América Latina #2

protesto_folha

(Vendo as imagens da violência policial contra os manifestantes em São Paulo, nos últimos dias, lembrei-me dessa passagem abaixo desse belo livro do Eduardo Galeano, sobre a historia da América Latina. Os donos do poder são sempre os mesmos, estão sempre atrelados ao grande capital e estão sempre perpetuando uma violência inimaginável)

1968

CIDADE DO MÉXICO

Os Estudantes

invadem as ruas. Manifestações assim, no México, jamais foram vistas, tão imensas e alegres, todos de braços dados, cantando e rindo. Os estudantes gritam contra o presidente Díaz Ordaz e seus ministros, múmias com bandagens  e tudo, e contra os demais usurpadores daquela revolução de Zapata e Pancho Villa.

Em Tlatelolco, praça que já foi matadouro de índios e conquistadores, acontece a cilada. O exército bloqueia todas as saídas com tanques e metraladoras. No curral, prontos para o sacrifício, os estudantes se apertam. Fecha a armadilha um muro contínuo de fuzis com baioneta calada.

Os focos luminosos, um verde, outro vermelho, dão o sinal.

Horas depois, uma mulher busca o filho. Os sapatos deixam pegadas de sangue no chão.

(299 e 347).

p.273

(O século do vento – Eduardo Galeano. Tradução Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM  Pocket)

_____

Published in: on 14/06/2013 at 11:15  Deixe um comentário  

Futebol e Política

“O político pode absorver sua energia dos mais variados campos humanos, do religioso, econômico, moral e de outras antíteses. Ele não descreve a sua própria substância, mas apenas a intensidade de uma associação ou dissociação dos seres humanos, cujos motivos podem ser religiosos, nacionais, econômicos ou de qualquer outro tipo e pode afetar em diferentes tempos, diferentes coalizações e separações”         

(Carl Schmitt)

“Minha política é o Flamengo!”

(Rubem Braga)

O torcedor do Galo chama o torcedor do Cruzeiro de “Maria”. O cruzeirense, por sua vez, refere-se, carinhosamente, ao atleticano como “cachorrada”. No Rio, o Flamengo é o time do povo, dos pobres e analfabetos, assim como o Corinthians, em São Paulo. Já os tricolores paulista e carioca representam a elite, a aristocracia branca.

O futebol se alimenta e retroalimenta preconceitos sociais. Atributos pessoais deste ou daquele jogador se espalham e passam a representar toda uma torcida. Os conflitos no futebol, dificilmente tratam de futebol, há sempre algo externo ao campo.

Há pouco mais de dois meses, no Egito, as torcidas presentes numa partida de futebol partiram para a luta corporal, após o fim do jogo. Muito se falou, neste caso, sobre a influência do clima político do país, o impacto das revoltas contra o governo e da “instabilidade política” sobre o comportamento dos torcedores. 73 pessoas morreram nos gramados.

Amo o futebol. Acho transcendente. O homem/mulher, a bola voando, a espera, o momento mágico de um drible, o gol. A possibilidade de criar diferença, de inventar. É clichê, mas o futebol é uma grande metáfora da vida. Amo muito mais o jogo em si, do que tenho prazer em torcer e ver o meu time ganhar. Futebol é o Zidane caminhando em campo, levando a bola. É isso o que me emociona. Mas sei que sou minoria, minha apreensão do jogo, ainda que movida pelo amor, é quase fria, um tanto distante, pois pouco me interesso pelo resultado, ainda que possa estar mentindo um pouco.

A maioria torce e sofre e comemora, só quer ver seu time ganhar e não importa como. Vão aos estádios, falam disso a semana inteira, entoam hinos a favor do seu time, xingam os adversários e provocam. Independente de time, classe, gênero, ou raça. Quantos já não perderam o emprego nas segundas feiras, nas quintas depois de desvarios futebolísticos. A famosa invasão corintiana em 76 ou mesmo a notícia de que 10 mil torcedores do Internacional foram para o Japão em 2010 para torcer no mundial interclubes, nos lembram do poderoso verso gremista:

“Até a pé nós iremos / para o que der e vier / mas o certo é que nós estaremos com o Grêmio onde o Grêmio estiver”

Para Carl Schmitt, jurista e pensador alemão, o caráter político de uma relação se dá pela instauração de uma relação do tipo amigo-inimigo. O político não tem a ver, a priori, com o estado ou o governo. A dimensão estética envolve o belo e o feio; a moral, o bem e o mal. Seria a intensidade do antagonismo numa relação coletiva o que qualificaria o político. Ele se dá pelo fortalecimento do caráter conflitivo numa relação tipo nós contra eles.

