo, e que tem me mantido nessa vida há tanto tempo, sinto uma certa culpa de museólogo, aquele só se interessa por aquilo que está morto. Mesmo que vague entre nós. Em Recife ouvindo uma banda que não conhecia (Cascabulho)  que pelo que fiquei sabendo é bem famosa por lá, percebi que daquilo poderia sim nascer algo que não seja nem fungo e nem bolor. Um samba de fundo, um maracatu surgindo e riffs do mais sujo roquenrol. Enfim, minha impressão de Recife é a suspeita, talvez infundada, de que algo está ocorrendo ali, e não é de agora. Algo no sentido cultural, social e político. Não diria de forma alguma que a cidade é tudo de bom. Ainda que não tenha sofrido nem visto qualquer problema de violência na cidade, percebe-se pelo número de policiais nas ruas, mais do que por qualquer outro indicador, que se trata de uma cidade violenta.

Além da decantada diversidade cultural, que se mostra no fato de Pernambuco não ter nenhuma letra repetida, expressando assim a imensa criatividade e heterogeneidade do seu povo (algo que gostei muito…), duas outras coisas também me chamaram muita atenção. Primeiro é a importância da história para os recifenses. Foi a primeira vez que vi a história de um lugar tão apropriada pelas pessoas desse lugar. Todo taxista que pegamos tinha algo a dizer contra ou a favor de holandeses e da sua expulsão e por aí seguiam… E a segunda coisa que me chamou atenção é a simpatia e o algo mais dos taxistas que estavam sempre dispostos a dar uma volta conosco pelo Recife Antigo, mostrar, por exemplo, onde aquele perdeu o cabaço, ou ainda outro que nos deu a  anti-corporativa dica de não ficar por aí gastando dinheiro com taxi, e alugar sim um carro para passear com mais liberdade pelas belezas de Recife (!!!). Assim fica-se com uma certeza impossível para quem se habitua ao rio de que o taxista não está se preparando para te fuder.

Enfim, na bobagem dos taxistas se percebe um conjunto de elementos que fazem e constituem um povo.

Fiquei com a impressão que o Angel Duarte é de Recife…

Published in: on 26/08/2009 at 20:04  Comments (3)