A rivalidade é marca tradicional do futebol. Os grandes clássicos e o clima épico que criam, sublinhados pela violência recorrente, que o digam. Podemos dizer, então, que a disputa entre Flamengo e Vasco é um fenômeno político? E para quê isso tudo? Talvez eu esteja exagerando, vai… O torcedor vai ao estádio entoar as canções de amor e louvor ao seu time querido, e muitos nunca chamam ninguém de “cachorro” ou de “maria”. Torcer é pura festa e magia, exaltação do sublime amor e não de ódio. O Marshall Sahlins me atacaria por outro lado e me diria, como um psicanalista de botequim, que é essa minha obssessão Nietzsche-foucaut-gramsciana que me faz ver política em tudo, lançando disparates por todo o lado. Não discordo dos argumentos. Não quero reduzir o futebol aos conflitos políticos/sociais, ainda me sinta tentado à tal empreitada. Mas não posso, como a maioria faz, deixar de pensar na tensão social implicada no futebol,  como se isso fosse algo natural, ou o resultado da sociopatia de uns poucos trogloditas que acabam com a festa da maioria que só quer “paz” nos estádios, sem entender as entranhas desse bagulho.

Considerar o futebol e a relação entre as torcidas a partir da noção de amigo-inimigo de Schmitt, ou seja, enquanto questão política coloca algumas questões. Penso em dois caminhos. Por um lado, acho essa postulação perigosa, por reduzir o fenômeno amplo do jogo e do amor ao time à essa dimensão antagônica/política. E aí, vejo que o Sahlins está certo. Por outro lado, essa consideração traz o futebol e sua relação de amor para a vida social de nosso país. Pois não se trata “simplesmente” de um jogo. Esse segundo ponto pode nos ajudar a entender a dinâmica de amor e paixão que envolve o brasileiro, considerando a centralidade constitutiva da peleja para nosotros. Dessa forma, importa menos o conflito esportivo em si, as brigas, a pancadaria e as mortes, e muito mais entender como essa paixão se explicita no ato de torcer, no falar disso, nos  discursos e significações. Ou seja, como torcer se articula com questões sociais, quaisquer que sejam, como o racismo ou a homofobia.

Tudo isso traria a discussão do amor, da paixão, do ódio dos torcedores, para fora das estapafúrdias mesas-redondas com seus jornalistas esportivos, quase sempre obtusos, para outros espaços de debate e formação de opinião.

Talvez paixão, luta e ódio andam sempre juntas. Talvez o filósofo aqui esteja querendo dominar as paixões no futebol, por não fazer parte disso. Talvez o romântico aqui queira que a potência da paixão futebolística alimente também nossos desejos socialistas. Que alimente nossa vontade de eliminar a desigualdade e a opressão, essa vontade cada vez mais acomodada no liberalismo tranquilo e feliz. Que a igualdade radical, que a liberdade fora das oscilações e determinações excludentes do senhor mercado também nos faça entoar hinos e canções de exaltação. Fora dos estádios.

Talvez.

Published in: on 08/04/2012 at 20:24  Deixe um comentário  

Isto é um assalto!

Já há algum tempo vinha pensando que nunca mais seria assaltado. Mesmo morando no rio, considerava cada vez mais  remota a possibilidade de ter uma grana extorquida por outro ser humano, ao atravessar uma rua ou ao sair de casa. E olha que eu já vinha, com tranquilidade, atravessando o túnel velho, na alta madrugada carioca.

No entanto, não é que há poucas horas, voltando de uma casa amiga na minha cidade natal, ouvi algo como “me passa o celular”, “isto é um assalto” ou “fica quieto e me passa a grana”. O sujeito chegou rápido, era menor do que eu, mas acabei levando a pior, talvez, pela surpresa do anúncio. Mesmo um tanto bebâdo nessa hora de aperto me sobreveio uma força primitiva de luta. Quando o agressor se aproximou de mim, e anunciou o ataque grudei em seu corpo e logo estávamos os dois no chão. Ainda na luta o empurrei para um pouco mais longe de mim. Nesse momento achei melhor correr aproveitando a distância momentânea. Dei um pique de vinte metros e logo olhei para trás. A primeira intenção era  saber se o assaltante vinha atrás ou não. A segunda era entender quais eram suas reações. Ao levantar vi que minha camisa tinha um rasgo considerável e que o assaltante, já distante estava próximo de uma caçamba repleta de pedras. Resolvi prosseguir no meu caminho, com o coração sobressaltado, mas ao mesmo tempo consciente de que estava seguro. Não sei porque diabos me lembrei nesse mesmo instante da frase do Walter Benjamin: “as citações, no meu trabalho, são como ladrões à beira da estrada, que irrompem armados e arrebatam o consciente do ocioso viajante”.  Bom, eu não tinha nenhuma citação no momento, apenas ladrões me irrompendo pela estrada e interrompendo um poético e ocioso viajante. Minha tranquilidade pequena burguesa ficou no caminho, assim como o rasgo da camisa. Há mais de quinze anos não era abordado ou assaltado, ou nada do gênero. Apesar de saber, sempre, que isso não significava absolutamente nada.

A vontade foi voltar logo depois e arrebentar a cara do sujeito. O que durou por volta de vinte minutos. Depois disso nada restou, no máximo a consciência de evitar andar pela avenida nossa senhora do carmo depois das duas da manhã, e também uma escoriação no cotovelo, mas que não chega mesmo a ser uma dor.

Published in: on 26/12/2011 at 06:31  Deixe um comentário  

A GRANDE MARCHA DOS VAGABUNDOS

“Em primeiro lugar o que é um vagabundo?

… Estas são as características que o distinguem: ele não tem dinheiro, veste-se com andrajos, caminha cerca de vinte quilômetros por dia e nunca dorme no mesmo lugar.

…Ele não tem emprego, lar ou família, nada de seu no mundo, exceto os farrapos que cobrem seu pobre corpo; vive às custas da comunidade…

O vagabundo não perambula para se divertir, ou porque herdou os instintos nômades de seus ancestrais; antes de mais nada, ele tenta não morrer de fome”.

Eric Blair, 1942 [George Orwell]

 

Sábado passado, ao lado de homens, mulheres, de jovens, idosos e crianças, fui às ruas protestar contra o estupro e outras formas de violência sexual contra mulheres. Para os boçais de plantão as mulheres, quando usam roupas curtas, estão na verdade convidando os homens para que estes as estuprem. É claro. E alguns ainda dirão: “Não é que a gente concorda com isso, mas é como o mundo é”. No sábado, mulheres de todas as idades em roupas de tamanhos e cores variadas, andavam gritando e cantando. Foi bonito de se ver, de participar, mas também triste, muito triste. É triste que o estupro possa ter atenuantes e justificativas, coisa que nos avisa que o mundo está acabando. A marcha das vagabundas, ou das vadias, é fundamental no enfrentamento da violência, ao colocar na rua esses corpos todos, suas formas e tempos. Corpos que deixam de ser corpos para dizer: “Somos mulheres!” Sim, sim aí está uma mulher. Pois, então que a violência infinita do estupro nunca mais ocorra.

Mas o mundo está acabando também porque, a cada dia, vemos menos manifestações contra a miséria, contra a pobreza, contra a opressão do capitalismo. Ah, esses que se vangloriam dizendo que estas palavras já estão gastas demais, que nada nos dizem nesse belo século XXI. E a dor da pobreza e da miséria, isso, para vocês aí, diz alguma coisa? Fiquei absurdamente chocado com o texto acima do grande George Orwell que não só lutou na Guerra Espanhola, mas também marchou cotidianamente ao lado dos vagabundos e mendigos ingleses. Fiquei a pensar numa grande MARCHA DOS VAGABUNDOS contra as práticas e ações moderno-fascistas que nos rodeiam. Essa visão que nega qualquer lugar a quem já não tem lugar. Ah, esses senhores que enchem o peito de orgulho com obras, tratores, casas devastadas, e pensam felizes que finalmente o “Brasil Grande” está chegando. Esse papo de progressos e avanços mil, sempre com responsabilidade social e ecológica, baseada na capacidade gestora de gente incapaz de entender que há coisas que não podem ser geridas. Há coisas que devem ser simplesmente aceitas, atenuadas, pensadas, mas que não podem ser resolvidas, sobretudo na base da caneta, do cassetete ou do trator.

Uma GRANDE MARCHA DOS VAGABUNDOS contra esses belos senhores que, sem nada compreender, pensam que tudo administram. Esses que falam de democracia e participação, mas logo-logo, complicando, chamam as ferramentas de trabalho de sempre. Os cães, a polícia, o ódio, o gás de pimenta. Sempre prontos a massacrar aqueles que não estão entendendo os rumos do novo tempo, ou para mais bem dizer, aqueles que simplesmente não concordam.

Há dois anos a prefeitura do Rio de Janeiro colocou grandes pedras embaixo de alguns viadutos da cidade. A visão era de uma superfície lunar e o seu intuito era impedir que moradores de rua ali dormissem. Semana passada, num jornal de Belo Horizonte, circulou as denúncias contra agentes da prefeitura que estariam roubando cobertores, caixas de papelão e pertences dos moradores de rua. Taí: O FIM DO MUNDO. Pois, vejamos: se essas pessoas já não são homens e mulheres, se são ratos ou coisas que o valha, então os tratemos como tais, não? Onde está a honestidade no belo mundo moderno? Não deveríamos então simplesmente exterminá-los de uma só vez? Ou será que conseguimos ver que esses maltrapilhos, mendigos e vagabundos não são simplesmente homens e mulheres, presos na perversidade de um sistema opressor que exclui muitos para garantir a liberdade, a vida, a riqueza a poucos, bem poucos. Os vagabundos são homens e mulheres, posto que têm sonhos, pensam, sentem desejos e frio. Sigam a seguinte sequência, por favor: Estamos no inverno. Em Belo Horizonte faz frio no inverno. À noite faz ainda mais frio. Os seres humanos sentem frio. Cobertores e caixas de papelão protegem contra o frio. É possível entender o encadeamento desses fatos? Eu entendo. Eles, os vagabundos, entendem e por isso se juntam, e por isso recorrem a cobertores e caixas de papelão.

E você, será que compreende?

E me diga, então, quem é o rato?

Published in: on 22/06/2011 at 19:39  Comments (3)